Jos Saramago

Ensaio sobre a cegueira

     
     
     
     Um homem subitamente deixa de ver, vtima de uma cegueira branca, que comea a se espalhar, causando caos na cidade. Mas ser que o caos foi causado pela cegueira? 
Ou o caos j existia, mas s "visto" com a chegada da cegueira?
     Neste livro, Saramago agua fortemente todos os nossos sentidos, implicando "a responsabilidade de ter olhos, quando os outros os perderam".
     Um ritmo alucinande de escrita que nos faz parar para pensar se respeitamos os valores mais bsicos da sociedade.
 preciso cegarem-se todos, para que enxerguemos a essencia de cada um?
     
     
     
     
     
     
Se podes olhar, v. Se podes ver, repara.
     
Livro dos Conselhos
     
     O disco amarelo iluminou-se. Dois dos automveis da frente aceleraram antes que o sinal vermelho aparecesse. Na passadeira de pees surgiu o desenho do homem 
verde. A gente que esperava comeou a atravessar a rua pisando as faixas brancas pintadas na capa negra do asfalto, no h nada que menos se parea com uma zebra, 
porm assim lhe chamam. Os automobilistas, impacientes, com o p no pedal da embraiagem, mantinham em tenso os carros, avanando, recuando, como cavalos nervosos 
que sentissem vir no ar a chibata. Os pees j acabaram de passar, mas o sinal de caminho livre para os carros vai tardar ainda alguns segundos, h quem sustente 
que esta demora, aparentemente to insignificante, se a multiplicarmos pelos milhares de semforos existentes na cidade e pelas mudanas sucessivas das trs cores 
de cada um,  uma das causas mais considerveis dos engorgitamentos da circulao automvel, ou engarrafamentos, se quisermos usar o termo corrente.
     
     O sinal verde acendeu-se enfim, bruscamente os carros arrancaram, mas logo se notou que no tinham arrancado todos por igual. O primeiro da fila do meio est 
parado, deve haver ali um problema mecnico qualquer, o acelerador solto, a alavanca da caixa de velocidades que se encravou, ou uma avaria do sistema hidrulico, 
blocagem dos traves, falha do circuito elctrico, se  que no se lhe acabou simplesmente a gasolina, no seria a primeira vez que se dava o caso. O novo ajuntamento 
de pees que est a formar-se nos passeios v o condutor do automvel imobilizado a esbracejar por trs do pra-brisas, enquanto os carros atrs dele buzinam frenticos. 
Alguns condutores j saltaram para a rua, dispostos a empurrar o automvel empanado para onde no fique a estorvar o transito, batem furiosamente nos vidros fechados, 
o homem que est l dentro vira a cabea para eles, a um lado, a outro, v-se que grita qualquer coisa, pelos movimentos da boca percebe-se que repete uma palavra, 
uma no, duas, assim  realmente, consoante se vai ficar a saber quando algum, enfim, conseguir abrir uma porta, Estou cego.
     
     Ningum o diria. Apreciados como neste momento  possvel, apenas de relance, os olhos do homem parecem sos, a ris apresenta-se ntida, luminosa, a esclertica 
branca, compacta como porcelana. As plpebras arregaladas, a pele crispada da cara, as sobrancelhas de repente revoltas, tudo isso, qualquer o pode verificar,  
que se descomps pela angstia. Num movimento rpido, o que estava  vista desapareceu atrs dos punhos fechados do homem, como se ele ainda quisesse reter no interior 
do crebro a ltima imagem recolhida, uma luz vermelha, redonda, num semforo. Estou cego, estou cego, repetia com desespero enquanto o ajudavam a sair do carro, 
e as lgrimas, rompendo, tornaram mais brilhantes os olhos que ele dizia estarem mortos. Isso passa, vai ver que isso passa, s vezes so nervos, disse uma mulher. 
O semforo j tinha mudado de cor, alguns transeuntes curiosos aproximavam-se do grupo, e os condutores l de trs, que no sabiam o que estava a acontecer, protestavam 
contra o que julgavam ser um acidente de transito vulgar, farol partido, guarda-lamas amolgado, nada que justificasse a confuso, Chamem a polcia, gritavam, tirem 
da essa lata. O cego implorava, Por favor, algum que me leve a casa. A mulher que falara de nervos foi de opinio que se devia chamar uma ambulncia, transportar 
o pobrezinho ao hospital, mas o cego disse que isso no, no queria tanto, s pedia que o encaminhassem at  porta do prdio onde morava, Fica aqui muito perto, 
seria um grande favor que me faziam. E o carro, perguntou uma voz. Outra voz respondeu, A chave est no stio, pe-se em cima do passeio. No  preciso, interveio 
uma terceira voz, eu tomo conta do carro e acompanho este senhor a casa. Ouviram-se murmrios de aprovao. O cego sentiu que o tomavam pelo brao, Venha, venha 
comigo, dizia-lhe a mesma voz. Ajudaram-no a sentar-se no lugar ao lado do condutor, puseram-lhe o cinto de segurana, No vejo, no vejo, murmurava entre o choro, 
Diga-me onde mora, pediu o outro. Pelas janelas do carro espreitavam caras vorazes, gulosas da novidade. O cego ergueu as mos diante dos olhos, moveu-as, Nada, 
 como se estivesse no meio de um nevoeiro,  como se tivesse cado num mar de
     
     Mas a cegueira no  assim, disse o outro, a cegueira dizem que  negra, Pois eu vejo tudo branco, Se calhar a mulherzinha tinha razo, pode ser coisa de nervos, 
os nervos so o diabo, Eu bem sei o que , uma desgraa, sim, uma desgraa, Diga-me onde mora, por favor, ao mesmo tempo ouviu-se o arranque do motor. Balbuciando, 
como se a falta de viso lhe tivesse enfraquecido a memria, o cego deu uma direco, depois disse, No sei como lhe hei-de agradecer, e o outro respondeu, Ora, 
no tem importncia, hoje por si, amanh por mim, no sabemos para o que estamos guardados, Tem razo, quem me diria, quando sa de casa esta manh, que estava para 
me acontecer uma fatalidade como esta. Estranhou que continuassem parados, por que  que no andamos, perguntou, O sinal est no vermelho, respondeu o outro, Ah, 
fez o cego, e ps-se a chorar outra vez. A partir de agora deixara de poder saber quando o sinal estava vermelho.
     
     Tal como o cego havia dito, a casa ficava perto. Mas os passeios estavam todos ocupados por automveis, no encontraram espao para arrumar o carro, por isso 
foram obrigados a ir procurar stio numa das ruas transversais. Ali, como por causa da estreiteza do passeio a porta do assento ao lado do condutor ia ficar a pouco 
mais de um palmo da parede. O cego, para no passar pela angstia de arrastar-se de um assento ao outro, com a alavanca da caixa de velocidades e o volante a atrapalh-lo, 
teve de sair primeiro. Desamparado, no meio da rua, sentindo que o cho lhe fugia debaixo dos ps, tentou conter a aflio que lhe subia pela garganta. Agitava as 
mos  frente da cara, nervosamente, como se nadasse naquilo a que chamara um mar de leite, mas a boca j se lhe abria para lanar um grito de socorro, foi no ltimo 
momento que a mo do outro lhe tocou de leve no brao, Acalme-se, eu levo-o. Foram andando muito devagar, com o medo de cair o cego arrastava os ps, mas isso fazia-o 
tropear nas irregularidades da calada, Tenha pacincia, j estamos quase a chegar, murmurava o outro, e um pouco mais adiante perguntou, Est algum em sua casa 
que possa tomar conta de si, e o cego respondeu, No sei, a minha mulher ainda no deve ter vindo do trabalho, eu hoje  que calhei sair mais cedo, e logo me sucede 
isto, Ver que no vai ser nada, nunca ouvi dizer que algum tivesse ficado cego assim de repente, Que eu at me gabava de no usar culos, nunca precisei, Ento, 
j v. Tinham chegado  porta do prdio, duas mulheres da vizinhana olharam curiosas a cena, vai ali aquele vizinho levado pelo brao, mas nenhuma delas teve a 
ideia de perguntar, Entrou-lhe alguma coisa para os olhos, no lhes ocorreu, e to-pouco ele lhes poderia responder, Sim, entrou-me um mar de leite. J dentro do 
prdio, o cego disse, Muito obrigado, desculpe o transtorno que lhe causei, agora eu c me arranjo, Ora essa, eu subo consigo, no ficaria descansado se o deixasse 
aqui. Entraram dificilmente no elevador apertado, Em que andar mora, No terceiro, no imagina quanto lhe estou agradecido, No me agradea, hoje por si, Sim, tem 
razo, amanh por si. O elevador parou, saram para o patamar, Quer que o ajude a abrir a porta, Obrigado, isso eu acho que posso fazer. Tirou do bolso um pequeno 
molho de chaves, tacteou-as, uma por uma, ao longo do denteado, disse, Esta deve de ser e, apalpando a fechadura com as pontas dos dedos da mo esquerda, tentou 
abrir a porta, No  esta, Deixe-me c ver, eu ajudo-o. A porta abriu-se  terceira tentativa. Ento o cego perguntou para dentro, Ests a. Ningum respondeu, e 
ele, Era o que eu dizia, ainda no veio. Levando as mos adiante, s apalpadelas, passou para o corredor, depois voltou-se cautelosamente, orientando a cara na direco 
em que calculava encontrar-se o outro, Como poderei agradecer-lhe, disse, no fiz mais que o meu dever, justificou o bom samaritano, no me agradea, e acrescentou, 
Quer que o ajude a instalar-se, que lhe faa companhia enquanto a sua mulher no chega. O zelo pareceu de repente suspeito ao cego, evidentemente no iria deixar 
entrar em casa uma pessoa desconhecida que, no fim de contas, bem poderia estar a tramar, naquele preciso momento, como haveria de reduzir, atar e amordaar o infeliz 
cego sem defesa, para depois deitar a mo ao que encontrasse de valor. No  preciso, no se incomode, disse, eu fico bem, e repetiu enquanto ia fechando a porta 
lentamente, No  preciso, no  preciso.
     
     Suspirou de alvio ao ouvir o rudo do elevador descendo. Num gesto maquinal, sem se lembrar do estado em que se encontrava, afastou a tampa do ralo da porta 
e espreitou para fora. Era como se houvesse um muro branco do outro lado. Sentia o contacto do aro metlico na arcada supraciliar, roava com as pestanas a minscula 
lente, mas no os podia ver, a insondvel brancura cobria tudo. Sabia que estava na sua casa, reconhecia-a pelo odor, pela atmosfera, pelo silncio, distinguia os 
mveis e os objectos s de tocar-lhes, passar-lhes os dedos por cima, ao de leve, mas era tambm como se tudo isto estivesse j a diluir-se numa espcie de estranha 
dimenso, sem direces nem referncias, sem norte nem sul, sem baixo nem alto. Como toda a gente provavelmente o fez, jogara algumas vezes consigo mesmo, na adolescncia, 
ao jogo do E se eu fosse cego, e chegara  concluso, ao cabo de cinco minutos com os olhos fechados, de que a cegueira, sem dvida alguma uma terrvel desgraa, 
poderia, ainda assim, ser relativamente suportvel se a vtima de tal infelicidade tivesse conservado uma lembrana suficiente, no s das cores, mas tambm das 
formas e dos planos, das superfcies e dos contornos, supondo, claro est, que a dita cegueira no fosse de nascena. Chegara mesmo ao ponto de pensar que a escurido 
em que os cegos viviam no era, afinal, seno a simples ausncia da luz, que o que chamamos cegueira era algo que se limitava a cobrir a aparncia dos seres e das 
coisas, deixando-os intactos por trs do seu vu negro. Agora, pelo contrrio, ei-lo que se encontrava mergulhado numa brancura to luminosa, to total, que devorava, 
mais do que absorvia, no s as cores, mas as prprias coisas e seres, tornando-os, por essa maneira, duplamente invisveis.
     
     Ao mover-se em direco  sala de estar, e apesar da prudente lentido com que avanava, deslizando a mo hesitante ao longo da parede, fez cair ao cho uma 
jarra de flores de que no estava  espera. Tinha-se esquecido dela, ou ento fora a mulher que a deixara ali quando saiu para o emprego, com a inteno de coloc-la 
depois em lugar adequado. Baixou-se para avaliar a gravidade do desastre. A gua espalhara-se pelo cho encerado. Quis recolher as flores, mas no pensou nos vidros 
partidos, uma lasca longa, finssima, espetou-se-lhe num dedo, e ele tornou a lacrimejar de dor, de abandono, como uma criana, cego de brancura no meio duma casa 
que, com o declinar da tarde, j comeava a escurecer. Sem largar as flores, sentindo o sangue a escorrer, torceu-se todo para tirar o leno do bolso e, como pde, 
envolveu o dedo. Depois, apalpando, tropeando, contornando os mveis, pisando cautelosamente para no enfiar os ps nos tapetes, alcanou o sof onde ele e a mulher 
viam a televiso. Sentou-se, ps as flores em cima das pernas, e, com muito cuidado, desenrolou o leno. O sangue, pegajoso ao tacto, perturbou-o, pensou que devia 
ser porque no podia v-lo, o seu sangue tornara-se numa viscosidade sem cor, em algo de certo modo alheio que apesar disso lhe pertencia, mas como uma ameaa de 
si contra si mesmo. Devagarinho, apalpando levemente com a mo boa, procurou a delgada esqurola de vidro, aguda como uma espada minscula, e, fazendo pina com 
as unhas do polegar e do indicador, conseguiu extra-la inteira. Tornou a envolver no leno o dedo maltratado, com fora para estancar o sangue e, rendido, exausto, 
reclinou-se no sof. Um minuto mais tarde, por uma dessas no raras desistncias do corpo, que escolhe, para renunciar, certos momentos de angstia ou de desespero, 
quando, se por a exclusiva lgica se governasse, todos os seus nervos deveriam estar despertos e tensos, entrou-lhe um espcie de quebranto, mais sonolncia do que 
sono autntico, mas to pesada como ele. Imediatamente sonhou que estava a jogar o jogo do E se eu fosse cego, sonhava que fechava e abria os olhos muitas vezes, 
e que, de cada vez, como se estivesse a regressar de uma viagem, encontrava  sua espera, firmes e inalteradas, todas as formas e cores, o mundo como o conhecia. 
Por debaixo desta certeza tranquilizadora percebia, contudo, o remoer surdo de uma dvida, talvez se tratasse de um sonho enganador, um sonho de que teria de acordar 
mais cedo ou mais tarde, sem saber, nesse momento, que realidade estaria  sua espera. Depois, se tal palavra tem algum sentido aplicada a um quebrantamento que 
no durou mais que uns instantes, e j naquele estado de meia viglia que vai preparando o despertar, considerou seriamente que no estava bem manter-se numa tal 
indeciso, acordo, no acordo, acordo, no acordo, sempre chega uma altura em que no h outro remdio que arriscar, Eu que fao aqui, com estas flores em cima das 
pernas e os olhos fechados, que parece que estou com medo de os abrir, Que fazes tu a, a dormir, com essas flores em cima das pernas, perguntava-lhe a mulher.
     
     No esperara pela resposta. Ostensivamente, pusera-se a recolher os restos da jarra e a enxugar o soalho, enquanto ia resmungando, com uma irritao que no 
procurava dissimular, Bem o poderias ter feito tu, em lugar de te deitares para a a dormir, como se no fosse nada contigo. Ele no falou, protegia os olhos por 
trs das plpebras apertadas, subitamente agitado por um pensamento, E se eu abro os olhos e vejo, perguntava-se, tomado por uma ansiosa esperana. A mulher aproximou-se, 
reparou no leno manchado de sangue, o seu agastamento apagou-se num instante, Pobrezinho, como foi que te aconteceu isto, perguntava compadecida, enquanto desfazia 
a improvisada atadura. Ento ele. com todas as suas foras, desejou ver a mulher ajoelhada aos seus ps, ali, como sabia que estava, e depois. j certo de que a 
no veria, abriu os olhos, At que enfim que acordaste, meu dorminhoco, disse ela, sorrindo. Fez-se um silncio e ele disse, Estou cego, no te vejo. A mulher ralhou, 
Deixa-te de brincadeiras estpidas, h coisas com que no devemos brincar, Quem me dera que fosse uma brincadeira, a verdade  que estou mesmo cego. No vejo nada, 
Por favor, no me assustes, olha para mim, aqui, estou aqui, a luz est acesa, Sei que a ests, ouo-te, toco-te, calculo que tenhas acendido a luz, mas eu estou 
cego. Ela comeou a chorar, agarrou-se a ele, No  verdade, dize-me que no  verdade. As flores tinham escorregado para o cho, sobre o leno manchado, o sangue 
recomeara a pingar do dedo ferido, e ele, como se por outras palavras quisesse dizer do mal o menos, murmurou, Vejo tudo branco, e logo deixou aparecer um sorriso 
triste. A mulher sentou-se ao lado dele, abraou-o muito, beijou-o com cuidado na testa, na cara, suavemente nos olhos, Vers que isso passa, tu no estavas doente, 
ningum fica cego assim, de um momento para outro, talvez, Conta-me como foi, o que sentiste, quando, onde, no, ainda no, espera, a primeira coisa que temos de 
fazer  falar com um mdico dos olhos, conheces algum, No conheo, nem tu nem eu usamos culos, E se te levasse ao hospital, Para olhos que no vem, no deve haver 
servios de urgncia, tens razo, o melhor  irmos directamente a um mdico, vou procurar na lista dos telefones, um que tenha consultrio perto daqui.
     Levantou-se, ainda perguntou, Notas alguma diferena, nenhuma, disse ele, Ateno, vou apagar a luz, j me dirs, agora, Nada, Nada, qu, Nada, vejo sempre 
o mesmo branco, para mim  como se no houvesse noite.
     
     Ele ouvia a mulher passar rapidamente as folhas da lista telefnica, fungando para segurar as lgrimas, suspirando, dizendo enfim, Este deve servir, oxal nos 
possa atender. Marcou um nmero, perguntou se era do consultrio, se o senhor doutor estava, se podia falar com ele, no, no, o senhor doutor no me conhece,  
por causa de um caso muito urgente, sim, por favor, compreendo, ento digo-lho a si, mas peo-lhe que transmita ao senhor doutor,  que o meu marido ficou cego de 
repente, sim, sim, como lhe estou a dizer, de repente, no, no  doente do senhor doutor, o meu marido no usa culos, nunca usou, sim, tinha uma ptima vista, 
como eu, eu tambm vejo bem, ah, muito obrigada, eu espero, eu espero, sim, senhor doutor, sim, de repente, diz que v tudo branco, no sei como foi, nem tive tempo 
de lhe perguntar, acabo de chegar a casa e encontrei-o neste estado, quer que lhe pergunte, ah, quanto lhe agradeo, senhor doutor, vamos imediatamente, imediatamente. 
O cego levantou-se, Espera, disse a mulher, deixa-me curar primeiro esse dedo, desapareceu por uns momentos, voltou com um frasco de gua oxigenada, outro de mercurocromo, 
algodo, uma caixinha de pensos rpidos. Enquanto o tratava perguntou-lhe, Onde foi que deixaste o carro, e subitamente, Mas tu, assim como ests, no podias conduzir, 
ou j estavas em casa quando, No, foi na rua, quando estava parado num sinal vermelho, uma pessoa fez o favor de me trazer, o carro ficou a na rua ao lado, Bom, 
ento descemos, esperas  porta que eu o vou buscar, onde foi que puseste as chaves, No sei, ele no mas devolveu, Ele, quem, O homem que me trouxe a casa, foi 
um homem, T-las- largado por a, vou ver, No vale a pena procurares, ele no entrou, Mas as chaves tm de estar em algum stio, O mais certo foi ter-se ele esquecido, 
levou-as sem se dar conta, Era mesmo isto o que nos faltava, Usa as tuas, depois logo se v, Bem, vamos, d-me c a mo. O cego disse, Se vou ter de ficar assim, 
acabo com a vida, Por favor, no digas disparates, para infelicidade j basta o que nos sucedeu, Eu  que estou cego, no tu, tu no podes saber o que me sucedeu, 
O mdico vai pr-te bom, vers, Verei.
     
     Saram. Em baixo, no vestbulo da escada, a mulher acendeu a luz e sussurrou-lhe ao ouvido, Espera-me aqui, se algum vizinho aparecer fala-lhe com naturalidade, 
diz que ests  minha espera, olhando para ti ningum pensar que no vs, escusamos de estar j a dar notcia da nossa vida, Sim, mas no te demores. A mulher saiu 
a correr. Nenhum vizinho entrou ou saiu. Por experincia, o cego sabia que a escada s estaria iluminada enquanto se ouvisse o mecanismo do contador automtico, 
por isso ia premindo o disparador de cada vez que se fazia silncio. A luz, esta luz, para ele, tornara-se em rudo. No entendia por que se demorava a mulher tanto, 
a rua era ali ao lado, uns oitenta, cem metros, Se nos atrasamos muito, o mdico vai-se embora, pensou. No pde evitar um gesto maquinal, levantar o punho esquerdo 
e baixar os olhos para ver as horas. Apertou os lbios como se o tivesse traspassado uma sbita dor, e agradeceu  sorte no ter aparecido naquele momento um vizinho, 
pois ali mesmo,  primeira palavra que ele lhe dirigisse, se teria desfeito em lgrimas. Um carro parou na rua, At que enfim, pensou, mas acto contnuo estranhou 
o barulho do motor, Isto  diesel, isto  um txi, disse, e carregou uma vez mais no boto da luz. A mulher vinha a entrar, nervosa, transtornada, O santinho do 
teu protector, a boa alma, levou-nos o carro, No pode ser. no deves ter visto bem, Claro que vi bem, eu vejo bem, as ltimas palavras saram-lhe sem ela querer, 
Tinhas-me dito que o carro estava na rua ao lado, emendou, e no est, ou ento deixaram-no noutra rua, No, no, foi nessa, tenho a certeza, Pois ento levou sumio, 
Nesse caso, as chaves, Aproveitou-se da tua desorientao, da aflio em que estavas, e roubou-nos, E eu que nem o quis deixar entrar em casa, por medo, se tivesse 
ficado a fazer-me companhia at tu chegares, no poderia ter roubado o carro, Vamos, temos o txi  espera, juro-te que era capaz de dar um ano de vida para que 
esse malandro cegasse tambm, No fales to alto, E lhe roubassem tudo quanto tenha, Pode ser que aparea, Ah, pois, amanh bate-nos a  porta a dizer que foi uma 
distraco, a pedir desculpa, e a saber se ests melhorzinho.
     
     Mantiveram-se calados at ao consultrio do mdico. Ela procurava afastar do pensamento o roubo do carro, apertava carinhosamente as mos do marido entre as 
suas, enquanto ele, com a cabea baixa para que o motorista no pudesse ver-lhe os olhos pelo retrovisor, no parava de perguntar-se como era possvel que to grande 
desgraa lhe estivesse a acontecer a ele, A mim, porqu. Aos ouvidos chegavam-lhe os rudos do transito, uma ou outra voz mais alta quando o txi parava, tambm 
s vezes sucede, ainda dormimos e j os sons exteriores vo repassando o vu da inconscincia em que ainda estamos envolvidos, como num lenol branco. Como num lenol 
branco. Abanou a cabea suspirando, a mulher tocou-lhe ao de leve na face, maneira de dizer Sossega, estou aqui, e ele deixou pender a cabea para o ombro dela, 
sem se importar com o que pensaria o motorista, Estivesses tu como eu, e no poderias ir a a guiar, pensou infantilmente, e, sem reparar no absurdo do enunciado, 
congratulou-se por, em meio do seu desespero, ter sido ainda capaz de formular um raciocnio lgico. Ao sair do txi, auxiliado discretamente pela mulher, parecia 
calmo, mas,  entrada do consultrio, onde iria conhecer a sua sorte, perguntou-lhe num murmrio que tremia, Como estarei eu quando sair daqui, e abanou a cabea 
como quem j nada espera.
     
     A mulher informou a empregada da recepo de que era a pessoa que h meia hora tinha telefonado por causa do marido, e ela f-los passar a uma pequena sala 
onde outros doentes esperavam. Havia um velho com uma venda preta num dos olhos, um rapazinho que parecia estrbico acompanhado por uma mulher que devia de ser a 
me, uma rapariga nova de culos escuros, duas outras pessoas sem sinais particulares  vista, mas nenhum cego, os cegos no vo ao oftalmologista. A mulher guiou 
o marido para uma cadeira livre, e, por no sobrar outro assento, ficou de p ao lado dele, Vamos ter de esperar, murmurou-lhe ao ouvido. Ele percebeu porqu, ouvira 
vozes dos que ali se encontravam, agora afligia-o uma preocupao diferente, pensava que quanto mais o mdico tardasse a examin-lo, mais profunda a cegueira se 
tornaria, e portanto incurvel, sem remdio.
     
     Mexeu-se na cadeira, inquieto, ia comunicar as suas apreenses  mulher, mas nesse momento a porta abriu-se e a em pregada disse, Os senhores, por favor, passem, 
e dirigindo-se aos outros doentes, Foi ordem do senhor doutor, o caso deste senhor  urgente. A me do rapaz estrbico protestou que o direito  o direito, e que 
ela estava em primeiro lugar, e  espera h mais de uma hora. Os outros doentes apoiaram-na em voz baixa, mas nenhum deles, nem ela prpria, acharam prudente insistir 
na reclamao, no fosse o mdico ficar ressentido e depois pagar-se da impertinncia fazendo-os esperar ainda mais, tem-se visto. O velho do olho vendado foi magnnimo, 
Deixem-no l, coitado, aquele vai bem pior do que qualquer de ns. O cego no o ouviu, j iam a entrar no gabinete do mdico, e a mulher dizia, Muito obrigada pela 
sua bondade, senhor doutor,  que o meu marido, e tendo dito interrompeu-se, em verdade ela no sabia o que realmente sucedera, sabia apenas que o marido estava 
cego e lhes tinham roubado o carro. O mdico disse, Sentem-se, por favor, ele prprio foi ajudar o paciente a acomodar-se, e depois, tocando-lhe na mo, falou directamente 
para ele, Conte-me l ento o que se passa consigo. O cego explicou que estando dentro do carro,  espera de que o sinal vermelho mudasse, tinha ficado subitamente 
sem ver, que umas pessoas acudiram a ajud-lo, que uma mulher de idade, pela voz devia ser. dissera que aquilo se calhar eram nervos, e que depois um homem o acompanhara 
a casa porque ele sozinho no podia valer-se, Vejo tudo branco, senhor doutor. No falou do roubo do automvel.
     
     O mdico perguntou-lhe, Nunca lhe tinha acontecido antes, quero dizer, o mesmo de agora, ou parecido, Nunca, senhor doutor, eu nem sequer uso culos, E diz-me 
que foi de repente, Sim, senhor doutor, Como uma luz que se apaga, Mais como uma luz que se acende, Nestes ltimos dias tinha sentido alguma diferena na vista, 
No, senhor doutor, H, ou houve, algum caso de cegueira na sua famlia, Nos parentes que conheci ou de quem ouvi falar, nenhum, Sofre de diabetes, No, senhor doutor, 
De sfilis, No, senhor doutor, De hipertenso arterial ou intracraniana, Da intracraniana no sei, do mais sei que no sofro, l na empresa fazem-nos inspeces, 
Deu alguma pancada violenta na cabea, hoje ou ontem, No, senhor doutor, Quantos anos tem, Trinta e oito. Bom, vamos l ento observar esses olhos. O cego abriu-os 
muito, como para facilitar o exame, mas o mdico tomou-o por um brao e foi instal-lo por trs de um aparelho que algum com imaginao poder ver como um novo 
modelo de confessionrio, em que os olhos tivessem substitudo as palavras, com o confessor a olhar directamente para dentro da alma do pecador, Apoie aqui o queixo, 
recomendou, mantenha os olhos abertos, no se mexa. A mulher aproximou-se do marido, ps-lhe a mo no ombro, disse, Vers como tudo se ir resolver. O mdico subiu 
e baixou o sistema binocular do seu lado, fez girar parafusos de passo finssimo, e principiou o exame. No encontrou nada na crnea, nada na esclertica, nada na 
ris, nada na retina, nada no cristalino, nada na mcula ltea, nada no nervo ptico, nada em parte alguma. Afastou-se do aparelho, esfregou os olhos, depois recomeou 
o exame desde o princpio, sem falar, e quando outra vez terminou tinha na cara uma expresso perplexa, No lhe encontro qualquer leso, os seus olhos esto perfeitos. 
A mulher juntou as mos num gesto de alegria e exclamou, Eu bem te tinha dito, eu bem te tinha dito, tudo se ia resolver. Sem lhe dar ateno, o cego perguntou, 
J posso tirar o queixo, senhor doutor, Claro que sim, desculpe, Se os meus olhos esto perfeitos, como diz, ento por que estou eu cego, Por enquanto no lhe sei 
dizer, vamos ter de fazer exames mais minuciosos, anlises, ecografia, encefalograma, Acha que tem alguma coisa a ver com o crebro,  uma possibilidade, mas no 
creio, No entanto o senhor doutor diz que no encontra nada de mau nos meus olhos, Assim , No percebo, O que quero dizer  que se o senhor est de facto cego, 
a sua cegueira, neste momento,  inexplicvel, Duvida que eu esteja cego, Que ideia, o problema est na raridade do caso, pessoalmente, em toda a minha vida de mdico, 
nunca me apareceu nada assim, e atrevo-me mesmo a dizer que em toda a histria da oftalmologia, Acha que tenho cura, Em princpio, porque no lhe encontro leses 
de qualquer tipo nem malformaes congnitas, a minha resposta deveria ser afirmativa, Mas pelos vistos no o , S por cautela, s porque no quero dar-lhe esperanas 
que depois venham a mostrar-se sem fundamento, Compreendo, Pois , E deverei seguir algum tratamento, tomar algum remdio, Por enquanto no lhe receitarei nada, 
seria estar a receitar s cegas, A est uma expresso apropriada, observou o cego. O mdico fez que no ouvira, afastou-se do banco giratrio em que se tinha sentado 
para a observao, e, mesmo de p, escreveu numa folha de receita os exames e anlises que considerava necessrios. Entregou o papel  mulher, Aqui tem, minha senhora, 
volte c com o seu marido quando tiver os resultados, se entretanto houver alguma modificao no estado dele, telefone-me, A consulta, senhor doutor, Paga  empregada 
da recepo. Acompanhou-os  porta, balbuciou uma frase de confiana, do gnero Vamos a ver, vamos a ver,  preciso no desesperar, e quando se encontrou de novo 
s entrou no pequeno quarto de banho anexo e ficou a olhar-se no espelho durante um longo minuto, Que ser isto, murmurou. Depois regressou ao gabinete, chamou a 
empregada, Mande entrar o seguinte.
     
     Nessa noite o cego sonhou que estava cego.
     
     Ao oferecer-se para ajudar o cego, o homem que depois roubou o carro no tinha em mira, nesse momento preciso, qualquer inteno malvola, muito pelo contrrio, 
o que ele fez no foi mais que obedecer queles sentimentos de generosidade e altrusmo que so, como toda a gente sabe, duas das melhores caractersticas do gnero 
humano, podendo ser encontradas at em criminosos bem mais empedernidos do que este, simples ladrozeco de automveis sem esperana de avano na carreira, explorado 
pelos verdadeiros donos do negcio, que esses  que se vo aproveitando das necessidades de quem  pobre. No fim das contas, estas ou as outras, no  assim to 
grande a diferena entre ajudar um cego para depois o roubar e cuidar de uma velhice caduca e tatebitate com o olho posto na herana. Foi s quando j estava perto 
da casa do cego que a ideia se lhe apresentou com toda a naturalidade, exactamente, assim se pode dizer, como se tivesse decidido comprar um bilhete de lotaria s 
por ter visto o cauteleiro, no teve nenhum palpite, comprou a ver o que dali sala, conformado de antemo com o que a volvel fortuna lhe trouxesse, algo ou coisa 
nenhuma, outros diriam que agiu segundo um reflexo condicionado da sua personalidade. Os cpticos acerca da natureza humana, que so muitos e teimosos, vm sustentando 
que se  certo que a ocasio nem sempre faz o ladro, tambm  certo que o ajuda muito. Quanto a ns, permitir-nos-emos pensar que se o cego tivesse aceitado o segundo 
oferecimento do afinal falso samaritano, naquele derradeiro instante em que a bondade nada poderia ter prevalecido referimo-nos o oferecimento de lhe ficar a fazer 
companhia enquanto a mulher no chegasse quem sabe se o efeito da responsabilidade moral resultante da confiana assim outorgada no teria inibido a tentao criminosa 
e feito vir ao de cima o que de luminoso e nobre sempre ser possvel encontrar mesmo nas almas mais perdidas. Plebeiamente concluindo como no se cansa de ensinar-nos 
o provrbio antigo, o cego, julgando que se benzia, partiu o nariz.
     
     A conscincia moral, que tantos insensatos tm ofendido e muitos mais renegado,  coisa que existe e existiu sempre, no foi uma inveno dos filsofos do Quaternrio, 
quando a alma mal passava ainda de um projecto confuso. Com o andar dos tempos, mais as actividades da convivncia e as trocas genticas, acabmos por meter a conscincia 
na cor do sangue e no sal das lgrimas, e, como se tanto fosse pouco, fizemos dos olhos uma espcie de espelhos virados para dentro, com o resultado, muitas vezes, 
de mostrarem eles sem reserva o que estvamos tratando de negar com a boca. Acresce a isto, que  geral, a circunstancia particular de que, em espritos simples, 
o remorso causado por um mal feito se confunde frequentemente com medos ancestrais de todo o tipo, donde resulta que o castigo do prevaricador acaba por ser. sem 
pau nem pedra, duas vezes o merecido. No ser possvel, portanto, neste caso, deslindar que parte dos medos e que parte da conscincia afligida comearam a apoquentar 
o ladro assim que ps o carro em marcha. Sem dvida nunca poderia ser tranquilizador ir sentado no lugar de algum que segurava com as mos este mesmo volante no 
momento em que cegou, que olhou atravs deste pra-brisas e de repente ficou sem ver, no  preciso ser-se dotado de muita imaginao para que tais pensamentos faam 
acordar a imunda e rastejante besta do pavor, a est ela j a levantar a cabea. Mas era tambm o remorso, expresso agravada duma conscincia, como antes foi dito, 
ou, se quisermos descrev-lo em termos sugestivos, uma conscincia com dentes para morder, que estava a pr-lhe diante dos olhos a imagem desamparada do cego quando 
fechava a porta, No  preciso, no  preciso, dissera o coitado, e da para o futuro no seria capaz de dar um passo sem ajuda.
     
     O ladro redobrou de ateno ao transito para impedir que pensamentos to assustadores lhe ocupassem por inteiro o esprito, sabia bem que no podia permitir-se 
o mais pequeno erro, a mais pequena distraco. A polcia andava por ali, bastava que algum deles o mandasse parar, Faa favor, a carta e o livrete, outra vez a 
cadeia, a dureza da vida. Usava de todo o cuidado em obedecer aos semforos, em caso algum avanar com o vermelho, respeitar o amarelo, esperar com pacincia que 
saia o verde. A certa altura apercebeu-se de que tinha comeado a olhar as luzes de um modo que se estava a tornar obsessivo. Passou ento a regular a velocidade 
do carro de maneira a ter sempre por diante um sinal verde, mesmo que para o conseguir tivesse de aumentar a velocidade ou, pelo contrrio, reduzi-la ao ponto de 
irritar os condutores que vinham de trs. Por fim, desorientado, tenso a mais no poder, acabou por enfiar o carro por uma rua transversal secundria onde sabia 
no haver semforos, e arrumou-o quase sem olhar, que l bom condutor era ele. Sentia-se  beira de um ataque de nervos, por estas exactas palavras o havia pensado, 
Estou aqui estou a ter um ataque de nervos. Abafava-se dentro do automvel. Desceu os vidros dos dois lados, mas o ar de fora, se se movia, no refrescou a atmosfera 
interior. Que fao, perguntou. O barraco aonde deveria levar o carro ficava longe, numa povoao fora da cidade, com o estado de esprito em que se encontrava nunca 
conseguiria l chegar, Apanha-me a um polcia, ou tenho um desastre, e ainda  pior, murmurou. Pensou ento que o melhor seria sair do automvel por um bocado, 
arejar as ideias, Talvez me limpe os aranhios da cabea, l porque o tipo ficou cego no quer dizer que a mim me suceda o mesmo, isto no  uma gripe que se pega, 
dou uma volta ao quarteiro e j me passa. Salu, nem valia a pena fechar o carro, da a nada estaria de volta, e afastou-se. Ainda no tinha andado trinta passos 
quando cegou.
     
     No consultrio, o ltimo paciente a ser atendido foi o velho de bom gnio, aquele que dissera to boas palavras sobre o pobre diabo que cegara de repente. Ia 
s para combinar a data da operao a uma catarata que lhe aparecera no nico olho que lhe restava, a venda preta tapava uma ausncia. no tinha nada que ver com 
o caso de agora, So mazelas que vm com a idade, dissera-lhe o mdico tempos atrs, quando estiver madura tiramo-la, depois nem vai reconhecer o mundo em que vivia. 
Quando o velho da venda preta saiu e a enfermeira disse que no havia mais pacientes na sala de espera, o mdico pegou na ficha do homem que aparecera cego, leu-a 
uma vez, duas vezes, pensou durante alguns minutos e finalmente ligou o telefone para um colega, com quem teve a seguinte conversao, Queres saber, tive hoje um 
caso estranhssimo, um homem que perdeu totalmente a viso de um instante para outro, o exame no mostrou qualquer leso perceptvel nem indcios de malformaes 
de nascena, diz ele que v tudo branco, uma espcie de brancura leitosa, espessa, que se lhe agarra aos olhos, estou a tentar exprimir o melhor possvel a descrio 
que fez, sim, claro que  subjectivo, no, o homem  novo, trinta e oito anos, tens notcia de algum caso semelhante, leste, ouviste falar, bem me parecia, por agora 
no lhe vejo soluo, para ganhar tempo mandei-lhe fazer umas anlises, sim, podemos observ-lo juntos um destes dias, depois do jantar vou passar os olhos pelos 
livros, rever bibliografia, talvez encontre uma pista, sim, bem sei, a agnosia, a cegueira psquica, poderia ser. mas ento tratar-se-ia do primeiro caso com estas 
caractersticas, porque no h dvida de que o homem est mesmo cego, a agnosia, sabemo-lo  a incapacidade de reconhecer o que se v, pois, tambm pensei nisso, 
a possibilidade de se tratar de uma amaurose, mas lembra-te do que comecei por te dizer, esta cegueira  branca, precisamente o contrrio da amaurose, que  treva 
total, a no ser que exista por a uma amaurose branca, uma treva branca, por assim dizer, sim, j sei, foi coisa que nunca se viu, de acordo, amanh telefono-lhe, 
digo-lhe que queremos examin-lo os dois. Terminada a conversa, o mdico recostou-se na cadeira, deixou-se ficar assim uns minutos, depois levantou-se, despiu a 
bata em movimentos cansados, lentos. Foi  casa de banho para lavar as mos, mas desta vez no perguntou ao espelho, metafisicamente, Que ser aquilo, recuperara 
o esprito cientfico, o facto de a agnosia e a amaurose se encontrarem identificadas e definidas com preciso nos livros e na prtica, no significava que no viessem 
a surgir variantes, mutaes, se a palavra  adequada, e esse dia parecia ter chegado. H mil razes para que o crebro se feche, s isto, e nada mais, como uma 
visita tardia que encontrasse cerrados os seus prprios umbrais. O oftalmologista tinha gostos literrios e sabia citar a propsito.
     
 noite, depois do jantar, disse  mulher, Apareceu-me no consultrio um estranho caso, poderia tratar- se de uma variante da cegueira psquica ou da amaurose, 
mas no consta que tal coisa se tivesse verificado alguma vez, Que doencas so essas, a amaurose e a outra, perguntou a mulher. O mdico deu uma explicao acessvel 
a um entendimento normal, que satisfez a curiosidade dela, depois foi buscar  estante os livros da especialidade, uns antigos, do tempo da faculdade, outros recentes, 
alguns de publicao recentssima, que ainda mal tivera tempo de estudar. Procurou nos ndices, a seguir, metodicamente, ps-se a ler tudo o que ia encontrando sobre 
a agnosia e a amaurose, com a impresso incmoda de saber-se intruso num domnio que no era o seu, o misterioso territrio da neurocirurgia, acerca do qual no 
possua mais do que umas luzes escassas. Noite dentro, afastou os livros que estivera a consultar, esfregou os olhos fatigados e reclinou-se na cadeira. Nesse momento 
a alternativa apresentava-se-lhe com toda a clareza. Se o caso fosse de agnosia, o paciente estaria vendo agora o que sempre tinha visto, isto , no teria ocorrido 
nele qualquer diminuio da acuidade visual, simplesmente o crebro ter-se-ia tornado incapaz de reconhecer uma cadeira onde estivesse uma cadeira, quer dizer, continuaria 
a reagir correctamente aos estmulos luminosos encaminhados pelo nervo ptico, mas, para usar uns termos comuns, ao alcance de gente pouco informada, teria perdido 
a capacidade de saber que sabia e, mais ainda, de diz-lo. Quanto  amaurose, a, nenhuma dvida. Para que efectivamente o caso fosse esse, o paciente teria de ver 
tudo negro, ressalvando-se, j se sabe, o uso de tal verbo, ver, quando de trevas absolutas se tratava. O cego afirmara categoricamente que via, ressalve-se tambm 
o verbo, uma cor branca uniforme, densa, como se se encontrasse mergulhado de olhos abertos num mar de leite. Uma amaurose branca, alm de ser etimologicamente uma 
contradio, seria tambm uma impossibilidade neurolgica, uma vez que o crebro, que no poderia ento perceber as imagens, as formas e as cores da realidade, no 
poderia da mesma maneira, para diz-lo assim, cobrir de branco, de um branco contnuo, como uma pintura branca sem tonalidades, as cores, as formas e as imagens 
que a mesma realidade apresentasse a uma viso normal, por muito problemtico que sempre seja falar, com efectiva propriedade, de uma viso normal. Com a conscincia 
clarssima de se encontrar metido num beco onde aparentemente no havia sada, o mdico abanou a cabea com desalento e olhou em redor. A mulher j se tinha retirado, 
lembrava-se vagamente de que ela se aproximara um momento e lhe dera um beijo no cabelo, Vou-me deitar, devia ter dito, a casa estava agora silenciosa, em cima da 
mesa os livros espalhados, Que ser isto, pensou, e de sbito sentiu medo, como se ele prprio fosse cegar no instante seguinte e j o soubesse. Susteve a respirao 
e esperou. Nada sucedeu. Sucedeu um minuto depois, quando juntava os livros para os arrumar na estante. Primeiro percebeu que tinha deixado de ver as mos, depois 
soube que estava cego.
     
     O mal da rapariga dos culos escuros no era de gravidade, tinha apenas uma conjuntivite das mais simples, que o tpico ligeiramente receitado pelo mdico iria 
resolver em poucos dias, J sabe, durante esse tempo s tira os culos para dormir, dissera-lhe. O gracejo levava muitos anos de uso,  mesmo de supor que viesse 
passando de gerao em gerao de oftalmologistas, mas o efeito repetia-se de cada vez, o mdico sorria ao diz-lo, sorria o paciente ao ouvi-lo, e neste caso valia 
a pena, porque a rapariga tinha  os dentes bonitos e sabia como mostr-los. Por natural misantropia ou demasiadas decepes na vida, qualquer cptico comum, conhecedor 
dos pormenores da vida desta mulher, insinuaria que a bonitez do sorriso no passava de uma artimanha de ofcio, afirmao maldosa e gratuita, porque ele,
     
     ***
     
     O sorriso, J tinha sido assim nos tempos no muito distantes em que a mulher fora menina, palavra em desuso, quando o futuro era uma carta fechada e a curiosidade 
de abri-la ainda estava por nascer. Simplificando, pois, poder-se-ia incluir esta mulher na classe das denominadas prostitutas, mas a complexidade da trama das relaes 
sociais, tanto diurnas como nocturnas, tanto verticais como horizontais, da poca aqui descrita, aconselha a moderar qualquer tendncia para juzos peremptrios, 
definitivos, balda de que, por exagerada suficincia nossa, talvez nunca consigamos livrar-nos. Ainda que seja evidente o muito que de nuvem h em Juno, no  licito, 
de todo, teimar em confundir com uma deusa grega o que no passa de uma vulgar massa de gotas de gua pairando na atmosfera. Sem dvida, esta mulher vai para a cama 
a troco de dinheiro, o que permitiria, provavelmente, sem mais consideraes, classific-la como prostituta de facto, mas, sendo certo que s vai quando quer e com 
quem quer, no  de desdenhar a probabilidade de que tal diferena de direito deva determinar cautelarmente a sua excluso do grmio, entendido como um todo. Ela 
tem, como a gente normal, uma profisso, e, tambm como a gente normal, aproveita as horas que lhe ficam para dar algumas alegrias ao corpo e suficientes satisfaes 
s necessidades, as particulares e as gerais. Se no se pretender reduzi-la a uma definio primria, o que finalmente se dever dizer dela, em lato sentido,  que 
vive como lhe apetece e ainda por cima tira da todo o prazer que pode.
     
     Fizera-se noite quando saiu do consultrio. No tirou os culos, a iluminao das ruas incomodava-a, em particular a dos anncios. Entrou numa farmcia a comprar 
o medicamento que o mdico tinha receitado. decidiu no se dar por achada quando o empregado que a atendia falou do injusto que  andarem certos olhos cobertos por 
vidros escuros. Observao que, alm de ser impertinente em .si mesma, o ajudante de farmcia. imagine-se, contrariava a sua convico de que os culos escuros lhe 
conferiam um ar de capitoso mistrio, capaz de provocar o interesse dos homens que passam, e eventualmente retribu-lo, se no se desse hoje, a circunstancia de 
haver algum  sua espera, um encontro de que tinha razes para esperar boas coisas, tanto no que se referia  satisfao material como s outras satisfaes. O 
homem com quem ia estar era j seu conhecido, no se tinha importado quando ela avisou que no poderia tirar os culos, ordem, alis, que o mdico ainda no dera, 
e at lhe achou graa, era uma novidade.  sada da farmcia, a rapariga chamou um txi, deu o nome de um hotel. Recostada no assento, prelibava j, se o termo  
prprio, as distintas e mltiplas sensaes do gozo sensual, desde o primeiro e sbio roar dos lbios, desde a primeira carcia ntima, at s sucessivas exploses 
de um orgasmo que iria deix-la exausta e feliz, como se estivesse a ser crucificada, salvo seja, numa girandola ofuscante e vertiginosa. Razes portanto temos para 
concluir que a rapariga dos culos escuros, se o parceiro soube cumprir cabalmente, em tempo e em tcnica, a sua obrigao, paga sempre por adiantado e em dobro 
o que depois vem a cobrar. Em meio destes pensamentos, sem dvida porque tinha acabado de pagar uma consulta, ela perguntou-se se no seria boa altura para subir, 
j a partir de hoje, o que, com risonho eufemismo, costumava designar por seu justo nvel de compensao.
     
     Mandou parar o txi um quarteiro antes, misturou-se com as pessoas que seguiam na mesma direco, como que deixando-se levar por elas, annima e sem nenhuma 
culpa notria. Entrou no hotel com ar natural, atravessou o vestbulo para o bar. Chegara adiantada alguns minutos, portanto devia esperar, a hora do encontro havia 
sido combinada com preciso. Pediu um refresco, que tomou sossegadamente, sem pr os olhos em ningum, no queria ser confundida com uma caadora de homens vulgar. 
Um pouco mais tarde, como uma turista que sobe ao quarto a descansar depois de ter passado a tarde nos museus, dirigiu-se ao ascensor. A virtude, quem o ignorar 
ainda sempre encontra escolhos no durssimo caminho da perfeio, o pecado e o vcio so to favorecidos da fortuna que foi ela chegar e abrirem-se-lhe as portas 
do elevador. Saram dois hspedes, um casal idoso, ela passou para dentro, premiu o boto do terceiro andar, trezentos e doze era o nmero que a esperava,  aqui, 
bateu discretamente  porta, dez minutos depois estava nua, aos quinze gemia, aos dezoito sussurrava palavras de amor que j no tinha necessidade de fingir, aos 
vinte comeava a perder a cabea, aos vinte e um sentiu que o corpo se lhe despedaava de prazer, aos vinte e dois gritou, Agora, agora, e quando recuperou a conscincia 
disse, exausta e feliz, Ainda vejo tudo branco.
     
     Ao ladro do automvel levou-o um polcia a casa. No podia o circunspecto e compadecido agente de autoridade imaginar que conduzia um empedernido delinquente 
pelo brao, no para o impedir de escapar-se, como em outra ocasio teria sido, mas simplesmente para o que o pobre homem no tropeasse e casse. Em compensao, 
j nos  muito fcil imaginar o susto que levou a mulher do ladro quando, abrindo a porta, se encontrou pela frente com um polcia de uniforme que trazia filado, 
assim lhe pareceu, um decado prisioneiro, a quem, a avaliar pela triste cara que trazia, devia ter sucedido algo pior que ser preso. Por um instante, primeiro pensou 
a mulher que o seu homem havia sido apanhado em flagrante delito e que o polcia estava ali para passar busca  casa, ideia esta, por outro lado, e por muito paradoxal 
que parea, bastante tranquilizadora, considerando que o marido s roubava automveis, objectos que, pelo seu tamanho, no podem ser escondidos debaixo da cama. 
No durou muito a dvida, o polcia disse, Este senhor est cego, tome conta dele, e a mulher, que deveria ter ficado aliviada porque o agente, afinal, vinha apenas 
de acompanhante, percebeu a dimenso da fatalidade que lhe entrava em casa quando um marido desfeito em lgrimas lhe caiu nos braos dizendo o que j sabemos.
     
     A rapariga dos culos escuros tambm foi levada a casa de seus pais por um polcia, mas o picante das circunstancias em que a cegueira, no seu caso, se declarara, 
uma mulher nua aos gritos num hotel, alvorotando os hspedes, enquanto o homem que estava com ela tentava escapulir-se enfiando atabalhoadamente as calas . moderava 
de certa maneira, o dramatismo bvio da situao. A cega. corrida de vergonha. sentimento em tudo compatvel, por muito que rosnem os prudentes fingidos e os virtuosos 
falsos, com os mercenrios exerccios amatrios a que se dedicava. aps os gritos lancinantes que comeou a soltar ao compreender que a perda da viso no era uma 
nova e imprevista consequncia do prazer, mal ousava chorar e lamentar-se quando, com maus modos, vestida a trouxe-mouxe, quase aos empurres, a levaram para fora 
do hotel. O polcia, em tom que seria sarcstico se no fosse simplesmente grosseiro, quis saber depois de lhe ter perguntado onde morava, se ela dispunha de dinheiro 
para o txi, Nestes casos o Estado no paga, avisou, procedimento a que, anote-se  margem, no se poder negar uma certa lgica, porquanto estas pessoas pertencem 
ao nmero das que no pagam imposto sobre os seus imorais crditos. Ela acenou afirmativamente, mas, estando cega, imagine-se, pensou que o polcia poderia no ter 
visto, o gesto e murmurou, Sim, tenho, e, de si para si, acrescentou, Antes no o tivesse, palavras que nos ho-de parecer fora de propsito, mas que, se atentarmos 
nas circunvolues do esprito humano, onde no existem caminhos curtos e rectos, acabam, essas palavras, por tornar-se absolutamente lmpidas, o que ela queria 
dizer era que tinha sido castigada por causa do seu mau porte, da sua imoralidade, ora a est. Dissera  me que no iria jantar a casa, e afinal chegaria muito 
a tempo, ainda antes do pai.
     
     Diferente foi o que se passou com o oftalmologista, no s porque se encontrava em casa quando o atacou a cegueira, mas porque, sendo mdico, no iria entregar-se 
de mos atadas ao desespero, como fazem aqueles que do seu corpo s sabem quando lhes di. Mesmo numa situao como esta, angustiado, tendo pela frente uma noite 
de ansiedade, ainda foi capaz de recordar o que Homero escreveu na Ilada, poema da morte e do sofrimento, mais do que todos, Um mdico, s por si, vale alguns homens, 
palavras que no deveremos entender como expresso directamente quantitativa, mas sim maiormente qualitativa, como no tardar a certificar-se. Teve a coragem de 
se deitar sem acordar a mulher, nem sequer quando ela, murmurando meio adormecida, se moveu na cama para o sentir mais prximo. Horas e horas acordado, o pouco que 
conseguiu dormir foi de puro esgotamento. Desejava que a noite no acabasse para no ter de anunciar, ele cujo ofcio era curar as mazelas dos olhos alheios, Estou 
cego, mas ao mesmo tempo queria que chegasse rapidamente a luz do dia. com estas exactas palavras o pensou, A luz do dia. sabendo que no a iria ver. Na verdade 
um oftalmologista cego no poderia servir para muito, mas competia-lhe a ele informar as autoridades sanitrias, avis-las do que poderia estar a tornar-se em catstrofe 
nacional, nada mais nada menos que um tipo de cegueira desconhecido at agora, com todo o aspecto de ser altamente contagioso, e que, pelos vistos, se manifestava 
sem a prvia existncia de actividades patolgicas anteriores de carcter inflamatrio, infeccioso ou degenerativo, como pudera verificar no cego que o fora procurar 
ao consultrio, ou como no seu prprio caso se confirmaria, uma miopia leve, um leve astigmatismo, tudo to ligeiro que havia decidido, por enquanto, no usar lentes 
correctoras. Olhos que tinham deixado de ver, olhos que estavam totalmente cegos, encontravam-se no entanto em perfeito estado, sem qualquer leso, recente ou antiga, 
adquirida ou de origem. Recordou o exame minucioso que fizera ao cego, como as diversas partes do olho acessveis ao oftalmoscpio se apresentavam ss, sem sinal 
de alteraes mrbidas, situao muito rara nos trinta e oito anos que o homem dissera ter, e at em menos idade. Aquele homem no devia estar cego, pensou, esquecido 
por momentos de que ele prprio tambm o estava, a tal ponto pode uma pessoa chegar em abnegao, e isto no  coisa de agora, lembremo-nos do que disse Homero, 
ainda que por palavras que pareceram diferentes.
     
     Fingiu que dormia quando a mulher se levantou. Sentiu o beijo que ela lhe deu na testa, muito suave, como se no quisesse acord-lo do que julgava ser um sono 
profundo, talvez tivesse pensado, Coitado, deitou-se tarde, a estudar aquele extraordinrio caso do homenzinho cego. Sozinho. como se estivesse a ser lentamente 
garrotado por uma nuvem espessa que lhe carregasse sobre o peito e lhe entrasse pelas narinas cegando-o por dentro, o mdico deixou sair um gemido breve, consentiu 
que duas lgrimas, Sero brancas, pensou, lhe inundassem os olhos e se derramassem pelas fontes, de um lado e do outro da cara, agora compreendia o medo dos seus 
pacientes quando lhe diziam, Senhor doutor, parece-me que estou a perder a vista. Ao quarto chegavam os pequenos rudos domsticos, a mulher no tardaria a para 
ver se ele continuava a dormir, estavam-se a fazer horas de ir para o hospital. Levantou-se com cuidado, s apalpadelas procurou e enfiou o roupo, entrou na casa 
de banho, urinou. Depois virou-se para onde sabia que estava o espelho, desta vez no perguntou Que ser isto, no disse H mil razes para que o crebro humano 
se feche, s estendeu as mos at tocar o vidro, sabia que a sua imagem estava ali a olh-lo, a imagem via-o a ele, ele no via a imagem. Ouviu a mulher entrar no 
quarto, Ah, j ests levantado, disse ela, e ele respondeu, Estou louco, a seguir sentiu-a ao seu lado, Bons dias, meu amor, ainda se saudavam com palavras de carinho 
depois de tantos anos de casados, e ento ele disse, como se os dois estivessem a representar uma pea e esta fosse a sua deixa, Acho que no iro ser mito bons, 
tenho qualquer coisa na vista. Ela s deu ateno  ltima parte da frase, Deixa-me ver, pediu, examinou-lhe os olhos com ateno, No vejo nada, a frase estava 
evidentemente trocada, no pertencia ao papel dela, ele era quem tinha de pronunci-la, mas disse-a mais simplesmente, assim, No vejo, e acrescentou, Suponho que 
fui contagiado pelo doente de ontem.
     
     Com o tempo e a intimidade, as mulheres dos mdicos acabam tambm por entender algo de medicina, e esta, em tudo to prxima do marido, aprendera o bastante 
para saber que a cegueira no se propaga por contgio, como uma epidemia, a cegueira no se pega s por olhar um cego algum que o no , a cegueira  uma questo 
privada entre a pessoa e os olhos com que nasceu. Em todo o caso, um mdico tem a obrigao de saber o que diz, para isso est a faculdade, e se este aqui, alm 
de se ter declarado cego, admite abertamente ter sido contagiado, quem  agora a mulher para duvidar, por muito de mdico que fosse. Compreende-se, portanto, que 
a pobre senhora, perante a irrefragvel evidncia, acabasse por reagir como qualquer esposa comum, duas j conhecemos ns, abraando-se ao marido, oferecendo as 
naturais mostras de aflio, E agora, que vamos fazer, perguntava entre lgrimas, Avisar as autoridades sanitrias, o ministrio,  o mais urgente, se se trata realmente 
duma epidemia  preciso tomar providncias, Mas uma epidemia de cegueira foi coisa que nunca se viu, alegou a mulher, querendo agarrar-se a esta derradeira esperana, 
Tambm nunca se viu um cego sem motivos aparentes para o ser. e neste momento j h pelo menos dois. Mal acabara de pronunciar a ltima palavra, o rosto transformou-se-lhe. 
Empurrou a mulher quase com violncia, ele prprio recuou, Afasta-te, no te chegues a mim, posso contagiar-te, e logo a seguir, batendo na cabea com os punhos 
fechados, Estpido, estpido, mdico idiota, como  que no pensei, uma noite inteira juntos, devia ter ficado no escritrio, com a porta fechada, e mesmo assim, 
Por favor, no fales dessa maneira, o que tiver de ser ser, anda, vem, vou-te preparar o pequeno-almoo, Deixa-me, deixa-me, No deixo, gritou a mulher, que queres 
fazer, andar a aos tombos, a chocar contra os mveis,  procura do telefone, sem olhos para encontrar na lista os nmeros de que precisas, enquanto eu assisto tranquilamente 
ao espectculo, metida numa redoma de cristal  prova de contaminaes. Agarrou-o pelo brao com firmeza e disse, Vamos, meu querido.
     
     Ainda era cedo quando o mdico acabou de tomar, imaginemos com que gosto, a chvena de caf e a torrada que a mulher teimou em preparar-lhe, cedo de mais para 
encontrar j nos seus lugares de trabalho as pessoas a quem deveria informar. A lgica e a eficcia mandavam que a sua participao do que estava a acontecer fosse 
feita directamente o mais depressa possvel a um alto cargo responsvel do ministrio da Sade, mas no tardou a mudar de ideias quando percebeu que apresentar-se 
apenas como um mdico que tinha uma informao importante e urgente a comunicar no era suficiente para convencer o funcionrio mdio com quem. por fim, depois de 
muitos rogos. a telefonista condescendera em p-lo em contacto. O homem quis saber de que se tratava antes de o passar ao superior imediato, e estava claro que qualquer 
mdico com sentido de responsabilidade no iria pr-se a anunciar o surgimento de uma epidemia de cegueira ao primeiro subalterno que lhe aparecesse pela frente, 
o pnico seria imediato. Respondia de l o funcionrio, O senhor declara-me que  mdico. Se quer que lhe diga que acredito, pois sim, acredito. mas eu tenho as 
minhas ordens, ou me diz de que se trata? ou no dou seguimento?  um assunto confidencial? Assuntos confidenciais no se tratam por telefone? o melhor ser vir 
c pessoalmente? No posso sair de casa? Quer dizer que est doente? Sim? estou doente? disse o cego depois de uma hesitao? Nesse caso o que voc dever fazer 
 chamar um mdico? um mdico autntico? retorquiu o funcionrio? e, encantado com o seu prprio esprito, desligou o telefone.
     
     A insolncia atingiu o mdico como uma bofetada. S passados alguns minutos teve serenidade bastante para repetir  mulher a grosseria com que fora tratado. 
Depois, como se acabasse de descobrir algo que estivesse obrigado a saber desde muito antes, murmurou? triste.  desta massa que ns somos feitos? metade de indiferena
e metade de ruindade. Ia perguntar? duvidoso? E agora. quando compreendeu que tinha estado a perder tempo, que a nica forma de fazer chegar a informao aonde convinha,
por via segura? seria falar com o director clnico do seu prprio servio hospitalar? de mdico para mdico, sem burocratas pelo meio, ele que se encarregasse depois
de pr a maldita engrenagem oficial a funcionar. A mulher fez a ligao, sabia de memria o nmero do telefone do hospital. O mdico identificou-se quando responderam, 
depois disse rapidamente? Bem? muito obrigado? sem dvida a telefonista perguntara, Como est, senhor doutor?  o que dizemos quando no queremos dar parte de fraco, 
dissemos? Bem? e estvamos a morrer? a isto chama o vulgo fazer das tripas corao. fenmeno de converso visceral que s na espcie humana tem sido observado. Quando 
o director veio ao telefone? Ento? que se passa? o mdico perguntou-lhe se estava 5o? se no havia gente por perto que pudesse ouvir? da telefonista no havia que 
recear? tinha mais que fazer que escutar conversas sobre oftalmopatias? a ela apenas a ginecologia lhe interessava. O relato do mdico foi breve mas completo? sem 
rodeios? sem palavras a mais? sem redundncias? e feito com uma secura clnica que? tendo em conta a situao chegou a surpreender o director? Mas voc est mesmo 
cego? perguntou? Totalmente cego, Em todo o caso, poderia tratar-se de uma coincidncia, poderia no ter havido realmente, no seu exacto sentido, um contgio, De 
acordo, o contgio no est demonstrado, mas aqui no foi o caso de cegar ele e cegar eu? cada qual em sua casa? sem nos termos visto? o homem apareceu-me cego na 
consulta e eu ceguei poucas horas depois? Como  que poderemos encontrar esse homem? Tenho o nome e a direco no consultrio? Vou l mandar algum imediatamente? 
Um mdico? Sim? um colega? claro? No lhe parece que deveramos comunicar ao ministrio o que se est a passar? Por enquanto acho prematuro? pense no alarme pblico 
que iria causar uma notcia destas? com mil diabos? a cegueira no se pega, A morte tambm no se pega, e apesar disso todos morremos, Bom, deixe-se estar em casa 
enquanto eu trato do assunto? depois mando-o buscar a? quero observ-lo? Lembre-se de que se estou cego foi por ter observado um cego? No h a certeza? H? pelo 
menos uma boa presuno de causa e efeito, Sem dvida, contudo ainda  demasiado cedo para tirarmos concluses, dois casos isolados no tm significado estatstico, 
Salvo se nesta altura j somos mais do que dois, Compreendo o seu estado de esprito, mas devemos defender-nos de pessimismos que podem vir a verificar-se infundados, 
Obrigado, Voltarei a falar consigo, At logo.
     
     Meia hora depois, tinha o mdico, desajeitadamente, com a ajuda da mulher, acabado de fazer a barba, tocou o telefone. Era outra vez o director clinico, mas 
a voz, agora, estava mudada, Temos aqui um rapaz que tambm cegou de repente, v tudo branco, a me diz que esteve ontem com o filho no seu consultrio, Suponho 
que o pequeno sofre de estrabismo divergente do olho esquerdo, Sim, No h dvida,  ele, Comeo a estar preocupado, a situao  mesmo sria, O ministrio, Sim, 
claro, vou imediatamente falar com a direco do hospital. Passadas umas trs horas, quando mdico e a mulher almoavam em silncio, ele tenteando com o garfo os 
pedacinhos de carne que ela lhe cortara, o telefone tornou a tocar. A mulher foi atender, voltou logo, Tens de ir tu,  do ministrio. Ajudou-o a levantar-se, guiou-o 
at ao escritrio e deu-lhe o telefone. A conversa foi rpida. O ministrio queria saber a identidade dos pacientes que tinham estado no dia anterior no consultrio, 
o mdico respondeu que as fichas clnicas respectivas continham todos os elementos de identificao, o nome, a idade, o estado civil, a profisso, a morada, e terminou 
declarando-se ao dispor para acompanhar a pessoa ou pessoas que fossem recolh-los. Do outro lado o tom foi cortante, No precisamos. O telefone mudou de mo, a 
voz que saiu dele era diferente, Boas tardes, fala o ministro, em nome do Governo venho agradecer o seu zelo, estou certo de que graas  prontido com que agiu 
vamos poder circunscrever e controlar a situao, entretanto faa-nos o favor de permanecer em casa. As palavras finais foram pronunciadas com expresso formalmente 
corts, porm no deixavam qualquer dvida sobre o facto de serem uma ordem. O mdico respondeu, Sim, senhor ministro, mas a ligao j tinha sido cortada.
     
     Poucos minutos depois, outra vez o telefone. Era o director clnico, nervoso, atropelando as palavras, Acabei agora mesmo de saber que a polcia tem informao 
de dois casos de cegueira sbita, Polcias, No, um homem e uma mulher, a ele encontraram-no na rua a gritar que estava cego, e ela estava num hotel quando cegou, 
uma histria de cama, parece,  necessrio averiguar se se trata tambm de doentes meus, sabe como eles se chamam, No me disseram, Do ministrio j falaram comigo, 
iro ao consultrio recolher as fichas, Que situao complicada, Diga-mo a mim. O mdico largou o telefone, levou as mos aos olhos, ali as deixou ficar como se 
quisesse defend-los de piores males, enfim exclamou surdamente, Estou to cansado, Dorme um pouco, eu levo-te at  cama, disse a mulher, No vale a pena, seria 
incapaz de adormecer, alm disso o dia no acabou, algo vai ter de suceder ainda.
     
     Eram quase seis horas quando o telefone tocou pela ltima vez. O mdico estava sentado ao lado, levantou o auscultador, Sim, sou eu, disse, ouviu com ateno 
o que estava a ser-lhe comunicado e s acenou ligeiramente a cabea antes de desligar. Quem era, perguntou a mulher, O ministrio, vem uma ambulncia buscar-me dentro 
de meia hora, Era isso que esperavas que sucedesse, Sim, mais ou menos, Para onde te levam, No sei, suponho que para um hospital, Vou-te preparar a mala, escolher 
a roupa, o costume, No  uma viagem, No sabemos o que . Levou-o com cuidado at ao quarto, f-lo sentar-se na cama, Deixa-te estar a tranquilo, eu trato de tudo. 
Ouviu-a mover-se de um lado para outro, abrir e fechar gavetas e armrios, tirar roupas e logo arrum-las na mala colocada no cho, mas o que ele no podia ver foi 
que, alm da sua prpria roupa, haviam sido postas na mala umas quantas saias e blusas, um par de calas, um vestido, uns sapatos que s podiam ser de mulher. Pensou 
vagamente que no iria precisar de tanta coisa, mas calou-se porque no era o momento de falar de insignificancias. Ouviu-se o estalido dos fechos, depois a mulher 
disse, Pronto, a ambulancia j pode vir. Levou a mala para junto da porta da escada, recusando o auxlio do marido, que dizia, Deixa-me ajudar-te, isso eu posso 
fazer, no estou to invlido assim. Depois foram sentar-se num sof da sala, a esperar. Tinham as mos dadas, e ele disse, No sei quanto tempo iremos estar separados, 
e ela respondeu, No te preocupes.
     
     Esperaram quase uma hora. Quando a campainha da porta soou, ela levantou-se e foi abrir, mas no patamar no havia ningum. Atendeu ao telefone interno, muito 
bem, ele desce j, respondeu. Voltou para o marido e disse-lhe, Que esperam em baixo, tm ordem expressa de no subir, Pelos vistos o ministrio est mesmo assustado, 
Vamos. Desceram no elevador, ela ajudou o marido a transpor os ltimos degraus, depois a entrar na ambulncia, voltou  escada para buscar a mala, iou-a sozinha 
e empurrou-a para dentro. Finalmente subiu e sentou-se ao lado do marido. O condutor da ambulncia protestou do banco da frente, S posso lev-lo a ele, so as ordens 
que tenho, a senhora saia. A mulher, calmamente, respondeu, Tem de me levar tambm a mim, ceguei agora mesmo.
     
     A lembrana tinha sado da cabea do prprio ministro. Era, por qualquer lado que se examinasse, uma ideia feliz, seno perfeita, tanto no que se referia aos 
aspectos meramente sanitrios do caso como s suas implicaes sociais e aos seus derivados polticos. Enquanto no se apurassem as causas, ou, para empregar uma 
linguagem adequada, a etiologia do mal-branco, como, graas  inspirao de um assessor imaginativo, a malsonante cegueira passaria a ser designada, enquanto para 
ele no fosse encontrado o tratamento e a cura, e qui uma vacina que prevenisse o aparecimento de casos futuros, todas as pessoas que cegaram, e tambm as que 
com elas tivessem estado em contacto fsico ou em proximidade directa, seriam recolhidas e isoladas, de modo a evitarem-se ulteriores contgios, os quais, a verificarem-se, 
se multiplicariam mais ou menos segundo o que matematicamente  costume denominar-se progresso por quociente. Quod erat demonstrandum, concluiu o ministro. Em palavras 
ao alcance de toda a gente, do que se tratava era de pr de quarentena todas aquelas pessoas, segundo a antiga prtica, herdada dos tempos da clera e da febre-amarela, 
quando os barcos contaminados ou s suspeitos de infeco tinham de permanecer ao largo durante quarenta dias, at ver. Estas mesmas palavras, At ver, intencionais 
pelo tom, mas sibilinas por lhe faltarem outras, foram pronunciadas pelo ministro, que mais tarde precisou o seu pensamento, Queria dizer que tanto podero ser quarenta 
dias como quarenta semanas, ou quarenta meses, ou quarenta anos, o que  preciso  que no saiam de l. Agora falta decidir onde os iremos meter, senhor ministro, 
disse o presidente da comisso de logstica e segurana, nomeada rapidamente para o efeito, que deveria encarregar-se do transporte, isolamento e suprimento dos 
pacientes, De que possibilidades imediatas dispomos, quis saber o ministro, Temos um manicmio vazio, devoluto,  espera de que se lhe d destino, umas instalaes 
militares que deixaram de ser utilizadas em consequncia da recente reestruturao do exrcito, uma feira industrial em fase adiantada de acabamento, e h ainda, 
no conseguiram explicar-me porqu, um hipermercado em processo de falncia, Na sua opinio, qual deles serviria melhor aos fins que temos em vista, O quartel  
o que oferece melhores condies de segurana, Naturalmente, Tem porm um inconveniente, ser demasiado grande, tornaria difcil e dispendiosa a vigilncia dos internados, 
Estou a ver, Quanto ao hipermercado, haveria que contar, provavelmente, com impedimentos jurdicos vrios, questes legais a ter em conta, E a feira, A feira, senhor 
ministro, creio ser prefervel no pensar nela, Porqu, A indstria no gostaria com certeza, esto ali investidos milhes, nesse caso, resta o manicmio, Sim, senhor 
ministro, o manicmio, Pois ento que seja o manicmio, Alis, a todas as vezes,  o que apresenta melhores condies, por que, a par de estar murado em todo o seu 
permetro, ainda tem a vantagem de se compor de duas alas, uma que destinaremos aos cegos propriamente ditos, outra para os suspeitos, alm de um corpo central que 
servir, por assim dizer, de terra-de-ningum, por onde os que cegarem transitaro para irem juntar-se aos que j estavam cegos, Vejo a um problema, Qual, senhor 
ministro, Vamos ser obrigados a pr l pessoal para orientar as transferncias, e no acredito que possamos contar com voluntrios, No creio que seja necessrio, 
senhor ministro, Explique l, No caso de um dos suspeitos de infeco cegar. como  natural que lhe suceda mais cedo ou mais tarde, tenha o senhor ministro por certo 
que os outros, os que ainda conservarem a vista, pem-no de l para fora no mesmo instante, Tem razo, Tal como no permitiriam a entrada de um cego que se tivesse 
lembrado de mudar de stio, Bem pensado, Obrigado, senhor ministro, podemos ento mandar avanar, Sim, tem carta branca.
     
     A comisso agiu com rapidez e eficcia. Antes que anoitecesse j tinham sido recolhidos todos os cegos de que havia notcia, e tambm um certo nmero de presumveis 
contagiados, pelo menos aqueles que fora possvel identificar e localizar numa rpida operao de rastreio exercida sobretudo nos meios familiar e profissional dos 
atingidos pela perda da viso. Os primeiros a serem transportados para o manicmio desocupado foram o mdico e a mulher. Havia soldados de guarda. O porto foi aberto 
 justa para eles passarem, e logo fechado. Servindo de corrimo, uma corda grossa ia do porto  porta principal do edifcio, Andem um pouco para o lado direito, 
h a uma corda, ponham-lhe a mo e sigam em frente, sempre em frente, at aos degraus, os degraus so seis, avisou um sargento. No interior a corda abria-se em 
duas, um ramo para a esquerda, outro para a direita, o sargento gritara, Ateno, o vosso lado  o direito. Ao mesmo tempo que ia arrastando a mala, a mulher guiava 
o marido para a camarata que se encontrava mais perto da entrada. Era comprida como uma enfermaria antiga, com duas filas de camas que tinham sido pintadas de cinzento, 
mas donde a tinta j h muito comeara a cair. As cobertas, os lenis e as mantas eram da mesma cor. A mulher levou o marido para o fundo da camarata, f-lo sentar-se 
em uma das camas, e disse-lhe, No saias daqui, vou ver como  isto. Havia mais camaratas, corredores longos e estreitos, gabinetes que deviam ter sido de mdicos, 
sentinas encardidas, uma cozinha que ainda no perdera o cheiro de m comida, um grande refeitrio com mesas de tampos forrados de zinco, trs celas acolchoadas 
at  altura de dois metros e forradas de cortia da para cima. Por trs do edifcio havia uma cerca abandonada, com rvores mal cuidadas, os troncos davam a ideia 
de terem sido esfolados. Por toda a parte se via lixo. A mulher do mdico voltou para dentro. Num armrio que estava meio aberto encontrou camisas-de-foras. Quando 
voltou a juntar-se ao marido, perguntou-lhe, s capaz de imaginar aonde nos trouxeram, No, ela ia a acrescentar A um manicmio, mas ele antecipou-se-lhe, Tu no 
ests cega, no posso consentir que fiques aqui, Sim, tens razo, no estou cega, Vou pedir-lhes que te levem para casa, dizer-lhes que os enganaste para ficar comigo, 
No vale a pena, de l no te ouvem, e ainda que te ouvissem no fariam caso, Mas tu vs, Por enquanto, o mais certo  cegar tambm um dia destes, ou daqui a um 
minuto, Vai-te embora, por favor, no insistas, alis aposto que os soldados nem me deixariam pr um p nos degraus, No te posso obrigar, Pois no, meu amor, no 
podes, fico para te ajudar, e aos outros que a venham, mas no lhes digas que eu vejo, Quais outros, Com certeza no crs que vamos ser os nicos, Isto  uma loucura, 
Deve de ser. estamos num manicmio.
     
     Os outros cegos chegaram juntos. Tinham-nos apanhado nas suas casas, um aps outro, o do automvel, primeiro de todos, o ladro que o roubou, a rapariga dos 
culos escuros, o garotinho estrbico, este no, a este foram-no buscar ao hospital aonde a me o levou. A me no vinha com ele, no tivera a astcia da mulher 
do mdico, declarar que estava cega sem o estar,  uma criatura simples, incapaz de mentir, mesmo para seu bem. Entraram na camarata aos tropees, apalpando o ar, 
aqui no havia corda que os guiasse, teriam de aprender  custa das prprias dores, o rapazinho chorava, chamava pela me, e era a rapariga dos culos escuros quem 
fazia por sosseg-lo, J vem, j vem, dizia-lhe, e como trazia os culos postos tanto podia estar cega como no, os outros moviam os olhos para um lado e para outro, 
e nada viam, ao passo que ela, com aqueles culos, s porque dizia J vem, j vem, era como se estivesse mesmo a ver entrar pela porta dentro a me desesperada. 
A mulher do mdico chegou a boca ao ouvido do marido e sussurrou, Entraram quatro, uma mulher, dois homens e um garoto, Os homens, que aspecto tm eles, perguntou 
o mdico em voz baixa. Ela descreveu-os, e ele, A esse no o conheo, o outro, pelo retrato, tem todo o ar de ser o cego que foi ao consultrio, O pequeno tem estrabismo, 
e a mulher vem de culos escuros, parece bonita, Estiveram l os dois. Por causa dos rudos que faziam enquanto procuravam stio onde se sentissem seguros, os cegos 
no ouviram esta troca de palavras, deviam pensar que no havia ali outros como eles, e no tinham perdido a vista h tanto tempo que se lhes avivasse o sentido 
da audio por cima do que  normal. Por fim, como se tivessem chegado  concluso de que no valia a pena trocar o certo pelo duvidoso, sentou-se cada um na cama 
com que tinha tropeado, por assim dizer, muito perto um do outro os dois homens, mas no o sabiam. Em voz baixa, a rapariga continuava a consolar o rapazinho, No 
chores, vais ver que a tua me no se demora. Fez-se depois um silncio, e ento a mulher do mdico disse de modo que se ouvisse ao fundo da camarata, onde era a 
porta, Aqui, estamos duas pessoas, quantos so vocs. A inesperada voz fez sobressaltar os recm-vindos, mas os dois homens continuaram calados, quem respondeu foi 
a rapariga, Acho que somos quatro, estamos este menino e eu, Quem mais, por que no falam os outros, perguntou a mulher do mdico, Estou eu, murmurou, como se lhe 
custasse pronunciar as palavras, uma voz de homem, E eu, resmungou por sua vez, contrariada, outra voz masculina. A mulher do mdico disse consigo mesma, Comportam-se 
como se temessem dar-se a conhecer um ao outro. Via-os crispados, tensos, de pescoo estendido como se farejassem algo, mas, curiosamente, as expresses eram semelhantes, 
um misto de ameaa e de medo, porm o medo de um no era o mesmo que o medo do outro, como tambm no o eram as ameaas. Que haver entre eles, pensou.
     
     Nesse instante ouviu-se uma voz forte e seca, de algum, pelo tom, habituado a dar ordens. Vinha de um altifalante fixado por cima da porta por onde tinham 
entrado. A palavra Ateno foi pronunciada trs vezes, depois a voz comeou, O Governo lamenta ter sido forado a exercer energicamente o que considera ser seu direito 
e seu dever, proteger por todos os meios as populaes na crise que estamos a atravessar, quando parece verificar-se algo de semelhante a um surto epidmico de cegueira. 
provisoriamente designado por mal-branco - e desejaria poder contar com o civismo e a colaborao de todos os cidados para estancar a propagao do contgio - supondo 
que de um contgio se trata. Supondo que no estaremos apenas perante uma srie de coincidncias por enquanto inexplicveis. A deciso de reunir num mesmo local 
as pessoas afectadas, e. em local prximo, mas separado, as que com elas tiveram algum tipo de contacto, no foi tomada sem sria ponderao. O Governo est perfeitamente 
consciente das suas responsabilidades e espera que aqueles a quem esta mensagem se dirige assumam tambm, como cumpridores cidados que devem de ser. as responsabilidades 
que lhes competem, pensando que o isolamento em que agora se encontram representar. acima de quaisquer outras consideraes pessoais, um acto de solidariedade para 
com o resto da comunidade nacional. Dito isto, pedimos a ateno de todos para as instrues que se seguem, primeiro, as luzes manter-se-o sempre acesas, ser intil 
qualquer tentativa de manipular os interruptores, no funcionam, segundo, abandonar o edifcio sem autorizao significar morte imediata, terceiro, em cada camarata 
existe um telefone que s poder ser utilizado para requisitar ao exterior a reposio de produtos de higiene e limpeza, quarto, os internados lavaro manualmente 
as suas roupas, quinto, recomenda-se a eleio de responsveis de camarata, trata-se de uma recomendao, no de uma ordem, os internados organizar-se-o como melhor 
entenderem, desde que cumpram as regras anteriores e as que seguidamente continuamos a enunciar, sexto, trs vezes ao dia sero depositadas caixas de comida na porta 
da entrada,  direita e  esquerda, destinadas, respectivamente, aos pacientes e aos suspeitos de contgio, stimo, todos os restos devero ser queimados, considerando-se 
restos, para este efeito, alm de qualquer comida sobrante, as caixas, os pratos e os talheres, que esto fabricados de materiais combustveis, oitavo, a queima 
dever ser efectuada nos ptios interiores do edifcio ou na cerca, nono, os internados so responsveis por todas as consequncias negativas dessas queimas, dcimo, 
em caso de incndio, seja ele fortuito ou intencional, os bombeiros no interviro, dcimo primeiro, igualmente no devero os internados contar com nenhum tipo 
de interveno do exterior na hiptese de virem a verificar-se doenas entre eles, assim como a ocorrncia de desordens ou agresses, dcimo segundo, em caso de 
morte, seja qual for a sua causa, os internados enterraro sem formalidades o cadver na cerca, dcimo terceiro, a comunicao entre a ala dos pacientes e a ala 
dos suspeitos de contgio far-se- pelo corpo central do edifcio, o mesmo por onde entraram, dcimo quarto, os suspeitos de contgio que vierem a cegar transitaro 
imediatamente para a ala dos que j esto cegos, dcimo quinto, esta comunicao ser repetida todos os dias, a esta mesma hora, para conhecimento dos novos ingressados. 
O Governo e a Nao esperam que cada um cumpra o seu dever. Boas noites.
     
     No primeiro silncio que se seguiu ouviu-se a voz clara do rapazinho, Quero a minha me, mas as palavras foram articuladas sem expresso, como um mecanismo 
repetidor automtico que antes tivesse deixado em suspenso uma frase e agora, fora de tempo, a soltasse. O mdico disse, As ordens que acabmos de ouvir no deixam 
dvidas, estamos isolados, mais isolados do que provavelmente j algum esteve, e sem esperana de que possamos sair daqui antes que se descubra o remdio para a 
doena, Eu conheo a sua voz, disse a rapariga dos culos escuros, Sou mdico, mdico oftalmologista,  o mdico que eu consultei ontem,  a sua voz, Sim, e voc, 
quem , Tinha uma conjuntivite, suponho que ainda c est, mas agora, cega por cega, j no deve ter importncia, E esse pequeno que est consigo, No  meu, eu 
no tenho filhos, Examinei ontem um rapazinho estrbico, eras tu, perguntou o mdico, Era sim senhor, a resposta do rapaz saiu com um tom de despeito, de quem no 
gostara que se mencionasse o seu defeito fsico, e tinha razo, que tais defeitos, estes e outros, s por deles se falar, passam logo de mal perceptveis a mais 
do que evidentes. H ainda algum que eu conhea, tornou a perguntar o mdico, estar por acaso aqui o homem que foi ontem ao meu consultrio acompanhado pela esposa, 
o homem que cegou de repente quando ia no automvel, Sou eu, respondeu o primeiro cego, H ainda outra pessoa, diga quem , por favor, obrigaram-nos a viver juntos 
no sabemos por quanto tempo, portanto  indispensvel que nos conheamos uns aos outros. O ladro do carro resmungou entredentes, Sim, sim, julgou que isto ia bastar 
para confirmar a sua presena, mas o mdico insistiu, A voz  de pessoa relativamente nova, voc no  o doente idoso, o da catarata, No senhor doutor, no sou, 
Como foi que cegou, Ia na rua, E que mais, Mais nada, ia na rua e ceguei. O mdico abria a boca para perguntar se a cegueira deste tambm era branca, mas calou-se, 
para qu, que adiantava, fosse qual fosse a resposta, e branca ou negra a cegueira, dali no sairiam. Estendeu a mo vacilante para a mulher e encontrou a mo dela 
no caminho. Ela veio beijar-lhe a face, ningum mais poderia ver esta fronte murcha, a boca apagada, os olhos mortos, como de vidro, assustadores porque pareciam 
ver e no viam, Tambm a minha vez chegar, pensou, quando, talvez neste mesmo instante, sem me dar tempo a acabar o que estou a dizer-me - em qualquer momento, 
como eles, ou talvez acorde cega, cegarei ao fechar os olhos para dormir, julgando que apenas adormeci.
     
     Olhou os quatro cegos, estavam sentados nas camas, aos ps a pouca bagagem que tinham podido trazer, o rapazito com a sua mochila escolar, os outros com malas, 
pequenas, como se fossem de fim-de-semana. A rapariga dos culos escuros conversava em voz baixa com o garoto, na fila do outro lado, prximos, apenas com uma cama 
vazia de permeio, o primeiro cego e o ladro do carro enfrentavam-se sem o saberem. O mdico disse, Todos ouvimos as ordens, acontea o que acontecer, uma coisa 
sabemos, ningum vos vir ajudar, por isso seria conveniente que nos comessemos a organizar j, porque no vai tardar muito que esta camarata esteja cheia de gente, 
esta e as outras. Como sabe que h outras camaratas, perguntou a rapariga, Andmos um pouco por a antes de virmos para esta, ficava mais perto da porta de entrada, 
explicou a mulher do mdico, enquanto apertava o brao do marido para lhe recomendar cuidado. Disse a rapariga, O melhor seria que o senhor doutor ficasse de responsvel, 
sempre  mdico, Um mdico para que serve, sem olhos nem remdios, Mas tem a autoridade. A mulher do mdico sorriu, Acho que deverias aceitar, se os mais estiverem 
de acordo, claro est, No creio que seja boa ideia, Porqu, Por enquanto s estamos aqui estes seis, mas amanh de certeza seremos mais, vir gente todos os dias, 
seria apostar no impossvel contar que estivessem dispostos a aceitar uma autoridade que no tinham escolhido e que, ainda por cima, nada teria para lhes dar em 
troca do seu acatamento, e isto ainda  supor que reconheceriam uma autoridade e uma regra, Ento vai ser difcil viver aqui, Teremos muita sorte se s for difcil. 
A rapariga dos culos escuros disse, A minha inteno era boa, mas realmente o senhor doutor tem razo, cada um vai puxar para o seu lado.
     
     Fosse movido por estas palavras ou porque no pudesse mais aguentar a fria, um dos homens ps-se bruscamente de p, Este tipo  que  o culpado da nossa infelicidade, 
tivesse eu olhos e agora mesmo dava cabo dele, vociferou, enquanto apontava na direco em que julgava estar o outro. O desvio no era grande, mas o dramtico gesto 
resultou cmico porque o dedo espetado, acusador, designava uma inocente mesa-de-cabeceira. Tenha calma, disse o mdico, numa epidemia no h culpados, todos so 
vtimas, Se eu no tivesse sido a boa pessoa que fui, se no o tivesse ajudado a chegar a casa, ainda teria os meus ricos olhos, Quem  voc, perguntou o mdico, 
mas o acusador no respondeu, j parecia contrariado por ter falado.
     Ento ouviu-se a voz do outro homem, Levou-me a casa,  verdade, mas depois aproveitou-se do meu estado para me roubar o carro,  falso, no roubei nada, Roubou, 
sim senhor, roubou, Se algum lhe palmou o carro, no fui eu, o pago que recebi pela minha boa aco foi ficar cego, alm disso onde  que esto as testemunhas, 
sempre quero ver, A discusso no resolve nada, disse a mulher do mdico, o carro est l fora, vocs esto c dentro, o melhor  fazerem as pazes, lembrem-se de 
que vamos viver aqui juntos, Quem no viver com ele, bem eu sei, disse o primeiro cego, os senhores faro o que quiserem, eu vou para outra camarata, no fico ao 
p de um malandro como este que foi capaz de roubar um cego, queixa-se ele de que cegou por minha causa, pois que cegasse, ao menos ainda h justia no mundo. Agarrou 
na mala e, arrastando os ps para no tropear, apalpando com a mo livre, passou para a coxia que separava as duas filas de catres, Onde so as camaratas, perguntou, 
mas no chegou a ouvir a resposta, se algum lha deu, porque de repente caiu-lhe em cima uma confuso de braos e pernas, o ladro do carro cumpria como podia a 
ameaa de tirar desforra do causador dos seus males. Qual de baixo, qual de cima, rolaram no espao apertado, esbarrando uma e outra vez contra os ps das camas, 
enquanto, novamente assustado, o rapazinho estrbico recomeava a chorar e a gritar pela me.
     A mulher do mdico agarrou o marido por um brao, sabia que sozinha no poderia acabar com a briga, e levou-o pela coxia at onde se debatiam, resfolgando, 
os lutadores furiosos. Guiou as mos do marido, ela prpria tomou  sua conta o cego que encontrou mais a jeito, e com grande esforo conseguiram separ-los. Esto 
a comportar-se estupidamente, ralhou o mdico, se a vossa ideia  fazer disto um inferno, continuem que vo por bom caminho, mas lembrem-se de que estamos entregues 
a ns prprios, socorros de fora, nenhuns, ouviram o que foi dito, Ele roubou-me o carro, lamuriou o primeiro cego, mais combalido de golpes que o outro, Deixe l, 
agora tanto lhe faz, disse a mulher do mdico, voc j no podia servir-se dele quando lho roubaram, Pois sim, mas era meu, e este ladro levou-mo, no sei para 
onde, O mais provvel, disse o mdico,  que o seu carro esteja no stio onde este homem cegou, O senhor doutor  um tipo esperto, sim senhor, no h dvidas, disse 
o ladro.
     O primeiro cego fez um movimento como para soltar-se das mos que o seguravam, mas sem forcar, como se tivesse compreendido que nem a indignao. ainda que 
justificada, lhe restituiria o carro, nem o carro lhe restituiria os olhos. Mas o ladro ameaou, Se julgas que no te vai suceder nada, ests muito enganado, roubei-te 
o carro, sim, fui eu que o roubei, mas tu a mim roubaste-me a vista dos olhos, a saber qual de ns dois foi mais ladro, Acabem com isso, protestou o mdico, todos 
aqui estamos cegos e no nos queixamos nem acusamos ningum, Com o mal dos outros posso eu bem, respondeu o ladro, desdenhoso, Se quiser ir para outra camarata, 
disse o mdico ao primeiro cego, a minha mulher poder gui-lo, ela orienta-se melhor do que eu, Mudei de ideia, prefiro ficar nesta. O ladro escarneceu, O que 
o menino tem  medo de ficar sozinho, no v aparecer-lhe por l um papo que eu conheo, Basta, gritou o mdico, impaciente,  doutorzinho, rosnou o ladro, olhe 
que aqui somos todos iguais, a mim o senhor no me d ordens, No lhe estou a dar ordens, s lhe digo que deixe esse homem em paz, Pois sim, pois sim, mas cuidadinho 
comigo, que eu no sou bom de assoar quando me chega a mostarda ao nariz, amigo como os que mais so, mas inimigo como so poucos. Com gestos e movimentos agressivos, 
o ladro procurou a cama em que tinha estado sentado, empurrou a mala para debaixo dela, depois anunciou, Vou-me deitar, pelo tom foi como se tivesse querido avisar, 
Virem-se para l que eu vou-me despir. A rapariga dos culos escuros disse ao rapazinho estrbico, E tu vais tambm para a cama, ficas aqui deste lado, se precisares 
de alguma coisa de noite, chamas-me, Quero fazer chichi, pediu o garoto. Ouvindo-o, todos sentiram uma sbita e urgente vontade de urinar, pensaram, por estas ou 
outras palavras, E agora isto como se resolve, o primeiro cego apalpou debaixo da cama, a ver se haveria por ali um bacio, mas ao mesmo tempo desejando que no houvesse 
porque lhe daria vergonha urinar na presena doutras pessoas, no podiam v-lo,  certo, mas o rudo do mijo  indiscreto, indisfarvel, os homens, ao menos, podem 
usar de um truque que no est ao alcance das mulheres, nisso tm eles mais sorte. O ladro sentara-se na cama. agora dizia, Merda, onde  que se mija nesta casa. 
Tento na lngua? h aqui uma criana, protestou a rapariga dos culos escuros, Pois sim, minha rica, mas, ou encontras um stio, ou a tua criancinha no tardar 
a mijar-se pelas pernas abaixo. Disse a mulher do mdico, Talvez eu possa dar com as retretes, lembro-me de ter sentido a um cheiro, Eu vou consigo, disse a rapariga 
dos culos escuros, segurando j na mo do rapazinho, Acho melhor irmos todos, observou o mdico, assim ficaremos a conhecer o caminho quando precisarmos, Bem te 
entendo, isto pensou o ladro do carro, mas no se atreveu a diz-lo em voz alta, o que tu no queres  que a tua mulherzinha tenha de levar-me a mijar de cada vez 
que me apetea. O pensamento, pelo segundo sentido implcito, provocou-lhe uma pequena ereco que o surpreendeu, como se o facto de estar cego devesse ter tido 
como consequncia a perda ou a diminuio do desejo sexual, Bom, pensou, afinal no se perdeu tudo, entre mortos e feridos algum escapar, e, alheando-se da conversa, 
comeou a fantasiar. no lhe deram tempo, o mdico j dizia, Fazemos uma fila, a minha mulher vai adiante, cada um pe a mo no ombro do da frente, assim no haver 
perigo de nos perdermos. Disse o primeiro cego, Eu com esse no vou, referia-se obviamente a quem o roubara.
     
     Ou fosse por se procurarem, ou fosse por se evitarem, mal conseguiam mexer-se na coxia estreita, tanto mais que a mulher do mdico tinha tambm de proceder 
como se estivesse cega. Por fim, a fila l ficou ordenada, atrs da mulher do mdico ia a rapariga dos culos escuros com o rapazinho estrbico pela mo, depois 
o ladro, de cuecas e camisola interior, a seguir o mdico, e no fim, a salvo de agresses por agora, o primeiro cego. Avanavam muito devagar, como se no se fiassem 
de quem os guiava, com a mo livre iam tenteando o ar, procurando  passagem o apoio de algo slido, uma parede, a ombreira duma porta. Colocado atrs da rapariga
dos culos escuros, o ladro, estimulado pelo perfume que se desprendia dela e pela lembrana da ereco recente, decidiu usar as mos com maior proveito, uma acariciando-lhe
a nuca por baixo dos cabelos, a outra, directa e sem cerimnias, apalpando-lhe o sexo. Ela sacudiu-se para escapar ao desaforo, mas ele tinha-a bem agarrada. Ento
a rapariga jogou com fora uma perna atrs, num movimento de coice. O salto do sapato, fino como um estilete, foi espetar-se no grosso da coxa nua do ladro, que 
deu um berro de surpresa e de dor. Que se passa, perguntou a mulher do mdico olhando para trs, Fui eu que tropecei, respondeu a rapariga dos culos escuros, parece 
que magoei quem vinha depois de mim. O sangue aparecia j entre os dedos do ladro que, gemendo e praguejando, tentava apurar os efeitos da agresso, Estou ferido, 
esta gaja no v onde pe os ps, E voc no v onde pe as mos, respondeu secamente a rapariga. 
     A mulher do mdico compreendeu o que se tinha passado, primeiro sorriu, mas logo viu que a ferida apresentava mau aspecto, o sangue escorria pela perna do pobre 
diabo, e ali no tinham gua oxigenada, nem mercurocromo, nem pensos, nem ligaduras, nenhum desinfectante, nada. A fila tinha-se desfeito, o mdico perguntava, Onde 
 que est ferido, Aqui, Aqui, onde, Na perna, no est a ver, a gaja espetou-me com um salto do sapato, Tropecei, no tive a culpa, repetiu a rapariga, mas imediatamente 
explodiu, exasperada, Este safado estava-me a apalpar, quem  que ele imaginava que eu sou. A mulher do mdico interveio, Agora o que  preciso  lavar essa ferida 
e lig-la, E onde  que h gua, perguntou o ladro, Na cozinha, na cozinha h gua, mas no precisamos ir todos, o meu marido e eu levamos este senhor, os outros 
esperam aqui, ns no nos demoramos, Quero fazer chichi, disse o rapaz, Aguenta um bocadinho, voltamos j. A mulher do mdico sabia que deveria virar uma vez  direita 
e uma vez  esquerda, depois seguir por um corredor comprido que fazia um ngulo recto, a cozinha era ao fundo. Passados poucos minutos fez de conta que se tinha 
enganado, parou, voltou atrs, depois exclamou, Ah, j me lembro, a partir da foram directamente  cozinha, no se podia perder mais tempo, a ferida sangrava com 
abundncia. Ao principio a gua veio suja, foi preciso esperar que aclarasse. Estava morna. choca. como se tivesse estado a apodrecer no interior dos canos. mas
o ferido recebeu-a com um suspiro de alvio. O ferimento tinha mau aspecto. E agora, como vamos ligar-lhe a perna, perguntou a mulher do mdico. Debaixo de uma mesa 
havia uns quantos panos sujos que deviam ter servido de esfreges. mas seria uma imprudncia grave servirem-se deles como ligadura, Aqui no parece haver nada, disse, 
enquanto fingia andar  procura, Mas eu no posso ficar neste estado, senhor i doutor, o sangue no pra, por favor ajude-me, e desculpe se h bocado fui malcriado 
consigo, lamentava-se o ladro. Estamos a ajud-lo,  o que estamos a fazer, disse o mdico, e depois, Dispa a camisola, no h outro meio. O ferido resmungou que 
lhe fazia falta, mas tirou-a. Rapidamente, a mulher do mdico fez com ela um rolo, passou-o ao redor da coxa, apertou com fora e conseguiu, com as pontas formadas 
pelas alas e pela fralda, atar um n tosco. No eram movimentos que um cego pudesse executar facilmente. mas ela no quis perder tempo com mais simulaes, j bastava 
fingir ter-se perdido. Ao ladro pareceu-lhe ver ali algo anormal, o mdico, segundo a lgica, mesmo no sendo mais do que um oftalmologista,  que deveria ter-lhe 
posto a ligadura, mas o consolo de saber-se tratado sobreps- se s dvidas, em todo o caso vagas, que durante um momento lhe roaram a conscincia. Coxeando ele, 
voltaram para onde os outros estavam, e ali a mulher do mdico viu imediatamente que o rapazito estrbico no pudera aguentar e urinara nas calas. Nem o primeiro 
cego nem a rapariga dos culos tinham dado pelo que sucedera. Aos ps do garoto alargava-se um charco de urina, as bainhas das calas ainda pingavam. Mas, como se 
nada se tivesse passado, a mulher do mdico disse, Vamos l ento  procura dessas retretes. Os cegos moveram os braos  frente da cara, buscando-se uns aos outros, 
no a rapariga dos culos escuros, que declarou logo que no queria ir  frente do descarado que a tinha apalpado, enfim reconstituiu-se a fila trocando o ladro 
e o primeiro cego de lugares, com O mdico colocado entre eles. O ladro coxeava mais, arrastava a perna. O torniquete incomodava-o e a ferida latejava com tanta 
fora que era como se o corao tivesse mudado de lugar e se encontrasse agora no fundo do buraco. A rapariga dos culos escuros levava outra vez o rapazito pela 
mo, mas ele afastava-se o mais que podia para o lado, com medo de que algum desse pelo seu descuido, como o mdico, que fungou, Cheira aqui a urina, e a mulher 
achou que devia confirmar a impresso, Sim, realmente h um cheiro, no podia dizer que vinha das retretes porque ainda estavam longe delas, e, tendo de comportar-se 
como se fosse cega, to-pouco podia pr a descoberto que o odor vinha das calas molhadas do rapaz.
     
     Estiveram de acordo, tanto mulheres como homens, quando chegaram s retretes, que deveria ser o garoto o primeiro a aliviar-se, mas os homens acabaram por entrar 
juntos, sem distino de urgncias ou de idades, o mictrio era colectivo, num stio como este tinha de ser. as sentinas tambm. As mulheres ficaram  porta, diz-se 
que aguentam melhor, mas tudo tem os seus limites, da a momentos a mulher do mdico sugeriu, Talvez haja outras retretes, porm a rapariga dos culos escuros disse, 
Por mim, posso esperar, E eu tambm, disse a outra, depois houve um silncio, depois comearam a falar, Como foi que cegou, Como todos, deixei de ver de repente, 
Estava em casa, No, Ento foi quando saiu do consultrio do meu marido, Mais ou menos, Que quer dizer mais ou menos, Que no foi logo logo a seguir, Sentiu alguma 
dor, Dor no senti, quando abri os olhos estava cega, Eu no, No qu, No tinha os olhos fechados, ceguei no momento em que o meu marido entrou na ambulncia, Teve 
sorte, Quem, O seu marido, assim podero estar juntos, Nesse caso tambm eu tive sorte, Pois teve, E a senhora,  casada, No, no sou, e a partir de agora acho 
que j ningum se casar mais, Mas esta cegueira  to anormal, to fora do que a cincia conhece, que no poder durar sempre, E se fssemos ficar assim para o 
resto da vida, Ns, Toda a gente, Seria horrvel, um mundo todo de cegos, No quero nem imaginar.

     O rapazinho estrbico foi o primeiro a sair da retrete. Nem precisava ter entrado. Trazia as calas enroladas at meio da perna e tinha descalado as meias.
Disse, J estou aqui, a mo da rapariga dos culos escuros moveu-se logo em direco  voz, no acertou  primeira nem  segunda,  terceira encontrou a mo vacilante
do rapaz. Da a pouco apareceu o mdico, logo a seguir o primeiro cego, um deles perguntou. Onde esto, a mulher do mdico segurava j um brao do marido, o outro
brao foi tocado e agarrado pela rapariga dos culos escuros. O primeiro cego, durante alguns segundos, no teve quem o amparasse, depois algum lhe ps a mo num
ombro.
     Estamos todos, perguntou a mulher do mdico, O da perna ficou a satisfazer outra necessidade, respondeu o marido. Ento a rapariga dos culos escuros disse, 
Talvez haja outras retretes, comeo a estar aflita, desculpem, Vamos procurar, disse a mulher do mdico, e afastaram-se de mo dada. Passados uns dez minutos regressaram, 
tinham encontrado um gabinete de consulta onde havia um anexo higinico. O ladro j sara da retrete, queixava-se de frio e de dores na perna. Refizeram a fila 
pela mesma ordem em que tinham vindo e, com menos trabalho que antes e nenhum acidente, voltaram  camarata. Com habilidade, sem o parecer, a mulher do mdico ajudou-os 
a alcanar a cama em que haviam estado. Fora ainda da camarata, como se se tratasse de algo j bvio para todos, lembrou que a maneira mais fcil de encontrar cada 
um o seu stio era contar as camas a partir da entrada, As nossas, disse, so as ltimas do lado direito, a dezanove e a vinte. O primeiro a avanar pela coxia foi 
o ladro. Estava quase nu, tinha tremuras, queria aliviar a perna dolorida, razes bastantes para que lhe dessem a primazia. Foi indo de cama em cama, apalpando 
o cho  procura da mala, e quando a reconheceu disse em voz alta, C est, e acrescentou, Catorze, De que lado, perguntou a mulher do mdico, Esquerdo, respondeu, 
outra vez vagamente surpreendido, como se ela devesse sab-lo sem ter de perguntar. O primeiro cego foi a seguir. Sabia que a sua cama era a segunda a contar do 
ladro, do mesmo lado. J no tinha medo de dormir perto dele, com a perna em to msero estado, a julgar pelos queixumes e suspiros, o outro mal se poderia mexer. 
Disse quando chegou, Dezasseis, esquerdo, e deitou-se vestido. Ento a rapariga dos culos escuros pediu em voz baixa, Ajudem-nos a ficar perto dos senhores, em 
frente, do outro lado, a estaramos bem. Avanaram juntos os quatro e rapidamente se instalaram. Passados minutos o rapazito estrbico disse, Tenho fome, e a rapariga 
dos culos escuros murmurou, Amanh, amanh comemos, agora vais dormir. Depois abriu a mala de mo, procurou o frasquinho que comprara na farmcia. Tirou os culos, 
inclinou a cabea para trs e, com os olhos muito abertos, guiando uma mo com a outra, fez pingar o colrio. Nem todas as gotas caram nos olhos, mas a conjuntivite, 
assim to bem tratada, no tardar a curar-se.
     
     Tenho de abrir os olhos, pensou a mulher do mdico. Atravs das plpebras fechadas, quando por vrias vezes acordou durante a noite, percebera a mortia claridade 
das lmpadas que mal iluminavam a camarata. mas agora parecia-lhe notar uma diferena, uma outra presena luminosa, poderia ser o efeito do primeiro lusco-fusco 
da madrugada, poderia ser j o mar de leite a afogar-lhe os olhos. Disse a si mesma que ia contar at dez e que no fim da contagem descerraria as plpebras, duas 
vezes o disse, duas vezes contou, duas vezes no as abriu. Ouvia a respirao profunda do marido na cama ao lado, o ressonar de algum, Como estar a perna daquele, 
perguntou-se, mas sabia que neste momento no se tratava de uma compaixo verdadeira, o que queria era fingir outra preocupao, o que queria era no ter de abrir 
os olhos. Abriram-se no instante seguinte, simplesmente, no porque o tivesse decidido. Pelas janelas, que comeavam a meia altura da parede e terminavam a um palmo 
do tecto, entrava a luz baa e azulada do amanhecer. No estou cega, murmurou, e logo alarmada se soergueu na cama, podia t-la ouvido a rapariga dos culos escuros 
que ocupava o catre defronte. Dormia. Na cama ao lado, a que se encostava  parede, o rapazinho dormia tambm, Fez como eu, pensou a mulher do mdico, deu-lhe o 
lugar mais protegido, bem fracas muralhas seramos, s uma pedra no meio do caminho, sem outra esperana que a de tropear nela.
     O inimigo, amigo, que inimigo, aqui ningum nos vir atacar, podamos ter roubado e assassinado l fora que no nos viriam prender. nunca aquele que roubou 
o carro esteve to seguro da sua liberdade to longe estamos do mundo que no tarda que comecemos a no saber quem somos. nem nos lembrmos sequer de dizer-nos como 
nos chamamos, e para qu. para que iriam servir-nos os nomes nenhum co reconhece outro co ou se lhe d a conhecer. pelos nomes que lhes foram postos,  pelo cheiro 
que identifica e se d a identificar ns aqui somos como uma outra raa de ces, conhecemo-nos pelo ladrar, pelo falar, o resto feies, cor dos olhos, da pele, 
do cabelo, no conta,  como se no existisse, eu ainda vejo, mas at quando. A luz variou um pouco, no podia ser a noite a voltar atrs, seria o cu a cobrir-se 
de nuvens, a atrasar a manh. Da cama do ladro veio um gemido, Se a ferida infectou, pensou a mulher do mdico, no temos nada para o tratar, nenhum recurso, o 
mais pequeno acidente, nestas condies, pode dar em tragdia. provavelmente  disso mesmo que eles esto  espera, que acabemos aqui uns atrs dos outros, morrendo 
o bicho acaba- se a peonha. A mulher do mdico levantou-se da cama, debruou-se para o marido, ia acord-lo, mas no teve coragem para arranc-lo ao sono e saber 
que continuava cego. Descala, p ante p, foi at  cama do ladro. Tinha os olhos abertos, fixos. Como se sente, sussurrou a mulher do mdico. O ladro moveu a 
cabea na direco da voz e disse, Mal, a perna di-me muito, ela ia a dizer-lhe, Deixe-me ver, mas calou-se a tempo. Que imprudncia, ele  que no se lembrou de 
que ali no havia mais do que cegos procedeu sem pensar, como o teria feito ainda h poucas horas, l fora, se um mdico lhe dissesse Mostre l isso e levantou a 
manta. Mesmo naquela penumbra, quem tivesse alguma serventia de olhos podia ver o colcho empapado de sangue, o buraco negro da ferida com os bordos inchados. A 
atadura deslaara-se. A mulher do mdico baixou cuidadosamente a manta, depois, com um gesto leve e rpido passou a mo pela testa do homem. A pele, seca, ardia. 
A luz variou outra vez, foram as nuvens que se afastaram. A mulher do mdico voltou para o seu catre, mas j no se deitou. Olhava o marido que murmurava sonhando, 
os vultos dos outros debaixo dos cobertores cinzentos, as paredes sujas. as camas vazias  espera, e serenamente desejou estar cega tambm, atravessar a pele visvel 
das coisas e passar para o lado de dentro delas, para a sua fulgurante e irremedivel cegueira.
     
     De sbito, vindo do exterior da camarata, provavelmente do trio que separava as duas alas frontais do edifcio ouviu-se um rudo de vozes violentas, Fora, 
fora, Saiam, Desapaream, Aqui no podem ficar, Tm de cumprir as ordens. O tumulto cresceu, diminuiu, uma porta fechou-se com estrondo, agora s se ouvia algum 
soluo de aflio, o barulho inconfundvel de algum que acaba de tropear. Na camarata estavam todos acordados. Viravam a cabea para o lado da entrada, no precisavam 
ver para saber que eram cegos os que iam entrar. A mulher do mdico levantou-se, por sua vontade iria ajudar os recm-chegados, dizer-lhes uma palavra simptica, 
gui-los at aos catres, informar, Tome nota, este  o sete do lado esquerdo, este  o quatro do lado direito, no se engane, sim, aqui estamos seis, viemos ontem, 
sim, fomos os primeiros, os nomes, que importa os nomes, um, acho que roubou, outro, que foi roubado, h uma rapariga misteriosa de culos escuros que pe colrio 
nos olhos para se tratar de uma conjuntivite, como sei eu, estando cega, que so escuros os culos, ora, o meu marido  oftalmologista e ela foi ao consultrio, 
sim, ele tambm c est, tocou a todos, h  verdade, h o rapazito que  estrbico. No se mexeu, s disse ao marido, Esto a chegar.
     O mdico saiu da cama, a mulher ajudou-o a vestir as calas, no tinha importncia, ningum podia ver, nesse momento comearam a entrar os cegos, eram cinco, 
trs homens e duas mulheres. O mdico disse, levantando a voz, Tenham calma, no se precipitem, aqui somos seis pessoas, vs quantos sois, h lugar para todos. Eles 
no sabiam quantos eram,  certo que se tinham tocado uns aos outros, s vezes de encontro, enquanto eram empurrados da ala esquerda para esta, mas no sabiam quantos 
eram. ~ no traziam bagagem. Quando l na camarata acordaram cegos, e comearam por isso a lamentar-se, os outros puseram-nos logo fora sem contemplaes, sem lhes 
darem ao menos tempo para se despedirem de algum parente ou amigo que com eles estivesse. Disse a mulher do mdico, O melhor ser que se vo numerando e dizendo 
cada um quem . Parados, os cegos hesitaram, mas algum tinha de principiar, dois dos homens falaram simultaneamente e, sempre acontece, os dois se calaram, e foi 
o terceiro quem comeou, Um, fez uma pausa, parecia que ia a dizer o nome, mas o que disse foi. Sou polcia. e a mulher do mdico pensou, No disse como se chama, 
tambm saber que aqui no tem importncia. J outro homem se apresentava, Dois, e seguiu o exemplo do parceiro, Sou motorista de txi. O terceiro homem disse, Trs, 
sou ajudante de farmcia. Depois, uma mulher, Quatro, sou criada de hotel, e a ltima, Cinco, sou empregada de escritrio.  a minha mulher, a minha mulher, gritou 
o primeiro cego, onde ests, diz-me onde ests, Aqui, estou aqui, dizia ela chorando e caminhando trmula pela coxia, com os olhos arregalados, as mos lutando contra 
o mar de leite que por eles entrava. Mais seguro, ele avanou para ela, Onde ests, onde ests, agora murmurava como se rezasse. Uma mo encontrou a outra, no instante 
seguinte estavam abraados, eram um corpo s, os beijos procuravam os beijos, s vezes perdiam-se no ar porque no sabiam onde estavam as faces, os olhos, a boca. 
A mulher do mdico agarrou-se ao marido, soluando, como se tambm o tivesse reencontrado, mas o que dizia era, Que desgraa a nossa, que fatalidade. Ento ouviu-se 
a voz do rapazinho estrbico a perguntar, Tambm est c a minha me. Sentada na cama dele, a rapariga dos culos escuros murmurou, H-de vir, no te preocupes, 
que ela h-de vir.
     
     Aqui, a verdadeira casa de cada um  o stio onde dorme, por isso no se dever estranhar que o primeiro cuidado dos recm-chegados tenha sido escolher a cama, 
tal como na outra camarata tinham feito, quando ainda tinham olhos para ver. No caso da mulher do primeiro cego no podia haver dvidas, o seu lugar prprio e natural 
era ao lado do marido, na cama dezassete, deixando a dezoito de permeio, como um espao vazio a separ-la da rapariga dos culos escuros. Tambm no surpreender 
que busquem todos estar juntos o mais possvel, h por aqui muitas afinidades, umas que j so conhecidas, outras que agora mesmo se revelaro, por exemplo, o ajudante 
de farmcia foi quem vendeu o colrio  rapariga dos culos escuros, no txi do motorista foi o primeiro cego ao mdico, este que disse ser polcia encontrou o ladro 
cego a chorar como uma criana perdida, e quanto  criada do hotel, foi ela a primeira pessoa a entrar no quarto quando a rapariga dos culos escuros desatou aos 
gritos. E contudo certo que nem todas estas afinidades se tornaro explcitas e conhecidas, seja por falta de ocasio, seja porque nem se imaginou que pudessem existir, 
seja por uma simples questo de sensibilidade e tacto. A criada do hotel no sonhar que est aqui a mulher a quem viu nua, do ajudante de farmcia se sabe que atendeu 
outros clientes que levavam culos escuros postos e que compraram colrios, ao polcia ningum cometer a imprudncia de denunciar a presena de um tipo que roubou 
um automvel, o motorista juraria que nestes ltimos dias no transportou nenhum cego no seu txi.
     Naturalmente, o primeiro cego j disse  mulher, em voz sussurrada, que um dos internados  o patife que lhes levou o carro, Imagina tu a coincidncia, mas, 
como entretanto tinha sabido que o pobre diabo est mal do ferimento da perna, teve a generosidade de acrescentar, Basta para o seu castigo. E ela, por causa da 
grande tristeza de estar cega e da grande alegria de ter recuperado o marido, a alegria e a tristeza podem andar unidas, no so como a gua e o azeite, nem se lembrou 
do que tinha dito dois dias antes, que daria um ano de vida para que o malandro, palavra sua, cegasse. E se alguma ltima sombra de rancor ainda lhe andava a turvar 
o esprito, de certeza se dissipou quando o ferido gemeu lastimosamente, Senhor doutor, por favor, ajude-me. Deixando-se guiar pela mulher, o mdico tocava-lhe delicadamente 
os bordos da ferida, nada mais podia fazer, nem mesmo valia a pena lav-la, a infeco tanto poderia ter como origem a estocada profunda de um taco de sapato que 
tinha estado em contacto com o solo nas ruas e aqui dentro, como de agentes patognicos com grande probabilidade existentes na gua choca, meio morta, sada de canalizaes 
antigas e em mau estado. A rapariga dos culos, que se tinha levantado ao ouvir o gemido, veio-se chegando devagar, contando as camas. Inclinou-se para a frente, 
estendeu a mo, que roou a cara da mulher do mdico, e depois, tendo alcanado, sem saber como, a mo do ferido, que queimava, disse pesarosa, Peo-lhe perdo, 
a culpa foi toda minha, no era preciso fazer o que fiz, Deixe l, respondeu o homem, so coisas que acontecem na vida, eu tambm fiz o que no devia ser feito.
     
     Quase cobrindo as ltimas palavras, ouviu-se a voz spera do altifalante, Ateno, ateno, avisa-se que a comida foi posta  entrada, assim como os produtos 
de higiene e limpeza, saem os cegos primeiro a recolher, a ala dos contaminados ser informada quando for a sua altura, ateno, ateno, a comida foi posta  entrada, 
saem primeiro os cegos, os cegos primeiro. Confundido pela febre, o ferido no percebeu todas as palavras, julgou que estavam a mand-los sair, que a recluso tinha 
terminado, e fez um movimento para levantar-se, mas a mulher do mdico reteve-o, Aonde vai, No ouviu, perguntou ele, disseram que safassem os cegos, Sim, mas foi 
para irmos recolher a comida. O ferido fez, Ah, desalentado, e sentiu outra vez a dor a revolver-lhe as carnes. Disse o mdico, Fiquem aqui, eu irei, Vou contigo, 
disse a mulher. Quando iam a sair da camarata, um dos que tinham vindo da outra ala perguntou, Quem  este, a resposta veio do primeiro cego,  mdico, um mdico 
dos olhos, Esta  das melhores que ouvi na vida, disse o motorista, logo nos havia de ter sado na rifa o nico mdico que no nos vai servir para nada, Tambm nos 
saiu na rifa um motorista que no nos levar a parte nenhuma, ripostou com sarcasmo a rapariga dos culos escuros.
     
     A caixa com a comida estava no trio. O mdico pediu  mulher, Guia-me at  porta de entrada, Para qu, Vou dizer-lhes que temos aqui uma pessoa com uma infeco 
grave e que no h remdios, Lembra-te do aviso, Sim, mas talvez que perante um caso concreto, Duvido, Eu tambm, mas a nossa obrigao  tentar. No patamar exterior 
a luz do dia estonteou a mulher, e no porque fosse demasiado intensa, no cu estavam passando nuvens escuras, talvez estivesse para chover, Em to pouco tempo perdi 
o costume da claridade, pensou. No mesmo instante um soldado gritava-lhes do porto, Alto, voltem j para trs, tenho ordens para disparar, e logo, no mesmo tom, 
apontando a arma, Nosso sargento, esto aqui uns gajos que querem sair, No queremos sair, negou o mdico, O meu conselho  que realmente no queiram, disse o sargento 
enquanto se aproximava, e, assomando por trs das grades do porto, perguntou, Que se passa, Uma pessoa que se feriu numa perna apresenta uma infeco declarada, 
necessitamos imediatamente antibiticos e outros medicamentos, As ordens que tenho so muito claras, sair, no sai ningum, entrar, s comida, Se a infeco se agravar, 
que ser o mais certo, o caso pode rapidamente tornar-se fatal, Isso no  comigo, Ento comunique com os seus superiores, Olhe l,  ceguinho, quem lhe vai comunicar 
uma coisa a si sou eu, ou voc e essa voltam agora mesmo para donde vieram, ou levam um tiro, Vamos, disse a mulher, no h nada a fazer, eles nem tm culpa, esto 
cheios de medo e obedecem a ordens, No quero acreditar que isto esteja a acontecer,  contra todas as regras de humanidade,  melhor que acredites, porque nunca 
te encontraste diante de uma verdade to evidente, Ainda a esto, gritou o sargento, vou contar at trs, se s trs no tiverem desaparecido da minha vista podem 
ter como certo que no chegaro a entrar, uuum, dooois, trs, ora a est, foram palavras abenoadas, e para os soldados, Nem que fosse um irmo meu, no explicou 
a quem se referia, se ao homem que viera pedir os medicamentos ou ao outro da perna infectada. Dentro, o ferido quis saber se iam deixar entrar remdios, Como sabe 
que fui pedir remdios, perguntou o mdico, Calculei, o senhor  mdico, Tenho muita pena, Isso quer dizer que os remdios no vm, Sim, Ah, bem.
     
     A comida sido tinha calculada  justa para cinco pessoas Havia garrafas de leite e bolachas porm quem calculara as raes tinha-se esquecido dos copos. pratos 
tambm no havia, nem talheres, viriam provavelmente com a comida do almoo A mulher do mdico foi dar de beber ao ferido mas ele vomitou O motorista protestou que 
no gostava de leite. quis saber se no haveria caf. Alguns. depois de terem comido, tornaram a deitar-se, o primeiro cego levou a mulher a conhecer os stios. 
foram os nicos que saram da camarata O ajudante de farmcia pediu licena para falar com o senhor doutor, gostaria que o senhor doutor lhe dissesse se tinha, sobre 
a doena, uma opinio formada, no creio que se lhe possa chamar. em sentido prprio, uma doena, comeou por precisar o mdico e depois. simplificando muito, resumiu 
o que investigara nos livros antes de ter cegado Algumas camas adiante, o motorista escutava com ateno, e quando o mdico terminou o seu relato, disse de l, Aposto 
que o que sucedeu foi terem-se entupido os canais que vo dos olhos at aos miolos, Forte besta, resmungou indignado o ajudante de farmcia. Quem sabe, o mdico 
sorriu sem querer, na verdade os olhos no so mais do que umas lentes, umas objectivas. O crebro  que realmente v, tal como na pelcula a imagem aparece. e se 
os canais se entupiram, como disse aquele senhor,  o mesmo que um carburador, se a gasolina no conseguir l chegar, o motor no trabalha e o carro no anda. Nada 
mais simples, como v, disse o mdico ao ajudante de farmcia E quanto tempo acha o senhor doutor que ainda vamos continuar aqui, perguntou a criada do hotel, Pelo 
menos enquanto estivermos sem poder ver, E isso quanto tempo ser, Francamente, no penso que algum o saiba, E  uma coisa passageira, ou vai ser para sempre, Quem 
me dera a mim sab-lo A criada suspirou e disse passados uns momentos, Eu tambm gostava de saber o que sucedeu quela rapariga. Que rapariga, perguntou o ajudante 
de farmcia, A do hotel, que impresso me fez, ali no meio do quarto, nua como veio ao mundo, s tinha uns culos escuros postos. e a gritar que estava cega, o mais 
certo foi ela ter-me pegado a cegueira. A mulher do mdico olhou, viu a rapariga tirar os culos devagar, a disfarar o movimento, depois meteu-os debaixo do travesseiro, 
enquanto perguntava ao rapazinho estrbico, Queres outra bolacha. Pela primeira vez, desde que aqui entrara, a mulher do mdico sentiu-se como se estivesse por trs 
de um microscpio a observar o comportamento de uns seres que no podiam nem sequer suspeitar da sua presena, e isto pareceu-lhe subitamente indigno, obsceno, No 
tenho o direitode olhar se os outros no me podem olhar a mim, pensou. Com a mo trmula, a rapariga punha algumas gotas do seu colrio. Assim sempre poderia dizer 
que no eram lgrimas o que lhe estava escorrendo dos olhos.
     
     Quando horas depois o altifalante anunciou que se podia ir recolher a comida do almoo, o primeiro cego e o motorista declararam-se voluntrios para uma misso 
em que de facto os olhos no eram indispensveis, bastava o tacto. As caixas estavam longe da porta que ligava o trio ao corredor, para encontr-las tiveram de 
caminhar de gatas, varrendo o cho adiante com um brao estendido, enquanto o outro fazia de terceira pata, e s no tiveram dificuldade em regressar  camarata 
porque a mulher do mdico havia tido a ideia, que cuidadosamente justificou aduzindo a sua prpria experincia, de rasgar em tiras um cobertor, fazendo com elas 
uma espcie de corda, uma ponta da qual estaria sempre presa ao puxador exterior da porta da camarata, enquanto a outra seria atada de cada vez ao tornozelo de quem 
tivesse de sair para ir buscar a comida. Foram os dois homens, vieram os pratos e os talheres, mas os alimentos continuavam a ser para cinco, o mais provvel  que 
o sargento que comandava o piquete da guarda no soubesse que havia ali mais seis cegos, uma vez que de fora do porto, mesmo estando atento ao que estivesse a acontecer 
no lado de dentro da porta principal, s por casualidade, na sombra do trio, se veriam passar as pessoas de uma ala para a outra. O motorista ofereceu-se para ir 
reclamar a comida que faltava, e foi sozinho, no quis companhia, Que no somos cinco, somos onze, gritou para os soldados, e o mesmo sargento respondeu de l, Descansem, 
que ho-de ser muitos mais, disse-o num tom que devia ter parecido chocarreiro ao motorista, se tivermos em conta as palavras que este disse quando voltou para a 
camarata, Era como se estivesse a gozar comigo. Repartiram a comida, cinco raes divididas por dez, porquanto o ferido continuava a no querer comer, s pedia gua, 
que lhe molhassem a boca, por favor. A pele dele escaldava. Como no podia suportar muito tempo o contacto e o peso da manta sobre a ferida, de vez em quando descobria 
a perna, mas o frio ar da camarata obrigava-o, da a nada, a tapar-se novamente, e nisto levava as horas. Gemia a intervalos regulares, com uma espcie de arranco 
sufocado, como se a dor, constante, firme, subitamente tivesse crescido antes que ele a pudesse agarrar e suster no limite do suportvel.
     
     A meio da tarde entraram mais trs cegos, expulsos da outra ala . Um deles era a empregada do consultrio, que a mulher do mdico reconheceu logo, e os outros, 
assim o tinha determinado o destino, eram o homem que estivera com a rapariga dos culos escuros no hotel e aquele polcia grosseiro que a levou a casa. S tiveram 
tempo para alcanar as camas e sentar-se nelas, ao acaso, a empregada do consultrio chorava desesperadamente, os dois homens calavam-se, como se ainda no pudessem 
perceber o que lhes sucedera. Subitamente, ouviu-se, vindo da rua, uma confuso de gritos, ordens dadas aos berros, uma vozearia revolta. Os cegos da camarata viraram 
todos a cara para o lado da porta,  espera. No podiam ver, mas sabiam o que iria acontecer nos minutos seguintes. A mulher do mdico, sentada na cama, ao lado 
do marido, disse em voz baixa, Tinha de ser. o inferno prometido vai principiar. Ele apertou-lhe a mo e murmurou, No te afastes, daqui em diante nada poders fazer. 
Os gritos tinham diminudo, agora ouviam-se rudos confusos no trio, eram os cegos, trazidos em rebanho, que esbarravam uns nos outros, comprimiam-se no vo das 
portas, uns poucos perderam o sentido e foram parar a outras camaratas, mas a maioria, aos tropees, agarrados em cachos ou disparados um a um, agitando aflitivamente 
as mos em jeito de quem est a afogar-se, entraram na camarata em turbilho, como se viessem a ser empurrados de fora por uma mquina arroladora. Uns quantos caram, 
foram pisados. Apertados na coxia estreita, os cegos, aos poucos, iam-se desbordando para os espaos entre os catres, e a, como barco que em meio do temporal logrou 
enfim entrar no porto, tomavam posse do seu fundeadouro pessoal, que era a cama, e protestavam que j no cabia mais ningum, que os atrasados fossem  procurar noutro 
stio. L do fundo, o mdico gritou que havia mais camaratas, mas os poucos que ficaram sem cama tinham medo de perder-se no labirinto que imaginavam, salas, corredores, 
portas fechadas, escadas que s se revelariam no ltimo momento. Por fim, compreenderam que no poderiam continuar ali e, buscando penosamente a porta por onde haviam 
entrado, aventuraram-se no desconhecido. Como que procurando um ltimo e ainda seguro refgio, os cegos do segundo grupo, o de cinco, tinham podido ocupar os catres 
que, entre eles e os do primeiro grupo, tinham ficado vazios. S o ferido ficou isolado, sem proteco, na cama catorze, lado esquerdo.
     
     Um quarto de hora depois, tirando uns choros, umas queixas, uns rumores discretos de arrumao, a calma, no a tranquilidade, voltou  camarata. Todos os catres 
estavam agora ocupados. A tarde chegava ao fim, as lmpadas mortias pareceram ganhar fora. Ento ouviu-se a voz seca do altifalante. Tal como fora anunciado no 
primeiro dia. Estavam a ser repetidas as instrues sobre o funcionamento das camaratas e as regras a que os internados deveriam obedecer, O Governo lamenta ter 
sido forado a exercer energicamente o que considera ser seu direito e seu dever, proteger por todos os meios as populaes na crise que estamos a atravessar, etc., 
etc. Quando a voz se calou, levantou-se um coro indignado de protestos, Estamos fechados, Vamos morrer aqui todos, No h direito, Onde esto os mdicos que nos 
tinham prometido, isto era novidade, as autoridades tinham prometido mdicos. assistncia. talvez mesmo a cura completa. O mdico no disse que se precisassem de 
Uill mdico o tinham ali a ele. Nunca mais o diria. A um mdico no bastam as mos. um mdico cura com frmacos. drogas, compostos qumicos. combinaes disto e 
daquilo, e aqui no h rasto deles, nem a esperana de os conseguir. No tinha sequer olhos para notar uma palidez, para observar um rubor da circulao perifrica, 
quantas vezes, sem necessidade de mais minuciosos exames, esses sinais exteriores equivaliam a uma histria clnica completa. ou a colorao das mucosas e dos pigmentos, 
com altssima probabilidade de acerto. Desta no escapas. Como os catres prximos estavam todos ocupados, a mulher j no podia ir-lhe contando o que se passava, 
mas ele percebia o ambiente carregado, tenso, a roar j a aspereza de Usil conflito, que se havia criado desde a chegada dos ltimos cegos. At a atmosfera da camarata 
parecia ter-se tornado mais espessa, rolando cheiros grossos e lentos, com sbitas correntes nauseabundas, Como ser isto dentro de uma semana, perguntou-se, e teve 
medo de imaginar que dali a uma semana ainda estariam encerrados neste lugar, Supondo que no haver dificuldades com o abastecimento de comida, e no  certo que 
no as haja, duvido, por exemplo, que a gente l de fora saiba em cada momento quantos vamos sendo aqui, a questo  como iro resolver-se os problemas da higiene, 
j no falo de como nos lavaremos, cegos de poucos dias e sem ajuda de ningum, e se os duches funcionaro e por quanto tempo. falo do resto, dos restos, um s entupimento 
das sentinas, um s que seja, e isto transforma-se numa cloaca. Esfregou a cara com as mos, sentiu a aspereza da barba de trs dias,  prefervel assim, espero 
que no tenham a m ideia de nos mandarem lminas nem tesouras. Tinha dentro da mala tudo quanto necessitaria para fazer a barba, mas estava consciente de que seria 
um erro faz-lo, E onde, onde. no aqui na camarata, no meio de toda esta gente,  certo que ela poderia barbear-me, mas no tardaria que os outros se apercebessem 
e estranhassem haver algum capaz de prestar estes cuidados, e l dentro. nos duches, aquela confuso meu Deus, a falta que os olhos nos fazem ver, ver, ainda que 
no fosse mais que umas vagas sombras, estar diante de um espelho, olhar uma mancha escura difusa e poder dizer, Ali est a minha cara, o que tiver luz no me pertence.
     
     Os protestos cessaram pouco a pouco. algum vindo de outra camarata apareceu a perguntar se havia um resto de comida, quem lhe respondeu foi o motorista de 
txi, Nem migalha, e o ajudante de farmcia, para mostrar boa vontade, adoou a negativa peremptria, Pode ser que ainda venha. No viria. A noite fechou-se completamente. 
De fora, nem comida, nem palavras. Ouviram-se gritos na camarata ao lado, depois fez-se silncio, se algum chorava fazia-o baixinho, o choro no atravessava as 
paredes. A mulher do mdico foi ver como se encontrava o doente, Sou eu, disse-lhe, e levantou cuidadosamente a manta. A perna tinha um aspecto assustador, inchada 
toda por igual desde a coxa, e a ferida, um crculo negro com laivos arroxeados, sanguinolentos, alargara-se muito, como se a carne tivesse sido repuxada de dentro. 
Desprendia um cheiro ao mesmo tempo ftido e adocicado. Como se sente, perguntou a mulher do mdico, Obrigado por c ter vindo, Diga-me como se sente, Mal, Tem dores, 
Sim, e no, Explique melhor, Di-me, mas  como se a perna no fosse minha, est como separada do corpo, no lhe sei explicar,  uma impresso esquisita, como se 
estivesse aqui deitado a ver a perna a doer-me, Isso  da febre, Ser, Agora faa por dormir. A mulher do mdico ps-lhe a mo na testa, depois fez o movimento de 
retirar-se, mas no teve tempo nem de dar as boas noites, o doente agarrou-a por um brao e puxou-a para si, obrigando-a a aproximar a cara, Eu sei que a senhora 
v, disse numa voz muito baixa. A mulher do mdico estremeceu de surpresa, e murmurou, Est enganado, aonde  que foi buscar essa ideia, vejo tanto como qualquer 
dos que aqui esto, No me queira enganar a senhora, eu bem sei que v, mas esteja descansada que no digo a ningum, Durma, durma, No tem confiana em mim, Tenho, 
No se fia da palavra de um gatuno, J lhe disse que tenho confiana, Ento por que no me diz a verdade, Amanh falamos, agora durma, Pois sim, amanh, se l chegar, 
No devemos pensar o pior, Eu penso, ou ento  a febre que est a pensar por mim. A mulher do mdico voltou para junto do marido e sussurrou-lhe ao ouvido. A ferida 
tem um aspecto horrvel, ser gangrena, Em to pouco tempo, no me parece provvel, Seja como for, est muito mal, E ns aqui, disse o mdico numa voz de propsito 
audvel, no chega estarmos cegos,  como se nos tivessem atado de ps e mos. Da cama catorze, lado esquerdo, o doente respondeu, A mim no me h-de atar ningum, 
senhor doutor.
     
     As horas foram passando, um aps outro os cegos adormeceram. Alguns tinham tapado a cabea com a manta, como se desejassem que a escurido, uma autntica, uma 
negra escurido, pudesse apagar definitivamente os sis embaciados em que os seus olhos se haviam tornado. As trs lmpadas, suspensas do tecto alto, fora do alcance, 
derramavam sobre os catres uma luz suja, amarelada, que nem era capaz de produzir sombras. Quarenta pessoas dormiam ou tentavam desesperamente adormecer, algumas 
suspiravam e murmuravam em sonhos, talvez vissem no sonho aquilo com que sonhavam, talvez dissessem, Se isto  um sonho, no quero acordar. Os relgios de todos 
eles estavam parados, tinham-se esquecido de lhes dar corda ou acharam que j no valia a pena, s o da mulher do mdico continuava a trabalhar. Passava das trs 
da madrugada. Adiante, muito lentamente, apoiando-se nos cotovelos, o ladro do carro soergueu o tronco. No sentia a perna, s a dor estava l, o resto deixara 
de pertencer-lhe. Estava rgida a articulao do joelho. Rolou o corpo para o lado da perna s, que deixou pender para fora da cama, depois, com as mos juntas por 
debaixo da coxa, tentou mover no mesmo sentido a perna ferida. Como uma matilha de lobos acordados subitamente, as dores correram em todas as direces para logo 
a seguir voltarem  cratera soturna em que se alimentavam. Apoiando-se nas mos, foi arrastando aos poucos o corpo pelo colcho, na direco da coxia. Quando alcanou 
o alado dos ps da cama, teve de descansar. Respirava com dificuldade, como se sofresse de asma, a cabea oscilava-lhe sobre os ombros, mal podia suster-se neles. 
Ao cabo de uns minutos, a respirao tornou-se mais regular, e ele comeou a levantar-se lentamente, apoiado na perna boa. Sabia que a outra de nada lhe iria servir, 
que teria de arrast-la atrs de si l aonde fosse. Sentiu uma tontura, um tremor irreprimvel atravessou-lhe o corpo, o frio e a febre fizeram-lhe entrechocar os 
dentes. Amparando-se aos ferros das camas, passando de uma para outra como uma laadeira, foi avanando entre os adormecidos. Puxava, como um saco, a perna ferida.
     Ningum deu por ele, ningum lhe perguntou, Aonde vai voc a estas horas, se algum o tivesse feito sabia como haveria de responder, Vou mijar, diria, o que 
no queria era que fosse a mulher do mdico a cham-lo, a ela no poderia enganar, mentir-lhe, teria de lhe dizer a ideia que levava na cabea, No posso continuar 
aqui a apodrecer, reconheo que o seu marido fez o que estava ao seu alcance, mas quando eu tinha de roubar um carro no ia pedir a outro que o roubasse por mim, 
agora  o mesmo, eu  que l tenho de ir, quando eles me virem neste estado percebero logo que estou mal, metem-me numa ambulncia e levam-me ao hospital, de certeza 
que h hospitais s para cegos, um mais no lhes faz diferena, depois tratam-me da perna, curam-me, ouvi dizer que  o que se faz com os condenados  morte, se 
tm uma apendicite operam-nos e s depois  que os matam, para que morram com sade, c por mim, se quiserem, podem depois tornar a trazer-me para aqui, que no 
me importa. Avanou mais, cerrando os dentes para no gemer, s no pde reprimir um soluo de agonia quando, chegado ao extremo da fila, se desequilibrou. Errara 
a contagem das camas, esperava que houvesse ainda uma, e era j o vazio. Cado no cho, no se mexeu at ter a certeza de que ningum tinha acordado com o barulho 
da queda. Depois achou que a posio convinha perfeitamente a um cego, se avanasse de gatas poderia encontrar com mais facilidade o caminho. Foi-se arrastando assim 
at alcanar o trio, a parou para pensar no procedimento que deveria seguir, se seria melhor chamar da porta, se acercar-se  grade, aproveitando a corda que tinha 
servido de corrimo e que de certeza ainda l estaria. Sabia muito bem que se chamasse dali a pedir ajuda o mandariam imediatamente voltar para trs, mas a alternativa 
de ter como nico socorro, depois do que, apesar do apoio slido das camas, havia sofrido, uma corda bamba, oscilante, f-lo duvidar. Passados uns minutos julgou 
ter encontrado a soluo, Vou andando de gatas, pensou, ponho-me debaixo da corda, de vez em quando levanto a mo para ver se vou no bom caminho, isto  o mesmo 
que roubar um carro, sempre se encontra a maneira. De sbito, sem que ele contasse, a conscincia acordou e censurou-o asperamente por ter sido capaz de roubar o 
automvel a um pobre cego, Se agora estou nesta situao, argumentou ele, no foi por lhe ter roubado o carro, mas por ter ido acompanh-lo a casa, esse  que foi 
o meu grande erro. No estava a conscincia para debates casusticos, as suas razes eram simples e claras, Um cego  sagrado, a um cego no se rouba, Tecnicamente 
falando, no o roubei, nem ele tinha o carro no bolso, nem eu lhe apontei uma pistola  cara, defendeu-se o acusado, Deixa-te de sofismas, resmungou a conscincia, 
e vai l aonde tens de ir.
     
     O ar frio da madrugada refrescou-lhe a cara. Que bem se respira c fora. pensou. Pareceu-lhe notar que a perna lhe doa muito menos, porm isto no o surpreendeu, 
j antes, por mais que uma vez, acontecera o mesmo. Estava no patamar exterior, no tardaria em chegar aos degraus, Vai ser o mais complicado, pensou, descer com 
a cabea para a frente. Levantou um brao para certificar-se de que a corda estava l, e avanou. Tal como previra, no era fcil passar de um degrau para outro, 
sobretudo por causa da perna, que no o ajudava, e a prova teve-a logo, quando, a meio da escada, por ter uma das mos resvalado num degrau, o corpo descaiu todo 
para um lado e foi arrastado pelo peso morto da maldita perna. As dores voltaram instantaneamente, com as serras, com as brocas, com os martelos, nem ele soube como 
conseguiu no gritar. Durante longos minutos ficou estendi do de bruos, com a cara assente no cho. Um vento rpido, rasteiro, f-lo tiritar. No trazia no corpo 
mais que a camisa e as cuecas. A ferida estava, toda ela, em contacto com a terra, e ele pensou, Pode infectar-se, era um pensa mento estpido, no se lembrou de 
que a vinha arrastando assim desde e camarata, Bom, no tem importncia, eles vo tratar-me antes que ela se infecte, pensou depois, para tranquilizar-se, e ps-se 
de lado para melhor alcanar a corda. No a encontrou logo. Tinha-se esquecido de que ficara em posio perpendicular a ela quando rebolou pela escada, mas o instinto 
f-lo permanecer onde estava. Depois foi o raciocnio que o orientou a sentar-se e a mover-se lentamente at tocar com os rins no primeiro degrau, e foi com um sentimento 
exultante de vitria que sentiu a aspereza da corda na mo levantada. Provavelmente foi tambm esse sentimento que o levou a descobrir, logo a seguir, a maneira 
de se deslocar sem que a ferida roasse no cho, pr-se de costas para onde estava o porto e, usando os braos como muletas, como faziam dantes os estropiados das 
pernas, deslocar, em pequenos movimentos, o corpo sentado. Para trs, sim, por que, neste caso como em outros, puxar era bem mais fcil que empurrar. A perna, assim, 
no sofria tanto, alm de que o suave declive do terreno, descaindo em direco  sada, ajudava. Quanto  corda, no havia perigo de a perder, quase que lhe tocava 
com a cabea. Perguntava-se se ainda lhe faltaria muito para chegar ao porto, no era o mesmo ir por seu p, melhor ainda se pelos dois, e avanar s arrecuas, 
em deslocaes de meio palmo ou menos. Esquecido, por um instante, de que estava cego, virou a cabea como para certificar-se do que Ihe faltava percorrer e encontrou 
na sua frente a mesma brancura sem fundo. Ser noite, ser dia. perguntou-se, bom, se fosse dia j me teriam visto, alm disso s houve um pequeno-almoo e foi h 
muitas horas. Assombrava-o o esprito lgico que estava descobrindo na sua pessoa, a rapidez e o acerto dos raciocnios, via-se a si mesmo diferente, outro homem, 
e se no fosse este azar da perna estaria disposto a jurar que nunca em toda a sua vida se sentira to bem. As costas bateram na parte inferior, chapeada. do porto. 
Chegara. Metido na guarita para proteger-se do frio, ao soldado de sentinela tinha-lhe parecido ouvir uns ligeiros rudos que no conseguira identificar, de todo 
o modo no pensou que pudessem vir de dentro, teria sido o ramalhar breve das rvores, uma ramagem que o vento fizesse roar de leve na grade. Outro rudo lhe chegou 
de sbito aos ouvidos, mas este foi diferente, uma pancada, um choque, para ser mais preciso, no podia ser obra de vento. Nervoso, o soldado saiu da guarita engatilhando 
a espingarda automtica e olhou na direco do porto. No viu nada. O rudo, porm, voltara, mais forte, agora era como o de
     unhas raspando numa superfcie rugosa. A chapa do porto, pensou. Deu um passo para a tenda de campanha onde o sargento dormia. mas reteve-o o pensamento de 
que se desse falso alarme teria de ouvir das boas, os sargentos no gostam que os acordem, mesmo quando haja motivo. Tornou a olhar para o porto e esperou, tenso. 
Muito devagar, no intervalo entre dois ferros verticais, como um fantasma, comeou a aparecer uma cara branca. A cara de um cego. O medo fez gelar o sangue do soldado, 
e foi o medo que o fez apontar a arma e disparar uma rajada  queima-roupa.
     
     O estrondear sacudido das detonaes fez surgir quase imediatamente de dentro das tendas, meio vestidos, os soldados que compunham o piquete encarregado da 
guarda do manicmio e de quem l fora posto dentro. O sargento j estava no comando, Que raio foi isto, Um cego, um cego, balbuciou o soldado, Onde, Ali, e apontou
o porto com o cano da arma, No vejo l nada, Estava ali. eu vi-o. Os soldados tinham acabado de equipar-se e esperavam alinhados, de espingardas na mo. Acendam
o projector, ordenou o sargento. Um dos soldados subiu  plataforma do veculo. Segundos depois o foco deslumbrante iluminou o porto e frontaria do edifcio. No
h ningum, sua besta, disse o sargento, e dispunha-se a proferir mais umas quantas amenidades militares do mesmo estilo quando viu que por debaixo do porto estava 
alastrando, sob a luz violenta, uma poa negra. Deste-lhe cabo do canastro, disse. Depois, lembrando-se das rigorosas ordens que lhe haviam sido dadas, gritou, Cheguem-se 
para trs, isto pega-se. Os soldados recuaram, medrosos, mas continuaram a olhar a poa de sangue que lentamente se espalhava pelos intervalos entre as pedras midas 
do passeio. Achas que o gajo est morto, perguntou o sargento, Tem de estar, apanhou com a rajada em cheio na cara, respondeu o soldado, agora contente pela bvia 
demonstrao da sua boa pontaria. Neste momento, outro soldado gritou nervosamente, Nosso sargento, nosso sargento, olhe para ali. No patamar exterior da escada, 
de p, iluminados pela luz branca do holofote, viam-se uns quanto cegos, mais de uma dezena, No avancem, berrou o sargento, se do um passo que seja estoiro com 
todos. Nas janelas dos prdios em frente, algumas pessoas acordadas pelos disparos olhavam assustadas atravs das vidraas. Ento o sargento gritou, Quatro homens 
da que venham buscar o corpo. Porque no se podiam ver nem contar, foram seis os cegos que se moveram, Eu disse quatro, berrou o sargento histericamente. Os cegos 
tocaram-se, tornaram a tocar-se, ficaram dois deles. Os outros comearam a andar ao longo da corda.
     Temos de ver se h por aqui alguma p ou alguma enxada, seja o que for que possa servir para cavar, disse o mdico. Era manh, tinham trazido com grande esforo 
o cadver para a cerca interior, puseram-no no cho, entre o lixo e as folhas mortas das rvores. Agora era preciso enterr-lo. S a mulher do mdico sabia o estado 
em que se encontrava o morto, a cara e o crnio rebentados pela descarga, trs buracos de balas no pescoo e na regio do esterno. Tambm sabia que em todo o edifcio 
no havia nada com que se pudesse abrir uma cova.
     Percorrera toda a rea que lhes tinha sido destinada e no encontrara mais que uma vara de ferro. Ajudaria, mas no era suficiente. E vira, por trs das janelas 
fechadas do corredor que seguia ao longo da ala reservada aos suspeitos de contgio, mais baixas deste lado da cerca, rostos atemorizados, de pessoas  espera da 
sua hora. do momento inevitvel em que teriam de dizer s outras Ceguei, ou quando, se tivessem tentado ocultar-lhes o sucedido, as denunciasse um gesto errado, 
um mover de cabea  procura duma sombra, um tropeo injustificado em quem tem olhos. Tudo isto tambm o sabia o mdico, a frase que lanara fazia parte do disfarce 
combinado por ambos, a partir de agora a mulher j poderia dizer, E se pedssemos aos soldados que nos atirassem c para dentro uma p, A ideia  boa, experimentemos, 
e todos estiveram de acordo, que sim, que era uma boa ideia, s a rapariga dos culos escuros no pronunciou palavra sobre esta questo de enxada ou p, todo o seu 
falar, por enquanto, eram lgrimas e lamentos. A culpa foi minha. chorava ela, e era verdade, no se podia negar mas tambm  certo, se isso lhe serve de consolao, 
que se antes de cada acto nosso nos pusssemos a prever todas as consequncias dele a pensar nelas a srio. primeiro as imediatas. depois as provveis, depois as 
possveis, depois as imaginveis, no chega ramos sequer a mover-nos de onde o primeiro pensamento nos tivesse feito parar. Os bons e os maus resultados dos nossos 
ditos e obras vo-se distribuindo, supe-se que de uma forma bastante uniforme e equilibrada, por todos os dias do futuro, incluindo aqueles, infindveis, em que 
j c no estaremos para poder comprov-lo, para congratular-nos ou pedir perdo, alis, h quem diga que isso  que  a imortalidade de que tanto se fala, Ser, 
mas este homem est morto e  preciso enterr-lo. Foram portanto o mdico e a mulher a parlamentar, a rapariga dos culos escuros, inconsolada, disse que ia com 
eles. Por dor da conscincia.
     Mal apareceram  vista, na entrada da porta, um soldado gritou-lhes, Alto, e como se temesse que a intimao verbal, ainda que enrgica, no fosse acatada, 
disparou um tiro para o ar. Assustados, recuaram para a proteco da sombra do trio, por trs das madeiras grossas da porta aberta. Depois a mulher do mdico avanou 
sozinha, donde estava podia ver os movimentos do soldado e resguardar-se a tempo, se fosse necessrio, No temos com que enterrar o morto, disse, precisamos de uma 
p. Ao porto, mas do lado oposto onde o cego tinha cado, apareceu outro militar. Sargento era, mas no o de antes, Que querem, gritou, Precisamos de uma p, ou 
uma enxada, No h c disso, ponham-se a andar, Temos de enterrar o corpo, No enterrem, deixem-no a a apodrecer, Se o deixarmos fica a contaminar a atmosfera, 
Pois que contamine e vos faa bom proveito, A atmosfera no est parada, tanto est aqui como vai para a. A pertinncia do argumento obrigou o militar a reflectir. 
Tinha vindo substituir o outro sargento, que cegara e fora imediatamente leva do para onde estavam a ser concentrados os enfermos pertencentes s foras armadas 
de terra. Escusado ser dizer que a aviao e a marinha dispunham tambm' cada uma. das suas prprias instalaes, mas estas de menor tamanho e importncia, por 
serem mais reduzidos os efectivos destas armas. A mulher tem razo, reconsiderou o sargento, num caso como este no h dvida de que todos os cuidados so poucos.
     Como preveno, dois soldados, munidos de mscaras antigases, j haviam despejado sobre o sangue dois garrafes inteiros de amnia, cujos ltimos vapores ainda 
faziam lacrimejar o pessoal e lhes picavam as mucosas da garganta e do nariz. O sargento declarou, enfim, Vou ver o que se pode arranjar, E a comida, aproveitou 
a mulher do mdico a ocasio para recordar-lhe, A comida ainda no chegou, S do nosso lado j h mais de cinquenta pessoas. temos fome, o que esto a mandar no 
chega para nada, Isso da comida no  com o exrcito, Algum tem de resolver a situao, o governo comprometeu-se a alimentar-nos, Voltem l para dentro, no quero 
ver ningum nessa porta, A enxada, ainda gritou a mulher do mdico, mas o sargento tinha-se ido embora. A manh estava em meio quando se ouviu a voz do altifalante 
na camarata, Ateno, ateno, os internados alegraram-se, pensaram que era o anncio da comida, mas no, tratava-se da enxada, Algum que a venha buscar, mas nada 
de grupos, s sai uma pessoa, Vou eu, que j falei com eles antes, disse a mulher do mdico. Logo que saiu ao patamar exterior viu a enxada. Pela posio e pela 
distancia a que se encontrava, mais perto do porto do que da escada, devia ter sido atirada de fora, No me posso esquecer de que estou cega, pensou a mulher do 
mdico, Onde est, perguntou, Desce a escada, que j te irei guiando, respondeu o sargento, muito bem, agora anda na direco em que ests, assim, assim, alto, vira-te 
um pouco para a direita, no, para a esquerda, menos, menos do que isso, agora em frente, se no te desviares vais dar com o nariz mesmo em cima dela, quente, a 
escaldar, merda, eu disse que no te desviasses, frio, frio, est a aquecer outra vez, quente, cada vez mais quente, pronto, agora d meia volta que eu torno a guiar-te, 
no quero que fiques para a como uma burra  nora. s voltas. e me venhas parar ao porto. No estejas to preocupado. pensou ela, irei daqui  porta em linha recta. 
No fim de contas tanto faz. ainda que ficasses a desconfiar de que no estou cega. a mim que me importa. no v irs c dentro buscar-me Ps a enxada ao ombro. como 
um cavador que vai ao seu trabalho, e caminhou na direco da porta sem se desviar um passo, .Nosso sargento, j viu aquilo. exclamou um dos soldados. at parece 
ela que tem olhos, Os cegos aprendem depressa a orientar-se. explicou. convicto. o sargento.
     
     Foi trabalhoso abrir a cova. A terra estava dura, calcada, havia razes a um palmo do cho. Cavaram  vez o motorista, os dois polcias e o primeiro ceco. Perante 
a morte, o que se espera da natureza  que percam os rancores a fora e o veneno,  certo que se diz que o dio velho no cansa, e disso no faltam provas na literatura 
e na vida, mas isto aqui no fundo, a bem dizer, no era dio, e de velho nada, pois que vale o roubo de um automvel ao lado do morto que o tinha roubado, e menos 
ainda no msero estado em que se encontra, que no so precisos olhos para saber que esta cara no tem nariz nem boca. No puderam cavar mais fundo que trs palmos. 
Fosse o morto gordo e ter-lhe-ia ficado de fora a barrica, mas o ladro era magro, um autntico pau-de-virar-tripas, pior depois do jejum destes dias, a cova bastaria 
para dois como ele. No houve oraes. Podia-se pr-lhe uma cruz, lembrou ainda a rapariga dos culos escuros, foi o remorso que a fez falar, mas ningum ali tinha 
notcia do que o falecido pensara em vida dessas histrias de Deus e da religio, o melhor era calar, se  que outro procedimento tem justificao perante a morte, 
alm disso, leve-se em considerao que fazer uma cruz  muito menos fcil do que parece, sem falar do tempo que ela se iria aguentar, com todos estes cegos que 
no vem onde pem os ps. Voltaram  camarata. Nos stios mais frequentados, desde que no seja em campo aberto, como a cerca, a doente j no se perde, com um 
brao esticado  frente e uns dedos a mover-se como antenas de insectos chega-se a toda a parte,  mesmo provvel que nos cegos mais dotados no tarde a desenvolver-se 
aquilo a que chamamos viso frontal. A mulher do mdico, por exemplo.  extraordinrio como ela consegue movimentar-se e orientar-se por este verdadeiro quebra-cabeas 
de salas, desvos e corredores, como sabe virar uma esquina no ponto exacto, Como pra diante de uma porta e a abre sem hesitao, como no precisa ir contando as 
camas at chegar  sua. Agora est sentada na cama do marido, conversa com ele, baixinho como de costume, v-se que so pessoas de educao, e tm sempre alguma 
coisa para dizer um ao outro, no so o mesmo que o outro casal, o primeiro cego e a mulher, depois daquelas comovedoras efuses do reencontro quase no tm falado, 
 que, neles, provavelmente, tem podido mais a tristeza de agora do que o amor de antes, com o tempo ho-de habituar-se. Quem no se cansa a repetir que tem fome 
 o rapazito estrbico, apesar de a rapariga dos culos escuros, praticamente, ter tirado a comida  sua boca para a dar a ele. H muitas horas que o mocinho no 
pergunta pela me, mas decerto voltar a sentir-lhe a falta depois de ter comido, quando o corpo se encontrar liberto das brutides egostas que resultam da simples, 
porm imperiosa, necessidade de manter-se. Fosse por causa do que acontecera de madrugada, fosse por motivos alheios  nossa vontade, a verdade  que no tinham 
chegado a ser trazidas as caixas com a refeio da manh. Agora est-se a aproximar a hora do almoo,  quase uma hora no relgio que a mulher do mdico disfaradamente 
acaba de consultar, no dever portanto estranhar-se que a impacincia dos sucos gstricos tenha decidido uns quantos cegos, tanto desta ala como da outra, a irem 
esperar no trio a chegada da comida, e isto por duas excelentes razes, a pblica, de uns, porque desta maneira se ganharia tempo, a reservada, de outros, porque 
 sabido que quem chega primeiro melhor se serve. Ao todo, no sero menos de dez os cegos atentos ao rudo que o porto exterior far ao ser aberto, aos passos 
dos soldados que ho-de trazer as abenoadas caixas.
     Por sua vez, temerosos de uma sbita cegueira que pudesse resultar da proximidade imediata dos cegos que esperavam no trio, os contagiados da ala esquerda 
no se atreveram a sair, mas alguns deles esto a espreitar pela frincha da porta, ansiosos por que chegue a sua vez. O tempo foi passando. Cansados de esperar, 
alguns cegos tinham-se sentado no cho, mais tarde dois ou trs regressaram s camaratas. Foi pouco depois que se ouviu o ranger inconfundvel do porto.
     Excitados, os cegos, atropelando-se uns aos outros, comearam a mover-se para onde, pelos sons de fora, calculavam que estava a porta, mas, de sbito, tomados 
por uma vaga inquietao que no iriam ter tempo de definir e explicar, pararam e logo confusamente retrocederam, enquanto comeavam j a perceber-se distintamente 
os passos dos soldados que traziam a comida e da escolta armada que os acompanhava.
     
     Ainda sob a impresso produzida pelo trgico acontecimento da noite, os soldados que transportavam as caixas haviam combinado que no as iriam deixar ao alcance 
das portas que davam para as alas, como mais ou menos tinham feito antes, larg-las-iam no trio, e adeus, passem bem, Os gajos que l se avenham, disseram. A ofuscao 
produzida pela forte luz do exterior e a transio brusca para a penumbra do trio impediram-nos, no primeiro momento, de ver o grupo de cegos. Viram-nos logo a 
seguir. Soltando berros de medo, largaram as caixas no cho e saram como loucos pela porta fora. Os dois soldados da escolta, que esperavam no patamar, reagiram 
exemplarmente perante o perigo. Dominando, s Deus sabe como e porqu, um legtimo medo, avanaram at ao limiar da porta e despejaram os carregadores. Os cegos 
comearam a cair uns sobre os outros, caindo recebiam ainda no corpo balas que j eram um puro desperdcio de munio, foi tudo to incrivelmente lento, um corpo, 
outro corpo, parecia que nunca mais acabavam de cair, como s vezes se v nos filmes e na televiso. Se ainda estamos em tempo de ter um soldado de dar contas das 
balas que dispara, estes podero jurar sobre a bandeira que procederam em legtima defesa, e por acrscimo tambm em defesa dos seus camaradas desarmados que iam 
em misso humanitria e de repente se viram ameaados por um grupo de cegos numericamente superior. Recuaram em desatinada correria para o porto, cobertos pelas 
espingardas que os outros soldados do piquete tremulamente apontavam por entre os ferros, como se os cegos vivos que ficaram estivessem a ponto de fazer uma surtida 
vingadora. Lvido de susto, um dos que tinham disparado dizia, Eu l dentro no volto nem que me matem, e de facto no voltou. De um momento para o outro, nesse 
mesmo dia. j perto do fim da tarde,  hora de render, passou a ser mais um cego entre os cegos, o que lhe valeu foi ser da tropa, porque, se no, teria ficado logo 
ali, a fazer companhia aos cegos paisanos, colegas daqueles a quem havia desfeito a tiros, e Deus sabe o que lhe fariam. O sargento ainda disse, Isto o melhor era 
deix-los morrer  fome, morrendo o bicho acabava-se a peonha. Como sabemos, no falta por a quem o tenha dito e pensado muitas vezes, felizmente um resto precioso 
de sentido de humanidade fez dizer a este, A partir de agora deixamos as caixas a meio caminho, eles que as venham buscar, mantemo-los debaixo de olho, e ao menor 
movimento suspeito, fogo. Dirigiu-se ao posto de comando, ligou o microfone e, juntando as palavras o melhor que soube, recorrendo  lembrana doutras semelhantes 
escutadas em ocasies mais ou menos parecidas, disse, O exrcito lamenta ter sido obrigado a reprimir pelas armas um movimento sedicioso responsvel pela criao 
duma situao de risco iminente, da qual no teve culpa directa ou indirecta, e avisa que a partir de hoje os internados passaro a recolher a comida fora do edifcio, 
ficando desde j prevenidos de que sofrero as consequncias no caso de se manifestar qualquer tentativa de alterao da ordem, como aconteceu agora e a noite passada 
tinha acontecido. Fez uma pausa, sem saber muito bem como conviria terminar, tinha-se esquecido das palavras prprias, certamente as havia, s soube repetir, No 
tivemos culpa, no tivemos culpa.
     
     Dentro do edifcio, o fragor dos disparos, atroadoramente repercutidos no espao limitado do trio, havia causado pavor. Nos primeiros momentos pensou-se que 
os soldados iam irromper pelas camaratas dentro varrendo  bala tudo o que encontrassem pela frente. o governo mudara de ideias, optara pela liquidao fsica em 
massa, houve quem se metesse debaixo das camas, alguns, de puro medo, no se mexeram, uns quantos talvez tenham pensado que era melhor assim, para pouca sade mais 
vale nenhuma, se uma pessoa tem de acabar, que seja depressa. Os primeiros a reagir foram os contagiados. Tinham comeado por fugir quando se desatou a fuzilaria, 
mas depois o silncio animou-os a voltar, e outra vez se aproximaram da porta que dava acesso ao trio. Viram os corpos amontoados, o sangue sinuoso alastrando lentamente 
no cho lajeado, como se estivesse vivo, e as caixas da comida. A fome empurrou-os para fora, estava ali o ansiado alimento,  verdade que era destinado aos cegos, 
o deles seria trazido a seguir, de acordo com o regulamento, mas agora o regulamento que se lixasse, ningum nos v, e candeia que vai adiante alumia duas vezes, 
j o disseram os antigos de todos os tempos e lugares, e os antigos no eram pecos nestas coisas. Porm, a fome s teve fora para os fazer avanar trs passos, 
a razo interps-se e avisou-os de que o perigo estava ali  espera dos imprudentes, naqueles corpos sem vida, sobretudo naquele sangue, quem poderia saber que vapores, 
que emanaes, que venenosos miasmas no estariam j a desprender-se da carne esfacela da dos cegos. Esto mortos, no podem fazer nada, disse algum, a inteno 
era tranquilizar-se a si mesmo e aos outros, mas foi pior hav-lo dito, era verdade que os cegos estavam mortos, que no podiam mover-se, reparem, no se mexem nem 
respiram, mas quem nos diz a ns que esta cegueira branca no ser precisamente um mal do esprito, e se o , ponhamos por hiptese, nunca os espritos daqueles 
cegos estiveram to soltos como agora esto, fora dos corpos, e portanto mais livres de fazerem o que quiserem, sobretudo o mal, que, como todo o mundo sabe, sempre 
foi o mais fcil de fazer. Mas as caixas da comida, ali expostas, atraam os olhos irresistivelmente. so deste calibre as razes do estmago, no atendem a nada, 
mesmo quando  para seu bem. De uma das caixas derramava-se um lquido branco que lentamente se ia aproximando da toalha de sangue, por todos os visos devia ser 
leite,  uma cor que no engana. Mais corajosos, ou mais fatalistas, nem sempre a distino  fcil, dois dos contagiados avanaram, e j estavam quase a tocar com 
as mos gulosas na primeira caixa quando no vo da porta que dava para a outra ala apareceram uns quantos cegos. Pode tanto a imaginao, e em circunstancias mrbidas 
como esta parece que pode tudo, que, para aqueles dois que tinham ido de fossado, foi como se os mortos, de repente, se tivessem levantado do cho, to cegos como 
antes, sem dvida, mas muito mais daninhos, porque sem dvida os estaria incitando o esprito de vingana. Recuaram prudentemente e em silncio para a entrada da 
sua ala, podia ser que os cegos comeassem por ocupar-se dos mortos, que assim mandavam a caridade e o respeito, ou, quando no. que deixassem ficar, por no a terem 
visto, alguma das caixas, pequena que fosse, na verdade os contagiados no eram muitos ali, talvez a melhor soluo at fosse essa, pedir-lhes Por favor, tenham 
d, deixem ao menos uma caixinha para ns, se calhar eles no vo trazer hoje mais comida, depois do que sucedeu. Os cegos moviam-se como cegos que eram, s apalpadelas, 
tropeando, arrastando os ps, no obstante, como se estivessem organizados, souberam repartir as tarefas eficazmente, alguns deles, patinhando no sangue pegajoso 
e no leite, comearam logo a retirar e transportar os cadveres para a cerca, outros ocuparam-se das caixas, uma por uma, as oito que tinham sido largadas pelos 
soldados. Entre os cegos havia uma mulher que dava a impresso de estar ao mesmo tempo em toda a parte, ajudando a carregar, fazendo como se guiasse os homens, coisa 
evidentemente impossvel para uma cega, e, fosse por acaso ou de propsito, por mais que uma vez virou a cara para o lado da ala dos contagiados, como se os pudesse 
ver ou lhes percebesse a presena. Em pouco tempo o trio ficou vazio, sem outros sinais que a mancha grande do sangue, e outra pequena tocando-a, branca, do leite 
que se entornara, mais do que isto s os rastos cruzados dos ps, pegadas vermelhas ou simplesmente hmidas. Os contagiados fecharam resignadamente a porta e foram 
 procura de migalhas, era tanto o desalento que um deles foi ao ponto de dizer, e isto mostra bem como se encontravam desesperados, Se vamos te r mesmo de ficar 
cegos, se  esse o nosso destino, mais valia irmos j para l, ao menos tnhamos de que comer, Talvez os soldados ainda tragam a nossa parte, disse algum, Voc 
fez a tropa, perguntou outro, no, Bem me queria a mim parecer.
     
     Tendo em conta que os mortos pertenciam a uma e a outra, reuniram-se os ocupantes da primeira e da segunda camaratas, com o objectivo de decidir se comiam primeiro 
e enterravam depois os cadveres, ou ao contrrio. Ningum parecia interessado em saber quem tinha morrido. Cinco deles haviam-se instalado na segunda camarata, 
ignora-se se j se conheciam de antes ou, no caso de que no, se tinham tido tempo e disposio para trocarem apresentaes e desabafos. A mulher do mdico no se 
lembrava de t-los visto quando chegaram. Aos restantes quatro, sim, a esses conhecia-os, tinham dormido com ela, por assim dizer, debaixo do mesmo tecto, embora 
de um deles no soubesse mais do que isso, e como o poderia saber, um homem que se respeite no se vai pr a falar de assuntos ntimos  primeira pessoa que lhe 
aparea, como ter estado num quarto de hotel a fazer amor com uma rapariga de culos escuros, a qual, por sua vez, se  desta aqui que se trata, nem lhe passa pela
cabea que esteve e est ainda to perto de quem a fez ver tudo branco. O motorista do txi e os dois polcias eram os outros mortos, trs homens robustos, capazes
de cuidar de si, cujas profisses consistiam, ainda que de distinto modo, em cuidar dos outros, e afinal a esto, ceifados cruelmente na fora da vida,  espera
de que lhes dem destino. Vo ter de esperar que estes que ficaram acabem de comer, no por causa do costumado egosmo dos vivos, mas porque algum lembrou sensatamente
que enterrar nove corpos naquele cho duro e com uma nica enxada era trabalho que, pelo menos, duraria at  hora do jantar. E como no seria admissvel que os 
voluntrios dotados de bons sentimentos estivessem a trabalhar enquanto os mais enchiam a barriga, foi decidido deixar os mortos para depois. A comida vinha em pores 
individuais, portanto fcil de distribuir, toma tu, toma tu, at se acabar. Mas a ansiedade de uns quantos cegos menos esclarecidos veio a complicar o que em normais 
circunstncias teria sido cmodo, embora um juzo sereno e isento nos aconselhe a admitir que os excessos que se deram tiveram alguma razo de ser. bastar recordar, 
por exemplo, que no se podia saber,  partida, se a comida iria chegar para todos. Na verdade, qualquer pessoa compreender que no  fcil contar cegos nem repartir 
raes sem olhos que os possam ver, a elas e a eles. Acresce que alguns ocupantes da segunda camarata, com mais do que censurvel desonestidade, quiseram fazer crer 
que eram em maior nmero do que o eram de facto. Valeu, como sempre, para isso est ela ali, a mulher do mdico. Algumas palavras ditas a tempo sempre foram capazes 
de resolver dificuldades que um discurso profuso no faria mais do que agravar. Mal-intencionados e de mau carcter foram tambm aqueles que no s intentaram, mas 
conseguiram, receber comida duas vezes. A mulher do mdico apercebeu-se do condenvel acto, mas achou prudente no denunciar o abuso. No queria nem pensar nas consequncias 
que resultariam da revelao de que no estava cega, o mnimo que lhe poderia acontecer seria ver-se transformada em serva de todos, o mximo talvez fosse converterem-na 
em escrava de alguns. A ideia, em que ao princpio se falara, de designar um responsvel por cada camarata, poderia, sabe-se l, ajudar a resolver estes apertos 
e outros por desgraa ainda piores, sob condio, porm, de que a autoridade desse responsvel, certamente frgil, certamente precria, certamente posta em causa 
a cada momento, fosse claramente exercida a bem de todos e como tal reconhecida pela maioria. Se no o conseguirmos, pensou, acabaremos por matar-nos aqui uns aos 
outros. Prometeu a si mesma que falaria destes delicados assuntos ao marido e continuou a repartir as raes.
     
     Uns por indolncia. outros por terem o estmago delicado. No apeteceu a ningum. depois de comer. ir praticar no ofcio de coveiro. Quando o mdico. porque 
pela profisso se considerava mais obrigado que os de mais. disse pouco  vontade, Vamos l ento enterrar aqueles, no se apresentou um s voluntrio.
     Estendidos nas camas, os cegos o que queriam era que os deixassem lesar a bom termo a breve digesto. Alguns adormeceram imediatamente, e no havia de que estranhar, 
depois dos sustos e sobressaltos por que tinham passado o corpo, apesar de to parcamente alimentado, abandonava-se  moleza da qumica digestiva. Mais tarde, j 
perto do crepsculo, quando as lmpadas mortias, pela sucessiva diminuio da luz natural, pareceram ganhar alguma fora, ao mesmo tempo mostrando, de fracas que 
eram, o pouco para que podiam servir, o mdico, acompanhado da mulher, convenceu dois dos homens da sua camarata a acompanharem-no  cerca, quanto mais no fosse, 
disse, para darem balano ao trabalho que teria de ser feito e separarem os corpos j rgidos, uma vez que ficara decidido que cada camarata enterraria os seus. 
A vantagem de que gozavam estes cegos era o que se poderia chamar a iluso da luz. Na verdade, tanto lhes fazia que fosse de dia ou de noite, crepsculo da manh 
ou crepsculo da tarde, silente madrugada ou rumorosa hora meridiana, os cegos sempre estavam rodeados duma resplandecente brancura. Como o sol dentro do nevoeiro. 
Para estes, a cegueira no era viver banalmente rodeado de trevas, mas no interior de uma glria luminosa. Quando o mdico cometeu o deslize de dizer que iam separar 
os corpos, o primeiro cego, que era um dos que tinham concordado em ajud-lo, quis que lhe explicassem como poderiam reconhec-los, pergunta lgica de cego que deixou 
o mdico embaraado. Desta vez a mulher pensou que no deveria acudir em seu auxlio, denunciar-se-ia se o fizesse. O mdico saiu-se airosamente da dificuldade pelo 
mtodo radical do passo em frente, isto , reconhecendo o erro, A gente. disse no tom de quem sorri de si prprio, habitua-se tanto a ter olhos, que ainda julga 
que os pode usar quando j no lhe servem de nada, de facto s sabemos que se encontram aqui quatro dos nossos, o motorista de txi, os dois policias e um outro 
que tambm connosco estava. Por tanto a soluo  pegar ao acaso em quatro destes corpos. Enterr-los como deve de ser. e assim cumprimos a nossa obrigao. O primeiro 
cego concordou, o companheiro tambm, e novamente, revezando-se, comearam a abrir as covas. No viriam a saber estes auxiliares, por cegos serem, que os cadveres 
enterrados, sem excepo, foram precisa mente aqueles de que, duvidando, tinham estado a falar, e nem ser preciso dizer como trabalhou aqui o que pareceu acaso, 
a mo do mdico, guiada pela mo da mulher, agarrava uma perna ou um brao, e ele s tinha de dizer, Este. Quando j tinham enterrado dois corpos, apareceram final 
mente. vindos da camarata, trs homens com disposio de ajudar, o mais provvel seria que o no fizessem se algum lhes tivesse dito que era j noite fechada. Psicologicamente, 
mesmo estando um homem cego, temos de reconhecer que h uma grande diferena entre cavar sepulturas  luz do dia e depois de o sol desaparecer. No momento em que 
entravam na camarata, suados, sujos de terra, sentindo ainda nas narinas o primeiro cheiro adocicado da corrupo, a voz do altifalante repetia as instrues conhecidas. 
No houve qual quer referncia ao que se tinha passado, no se falou de tiros nem de mortos  queima-roupa. Avisos como aquele de abandonar o edifcio sem prvia 
autorizao significar morte imediata, ou Os internados enterraro sem formalidades o cadver na cerca, tomavam agora, graas  dura experincia da vida, mestra 
suprema de todas as disciplinas, pleno sentido, enquanto aquele que prometia coisas com comida trs vezes ao dia se tornava em grotesco sarcasmo ou ironia mais difcil 
de suportar ainda. Quando a voz se calou, o mdico, sozinho, porque comeava a conhecer os cantos  casa, foi at  porta da outra camarata para informar, Os nossos 
j esto enterrados, Se enterraram uns, tambm podiam ter enterrado os outros, respondeu de dentro uma voz de homem, O combinado foi que cada camarata enterraria 
os mortos que lhe pertencessem, contmos quatro e enterrmo-los' Est bem. amanh trataremos dos de aqui, disse outra voz masculina. e depois. mudando de tom, No 
veio mais comida, perguntou, No, respondeu o mdico, Mas o altifalante diz que trs vezes ao dia. Duvido que venham a cumprir sempre a promessa, Ento ser preciso 
racionar os alimentos que vierem chegando, disse uma voz de mulher. Parece-me uma boa ideia, se quiserem falaremos amanh, De acordo, disse a mulher. J o mdico 
se retirava quando ou viu a voz do homem que primeiro tinha falado, A saber quem  que manda aqui. Parou  espera de que algum respondesse, f-lo a mesma voz feminina, 
Se no nos organizarmos a srio, mandaro a fome e o medo, j  uma vergonha que no tenhamos ido com eles enterrar os mortos, Por que  que no os vai enterrar 
voc, j que  to esperta e to sentenciosa, Sozinha no posso, mas estou pronta para ajudar, No vale a pena discutirmos, interveio a segunda voz de homem, amanh 
de manh trataremos disso. O mdico suspirou, a convivncia ia ser difcil. Encaminhava-se j para a camarata quando sentiu uma forte necessidade de evacuar. No 
stio onde se encontrava, no tinha a certeza de ser capaz de chegar s latrinas, mas decidiu aventurar-se. Esperava que algum, ao menos, tivesse tido a lembrana 
de levar para l o papel higinico que viera com as caixas da comida. Enganou-se no caminho duas vezes, angustiado porque a necessidade apertava cada vez mais, e 
j estava nas ltimas instancias da urgncia quando pde enfim baixar as calas e agachar-se na retrete turca. O fedor asfixiava. Tinha a impresso de haver pisado 
uma pasta mole, os excrementos de algum que no acertara com o buraco da retrete ou que resolvera aliviar-se sem querer saber mais de respeitos. Tentou imaginar 
como seria o lugar onde se encontrava, para ele era tudo branco, luminoso, resplandecente, que o eram as paredes e o cho que no podia ver, e absurdamente achou-se 
a concluir que a luz e a brancura, ali, cheiravam mal Vamos endoidecer de horror, pensou. Depois quis limpar-se, mas no havia papel. Apalpou a parede atrs de si, 
onde deveriam estar os suportes dos rolos ou os pregos em que,  falta de melhor, se teriam espetado uns bocados de papel qualquer. Nada. Sentiu-se infeliz' desgraado 
a mais no poder, ali com as pernas arqueadas, amparando as calas que roavam no cho nojento, cego, cego, cego, e, sem poder dominar-se, comeou a chorar silenciosamente. 
Tenteando, deu alguns passos e foi esbarrar com a parede fronteira. Estendeu um brao, estendeu o outro, enfim encontrou uma porta. Ouviu os passos arrastados de 
algum que devia andar tambm  procure das sentinas, que tropeava, Onde ser esta merda, murmurava numa voz neutra, como se, no fundo, lhe fosse indiferente sab-lo. 
Passou a dois palmos sem se aperceber da presena doutra pessoa, mas no tinha importncia, a situao no chegou a tornar-se indecente, s-lo-ia realmente, um homem 
naquela figure, descomposto, mas, no ltimo instante, movido por um desconcertante sentimento de pudor, o mdico tinha subido as calas. Depois baixou-as, quando 
calculou que estaria sozinho, mas no foi a tempo, sabia que estava sujo, sujo como no se lembrava de ter estado alguma vez na vida. H muitas maneiras de tornar-se 
animal, pensou, esta  s a primeira delas. Porm, no se podia queixar muito, ainda tinha quem no se importasse de o limpar.
     
     Deitados nos catres, os cegos esperavam que o sono tivesse d da sue tristeza. Discretamente, como se houvesse perigo de que os outros pudessem ver o msero 
espectculo, a mulher do mdico tinha ajudado o marido a assear-se o melhor possvel. Agora havia um silncio dorido, de hospital, quando os doentes dormem, e sofrem 
dormindo. Sentada, lcida, a mulher do mdico olhava as camas, os vultos sombrios, a palidez fixa de um rosto, um brao que se moveu a sonhar. Perguntava-se se alguma 
vez chegaria a cegar como eles, que razes inexplicveis a teriam preservado at agora. Num gesto cansado, levou as mos  cara pare afastar o cabelo, e pensou, 
Vamos todos cheirar mal. Nesse momento principiaram a ouvir-se uns suspiros, uns queixumes, uns gritinhos primeiro abafados, sons que pareciam palavras, que deveriam 
s-lo, mas cujo significado se perdia no crescendo que as ia transformando em grito, em ronco, por fim em estertor. Algum protestou l do fundo, Porcos, so como 
os porcos. No eram porcos, s um homem cego e uma mulher cega que provavelmente nunca saberiam um do outro mais do que isto.
     
     Um estmago que trabalha em falso acorda cedo. Alguns dos cegos abriram os olhos quando a manh ainda vinha longe, e no seu caso no foi tanto por culpa da 
fome, mas porque o relgio biolgico, ou l como se costuma chamar-lhe, j se lhes estava desregulando, supuseram eles que era dia claro, ento pensaram, Deixei-me 
dormir, e logo compreenderam que no, a estava o ressonar dos companheiros, que no dava lugar a equvocos. Ora,  dos livros, mas muito mais da experincia vivida, 
que quem madruga por gosto ou quem por necessidade teve de madrugar, tolera mal que outros, na sua presena, continuem a dormir  perna solta, e com dobrada razo 
no caso de que estamos falando, porque h uma grande diferena entre um cego que esteja a dormir e um cego a quem no serviu de nada ter aberto os olhos. Estas observaes 
de tipo psicologstico, pela sua finura aparentemente sem cabimento perante a dimenso extraordinria do cataclismo que o relato se vem esforando por descrever, 
servem unicamente para explicar por que estavam acordados to cedo os cegos todos, a alguns, como foi dito ao princpio, sacudiu-os de dentro o estmago exigente, 
mas a outros arrancou-os do sono a impacincia nervosa dos madrugadores, que no se pejaram de fazer mais rudo que o inevitvel e tolervel em ajuntamentos de caserna 
e camarata. Aqui no h s gente discreta e bem-educada, alguns so uns mal-desbastados que se aliviam matinalmente de escarros e ventosidades sem olhar a quem est, 
verdade seja que no mais do dia obram pela mesma conformidade, por isto a atmosfera se vai tornando cada vez mais pesada, e no h nada a fazer, a nica abertura 
 a porta' s janelas no se lhes pode chegar, do altas que esto.
     
     Deitada ao lado do marido, o mais juntos que podiam estar, por causa da estreiteza da cama, mas tambm por gosto, quanto lhes havia custado, no meio da noite, 
guardar o decoro, no fazer como aqueles a quem algum tinha chamado porcos, a mulher do mdico olhou o relgio. Marcava duas horas e vinte e trs minutos. Firmou 
melhor a vista, viu que o ponteiro dos segundos no se movia. Tinha-se esquecido de dar corda ao maldito relgio, ou maldita ela, maldita eu, que nem sequer esse 
dever to simples tinha sabido cumprir, ao cabo de apenas trs dias de isolamento. Sem poder dominar-se, desatou num choro convulsivo, como se lhe tivesse acabado 
de suceder a pior das desgraas. O mdico pensou que a mulher cegara, que acontecera o que tanto temia, desatinado esteve quase a perguntar Cegaste, foi no ltimo 
instante que lhe ouviu o murmrio, No  isso, no  isso, e depois, num lento sussurro, quase inaudvel, tapadas as cabeas de ambos com a manta, Estpida de mim, 
no dei corda ao relgio, e continuou a chorar, inconsolvel. Da sua cama do outro lado da coxia, a rapariga dos culos escuros levantou-se e, guiada pelos soluos, 
aproximou-se de braos estendidos, Est aflita, precisa de alguma coisa, ia perguntando  medida que avanava? e tocou com as duas mos nos corpos deitados. A discrio 
mandava que imediatamente as retirasse, e essa ordem deu-lha o crebro com certeza, mas as mos no obedeceram, apenas tornaram mais subtil o contacto, nada mais 
que um leve roce da epiderme na manta grosseira e tpida. Precisa de alguma coisa, tornou a perguntar a rapariga, e, agora sim, as mos j se retiraram, j se levantaram, 
perderam-se na brancura estril, no desamparo. Ainda soluando, a mulher do mdico saiu da cama, abraou-se  rapariga, No  nada, foi uma tristeza que me entrou 
de repente, disse, Se a senhora, que  to forte, est a desanimar, ento  porque no temos mesmo salvao, queixou-se a rapariga. Mais calma, a mulher do mdico 
pensava, olhando-a de frente, J quase no se lhe notam vestgios da conjuntivite, que pena no poder dizer-lho, ela ficaria contente. Provavelmente, sim, ficaria 
contente, embora um tal contentamento fosse absurdo, no tanto por estar ela cega, mas porque toda a gente ali o estava tambm, de que servir ter os olhos lmpidos, 
e belos, como estes so, se no h ningum para os ver. A mulher do mdico disse, Todos temos os nossos momentos de fraqueza, ainda o que nos vale  sermos capazes 
de chorar, o choro muitas vezes  uma salvao, h ocasies em que morreramos se no chorssemos, No temos salvao, repetiu a rapariga dos culos escuros, Quem 
sabe, esta cegueira no  igual s outras, assim como veio, assim poder desaparecer, J viria tarde para os que morreram, Todos temos de morrer, Mas no teramos 
de ser mortos, e eu matei uma pessoa, No se acuse, foram as circunstancias, aqui todos somos culpados e inocentes, muito pior fizeram os soldados que nos esto 
a guardar, e at esses podero alegar a maior de todas as desculpas, o medo, Que mais dava que o pobre homem me apalpasse, agora ele estaria vivo e eu no teria 
no corpo nem mais nem menos do que tenho, No pense mais nisso, descanse, tente dormir.
     Acompanhou-a at  cama, V, deite-se, A senhora  muito boa, disse a rapariga, depois, baixando a voz, No sei que fazer, est a chegar-me o perodo e no 
trouxe pensos, Esteja tranquila, eu tenho. As mos da rapariga dos culos escuros buscaram onde agarrar-se, mas foi a mulher do mdico que suavemente as prendeu 
nas suas, Descanse, descanse. A rapariga fechou os olhos, ficou assim um minuto, teria talvez adormecido, se no fosse a altercao que de repente se armou, algum 
que tinha ido s retretes e no regresso encontrou a cama ocupada, no tinha sido por mal, o outro levantara-se para o mesmo fim, cruzaram-se os dois no caminho, 
est claro que a nenhum deles lhe ocorreu dizer Veja l agora se se engana na cama quando voltar. De p, a mulher do mdico olhava para os dois cegos que discutiam, 
notou que no faziam gestos, que quase no moviam o corpo, depressa haviam aprendido que s a voz e o ouvido tinham agora alguma utilidade,  certo que no lhes 
faltavam braos, que podiam brigar, lutar, vir s mos, como se costuma dizer, mas uma cama trocada no valia tanto, todos os enganos da vida fossem como este, bastava 
que se pusessem de acordo, A dois  a minha, a trs  a sua, que fique entendido de uma vez para sempre, Se no fssemos cegos, este engano no teria acontecido, 
Tem razo, o mal  sermos cegos. A mulher do mdico disse ao marido, O mundo est todo aqui dentro.
     
     Nem todo. A comida, por exemplo, estava l fora e tardava. De uma camarata e da outra, alguns homens tinham ido postar-se no trio,  espera de que a ordem 
soasse no altifalante. Mexiam os ps, nervosos, impacientes. Sabiam que iam ter de sair  cerca exterior para recolherem as caixas que os soldados, cumprindo-se 
o prometido, deixariam no espao entre o porto e a escada, e temiam que houvesse ali um truque, uma armadilha, Quem nos diz que no vo disparar contra ns, Depois 
do que j fizeram, so bem capazes disso, No podemos fiar-nos, Eu no vou l fora, Nem eu, Algum ter de ir, se quisermos comer, No sei se mais vale morrer de 
um tiro, ou se ir morrendo de fome aos poucos, Eu vou, Eu tambm, No  preciso irmos todos, Os soldados podem no gostar, Ou assustar-se, julgar que queremos fugir, 
por causa disso, se calhar,  que mataram aquele da perna, Temos que nos decidir, Toda a cautela  pouca, lembrem-se do que sucedeu ontem, nove mortos sem mais nem 
menos, Os soldados tiveram medo de ns, E eu tenho medo deles, O que eu gostava de saber  se eles tambm cegam, Eles, quem, Os soldados, Na minha opinio, at deviam 
de ser os primeiros. Todos estiveram de acordo, sem contudo se perguntarem porqu, faltou algum ali que desse a boa razo, Porque assim no poderiam disparar. O 
tempo passava, passava, e o altifalante mantinha-se calado. Vocs j trataram de enterrar os vossos, perguntou um cego da primeira camarata para dizer alguma coisa, 
Ainda no, Comeam a cheirar, infectam para a tudo, Pois que infectem e que cheirem, pela parte que me toca no tenciono mexer uma palha enquanto no tiver comido, 
j dizia o outro que primeiro come-se, depois  que se lava a panela, O costume no  esse, o teu ditado est errado, em geral depois dos enterros  que se come 
e se bebe, Pois comigo  ao contrrio. Passados uns minutos disse um destes cegos, Estou aqui a matutar numa coisa, Em qu, Em como iremos dividir a comida, Como 
foi feito antes, sabemos quantos somos, contam-se as raes, cada um recebe a sua parte,  a maneira mais simples e mais justa, No deu resultado, houve quem ficasse 
a fazer cruzes na boca, E tambm houve quem tivesse comido a dobrar, A diviso foi mal feita, Ser sempre mal feita se no houver respeito e disciplina, Se tivssemos 
c algum que visse ao menos um bocadinho, Ora, arranjaria logo uma estrangeirinha para ficar com a maior parte para ele, J l dizia o outro que na terra dos cegos 
quem tem um olho  rei, Deixa l o outro, Este no  o mesmo, Aqui nem os zarolhos se salvariam, Como eu entendo, a melhor soluo seria dividir em partes iguais 
a comida pelas camaratas, depois cada uma governava-se com o que tivesse recebido, Quem  que falou, Fui eu, Eu, quem, Eu, De que camarata  voc, Da segunda, Estava-se 
mesmo a ver, a grande esperteza, como tm menos gente convinha-lhes, passavam a comer mais do que ns, que temos a camarata completa, S disse por ser mais fcil, 
O outro tambm dizia que quem parte e reparte e no fica com a melhor parte, ou  tolo, ou no partir no tem arte, Merda, acabe l com o que diz o outro, os ditados 
pem-me nervoso, O que devamos fazer era levar a comida toda para o refeitrio, cada camarata eleger trs para fazer a diviso, com seis pessoas a contar no haveria 
perigo de enganos nem de trafulhices, E como vamos ns saber que esto a falar verdade quando os outros disserem na nossa camarata somos tantos, Estamos a lidar 
com gente honesta, E isso, tambm foi dito pelo outro, No, isto digo eu, O cavalheiro, o que ns somos de verdade aqui  pessoas com fome.
     
     Como se tivesse estado todo este tempo  espera da palavra de cdigo, da deixa, do abre-te ssamo, ouviu-se enfim a voz do altifalante, Ateno, ateno, os 
internados tm autorizao para virem recolher a comida, mas cuidado, se algum se aproximar demasiado do porto receber um primeiro aviso verbal, n o caso de no 
voltar imediatamente para trs, o segundo aviso ser uma bala. Os cegos avanaram devagar, alguns, mais confiantes, a direito para onde pensavam que devia estar 
a porta, os outros, menos seguros das suas incipientes capacidades de orientao, preferiram ir deslizando ao longo da parede, assim no haveria engano possvel, 
quando chegassem ao canto s tinham de seguir a parede em angulo recto, a estaria a porta. Imperativa, impaciente, a voz do altifalante repetiu a chamada. A mudana 
de tom, notria mesmo para quem no tivesse sobra de motivos de desconfiana, assustou os cegos. Um deles declarou, Eu no saio daqui, o que eles querem  apanhar-nos 
l fora para depois nos matarem a todos, Eu tambm no saio, disse outro, Nem eu, reforou um terceiro. Estavam parados, irresolutos, alguns queriam sair, mas o 
medo ia tomando conta de todos. A voz ouviu-se outra vez, Se dentro de trs minutos ningum aparecer para levar as caixas da comida, retiramo-las. A ameaa no venceu 
o temor, s o empurrou para as ltimas cavernas da mente, como um animal perseguido que vai ficar  espera duma ocasio para atacar. Receosos, tentando cada qual 
esconder-se atrs doutro, os cegos foram saindo para o patamar da escada. No podiam ver que as caixas no se encontravam junto ao corrimo, que era onde esperavam 
encontr-las, no podiam saber que os soldados, com medo do contgio, se tinham recusado a aproximar-se sequer da corda a que se haviam agarrado todos os cegos que 
ali havia. As caixas da comida estavam juntas, empilhadas, mais ou menos no stio onde a mulher do mdico recolhera a enxada. Avancem, avancem, mandou o sargento. 
De modo confuso, os cegos procuravam pr-se em fila para poderem avanar ordenadamente, mas o sargento gritou-lhes, As caixas no esto a, larguem a corda, larguem-na, 
desloquem-se para a direita, a vossa, a vossa, estpidos, no  preciso ter olhos para saber de que lado est a mo direita.
     
     O aviso foi dado a tempo, alguns cegos de esprito rigoroso tinham entendido a ordem  letra, se era a direita, logicamente teria de ser a direita de quem falava, 
por isso tentavam passar por debaixo da corda para irem  procura das caixas sabe Deus onde. Em circunstancias diferentes, o grotesco espectculo teria feito rir 
 gargalhada o mais sisudo dos observadores, era de morrer, uns quantos cegos a avanarem de gatas, de cara rente ao cho como sumos, um brao adiante rasoirando 
o ar, enquanto outros, talvez com medo de que o espao branco, fora da proteco do tecto, os engolisse, se mantinham desesperadamente aferrados  corda e apuravam 
o ouvido,  espera da primeira exclamao que assinalaria o achamento das caixas. A vontade dos soldados era apontar as armas e fuzilar deliberadamente, friamente, 
aqueles imbecis que se moviam diante dos seus olhos como caranguejos coxos, agitando as pinas trpegas  procura da perna que lhes faltava. Sabiam o que no quartel 
tinha sido dito essa manh pelo comandante do regimento, que o problema dos cegos s poderia ser resolvido pela liquidao fsica de todos eles, os havidos e os 
por haver, sem contemplaes falsamente humanitrias, palavras suas, da mesma maneira que se corta um membro gangrenado para salvar a vida do corpo, A raiva de um 
co morto, dizia ele, de modo ilustrativo, est curada por natureza. A alguns soldados, menos sensveis s belezas da linguagem figurada, custou-lhes a entender 
que a raiva do co tivesse algo que ver com os cegos, mas a palavra de um comandante de regimento, tambm figuradamente falando, vale quanto pesa, ningum chega 
to alto na vida militar sem ter razo em tudo quanto pensa, diz e faz. Um cego tinha finalmente esbarrado com as caixas, gritava abraado a elas, Esto aqui, esto 
aqui, se este homem vier algum dia a recuperar a vista, de certeza no anunciar com mais alegria a estupenda boa nova. Em poucos segundos estavam os cegos restantes 
atropelados em cima das caixas, braos e pernas  mistura, a puxar cada um para seu lado, disputando a primazia, levo eu, quem leva sou eu. Os que se tinham deixado 
estar agarrados  corda estavam nervosos, agora o seu medo era outro, o de virem a ficar, por castigo da sua preguia ou cobardia, excludos da repartio dos alimentos 
Ah, vocs no quiseram andar no cho de cu para o ar, sujeitos a levar um tiro, pois ento no comem, lembrem-se do que dizia o outro, quem no arrisca no petisca. 
Empurrado por este pensamento decisivo, um deles largou a corda e foi, de braos no ar, na direco do tumulto, A mim no me vo deixar de fora, mas as vozes calaram-se 
de repente, ficaram s uns rudos de arrastamento, umas interjeies abafadas, uma massa dispersa e confusa de sons, que vinham de todos os lados e de nenhum. Parou, 
indeciso, quis regressar  segurana da corda, mas o sentido de orientao falhou-lhe, no h estrelas no cu branco, agora o que se ouvia era a voz do sargento 
a dar instrues aos das caixas para voltarem  escada, porm o que ele dizia s tinha sentido para esses, para poder chegar aonde se quer, tudo depende de onde 
se esteja. J no havia cegos agarra dos  corda, a eles bastara-lhes fazer o caminho ao contrrio, e agora esperavam no patamar da escada a chegada dos outros. 
O cego desgarrado no se atrevia a mover-se donde estava. Angustiado, deu um grande grito, Ajudem-me, por favor, no sabia que os soldados o tinham na mira da espingarda, 
 espera de que ele pisasse a linha invisvel por onde se passava da vida  morte. Vais ficar a,  cegueta, perguntou o sargento, mas na sua voz havia um certo 
nervosismo, a verdade  que no partilhava da opinio do seu comandante, Quem me diz a mim que amanh no me bate este azar  porta, quanto aos soldados j se sabe, 
d-se-lhes uma ordem e matam, d-se-lhes outra e morrem, S disparam  minha voz, gritou o sargento. Estas palavras fizeram compreender ao cego o perigo em que estava. 
Ps-se de joelhos, implorou, Por favor, ajudem-me, digam-me por onde devo ir, Vem andando, ceguinho, vem andando, disse de l um soldado em tom falsamente amigvel, 
o cego levantou-se, deu trs passos, mas estacou outra vez, o tempo do verbo pareceu-lhe suspeito, vem andando no  vai andando, vem andando est a dizer-te que 
por aqui, por aqui mesmo, nesta direco, chegars aonde te esto a chamar, ao encontro da bala que substituir em ti uma cegueira por outra. Foi uma iniciativa 
por assim dizer criminosa de um soldado de mau carcter, que o sargento imediatamente reduziu com dois berros sucessivos, Alto, Meia volta, seguidos de uma severa 
chamada  ordem do desobediente, pelos vistos pertencente quela espcie de pessoas a quem no se pode pr uma espingarda nas mos. Animados pela benevolente interveno 
do sargento, os cegos que tinham alcanado o patamar da escada levantaram uma algazarra fortssima que veio a servir de plo magntico ao desorientado invisual. 
J seguro de si, avanou em linha recta, Continuem, continuem, dizia, enquanto os cegos aplaudiam como se estivessem a assistir a um longo, vibrante e esforado 
esprinte. Foi recebido com abraos, no era o caso para menos, diante das adversidades, tanto as provadas quanto as previsveis,  que se conhecem os amigos.
     
     No durou muito a confraternizao. Aproveitando-se do alvoroo, alguns dos cegos tinham-se escapulido com umas quantas caixas, as que conseguiram transportar, 
maneira evidentemente desleal de prevenir hipotticas injustias de distribuio. Os de boa-f, que sempre os h por mais que se lhes diga, protestaram, indignados, 
que assim no se podia viver, Se no podemos confiar uns nos outros, aonde  que vamos parar, perguntavam uns, retoricamente, ainda que cheios de razo, O que esses 
malandros esto a pedir  uma boa sova, ameaavam outros, no era verdade que a tivessem pedido, mas todos entenderam o que aquele falar queria dizer, expresso, 
esta, levemente melhorada de um barbarismo que s espera ser perdoado pelo facto de vir to a propsito. J recolhidos ao trio, os cegos puseram-se de acordo, como 
sendo essa a mais prtica maneira de resolver a primeira parte da delicada situao que se tinha criado, em dividir igualmente pelas duas camaratas as caixas que 
haviam ficado, por sorte em nmero par, e criar uma comisso, tambm ela paritria, de investigao, com vista a recuperar as caixas perdidas, quer dizer, roubadas. 
Gastaram algum tempo a debater, como j se estava a tornar costume, o antes e o depois, isto , se se devia comer primeiro e investigar a seguir, ou o contrrio, 
tendo prevalecido a opinio de que o mais conveniente, havidas em conta as muitas horas que j levavam de jejum forado, seria comear por confortar o estmago e 
proceder depois s averiguaes, E no se esqueam de que tm de enterrar os vossos, disse um dos da primeira camarata, Ainda no os matmos e j queres que os enterremos, 
respondeu um gracioso da segunda, jogando jovialmente com as palavras. Todos riram. Porm, no tardou a saber-se que os patifes no se encontravam nas camaratas.
 porta de uma e da outra tinham estado sempre cegos  espera de que a comida chegasse, e estes foram os que disseram que de facto tinham ouvido passar nos 
corredores gente que parecia levar muita pressa, mas nas camaratas ali ningum entrara, e muito menos com caixas de comida, isso podiam jurar. Algum lembrou que 
o modo mais seguro de identificar os fulanos seria que todos quantos ali estavam fossem ocupar as respectivas camas, obviamente as que ficas sem vazias seriam as 
dos ladravetes, portanto o que havia a fazer era esperar que eles voltassem l de onde se tinham escondido, a lamber os beios, e cair-lhes em cima, para que aprendessem 
a respeitar o sagrado princpio da propriedade colectiva. Proceder de conformidade com a sugesto, alis oportuna e de um entranhado esprito de justia, tinha porm 
o grave inconveniente de pospor, no se podia prever para quando, o desejado e a estas horas j frio pequeno-almoo, Comemos primeiro, disse um dos cegos, e a maioria 
achou que sim, o melhor era que comessem primeiro. Por desgraa, s o pouco que lhes tinha ficado depois do roubo infame.
     A essa hora, num lugar escondido das vetustas e arruinadas edificaes, estariam os gatunos a empanturrar-se de raes duplas e triplas de um rancho que, inesperadamente, 
apare cia melhorado, composto de caf com leite, frio com efeito, bolachas e po com margarina, enquanto a gente honrada no tinha outro recurso que satisfazer-se 
com duas ou trs vezes menos, e no de tudo. Ouviu-se l fora, ouviram-no alguns da primeira ala, enquanto melancolicamente trincavam a sua gua-e-sal, o altifalante 
chamando os contagiados a que fossem recolher a sua parte de comida. Um dos cegos, decerto influenciado pela atmosfera mals deixada pelo delito cometido, teve uma 
inspirao, Se os esperssemos no trio, e les levariam um valente susto s de nos verem, talvez deixassem cair uma ou duas caixas, mas o mdico disse que no lhe 
parecia isso bem, seria uma injustia, castigar quem no tinha culpa. Quando todos acabaram de comer, a mulher do mdico e a rapariga dos culos escuros levaram 
para o jardim as caixas de carto, os recipientes vazios do leite e do caf, os copos de papel, enfim, tudo o que no era para comer, Temos de queimar o lixo, disse 
depois a mulher do mdico, acabar com este horrvel mosquedo.
     
     Sentados nas camas, cada um na sua, os cegos puseram-se  espera de que regressassem ao rebanho as cabras tresmalhadas, Cabres  o que eles so, comentou uma 
voz grossa, sem adivinhar que respondia  pastoril reminiscncia de quem no tem culpa de no saber dizer as coisas doutra maneira. Mas os meliantes no apareciam, 
deviam desconfiar, decerto havia entre eles um to perspicaz como o daqui que teve a ideia da sova. Os minutos iam passando, um ou outro cego tinha-se deitado, algum 
adormecera j. Que isto, meus senhores,  comer e dormir. Bem vistas as coisas, nem se est mal de todo. Desde que a comida no venha a faltar, sem ela  que no 
se pode viver,  como estar num hotel. Ao contrrio, que calvrio seria o de um cego l fora, na cidade, sim, que calvrio.
     Andar aos tombos pelas ruas, todos a fugirem dele, a famlia apavorada, com medo de se aproximar, amor de me, amor de filho, histrias, se calhar faziam-me 
o mesmo que me fazem aqui, fechavam-me num quarto e punham-me o prato  porta por muito favor. Olhando a situao a frio, sem preconceitos nem ressentimentos que 
sempre obscurecem o raciocnio, havia que reconhecer que as autoridades tiveram viso quando decidiram juntar cegos com cegos, cada qual com seu igual, que  a boa 
regra da vizinhana, como os leprosos, no h dvida, aquele mdico l ao fundo est no certo quando diz que nos temos de organizar. a questo, de facto,  de organizao, 
primeiro a comida, depois a organizao, ambas so indispensveis  vida, escolher umas quantas pessoas disciplinadas e disciplinadoras para dirigirem isto, estabelecer 
regras consensuadas de convivncia, coisas simples, varrer, arrumar e lavar, disso no nos podemos queixar, at nos mandaram sabo, detergentes, manter a cama feita, 
o fundamental  no perdermos o respeito por ns prprios, evitar conflitos com os militares que cumprem com o seu dever vigiando-nos, para mortos j temos que baste, 
perguntar quem  que conhece aqui histrias que queira contar ao sero, histrias, fbulas, anedotas, tanto faz, imagine-se a sorte que seria saber algum a Bblia 
de cor, repetamos tudo desde a criao do mundo, o importante  que nos ouamos uns aos outros, pena no haver um rdio, a msica sempre foi uma grande distraco, 
e  amo s acompanhando as notcias, por exemplo, se se descobrisse a cura da nossa doena, a alegria que no seria aqui.
     
     Ento aconteceu o que tinha de acontecer. Ouviram-se tiros na rua. Vm-nos matar, gritou algum, Calma, disse o mdico, devemos ser lgicos, se quisessem matar-nos 
era c dentro que viriam disparar, no l fora. Tinha razo o mdico, foi o sargento quem deu a ordem de disparar para o ar, no foi um soldado que de repente tivesse 
cegado quando estava com o dedo no gatilho, compreende-se que no houvesse outra maneira de enquadrar e manter em respeito os cegos que saam aos tropees dos autocarros, 
o ministrio da Sade tinha avisado o ministrio do Exrcito, Vamos despachar quatro camionetas deles, E isso d quantos, Uns duzentos, Onde  que se vai meter toda 
essa gente, as camaratas destinadas aos cegos so as trs da ala direita, segundo informao que temos, a lotao total  de cento e vinte, e j l esto sessenta 
ou setenta, menos uma dzia que tivemos de matar, O caso tem remdio, ocupam-se as camaratas todas, Sendo assim os contaminados vo ficar em contacto directo com 
cegos, O mais provvel  que, mais tarde ou mais cedo, esses venham a cegar tambm, alis, tal como a situao est, suponho que contaminados j estaremos todos, 
de certeza no h uma s pessoa que no tenha estado  vista de um cego, Se um cego no v, pergunto eu, como poder ele transmitir o mal pela vista, Meu general, 
esta deve de ser  a doena mais lgica do mundo, o olho que est cego transmite a cegueira ao olho que v, j se viu coisa mais simples, Temos aqui um coronel que 
acha que a soluo era ir matando os cegos  medida que fossem aparecendo, Mortos em vez de cegos no alteraria muito o quadro, Estar cego no  estar morto, Sim, 
mas estar morto  estar cego, Bom, ento vo ser uns duzentos, Sim, E que fazemos aos condutores dos autocarros, Metam-nos tambm l dentro. Nesse mesmo dia. ao 
fim da tarde, o ministrio do Exrcito chamou o ministrio da Sade, Quer saber a novidade, aquele coronel de quem lhe falei cegou, A ver agora que pensar ele da 
ideia que tinha, J pensou, deu um tiro na cabea, Coerente atitude, sim senhor, O exrcito est sempre pronto a dar o exemplo.
     
     O porto fora aberto de par em par. Levado pelos hbitos do quartel, o sargento mandou formar em coluna de cinco de fundo, mas os cegos no conseguiam atinar 
com a conta certa, umas vezes eram de mais, outras vezes de menos, acabaram todos por amontoar-se  entrada, como civis que eram, sem nenhuma ordem, no se lembraram 
sequer de mandar adiante as mulheres e as crianas, como nos outros naufrgios. H que dizer, antes que se nos esquea, que nem todos os disparos haviam sido feitos 
para o ar, um dos condutores dos autocarros recusara-se a ir com os cegos, protestou que via perfeitamente, o resultado, trs segundos depois, foi dar razo ao ministrio 
da Sade quando dizia que estar morto  estar cego. O sargento deu as ordens j conhecidas, Sigam em frente, em cima h uma escada com seis degraus, seis, quando 
l chegarem subam devagar, se algum ali tropea nem quero pensar no que poder suceder, a nica recomendao que faltou foi a de seguir a corda, mas isto compreende-se, 
se a usassem nunca mais acabariam de entrar, Ateno, recomendava o sargento, tranquilizado porque j estavam todos do lado de dentro do porto, h trs camaratas 
 direita e trs  esquerda, cada camarata tem quarenta camas, as famlias que no se separem, evitem os atropelos, contem-se  entrada, peam aos que j l esto 
que vos ajudem, tudo vai correr bem, acomodem-se, tranquilos, tranquilos, a comida vem depois.
     
     O que no estaria bem seria imaginar que estes cegos, em tal quantidade, vo ali como carneiros ao matadouro, balindo como de costume, um pouco apertados,  
certo, mas essa sempre foi a sua maneira de viver, plo com plo, bafo com bafo, cheiro com cheiro. Aqui vo uns que choram, outros que gritam de medo ou de raiva, 
outros que praguejam, algum soltou uma ameaa terrvel e intil, Se um dia vos apanho, supe-se que se referia aos soldados, arranco-vos os olhos. Inevitavelmente, 
os primeiros a chegar  escada tiveram de parar, era preciso tentear com o p a altura e a profundidade do degrau, a presso dos que vinham atrs fez cair  frente 
dois ou trs, felizmente no passou disso, apenas umas canelas esfoladas, o conselho do sargento tinha valido por uma bno. Uma parte deles j entrou no trio, 
mas duzentas pessoas no se arrumam com essa facilidade, de mais a mais caras e sem guia, acrescendo a esta circunstancia, j de si suficientemente penosa, o facto 
de nos encontrarmos num edifcio antigo, de distribuio pouco funcional, no basta dizer um sargento que apenas sabe do seu ofcio, So trs camaratas de cada lado, 
h que ver  como  isto c dentro, uns vos de portas to estreitos que mais parecem gargalos, uns corredores to loucos como os outros ocupantes da casa, comeam 
no se sabe porqu, acabam no se sabe onde, e no chega a saber-se o que querem. Por instinto, a vanguarda dos cegos tinha-se dividido em duas colunas, deslocando-se 
ao longo das paredes, de um lado e do outro,  procura de uma porta por onde entrar, mtodo seguro, sem dvida, supondo que no h mveis atravessados no caminho.
     Mais tarde ou mais cedo, com jeito e pacincia, os novos hspedes acabaro por acomodar-se, porm no antes que se decida a batalha que acabou de travar-se 
entre as primeiras linhas da coluna da esquerda e os contaminados que desse lado vivem. Era de esperar. O que havia sido combinado, havia mesmo um regulamento elaborado 
pelo ministrio da Sade, era que essa ala ficaria reservada para os contaminados, e se era verdade que se podia prever, com altssimo grau de probabilidade, que 
todos eles acabariam por cegar, verdade era tambm, em obedincia  pura lgica, que enquanto eles no tivessem cegado no se poderia jurar que efectivamente estavam 
destinados a cegar. Est pois uma pessoa tranquilamente sentada em sua casa, confiada em que, apesar dos exemplos em contrrio, ao menos no seu caso tudo a venha 
a resolver-se em bem, e de repente v que avana em sua direco justamente um bando ululante daqueles a quem mais teme. No primeiro momento, os contaminados pensaram 
que se tratava de um grupo de iguais a eles, apenas mais numeroso, mas o engano pouco durou, aquela gente vinha mesmo cega, Aqui no podem entrar, esta ala  s 
nossa, no  para cegos, vocs pertencem ao outro lado, gritaram os que estavam de guarda  porta. Alguns cegos tentaram dar meia volta e procurar outra entrada, 
para eles tanto fazia esquerda como direita, mas a massa dos que continuavam a afluir do exterior empurrava-os inexoravelmente. Os contaminados defendiam a porta 
a soco e a pontap, os cegos respondiam como podiam, no viam os adversrios, mas sabiam donde lhes vinham as pancadas. No trio no podiam caber duzentas pessoas, 
nem nada que se parecesse, por isso no tardou muito que a porta que dava para a cerca, apesar de bastante larga, ficasse completamente entupida, como se a obstrusse 
um rolho, nem para trs nem para diante, os que estavam dentro, comprimidos, espalmados, tentavam proteger-se escoicinhando, dando cotoveladas nos vizinhos que 
os sufocavam, ouviam-se gritos, crianas cegas que choravam, mulheres cegas que desmaiavam, enquanto os muitos que no tinham conseguido entrar empurravam cada vez 
mais, atemorizados pelos berros dos soldados, que no entendiam por que estavam aqueles idiotas ainda ali. Um momento terrvel foi quando se produziu um refluxo 
violento da gente que forcejava por livrar-se da confuso, do perigo iminente de esmagamento, ponhamo-nos ns no lugar dos soldados, de repente vem sair de repelo 
uma quantidade dos que j tinham entrado, pensaram logo o pior, que os cegos iam voltar para trs, lembremo-nos dos precedentes, podia ter acontecido ali uma carnificina. 
Felizmente, o sargento esteve mais uma vez  altura da crise, deu ele prprio um tiro para o ar, de pistola, s para chamar a ateno, e gritou pelo altifalante, 
Calma, recuem um pouco os que esto na escada, desafoguem-se, no empurrem, ajudem-se uns aos outros. Era pedir de mais, l dentro a luta continuava, mas o trio, 
aos poucos, foi-se despejando graas a um deslocamento mais numeroso de cegos para a porta da ala direita, ali eram acolhidos por cegos que no se importaram de 
os encaminhar para a terceira camarata, livre at agora, e para as camas que da segunda ainda estavam vagas. Por um momento pareceu que a batalha se iria resolver 
a favor dos contaminados, no tanto por serem eles os mais fortes e os que mais vista tinham, mas porque os cegos, tendo percebido que a entrada do outro lado estava 
desimpedida, romperam o contacto, como diria o sargento nas suas preleces quarteleiras de estratgia e de tctica elementar. Porm, no durou muito a alegria dos 
defensores. Da porta da ala direita comearam a chegar vozes anunciando que j no havia ali mais lugares, que todas as camaratas estavam cheias, houve mesmo cegos 
que vieram novamente de empurro para o trio, exactamente na altura em que, desfeito o rolho humano que at a atravancava a entrada principal, os cegos que ainda 
estavam fora, e que eram muitos, puderam avanar e acolher-se ao tecto debaixo do qual, a salvo das ameaas dos soldados, iriam passar a viver. O resultado destas 
duas deslocaes, praticamente simultneas, foi reacender-se a peleja  entrada da ala esquerda, outra vez golpes, outra vez clamores, e, como se fosse isto pouco, 
uns quantos cegos desarvorados, que tinham encontrado e forado a porta do trio que dava acesso directo  cerca interior, desataram aos gritos de que ali havia 
mortos. Imagina-se o pavor. Recuaram esses como puderam, H ali mortos, h ali mortos, repetiam, como se os prximos a morrer fossem eles, em um segundo o trio 
voltou a ser o remoinho furioso dos piores momentos, depois a massa humana desviou-se num impulso sbito e desesperado para a ala esquerda, levando tudo  sua frente, 
desfeita a resistncia dos contaminados, muitos que j tinham deixado de o ser. outros que, correndo como loucos, tentavam ainda escapar  negra fatalidade. Em vo 
corriam. Um aps outro, todos foram cegando, com os olhos de repente afogados na hedionda mar branca que inundava os corredores, as camaratas, o espao inteiro. 
L fora, no trio, na cerca, arrastavam-se os cegos desamparados, doridos de golpes uns, pisados outros, eram sobretudo os ancios, as mulheres e as crianas de 
sempre, seres em geral ainda ou j com poucas defesas, milagre foi no terem sado disto muitos mais mortos para enterrar. Pelo cho, espalhados, alm de alguns 
sapatos que perderam os ps, h sacos, malas, cestos, a derradeira riqueza de cada um, agora para sempre perdida, quem vier aos achados dir que o que la leva e 
seu.
     
     Um velho com uma venda preta num dos olhos veio da cerca. Ou tambm perdeu a bagagem, ou no a trouxe. Tinha sido o primeiro a tropear nos mortos, mas no 
gritou. Deixou-se ficar com eles, ao lado deles,  espera de que voltassem a paz e o silncio. Durante uma hora esperou. Agora  a sua vez de procurar abrigo. Devagar, 
com os braos estendidos, buscou o caminho. Encontrou a porta da primeira camarata da ala direita, ouviu vozes que vinham de dentro, ento perguntou, H aqui uma 
cama para mim.
     
     A chegada de tantos cegos pareceu trazer pelo menos uma vantagem. Pensando bem, duas, sendo a primeira de uma ordem por assim dizer psicolgica, na verdade 
 muito diferente estar  espera, em cada momento, de que se nos apresentem novos inquilinos, e ver que o prdio finalmente se encontra cheio, que a partir de agora 
passou a ser possvel estabelecer e manter com os vizinhos relaes estveis, duradouras, no perturbadas, como sucedia at aqui, por sucessivas interrupes e interposies 
de recm-chegados que nos obrigavam a reconstituir continuamente os canais de comunicao. A segunda vantagem, esta de ordem prtica, directa e substancial, foi 
terem as autoridades de fora, civis e militares, compreendido que uma coisa tinha sido fornecer alimentos pare duas ou trs dzias de pessoas, mais ou menos tolerantes, 
mais ou menos predispostas, pelo seu pequeno nmero, a resignar-se perante ocasionais falhas ou atrasos da comida, e outra coisa era agora a repentina e complexa 
responsabilidade de sustentar duzentos e quarenta seres humanos de todos os jeitos, procedncias e feitios em matria de humor e temperamento. Duzentos e quarenta, 
note-se, e  um modo de dizer, porque so pelo menos vinte os cegos que no conseguiram encontrar um catre e dormem no cho. Em todo o cave, reconhea-se que no 
 o mesmo terem de comer trinta pessoas daquilo que a dez deveria caber, e distribuir por duzentos e sessenta o alimento destinado a duzentos e quarenta. A diferena 
quase no se note. Ora, foi a assuno consciente desta acrescida responsabilidade, e talvez, hiptese nada despicienda, o temor de que viessem a desencadear-se 
novos tumultos, que determinou a mudana de procedimento das autoridades no sentido de mandar vir a comida a tempo e a horas, e nas quantidades certas. Evidentemente, 
aps a pugna, a todos os ttulos lastimosa, a que tivemos de assistir, no poderia ser fcil nem isenta de conflitos localizados a acomodao de tantos cegos, bastar 
que nos recordemos daqueles infelizes contaminados que antes ainda viam e agora no vem, dos casais divididos e dos filhos perdidos, dos lamentos dos pisados e 
atropelados. alguns duas e trs vezes, dos que andam  procura dos seus queridos bens e no os encontram, seria preciso ser-se de todo insensvel para esquecer, 
como se nada fosse, as aflies da pobre gente. Contudo, o que se no pode negar  que o anncio da chegada do almoo foi, para todos, um blsamo reconfortante. 
E se  inegvel que a recolha de to grandes quantidades de comida e a sua distribuio por tantas bocas, devido  falta de uma organizao adequada aos fins e de 
uma autoridade capaz de impor a necessria disciplina, deu origem a novas desinteligncias, devemos reconhecer que o ambiente mudou muito, para melhor, quando em 
todo o antigo manicmio no se ouviu mais que o rudo de duzentas e sessenta bocas mastigando. Quem depois vai limpar tudo isto,  questo por enquanto sem resposta, 
s l mais para o fim da tarde o altifalante voltar a recitar as regras de boa conduta que devero ser observadas para o bem de todos, e ento se ver que grau 
de acatamento iro elas merecer aos que acabam de chegar. J no  pouco que os ocupantes da segunda camarata da ala direita se tenham decidido, enfim, a enterrar 
os seus mortos, pelo menos deste cheiro ficmos ns livres, ao cheiro dos vivos, mesmo ftido, ser mais fcil habituarmo-nos.
     
     Quanto  primeira camarata, talvez por ser a mais antiga e portanto estar h mais tempo em processo e seguimento de adaptao ao estado de cegueira, um quarto 
de hora depois de os seus ocupantes terem acabado de comer j no se via um papel sujo no cho, um prato esquecido, um recipiente pingando. Tudo havia sido recolhido, 
as coisas menores metidas dentro das maiores, as mais sujas metidas dentro das menos sujas, como o determinaria uma regulamentao de higiene racionalizada, to 
atenta  maior eficcia possvel na recolha dos restos e detritos como  economia do esforo necessrio para realizar esse trabalho. A mentalidade que forosamente 
haver de determinar comportamentos sociais deste tipo no se improvisa nem nasce por gerao espontnea. No caso em exame parece ter tido uma influncia decisiva 
a aco pedaggica da cega do fundo da camarata, aquela que est casada com o oftalmologista, tanto ela se tem cansado a dizer-nos, Se no formos capazes de viver 
inteiramente como pessoas, ao menos faamos tudo para no viver inteiramente como animais, tantas vezes o repetiu, que o resto da camarata acabou por transformar 
em mxima, em sentena, em doutrina, em regra de vida, aquelas palavras, no fundo simples e elementares. Provavelmente, um tal estado de esprito, propcio ao entendimento 
das necessidades e das circunstncias, foi o que contribuiu, ainda que de forma colateral, para o benvolo acolhimento que ali foi encontrar o velho da venda preta 
quando assomou  porta e perguntou para dentro, H uma cama para mim. Por um feliz acaso, obviamente prometedor de consequncias no futuro, havia uma cama, a nica, 
v-se l saber por que teria ela sobrevivido, por assim dizer,  invaso, naquela cama tinha o ladro de automveis sofrido indizveis dores, talvez por isso lhe 
tenha ficado uma aura de sofrimento que fez afastar a gente. So disposies do destino, mistrios dos arcanos, guardado est o bocado, e este acaso no foi o primeiro, 
longe disso, basta reparar que a esta camarata vieram ter todos os pacientes da vista que se encontravam no consultrio quando o primeiro cego l apareceu, ento 
ainda se pensava que da no passaria. Baixinho, como de costume, para no descobrir o segredo da sua presena ali, a mulher do mdico sussurrou ao ouvido do marido, 
Talvez tenha sido tambm teu doente,  um homem de idade, calvo, de cabelos brancos, e traz uma venda preta num dos olhos, lembro-me de que falaste dele, Que olho, 
O esquerdo, Deve de ser ele. O mdico avanou para a coxia e disse, levantando um pouco a voz, Gostaria de poder tocar a pessoa que acabou de se juntar a ns, peo-lhe 
que venha andando nesta direco, eu irei ao seu encontro. Toparam-se a meio caminho, os dedos com os dedos, como duas formigas que deveriam reconhecer-se pelos 
manejos das antenas, no ser assim neste caso, o mdico pediu licena, com as mos tenteou a cara do velho, encontrou rapidamente a venda, No h dvida, era o 
ltimo que nos faltava aqui, o paciente da venda preta, exclamou, Que quer dizer, quem  o senhor, perguntou o velho, Sou, era o seu oftalmologista, lembra-se, estivemos 
a combinar a data da sua operao  catarata, Como foi que me reconheceu, Sobretudo pela voz, a voz  a vista de quem no v, Sim, a voz, tambm estou a reconhecer 
a sua, quem nos diria, senhor doutor, agora j no  preciso que me opere, Se h remdio para isto, precisamos ambos dele, Recordo-me de o senhor doutor me ter dito 
que depois de operado nem iria reconhecer o mundo em que vivia, nesta altura sabemos quanta razo tinha, Quando foi que cegou, Ontem  noite, E j o trouxeram, O 
medo l fora  tal que no tarda que comecem a matar as pessoas quando perceberem que elas cegaram, Aqui j liquidaram dez, disse uma voz de homem, Encontrei-os, 
respondeu o velho da venda preta simplesmente, Eram de outra camarata, os nossos enterrmo-los logo, acrescentou a mesma voz, como se terminasse um relatrio. A 
rapariga dos culos escuros tinha-se aproximado, Lembra-se de mim, levava uns culos escuros postos, Lembro-me bem, apesar da minha catarata lembro-me de que era 
muito bonita, a rapariga sorriu, Obrigada, disse, e voltou para o seu lugar. Disse de l, Est aqui tambm aquele menino, Quero a minha me, disse a voz do rapazito, 
como cansada de um choro remoto e intil. E eu sou o primeiro que cegou, disse o primeiro cego, estou com a minha mulher, E eu sou a empregada do consultrio, disse 
a empregada do consultrio. A mulher do mdico disse, S falta que me apresente eu, e disse quem era. Ento o velho, como para retribuir o acolhimento, anunciou, 
Tenho um rdio, Um rdio, exclamou a rapariga dos culos escuros batendo as palmas, msica, que bom, Sim, mas  um rdio pequeno, de pilhas, e as pilhas no duram 
sempre, lembrou o velho, No me diga que vamos ter de ficar aqui para sempre, disse o primeiro cego, Para sempre, no, para sempre  sempre demasiado tempo, Dar 
para ouvir as notcias, observou o mdico, E um bocadinho de msica, insistiu a rapariga dos culos escuros, Nem todos gostariam das mesmas msicas, mas todos estamos 
com certeza interessados em saber como esto as coisas l fora, o melhor  poupar o rdio, Tambm acho, disse o velho da venda preta. Tirou o pequeno aparelho do 
bolso exterior do casaco e ligou-o. Ps-se  procura das estaes emissoras, mas a sua mo, ainda pouco segura, perdia facilmente o ajuste do comprimento de onda, 
ao princpio no se ouviram mais que rudos intermitentes, fragmentos de msicas e de palavras, enfim a mo ganhou firmeza, a msica tornou-se reconhecvel, Deixe 
estar s um bocadinho, pediu a rapariga dos culos escuros, as palavras ganharam clareza, No so notcias, disse a mulher do mdico, e depois, como uma ideia que 
lhe tivesse ocorrido de repente, Que horas sero isto, perguntou, mas j sabia que ningum poderia responder-lhe. O ponteiro de sintonizao continuava a extrair 
rudos da pequena caixa, depois fixou-se, era uma cano, uma cano sem importncia, mas os cegos foram-se aproximando devagar, no se empurravam, paravam logo 
que sentiam uma presena  sua frente e ali se deixavam ficar, a ouvir, com os olhos muito abertos na direco da voz que cantava, alguns choravam, como provavelmente 
s os cegos podem chorar, as lgrimas correndo simplesmente, como de uma fonte. A cano chegou ao fim, o locutor disse, Ateno, ao terceiro sinal sero quatro 
horas. Uma das cegas perguntou, rindo, Da tarde, ou da madrugada, e foi como se o riso lhe doesse. Disfaradamente, a mulher do mdico acertou o relgio e deu-lhe 
corda, as quatro eram as da tarde, ainda que, na verdade, a um relgio tanto lhe faz, vai da uma s doze, o mais so ideias dos humanos. Que barulhinho  este, perguntou 
a rapariga dos culos escuros, parecia, Fui eu, ouvi que diziam na rdio que eram quatro horas e dei corda ao meu relgio. foi um desses movimentos automticos que 
fazemos tantas vezes, adiantou-se a mulher do mdico. Depois pensou que no tinha valido a pena arriscar-se assim, bastar-lhe-ia olhar o pulso dos cegos que tinham 
entrado nesse dia. algum havia de ter o relgio a funcionar.
     Tinha-o o prprio velho da venda preta, como nesse momento reparou, e as horas dele estavam certas. Ento o mdico pediu, Fale-nos de como est a situao l 
fora. O velho da venda preta disse, Pois sim, mas o melhor  que me sente, no me posso ter de p. Desta vez aos trs e quatro em cada cama, de companhia, os cegos 
acomodaram-se o melhor que puderam, fizeram silncio, e ento o velho da venda preta contou o que sabia, o que vira com os seus prprios olhos enquanto os tivera, 
o que ouvira dizer durante os poucos dias que decorreram entre o comeo da epidemia e a sua prpria cegueira.
     
     Logo nas primeiras vinte e quatro horas, disse, se era verdadeira a notcia que correu, houve centenas de casos, todos iguais, todos manifestando-se da mesma 
maneira, a rapidez instantnea, a ausncia desconcertante de leses, a brancura resplandecente do campo visual, nenhuma dor antes, nenhuma dor depois. No segundo 
dia falou-se de haver uma certa diminuio no nmero de novos casos, passou-se das centenas s dezenas, e isso levou o Governo a anunciar prontamente que, de acordo 
com as mais razoveis perspectivas, a situao no tardaria a estar sob controlo. A partir deste ponto, salvo alguns soltos comentrios que no puderam ser evitados, 
o relato do velho da venda preta deixar de ser seguido  letra, se n do substitudo por u ma reorganizao do discurso oral, orientada no sentido da valorizao 
da informao pelo uso de um correcto e adequado vocabulrio.  motivo desta alterao, no prevista antes, a expresso sob controlo, nada verncula, empregada pelo 
narrador, a qual por pouco o ia desqualificando como relator complementar, importante, sem dvida, pois sem ele no teramos maneira de saber o que se passou no 
mundo exterior, como relator complementar, dizamos, destes extraordinrios acontecimentos, quando se sabe que a descrio de quaisquer factos s tem a ganhar com 
o rigor e a propriedade dos termos usados. Voltando ao assunto, excluiu o Governo, portanto, a hiptese, primeiramente ventilada, de que o pas se encontrasse sob 
a aco de uma epidemia sem precedentes conhecidos, provocada por um agente mrbido ainda no identificado, de e feito instantneo, com ausncia total de sinais 
prvios de incubao ou de latncia. Tratar-se-ia, pois, de acordo com a nova opinio cientfica e a consequente e actualizada interpretao administrativa, de uma 
casual e desafortunada concomitncia temporal de circunstancias tambm por enquanto no averiguadas e em cuja exaltao patognica j era possvel, acentuava o comunicado 
do Governo, a partir do tratamento dos dados disponveis, que indicam a proximidade de uma clara curva de resoluo, observar indcios tendenciais de esgotamento. 
Um comentador de televiso teve o rasgo de encontrar a metfora justa quando comparou a epidemia, ou fosse l o que fosse, a uma flecha lanada para o alto, a qual, 
ao atingir o acmen da ascenso, se detm um momento, como suspensa, e logo comea a descrever a obrigatria curva descendente, que, querendo-o Deus, com esta invocao 
regressava o comentador  trivialidade das trocas humanas e  epidemia propriamente dita, a gravidade tratar de acelerar, at que desaparea o terrvel pesadelo 
que nos atormenta, meia dzia de palavras estas que constantemente apareciam nos distintos meios de comunicao social, os quais sempre acabavam por formular o piedoso 
voto de que os infelizes cegos viessem a recuperar em breve a viso perdida, prometendo-lhes, entretanto, a solidariedade de todo o corpo social organizado, tanto 
o oficial quanto o privado. Num passado remoto, razes e metforas semelhantes haviam sido traduzidas pelo impertrrito optimismo da gente do comum em ditrios como 
este, No h bem que sempre dure, nem mal que ature, ou, em verso literria, Assim como no h bem que dure sempre, tambm no h mal que sempre cure, mximas supremas 
de quem teve tempo pare aprender com os baldes da vida e da fortuna, e que, transportadas pare a terra dos cegos, devero ser lidas como segue, Ontem vimos, hoje 
no vemos, amanh veremos, com uma ligeira entoao interrogativa no tero final da frase, como se a prudncia, no ltimo instante, tivesse decidido, pelo sim, pelo 
no, acrescentar a reticncia de uma dvida  esperanadora concluso.
     
     Desgraadamente, no tardou a demonstrar-se a inanidade de tais votos, as expectativas do Governo e as previses da comunidade cientfica foram simplesmente 
por gua abaixo. A cegueira estava alastrando, no como uma mar repentina que tudo inundasse e levasse  sue frente, mas como uma infiltrao insidiosa de mil e 
um buliosos regatinhos que, tendo vindo a empapar lentamente a terra, de repente a afogam por completo. Perante o alarme social, j a ponto de tomar o freio nos 
dentes, as autoridades promoveram  pressa reunies mdicas, sobretudo de oftalmologistas e neurologistas. Por cause do tempo que fatalmente levaria a organizar, 
no se chegou a convocar o congresso que alguns preconizavam, mas em compensao no faltaram os colquios, os seminrios, as mesas-redondas, uns abertos ao pblico, 
outros celebrados  porta fechada. O efeito conjugado da patente inutilidade dos debates e os caves de algumas cegueiras sbitas ocorridas em meio das sesses, com 
o orador a gritar, Estou cego, estou cego, levaram os jornais, a rdio e a televiso, quase todos, a deixarem de ocupar-se de tais iniciativas, exceptuando-se o 
discreto e a todos os ttulos louvvel comportamento de certos rgos de comunicao que, vivendo  custa de sensacionalismos de todo o tipo, das graas e desgraas 
alheias, no estavam dispostos a perder nenhuma ocasio que aparecesse de relatar ao vivo, com a dramaticidade que a situao justificava, a cegueira sbita, por 
exemplo, de  um catedrtico de oftalmologia.
     
     A prove da progressiva deteriorao do estado de esprito geral deu-a o prprio Governo, alterando por duas vezes, em meia dzia de dias, a sue estratgia. 
Primeiro, tinha acreditado ser possvel circunscrever o mal recorrendo ao encerramento dos cegos e dos contaminados em uns quantos espaos discriminados, como o 
manicmio em que nos encontramos. Logo, o inexorvel crescimento dos casos de cegueira levou alguns membros influentes do Governo, receosos de que a iniciativa oficial 
no chegasse para as encomendas, donde resultariam pesados custos polticos, a defender a ideia de que deveria competir s famlias guardar em casa os seus cegos, 
no os deixando sair  rua, a fim de no complicarem o j difcil transito nem ofenderem a sensibilidade das pessoas que ainda viam com os olhos que tinham e que, 
indiferentes a opinies mais ou menos tranquilizadoras, acreditavam que o mal-branco se propagava por contacto visual, como o mau-olhado. Com efeito, no era legtimo 
esperar uma reaco diferente de algum que, ocupado com os seus pensamentos, tristes, neutros, ou alegres, se ainda os h destes, via de repente transformar-se 
a expresso de uma pessoa que vinha andando na sua direco, desenharem-se-lhe no rosto os sinais todos do terror absoluto, e logo o grito inevitvel, Estou cego, 
estou cego. No havia nervos que resistissem. O pior  que as fami1ias, sobretudo as menos numerosas, rapidamente se tornaram em fami1ias completas de cegos, deixando 
portanto de haver quem os pudesse guiar e guardar, e deles proteger a comunidade de vizinhos com boa vista, e estava claro que no podiam esses cegos, por muito 
pai, me e filho que fossem, cuidar uns dos outros, ou teria de suceder-lhes o mesmo que aos cegos da pintura, caminhando juntos, caindo juntos e juntos morrendo.
     
     Perante esta situao, o Governo no teve outro remdio que fazer marcha atrs em acelerado, ampliando os critrios que estabelecera sobre lugares e espaos 
requisitveis, do que resultou a utilizao imediata e improvisada de fbricas abandonadas, templos sem culto, pavilhes desportivos e armazns vazios, Desde h 
dois dias que se falava em montar acampamentos de barracas de campanha, acrescentou o velho da venda preta. Ao princpio, muito ao princpio, algumas organizaes 
caritativas ainda ofereceram voluntrios para irem tratar dos cegos, fazer-lhes as camas, limpar-lhes as retretes, lavar-lhes a roupa, preparar-lhes a comida, esses 
cuidados mnimos sem os quais a vida depressa se torna insuportvel, at para os que vem. Os pobres queridos cegavam imediatamente, mas ao menos ficava para a histria 
a beleza do gesto. Algum desses veio para aqui, perguntou o velho da venda preta, No, respondeu a mulher do mdico, no veio ningum, Se calhar foi boato, E a cidade, 
e os transportes, perguntou o primeiro cego, lembrando-se do seu prprio carro e do motorista de txi que o tinha levado ao consultrio e que ajudara a enterrar, 
Os transportes esto num caos, respondeu o velho da venda preta, e passou aos pormenores, aos casos e aos acidentes. Quando pela primeira vez sucedeu cegar um condutor 
de autocarro, em andamento e em plena via pblica, as pessoas, apesar dos mortos e feridos causados pelo desastre, no deram grande ateno, pela mesma razo, isto 
, a fora do costume, que levou o director de relaes pblicas da empresa transportadora a declarar, sem mais, que o desastre fora ocasionado por uma falha humana, 
sem dvida lamentvel, mas, pensando bem, to imprevisvel como teria sido um enfarte mortal em pessoa que nunca tivesse sofrido do corao. Os nossos empregados, 
explicou o director, tal como as mecnicas e os sistemas elctricos dos nossos autocarros, so periodicamente sujeitos a revises de um extremo rigor, como o confirma, 
em directa e clara relao de causa e efeito, a baixssima percentagem de acidentes, no cmputo geral, em que estiveram envolvidos, at hoje, veculos da nossa companhia. 
A profusa explicao saiu nos jornais, mas as pessoas tinham mais em que pensar do que preocuparem-se com um simples desastre de autocarro, afinal de contas no 
teria sido pior se se lhe tivessem partido os traves. Alis, foi essa, dois dias depois, a autntica causa de outro acidente, mas, assim est o mundo feito, que 
tem a verdade muitas vezes de disfarar-se de mentira para chegar aos seus fins, a voz que correu foi ter cegado o condutor. No houve maneira de convencer o pblico 
do que efectivamente acontecera, e o resultado no tardou a ver-se, de um momento para outro as pessoas deixaram de servir-se dos autocarros, diziam que antes queriam 
cegar elas que morrerem por terem cegado outros. Um terceiro acidente, logo a seguir, pelo mesmo motivo, implicando um veculo que no levava passageiros, deu azo 
a comentrios como este, de tom sabidamente popular, Olha se eu ia l dentro. Nem podiam imaginar, os que assim falavam, quanta razo tinham. Por causa da cegueira 
simultnea dos dois pilotos, no tardou que um avio comercial se despedaasse e incendiasse quando tomava terra, morrendo todos os passageiros e tripulantes, apesar 
de, neste caso, se encontrarem em perfeito estado tanto a mecnica como a electrnica, conforme viria a revelar o exame da caixa negra, nica sobrevivente. Uma tragdia 
destas dimenses no era o mesmo que um vulgar acidente de autocarro, a consequncia foi perderem as ltimas iluses aqueles que ainda as tinham, da em diante no 
se ouviu mais um rudo de motor, nenhuma roda, grande ou pequena, rpida ou lenta, voltou a pr-se em movimento. Aquelas pessoas que antes costumavam queixar-se 
das dificuldades cada vez maiores do trnsito, pees que  primeira vista pareciam no levar rumo certo porque os automveis, parados ou andando, constantemente 
lhes cortavam o caminho, condutores que, depois de terem dado mil e trs voltas at conseguirem descobrir um local onde arrumar enfim o carro, se tornavam em pees 
e passavam a protestar pelas mesmas razes deles depois de terem andado a reclamar pelas suas, todos eles deveriam estar agora satisfeitos, salvo pela circunstancia 
manifesta de que, no havendo mais quem se atrevesse a conduzir um veculo, nem que fosse para ir daqui ali, os automveis, os camies, as motos, at as bicicletas, 
to discretas, se espalhavam caoticamente por toda a cidade, abandonados onde quer que o medo tivesse tido mais fora que o sentido de propriedade, como era smbolo 
de uma grotesca evidncia aquela grua com um automvel meio levantado, suspenso do eixo dianteiro, provavelmente o primeiro a cegar tinha sido o condutor da grua. 
M para toda a gente, a situao, para os cegos, era catastrfica, uma vez que, segundo a expresso corrente, no podiam ver aonde iam nem onde punham os ps. Dava 
lstima v-los esbarrar nos carros abandonados, um aps outro, esfolando as canelas, alguns caiam e choravam, Est a algum que me ajude a levantar, mas tambm 
os havia, brutos de desespero ou por natureza, que praguejavam e repeliam a mo benemrita que acudira a auxili-los, Deixe l que a sua vez tambm lhe h-de chegar, 
ento a compassiva pessoa assustava-se, fugia, perdia-se na espessura do nevoeiro branco, subitamente consciente do risco em que a sua bondade a tinha feito incorrer, 
quem sabe se para ir cegar uns metros adiante.
     
     Assim esto as coisas l fora, rematou o velho da venda preta, e ainda eu no sei tudo, s falo do que pude ver com os meus prprios olhos, aqui interrompeu-se, 
fez uma pausa e corrigiu, Com os meus olhos, no, porque s tinha um, agora nem esse, isto , tenho um mas no me serve, Nunca lhe perguntei por que no usava um 
olho de vidro, em vez de trazer a pala, E para que o quereria eu, faa o favor de me dizer, perguntou o velho da venda preta,  o costume, por causa da esttica, 
alm disso  muito mais higinico, tira-se, lava-se e pe-se, como as dentaduras, Sim senhor, diga-me ento c como seria hoje se todos os que se encontram agora 
cegos tivessem perdido, digo materialmente perdido, ambos os olhos, de que lhes serviria andarem agora com dois olhos de vidro, De facto, no serviria de nada, Acabando 
ns todos cegos, como parece ir suceder, para que queremos a esttica, e quanto  higiene, diga-me o senhor doutor que espcie de higiene poder haver aqui, Provavelmente, 
s num mundo de cegos as coisas sero o que verdadeiramente so, disse o mdico, E as pessoas, perguntou a rapariga dos culos escuros, As pessoas tambm, ningum 
l estar para v-las, Tive uma ideia, disse o velho da venda preta, vamos a um Jogo para passar o tempo, Como  que se pode jogar sem ver o que se joga, perguntou 
a mulher do primeiro cego, No ser bem um jogo,  s dizer cada um de ns exactamente o que estava a ver no momento em que cegou, Pode ser inconveniente, lembrou 
algum, Quem no quiser entrar no jogo, no entra, o que no vale  inventar, D o exemplo, disse o mdico, Dou sim senhor, disse o velho da venda preta, ceguei 
quando estava a ver o meu olho cego, Que quer dizer, E muito simples, senti como se o interior da rbita vazia estivesse inflamado e tirei a venda para certificar-me, 
foi nesse momento que ceguei, Parece uma parbola, disse uma voz desconhecida, o olho que se recusa a reconhecer a sua prpria ausncia, Eu, disse o mdico, tinha 
estado a consultar em casa uns tratados de oftalmologia, precisamente por causa do que est a acontecer, o ltimo que vi foi as minhas mos sobre um livro, A minha 
ltima imagem foi diferente, disse a mulher do mdico, o interior duma ambulncia quando ajudava o meu marido a entrar, O meu caso j eu o tinha contado ao senhor 
doutor, disse o primeiro cego, tinha parado num semforo, a luz estava vermelha, havia gente a atravessar a rua de um lado para o outro, foi ento que fiquei cego, 
depois aquele que morreu no outro dia levou-me a casa, a cara no lha vi, claro, Quanto a mim, disse a mulher do primeiro cego, a ltima coisa que me lembro de ter 
visto foi o meu leno, estava em casa a chorar, levei o leno aos olhos e nesse instante ceguei, Eu, disse a empregada do consultrio, tinha acabado de entrar no 
elevador, estendi a mo para carregar no boto e de repente fiquei sem ver, imagine-se a minha aflio, ali fechada, sozinha, no sabia se devia subir ou descer, 
no achava o boto que abria a porta, O meu caso, disse o ajudante de farmcia, foi mais simples, ouvi dizer que havia pessoas a cegarem, ento pensei como seria 
se eu cegasse tambm, fechei os olhos a experimentar e quando os abri estava cego, Parece outra parbola, falou a voz desconhecida, se queres ser cego, s-lo-s. 
Ficaram calados. Os outros cegos tinham voltado para as suas camas, o que no era pequeno trabalho, porque se  verdade que sabiam os nmeros que lhes cabiam, s 
comeando a contar de um dos extremos, de um para cima ou de vinte para baixo, podiam ter a certeza de chegar aonde queriam. Quando o murmrio da enumerao, montono 
como uma ladainha, se extinguiu, a rapariga dos culos escuros contou o que lhe sucedera, Estava no quarto de um hotel, tinha um homem em cima de mim, neste ponto 
calou-se, sentiu vergonha de dizer o que fazia ali, que vira tudo branco, mas o velho da venda preta perguntou, E viu tudo branco, Sim, respondeu ela, Talvez a sua 
cegueira no seja como a nossa, disse o velho da venda preta. S faltava a criada do hotel, Estava a fazer uma cama, uma certa pessoa tinha ali cegado, levantei 
e estendi o lenol branco na minha frente, entalei-o nos lados como se deve, e quando com as duas mos o alisava, foi nessa altura que deixei de ver, lembro-me de 
como alisava o lenol, devagarinho, era o de baixo, rematou, como se isso tivesse alguma importncia particular. J todos contaram a sua ltima histria do tempo 
em que viam, perguntou o velho da venda preta, Conto eu a minha, se no h mais ningum, disse a voz desconhecida, Se houver, falar a seguir, diga l, O ltimo 
que eu vi foi um quadro, Um quadro, repetiu o velho da venda preta, e onde estava, Tinha ido ao museu, era uma seara com corvos e ciprestes e um sol que dava a ideia 
de ter sido feito com bocados doutros sis, Isso tem todo o aspecto de ser de um holands, Creio que sim, mas havia tambm um co a afundar-se, j estava meio enterrado, 
o infeliz, Quanto a esse, s pode ser de um espanhol, antes dele ningum tinha pintado assim um co, depois dele ningum mais se atreveu, Provavelmente, e havia 
uma carroa carregada de feno, puxada por cavalos, a atravessar uma ribeira, Tinha uma casa  esquerda, Sim, Ento  de ingls, Poderia ser. mas no creio, porque 
havia l tambm uma mulher com uma criana ao colo, Crianas ao colo de mulheres  do mais que se v em pintura, De facto, tenho reparado, O que eu no entendo  
como poderiam encontrar-se em um nico quadro pinturas to diferentes e de to diferentes pintores, E estavam uns homens a comer, Tm sido tantos os almoos, as 
merendas e as ceias na histria da arte, que s por essa indicao no  possvel saber quem comia, Os homens eram treze, Ah, ento  fcil, siga, Tambm havia uma 
mulher nua, de cabelos louros, dentro de uma concha que flutuava no mar, e muitas flores ao redor dela, Italiano, claro, E uma batalha, Estamos como no caso das 
comidas e das mes com crianas ao colo, no chega para saber quem pintou, Mortos e feridos,  natural, mais tarde ou mais cedo todas as crianas morrem, e os soldados 
tambm, E um cavalo com medo, Com os olhos a quererem saltar-lhe das rbitas, Tal e qual, Os cavalos so assim, e que outros quadros havia mais nesse seu quadro, 
No cheguei a sab-lo, ceguei precisamente quando estava a olhar para o cavalo. O medo cega, disse a rapariga dos culos escuros, So palavras certas, j ramos 
cegos no momento em que cegmos, o medo nos cegou, o medo nos far continuar cegos, Quem est a falar, perguntou o mdico, Um cego, respondeu a voz, s um cego, 
 o que temos aqui. Ento perguntou o velho da venda preta, Quantos cegos sero precisos para fazer uma cegueira. Ningum lhe soube responder. A rapariga dos culos 
escuros pediu-lhe que ligasse o rdio, talvez dessem notcias. Deram-nas mais tarde, entretanto estiveram a ouvir um pouco de msica. Em certa altura apareceram 
 porta da camarata uns quantos cegos, um deles disse, Que pena no ter trazido a guitarra. As notcias no foram animadoras, corria o rumor de estar para breve 
a formao de um governo de unidade e salvao nacional.
     
     Quando ao princpio os cegos daqui ainda se contavam pelos dedos, quando bastavam duas ou trs palavras trocadas para que os desconhecidos se convertessem em 
companheiros de infortnio, e com mais trs ou quatro se perdoavam mutuamente todas as faltas, algumas delas bem graves, e se o perdo no podia ser completo, era 
s ter a pacincia de esperar uns dias, bem se viu quantas ridculas aflies tiveram de sofrer os infelizes, de cada vez que o corpo lhes exigiu qualquer daqueles 
urgentes alvios que costumamos designar por satisfao de necessidades. Apesar disso, e embora sabendo que so rarssimas as educaes perfeitas e que mesmo os 
mais discretos recatos tm os seus pontos dbeis, h que reconhecer que os primeiros cegos trazidos a esta quarentena foram capazes, com maior ou menor conscincia, 
de levar com dignidade a cruz da natureza eminentemente escatolgica do ser humano. Mas agora, ocupados como se encontram todos os catres, duzentos e quarenta, sem 
contar os cegos que dormem no cho, nenhuma imaginao, por muito frtil e criadora que fosse em comparaes, imagens e metforas, poderia descrever com propriedade 
o estendal de porcaria que por aqui vai. No  s o estado a que rapidamente chegaram as sentinas, antros ftidos, como devero ser. no inferno, os desaguadoiros 
das almas condenadas,  tambm a falta de respeito de uns ou sbita urgncia de outros que, em pouqussimo tempo, tornaram os corredores e outros lugares de passagem 
em retretes que comearam por ser de ocasio e se tornaram de costume. Os descuidados ou urgidos pensavam, No tem importncia, ningum me v, e no iam mais longe. 
Quando se tornou impossvel em qualquer sentido, chegar aonde estavam as sentinas, os cegos passaram a usar a cerca como lugar para todos os desafogos e descomposies 
corporais. Os que eram delicados por natureza ou por educao levavam todo o santssimo dia a encolher-se, aguentavam conforme podiam  espera da noite, presumia-se 
que seria noite quando nas camaratas havia mais gente a dormir, e ento l iam, agarrados  barriga ou apertando as pernas,  procura de trs palmos de cho limpo, 
se os havia entre um contnuo tapete de excrementos mil vezes pisados, e ainda por cima com perigo de se perderem no espao infinito da cerca, onde no existiam 
outros sinais orientadores que as poucas rvores cujos troncos tinham podido sobreviver  mania exploratria dos antigos loucos, e tambm as pequenas lombas, j 
quase rasas, que mal cobriam os mortos. Uma vez ao dia. Sempre ao fim da tarde, como um despertador regulado para a mesma hora, a voz do altifalante repetia as conhecidas 
instrues e proibies, insistia nas vantagens de um uso regular dos produtos de limpeza, recordava que havia um telefone em cada camarata para requisitar os suprimentos 
necessrios, quando faltassem, mas o que ali verdadeiramente se necessitava era um poderoso jorro de mangueira que levasse  frente toda a merda, depois uma brigada 
de canalizadores que viessem reparar os autoclismos, p-los a funcionar, depois gua, gua em quantidade, para levar aos canos de esgoto o que ao esgoto deveria 
ir, depois, por favor, olhos, uns simples olhos, uma mo capaz de nos conduzir e guiar, uma voz que me diga, Por aqui. Estes cegos, se no lhes acudirmos, no tardaro 
a transformar-se em animais, pior ainda, em animais cegos. No o disse a voz desconhecida, aquela que falou dos quadros e das imagens do mundo, est a diz-lo, por 
outras palavras, noite alta, a mulher do mdico, deitada ao lado do seu marido, cobertas as cabeas com a mesma manta, H que dar remdio a este horror, no aguento, 
no posso continuar a fingir que no vejo, Pensa nas consequncias, o mais certo  que depois tentem fazer de ti uma escrava, um pau-mandado, ters de atender a 
todos e a tudo, exigir-te-o que os alimentes, que os laves, que os deites e os levantes, que os leves daqui para ali, que os assoes e lhes seques as lgrimas, gritaro 
por ti quando estiveres a dormir, insultar-te-o se tardares, E tu, como queres tu que continue a olhar para estas misrias, t-las permanentemente diante dos olhos, 
e no mexer um dedo para ajudar, O que fazes j  muito, Que fao eu, se a minha maior preocupao  evitar que algum se aperceba de que vejo, Alguns iro odiar-te 
por veres, no creias que a cegueira nos tornou melhores, Tambm no nos tornou piores, Vamos a caminho disso, v tu s o que se passa quando chega a altura de distribuir 
a comida, Precisamente, uma pessoa que visse poderia tomar a seu cargo a diviso dos alimentos por todos os que esto aqui, faz-lo com equidade, com critrio, deixaria 
de haver protestos, acabariam essas disputas que me pem louca, tu no sabes o que  ver dois cegos a lutarem, Lutar foi sempre, mais ou menos, uma forma de cegueira, 
Isto  diferente, Fars o que melhor te parecer, mas no te esqueas daquilo que ns somos aqui, cegos, simplesmente cegos, cegos sem retricas nem comiseraes, 
o mundo caridoso e pitoresco dos ceguinhos acabou, agora  o reino duro, cruel e implacvel dos cegos, Se tu pudesses ver o que eu sou obrigada a ver, quererias 
estar cego, Acredito, mas no preciso, cego j estou, Perdoa-me, meu querido, se tu soubesses, Sei, sei, levei a minha vida a olhar para dentro dos olhos das pessoas, 
 o nico lugar do corpo onde talvez ainda exista uma alma, e se eles se perderam, Amanh vou dizer-lhes que vejo, Oxal no venhas a ter de arrepender-te, Amanh 
lhes direi, fez uma pausa e acrescentou, Se no tiver eu finalmente entrado tambm nesse mundo.
     
     Ainda no foi desta vez. Quando de manh acordou, muito cedo, como costumava, os seus olhos viam to distintamente como antes. Todos os cegos da camarata dormiam. 
Pensou em como haveria de comunicar-lhes, se convoc-los a todos e anunciar-lhes a novidade, talvez fosse prefervel faz-lo de uma maneira discreta, sem alarde, 
dizer, por exemplo, como se no quisesse dar demasiada importncia ao caso, Imaginem, quem havia de pensar que eu ia conservar a vista no meio de tantos que cegaram. 
ou ento, talvez mais conveniente, fazer de conta que havia estado realmente cega e que de repente recuperara a viso, era at uma maneira de lhes dar alguma esperana, 
Se ela passou a ver, diriam uns aos outros, talvez ns tambm, mas igualmente poderia suceder que lhe dissessem Se assim , ento saia, v-se embora, em tal caso 
responderia que no podia ir-se dali sem o marido, e uma vez que o Exrcito no deixava sair da quarentena nenhum cego, no tinham mais remdio que consentir que 
ficasse. Alguns cegos estavam a remexer-se nos catres, como todas as manhs aliviavam-se dos gases, mas a atmosfera no se tornou por isso mais nauseabunda, o nvel 
de saturao j deveria ter sido atingido. No era s o cheiro ftido que vinha das latrinas em lufadas, em exalaes que davam vontade de vomitar, era tambm o 
odor acumulado de duzentas e cinquenta pessoas, cujos corpos, macerados no seu prprio suor, no podiam nem saberiam lavar-se, que vestiam roupas em cada dia mais 
imundas, que dormiam em camas onde no era raro haver dejeces. De que poderiam servir os sabes, as lixvias, os detergentes por a esquecidos, se os duches, muitos 
deles, estavam entupidos ou soltos das canalizaes, se os escoadouros devolviam a gua suja, que alastrava para fora dos balnerios, empapando as tbuas do cho 
dos corredores, infiltrando-se pelas frinchas das lajes. Em que loucura estou eu a pensar em meter-me, duvidou ento a mulher do mdico, mesmo que eles no exigissem 
que eu os servisse, e nada  menos certo, eu prpria no aguentaria sem me pr a a lavar, a limpar, quanto tempo me durariam as foras, isto no  trabalho para 
uma pessoa sozinha. A sua afoiteza, que antes parecera to firme, comeava a esboroar-se, a cair aos bocados perante a realidade abjecta que lhe invadia as narinas 
e lhe ofendia os olhos, agora que tinha chegado o momento de passar das palavras aos actos. Sou cobarde, murmurou exasperada, para isto mais valia estar cega, no 
andaria com veleidades de missionria. Tinham-se levantado trs cegos, um deles era o ajudante de farmcia, iam tomar posies no trio para recolherem a quota-parte 
de comida que cabia  primeira camarata. No se podia afirmar, se justamente olhos faltavam, que a repartio fosse feita a olho, embalagem mais, embalagem menos, 
pelo contrrio, dava pena ver como se enganavam ao contar e voltavam ao princpio, algum de carcter mais desconfiado queria saber exactamente o que levavam os outros, 
acabava sempre por haver discusses, um que outro empurro, um sopapo s cegas, como tinha de ser. Na camarata j toda a gente estava acordada, pronta para receber 
o seu quinho, com a experincia haviam estabelecido ali um modo bastante cmodo de fazer a distribuio, comeavam por levar a comida toda para o fundo da camarata, 
onde estavam os catres do mdico e da mulher e os da rapariga dos culos escuros e do rapazinho que chamava pela me, e ai  que a iam buscar, aos dois de cada vez, 
principiando pelas camas mais perto da entrada, um direito um esquerdo, dois direito dois esquerdo, e assim sucessivamente, sem zangas nem atropelos, demorava mais, 
 certo, mas a tranquilidade compensava a espera. Os primeiros, isto , aqueles que tinham a comida logo ali, ao alcance da mo, eram os ltimos a servirem-se, excepto 
o rapazinho estrbico, claro est, que sempre acabava de comer antes que a rapariga dos culos escuros recebesse o seu quinho, do que vinha a resultar que uma parte 
do que devia ser dela terminava invariavelmente no estmago do mocinho. Os cegos estavam todos de cabea virada para o lado da porta,  espera de ouvirem os passos 
dos companheiros, o rumor inseguro, inconfundvel, de quem traz carga, mas o som que de sbito se ouviu no foi esse, antes mais parecia que vinham correndo ligeiros, 
se tal proeza era possvel tratando-se de pessoas que no podiam ver onde punham os ps. E contudo no ocorreria dizer outra coisa quando eles apareceram ofegantes 
 porta, Que se ter passado l fora para assim terem vindo, a correr, e a estavam os trs a quererem entrar ao mesmo tempo para dar a inesperada notcia, No nos 
deixaram trazer a comida, disse um. e os outros repetiram, No nos deixaram, Quem, os soldados, perguntou uma voz qualquer, No, os cegos, Que cegos, aqui somos 
todos cegos, No sabemos quem eles sejam, disse o ajudante de farmcia, mas penso que devem ser dos que vieram todos juntos, os ltimos que chegaram, E como foi 
isso de no vos deixarem trazer a comida, perguntou o mdico, at agora no tinha havido qualquer problema, Eles dizem que isso acabou, a partir de hoje quem quiser 
comer ter de pagar. Os protestos saltaram de todos os lados na camarata, No pode ser. Tirarem-nos a nossa comida, Cambada de gatunos, Uma vergonha, cegos contra 
cegos, nunca esperei ter de viver para ver uma coisa destas, Vamo-nos queixar ao sargento. Algum mais decidido props que se juntassem todos para irem reclamar 
o que lhes pertencia, No ser fcil, foi a opinio do ajudante de farmcia, eles so muitos, fiquei com a impresso de serem um grupo grande, e o pior  que esto 
armados, Armados, como, Paus pelo menos tm eles, ainda me di este brao da pancada que levei, disse um dos outros, Vamos tentar resolver isto s boas, disse o 
mdico, vou com vocs falar com essa gente, deve haver aqui um mal-entendido, Pois sim, senhor doutor, eu alinho, disse o ajudante de farmcia, mas, pelos modos 
deles, duvido muito de que consiga convenc-los, Seja como for, temos de l ir, no podemos ficar-nos assim, Vou contigo, disse a mulher do mdico. Saiu o pequeno 
grupo da camarata, menos o que se queixava do brao, esse achou que j tinha cumprido a obrigao e ficou a contar aos outros a arriscada aventura, a comidinha ali 
a dois passos, e uma muralha de corpos a defend-la, Com paus, insistia.
     
     Avanando juntos, como uma pinha, romperam caminho por entre os cegos das outras camaratas. Quando alcanaram o trio, a mulher do mdico compreendeu logo que 
nenhuma conversao diplomtica iria ser possvel, e que provavelmente no o seria nunca. No meio do trio, rodeando as caixas da comida, um crculo de cegos armados 
de paus e de ferros de cama, apontados para a frente como baionetas ou lanas, fazia frente ao desespero dos cegos que os cercavam e que, em desajeitados intentos, 
forcejavam por penetrar na linha defensiva, alguns, com a esperana de encontrarem uma aberta, um postigo deixado mal fechado por descuido, aparavam os golpes nos 
braos levantados, outros arrastavam-se de gatas at esbarrarem com as pernas dos adversrios, que os recebiam com pontoadas nos lombos e pontaps. Porrada de cego, 
se costuma dizer. No faltavam ao quadro os protestos indignados, os gritos furiosos, Exigimos a nossa comida, Reclamamos o direito ao po, Malandros, O que isto 
,  uma grande sacanagem, Parece impossvel, houve mesmo um ingnuo ou distrado que disse, Chame-se a polcia, talvez ali os houvesse, policias, a cegueira, j 
se sabe, no olha a mesteres e ofcios, mas um polcia cego no  o mesmo que um cego polcia, e quanto aos dois que conhecamos, esses esto mortos e, com muito 
trabalho, enterrados. Impelida pela esperana absurda de uma autoridade que viesse restaurar no manicmio a paz perdida, fortalecer a justia, devolver a tranquilidade, 
uma cega chegou-se conforme pde  porta principal e gritou para os ares, Ajudem-nos, que estes esto a querer roubar-nos a comida. Os soldados fizeram de conta 
que no tinham ouvido, as ordens que o sargento recebera de um capito que por ali havia passado em vi sita de inspeco eram peremptrias, clarssimas, Se eles 
se matarem uns aos outros, melhor, menos ficam. A cega esgoelava-se como as loucas de antigamente, quase louca ela tambm, mas de pura aflio. Por fim, percebendo 
a inutilidade dos seus apelos, calou-se, virou-se para dentro a soluar e, sem se dar conta de por onde ia, apanhou na cabea desprotegida com uma cacetada que a 
derrubou. A mulher do mdico quis correr a levant-la, mas a confuso era tal que no pde dar nem dois passos. Os cegos que tinham vindo reclamar a comida comeavam 
j a recuar desbaratados, perdida de todo a orientao tropeavam uns nos outros, caam, levantavam-se, tornavam a cair, alguns nem o tentavam, desistiam, deixavam-se 
ficar prostrados no cho, exaustos, mseros, torcidos de dores, com a cara no lajedo. Ento a mulher do mdico, aterrorizada, viu um dos cegos quadrilheiros tirar 
do bolso uma pistola e levant-la bruscamente ao ar. O disparo fez soltar-se do tecto uma grande placa de estuque que foi cair sobre as cabeas desprevenidas, aumentando 
o pnico. O cego gritou, Quietos todos a, e calados, se algum se atreve a levantar a voz, fao fogo a direito, sofra quem sofrer, depois no se queixem. Os cegos 
no se mexeram. O da pistola continuou, Est dito e no h volta atrs, a partir de hoje seremos ns a governar a comida, ficam todos avisados, e que ningum tenha 
a ideia de ir l fora busc-la, vamos pr guardas nesta entrada, sofrero as consequncias de qualquer tentativa de ir contra as ordens, a comida passa a ser vendida, 
quem quiser comer, paga, Pagamos como, perguntou a mulher do mdico, Eu disse que no queria que ningum falasse, berrou o da pistola, agitando a arma  sua frente, 
Algum ter de falar, precisamos saber como deveremos proceder, aonde vamos buscar a comida, se vamos todos juntos ou um de cada vez, Esta est-se a armar em esperta, 
comentou um dos do grupo, se lhe deres um tiro  uma boca a menos a comer, Visse-a eu, e j tinha uma bala na barriga. Depois, dirigindo-se a todos, Voltem imediata 
mente para as camaratas, j, j, quando tivermos levado a comida para dentro diremos o que tm de fazer, E o paga mento, tornou a mulher do mdico, quanto nos vai 
custar um caf com leite e uma bolacha, A gaja est mesmo a pedir poucas, disse a mesma voz, Deixa-a comigo, disse o outro, e mudando de tom, Cada camarata nomear 
dois responsveis, esses ficam encarregados de recolher os valores, todos os valores, soja qual for a sua natureza, dinheiro, jias, anis, pulseiras, brincos, relgios, 
o que l tiverem, e levam tudo para a terceira camarata do lado esquerdo, que  onde ns estamos, e se querem um conselho de amigo, que no lhes passe pela cabea 
tentarem enganar-nos, j sabemos que alguns de vocs vo esconder uma parte do que tiverem de valioso, mas digo-lhes que ser uma pssima ideia, se no nos parecer 
suficiente o que entregarem, simplesmente no comem, entretenham-se a mastigar as notas de banco e a trincar os brilhantes. Um cego da segunda camarata lado direito 
perguntou, E como fazemos, entregamos tudo de uma vez, ou vamos pagando conforme o que formos comendo, Pelos vistos no me expliquei bem, disse o da pistola rindo-se, 
primeiro pagam, depois e que comem, e, quanto ao resto, pagar segundo o que comessem, isso iria exigir uma contabilidade muito complicada, o melhor  levarem tudo 
de uma vez e ns veremos que quantidade de comida merecem, mas ficam mais uma vez avisados, livrem-se de esconder qualquer coisa porque lhes sair muito caro, e 
para no dizerem que no procedemos com lealdade, tomem nota de que depois de entregarem o que tm faremos uma inspeco, ai de vocs se encontrarmos nem que seja 
uma moeda, e agora toda a gente fora daqui, rpido. Levantou o brao e disparou outro tiro. Caiu mais um bocado de estuque. E tu, disse o da pistola, no me hei-de 
esquecer da tua voz, Nem eu da tua cara, respondeu a mulher do mdico.
     
     Ningum pareceu reparar no absurdo de dizer uma cega que no se vai esquecer de uma cara que no viu. Os cegos j tinham recuado o mais depressa que podiam, 
 procura das portas, em pouco tempo estavam os da primeira camarata a dar conhecimento da situao aos companheiros, Pelo que ouvimos, no creio que possamos, por 
agora, fazer mais do que obedecer, disse o mdico, devem ser muitos, e o pior  que tm armas, Ns tambm as podamos arranjar, disse o ajudante de farmcia, Sim, 
uns paus arrancados das rvores, se ainda ficaram alguns ramos  altura do brao, uns ferros das camas, que mal teramos foras para manejar, enquanto eles dispem, 
pelo menos, de uma arma de fogo, Eu no dou o que me pertence a esses filhos de uma puta cega, disse algum, Nem eu, ajuntou outro, Isto, ou damos todos, ou no 
d nenhum, disse o mdico, No temos alternativa, disse a mulher, alm disso, a regra, aqui dentro, vai ter de ser a mesma que nos impuseram l fora, quem no quiser 
pagar, que no pague, est no seu direito, mas nesse caso no comer, o que no pode  estar a alimentar-se  custa dos outros, Daremos todos e daremos tudo, disse 
o mdico, E quem no tiver nada para dar, perguntou o ajudante de farmcia, Esse, sim, comer do que os outros derem,  justo o que algum disse, de cada um segundo 
as suas possibilidades, a cada um segundo as suas necessidades. Fez-se uma pausa, e o velho da venda preta perguntou, A quem designaremos ento como responsveis, 
Eu escolho o senhor doutor, disse a rapariga dos culos escuros. No foi preciso prosseguir a votao, a camarata estava toda de acordo. Teremos de ser dois, recordou 
o mdico, h algum que se disponha, perguntou, Eu, se mais ningum se apresenta, disse o primeiro cego, Muito bem, comecemos ento a recolha, precisamos de um saco, 
uma bolsa, uma pequena mala, qualquer destas coisas serve, Posso despejar isto, disse a mulher do mdico, e logo comeou a esvaziar uma bolsa onde tinha reunido 
uns quantos produtos de beleza e outras miudezas, quando no podia imaginar as condies em que estava destinada a viver. No meio dos frascos, caixas e tubos vindos 
doutro mundo, h via uma tesoura comprida, de pontas finas. No se lembrava de a ter posto ali, mas ali estava. A mulher do mdico levantou a cabea. Os cegos esperavam, 
o marido tinha ido at  cama do primeiro cego, conversava com ele, a rapariga dos culos escuros dizia ao rapazinho estrbico que a comida j no tardava, no cho, 
empurrado para trs da mesa-de-cabeceira, como se a rapariga dos culos escuros ainda tivesse querido, com um pueril e intil pudor, ocult-lo das vistas de quem 
no via, estava um penso higinico mancha do de sangue. A mulher do mdico olhava a tesoura, tentava pensar por que razo a estaria olhando assim, assim como, assim, 
mas no encontrava nenhuma razo, realmente que razo poderia achar-se numa simples tesoura comprida, deitada nas mos abertas, com as suas duas folhas niquela das 
e as pontas agudas e brilhantes, J a tens, perguntava de l o marido, J a tenho, respondeu, e estendeu o brao que segurava a bolsa vazia enquanto o outro brao 
se movia para trs das costas, a esconder a tesoura, Que se passa, perguntou o mdico, Nada, respondeu a mulher, como poderia igualmente ter respondido Nada que 
tu possas ver, deves  ter estranhado a minha voz, foi s isso, nada mais. Juntamente com o primeiro cego, o mdico adiantou-se para este lado, tomou a bolsa nas 
mos vacilantes e disse, Vo preparando o que tm, vamos comear a recolher. A mulher desafivelou o relgio, fez o mesmo ao do marido, tirou os brincos, um pequeno 
anel com rubis, o fio de ouro que trazia ao pescoo, a aliana de casamento, a do marido, no deram grande trabalho a retirar, Temos os dedos mais finos, pensou, 
foi deitando tudo para dentro da bolsa, depois o dinheiro que tinham trazido de casa, umas quantas notas de diferentes valores, algumas moedas, Est tudo, disse, 
Tens a certeza, perguntou o mdico, procura bem, De valor, era o que tnhamos. A rapariga dos culos escuros j reunira os seus bens, no variavam muito, a mais 
s havia duas pulseiras, a menos uma aliana de casamento. A mulher do mdico esperou que o marido e o primeiro cego voltassem as costas, que a rapariga dos culos 
escuros se debruasse para o rapazinho estrbico, Faz de conta que sou a tua me, dizia, pago por mim e por ti, e ento recuou at  parede do fundo. Ali, como ao 
longo das outras paredes, havia grandes pregos espetados que deviam ter servido aos loucos para neles dependurarem sabe-se l que tesouros e manias. Escolheu o mais 
alto a que podia chegar, e enfiou nele a tesoura. Depois sentou-se na cama. Devagar, o marido e o primeiro cego iam andando na direco da porta, paravam para recolher, 
de um lado e do outro, o que cada um tinha para entregar, alguns protestavam que estavam a ser vergonhosamente roubados, e era uma pura verdade, outros desfaziam-se 
do que possuam com uma espcie de indiferena, como se pensassem que, vistas bem as coisas, no h no mundo nada que em sentido absoluto nos pertena, outra no 
menos transparente verdade. Quando chegaram  porta da camarata, terminada a colecta, o mdico perguntou, Entregmos tudo, responderam-lhe que sim umas quantas vozes 
resignadas, houve quem tivesse ficado calado, a seu tempo saberemos se foi para no mentir. A mulher do mdico levantou os olhos para onde a tesoura estava. Estranhou 
v-la to alto, dependurada por uma das argolas ou olhais, como se no tivesse sido ela prpria quem a tinha posto l, depois, de si para consigo, considerou que 
havia sido uma excelente ideia traz-la, agora j poderia aparar a barba do seu homem, torn-lo mais apresentvel, uma vez que, j se sabe, nas condies em que 
vivemos  impossvel um homem barbear-se normalmente. Quando olhou outra vez na direco da porta, os dois homens j haviam desaparecido na sombra do corredor, a 
caminho da terceira camarata lado esquerdo, aonde tinham ordem de ir pagar a comida. A de hoje, a de amanh tambm, talvez a de toda a semana, E depois, a pergunta 
no tinha resposta,  tudo quanto possuamos vai ali.
     
     Contra o costume, os corredores estavam desimpedidos, em geral no era assim, quando se saa das camaratas no se fazia mais que tropear, esbarrar e cair, 
os agredidos praguejavam, largavam palavres grosseiros, os agressores respondiam no mesmo tom, porm ningum dava importncia, uma pessoa tem de desabafar de qualquer 
maneira, mormente se est cego.  frente deles havia um rumor de passos e de vozes, deviam de ser os emissrios doutra camarata que iam  mesma obrigao. Que situao 
a nossa, senhor doutor, disse o primeiro cego, j no nos bastava estarmos cegos, viemos cair nas garras de uns cegos ladres, at parece sina minha, primeiro foi 
o do carro, agora estes que roubam a comida, e ainda por cima de pistola, A diferena  essa, a arma, Mas os cartuchos no duram sempre, Nada dura sempre, contudo, 
neste caso, talvez fosse de desejar que sim, Porqu, Se os cartuchos vierem a acabar, ser porque algum os disparou, e ns j temos mortos de sobra, Estamos numa 
situao insustentvel,  insustentvel desde que aqui entrmos, e apesar disso vamo-nos aguentando, O senhor doutor  optimista, Optimista no sou, mas no posso 
imaginar nada pior do que o que estamos a viver, Pois eu estou desconfiado de que no h limites para o mau, para o mal, Talvez tenha razo, disse o mdico, e depois, 
como se estivesse a falar consigo mesmo, Alguma coisa vai ter de suceder aqui, concluso esta que comporta uma certa contradio, ou h afinal algo pior do que isto, 
ou daqui para diante tudo vai melhorar, ainda que pela amostra o no parea. Pelo caminho percorrido, pelas esquinas que viraram, estavam a aproximar-se da terceira 
camarata. Nem o mdico, nem o primeiro cego tinham aqui vindo alguma vez, mas a construo das duas alas, logicamente, obedecera a uma estrita simetria, quem conhecesse 
bem a ala direita facilmente se poderia orientar na ala esquerda, e vice-versa, bastava virar  esquerda num lado quando no outro tivesse de virar  direita. Ouviram 
vozes, deviam ser os que tinham vindo  frente, Temos de esperar, disse o mdico em voz baixa, Porqu, Os de dentro querero saber exactamente o que estes trazem, 
para eles tanto faz, como j comeram no tm pressa, No deve faltar muito para a hora do almoo, Mesmo que pudessem ver, a estes no lhes serviria de nada sab-lo, 
nem relgios j tm. Um quarto de hora depois, minuto mais, minuto menos, a troca acabou. Os dois homens passaram diante do mdico e do primeiro cego, pela conversa 
percebia-se que levavam comida, Cuidado, no deixes cair, dizia um, e o outro murmurava, O que eu no sei  se vai chegar para todos, Apertamos o cinto. Deslizando 
a mo pela parede, com o primeiro cego logo atrs de si, o mdico avanou at que os dedos tocaram no alizar da porta, Somos da primeira camarata lado direito, anunciou 
para dentro. Fez meno de dar um passo, mas a perna chocou contra um obstculo. Percebeu que era uma cama atravessada, ali posta a fazer as vezes de um balco de 
negcio, Esto organizados, pensou, isto no nasceu de um improviso. Ouviu vozes, passos, Quantos sero, a mulher falara-lhe de uns dez, mas no era de excluir que 
fossem bastantes mais, certamente nem todos estavam no trio quando tinham ido deitar a mo  comida. O da pistola era o chefe, era sua a voz chocarreira que dizia, 
Ora vamos l ver as riquezas que nos traz a primeira camarata lado direito, e depois, em tom mais baixo, falando para algum que devia estar muito perto, Toma nota. 
O mdico ficou perplexo, isto que significa, ele disse Toma nota, portanto h aqui algum que pode escrever, portanto h algum que no est cego, j so dois os 
casos, Temos de nos acautelar, pensou, amanh o tipo pode estar ao p de ns sem que dmos por ele, este pensamento do mdico diferia em pouco daquilo que o primeiro 
cego estava a pensar, Com a pistola e um espio, estamos lixados, nunca mais podemos levantar a cabea. O cego de dentro, capito dos ladres, j tinha aberto a 
bolsa, com mos hbeis ia retirando, apalpando e identificando os objectos, o dinheiro, sem dvida distinguia pelo tacto o que era ouro do que o no era, pelo tacto 
tambm o valor das notas e das moedas,  fcil quando se tem experincia, foi s passados alguns minutos que o ouvido distrado do mdico comeou a perceber um rudo 
inconfundvel de picotagem, que imediatamente identificou, ali ao lado encontrava-se algum a escrever em alfabeto braille, tambm anagliptografia chamado, ouvia-se 
o som ao mesmo tempo surdo e ntido do ponteiro ao perfurar o papel grosso e bater contra a chapa metlica do tabuleiro inferior. Havia portanto um cego normal entre 
os cegos delinquentes, um cego como todos aqueles a quem dantes se dava o nome de cegos, evidentemente tinha sido apanhado na rede com os de mais, no era a altura 
de pr-se o caador a averiguar, Voc  dos cegos modernos ou dos antigos, explique-nos l de que maneira no v. Que sorte estes tiveram, alm de lhes ter sado 
na rifa um escriturrio, tambm podero aproveit-lo como guia, um cego com treino de cego  outra coisa, vale o que pesa em ouro. O inventrio continuava, uma vez 
ou outra o da pistola pedia a opinio do contabilista, Que achas disto, e ele interrompia o registo para dar um parecer, dizia Pechisbeque, caso em que o da pistola 
comentava, Muitos assim, e no comem, ou  bom, e ento o comentrio passava a ser. No h nada como lidar com gente honesta. No fim, foram colocadas trs caixas 
em cima da cama, Levam isto, disse o da pistola. O mdico contou-as, Trs no chegam, disse, recebamos quatro quando a comida era s para ns, no mesmo instante 
sentiu o frio do cano da pistola no pescoo, para cego no tinha sido m a pontaria, Mando tirar uma caixa de cada vez que reclamares, agora desanda, levas essas 
e ds graas a Deus por ainda poderes comer. O mdico murmurou, Est bem, agarrou em duas caixas, o primeiro cego tomou conta da outra, e, mais devagar agora porque 
levavam carrego, refizeram o caminho que os levaria  camarata. Quando chegaram ao trio, onde no parecia que houvesse algum, o mdico disse, No voltarei a ter 
uma oportunidade assim, Que quer dizer, perguntou o primeiro cego, Ele encostou-me a pistola ao pescoo, podia ter-lha arrancado das mos, Seria arriscado, No tanto 
quanto parece, eu sabia onde a pistola estava, ele no podia saber onde estavam as minhas mos, Ainda assim, Tenho a certeza, naquele momento o mais cego dos dois 
era ele, foi pena eu no ter pensado, ou ento pensei, mas no tive a coragem, E depois, perguntou o primeiro cego, Depois, qu, Vamos supor que realmente conseguia 
tirar-lhe a arma, o que no acredito  que fosse capaz de a usar, Se tivesse a certeza de que poderia resolver a situao, sim, Mas no tem a certeza, No, de facto 
no tenho, Ento vale mais que as armas estejam do lado deles, pelo menos enquanto no nos atacarem com elas, Ameaar com uma arma j  atacar, Se lhe tivesse tirado 
a pistola, a verdadeira guerra j teria comeado, e o mais provvel  que nem de l tivssemos sado, Tem razo, disse o mdico, irei fazer de conta que pensei em 
tudo isso, O senhor doutor tem  de lembrar-se daquilo que me disse h bocado, Que foi que eu disse, Que alguma coisa vai ter de suceder, Sucedeu, e no aproveitei, 
Outra coisa ser, no esta.
     
     Quando entraram na camarata e tiveram de apresentar o pouco que traziam para pr na mesa, houve quem achasse que a culpa era deles, por no terem reclamado 
e exigido mais, para isso  que tinham sido nomeados representantes do colectivo. Ento o mdico explicou o que se havia passado, falou do cego escriturrio, dos 
modos insolentes do cego da pistola, da pistola tambm. Os descontentes baixaram o tom, acabaram por concordar que sim senhor, a defesa dos interesses da camarata 
estava bem entregue. Distribuiu-se enfim a comida, houve quem no deixasse de lembrar aos impacientes que o pouco sempre  melhor do que o nada, alm disso, pela 
hora que devia ser. o almoo j no demoraria, O mal  se nos acontece o mesmo que ao cavalo daquele, que morreu quando j se tinha desabituado de comer, disse algum. 
Os outros sorriram palidamente, e um disse, No seria m ideia, se  certo que o cavalo, quando morre, no sabe que vai morrer.
     
     O velho da venda preta tinha entendido que o rdio porttil, tanto pela fragilidade da sua estrutura como pela informao conhecida sobre o tempo da sua vida 
til, se encontrava excludo da lista dos valores que tinham de entregar como pagamento da comida, considerando que o funcionamento do aparelho dependia, em primeiro 
lugar, de ter ou no ter pilhas dentro, e, em segundo lugar, do tempo que elas durassem. Pelo som roufenho das vozes que ainda saam da pequena caixa, era evidente 
que no haveria muito mais a esperar dela. Decidiu por isso o velho da venda preta no repetir as audies gerais, e tambm porque os cegos da terceira camarata 
lado esquerdo poderiam aparecer por ali com uma opinio diferente, no por causa do valor material do aparelho, praticamente nulo a curto prazo, como ficou demonstrado, 
mas pelo seu valor de uso no imediato, que esse  sem dvida altssimo, sem falar na hiptese plausvel de haver pilhas l onde pelo menos h uma pistola. Disse 
pois o velho da venda preta que passaria a escutar as notcias debaixo da manta da cama, com a cabea toda tapada, e que se houvesse alguma novidade interessante, 
logo avisaria. A rapariga dos culos escuros ainda lhe pediu que a deixasse ouvir de vez em quando um bocadinho de msica, S para no perder a lembrana, justificou, 
mas ele foi inflexvel, dizia que o importante era saber o que se ia passando l fora, quem quisesse msica que a ouvisse dentro da sua prpria cabea, para alguma 
coisa boa nos haver de servir a memria. Tinha razo o velho da venda preta, a msica do rdio j arranhava como s uma m recordao  capaz de arranhar, por isso 
mantinha-o no mnimo volume sonoro possvel,  espera de que as notcias chegassem. Ento, espevitava um pouco o som e apurava o ouvido para no perder uma slaba. 
Depois, com palavras suas, resumia as informaes e transmitia-as aos vizinhos prximos. Assim, de cama em cama, as notcias iam lentamente dando a volta  camarata, 
desfiguradas de cada vez que passavam de um receptor ao receptor seguinte, diminuda ou agravada desta maneira a importncia das informaes, consoante o grau pessoal 
de optimismo e pessimismo prprio de cada emissor. At que chegou o momento em que as palavras se calaram e o velho da venda preta se achou sem ter que dizer. E 
no foi por que o rdio se tivesse avariado ou as pilhas esgotado, a experincia da vida e das vidas tem cabalmente demonstrado que ao tempo no h quem o governe, 
parecia esta maquineta que pouco iria durar e afinal algum teve de calar-se antes dela. Ao longo de todo este primeiro dia vivido sob a pata dos cegos malvados, 
o velho da venda preta tinha estado a ouvir e a passar notcias, rebatendo por sua conta a bvia falsidade dos optimistas vaticnios oficiais, e agora, j adiantada 
a noite, com a cabea enfim fora da manta, aplicava o ouvido  ronqueira em que a dbil alimentao elctrica do rdio transformava a voz do locutor, quando de sbito 
o ouviu gritar, Estou cego, depois o rudo de algo chocando violentamente contra o microfone, uma sequncia precipitada de rumores confusos, exclamaes, e de repente 
o silncio. A nica estao de rdio que ali dentro o aparelho tinha podido captar calara-se. Durante muito tempo ainda o velho da venda preta manteve o ouvido pegado 
 caixa agora inerte, como se estivesse  espera do regresso da voz e da continuao do noticirio. Porm, adivinhava, sabia que ela no tornaria mais. O mal-branco 
no cegara apenas o locutor. Como um rastilho, atingira rpida e sucessivamente quantos se encontravam na estao. Ento o velho da venda preta deixou cair o rdio 
no cho. Os cegos malvados, se viessem a ao cheiro de jias escondidas, encontrariam confirmada a razo, se em tal coisa haviam pensado, por que no tinham, eles 
prprios, includo os rdios portteis na lista dos objectos de valor. O velho da venda preta puxou a manta para cima da cabea para poder chorar  vontade.
     
     Aos poucos, sob a luz amarelada e suja das lmpadas dbeis, a camarata foi entrando num sono profundo, reconfortados os corpos pelas trs refeies do dia. 
como antes raramente havia sucedido. A continuarem assim as coisas, acabaremos, uma vez mais, por ter de chegar  concluso de que mesmo nos males piores  possvel 
achar-se uma poro de bem suficiente para que os levemos, aos ditos males, com pacincia, o que, transportado para a presente situao, significa que, contrariamente 
s primeiras e inquietantes previses, a concentrao dos alimentos em uma nica entidade rateadora e distribuidora tinha, afinal, os seus aspectos positivos, por 
muito que se queixassem alguns idealistas que teriam preferido continuar a lutar pela vida pelos seus prprios meios, mesmo tendo de passar por causa dessa teimosia 
alguma fome. Descuidados do dia de amanh, esquecidos de que quem paga adiantado, sempre acaba mal servido, a maioria dos cegos, em todas as camaratas, dormiam a 
sono solto. Os outros, cansados de buscar sem resultado uma sada honrosa para os vexames sofridos, foram, pouco a pouco, adormecendo tambm, sonhando com a esperana 
de uns dias melhores do que estes, mais livres, se no mais fartos. Na primeira camarata lado direito s a mulher do mdico no dormia. Deitada na sua cama, pensava 
no que o marido tinha contado, quando por um momento julgou que entre os cegos ladres estava algum que via, algum que eles poderiam vir a usar como espio. Era 
curioso que depois no tivessem voltado a falar do assunto, como se ao mdico, o que faz o hbito, no lhe tivesse ocorrido que a sua prpria mulher continuava a 
ver. Pensou-o ela, mas calou-se, no quis pronunciar as palavras bvias, Isso que, afinal, ele no poder fazer, posso faz-lo eu, O qu, perguntaria o mdico, fingindo 
no compreender. Agora, com os olhos fitos na tesoura pendurada na parede, a mulher do mdico estava a perguntar-se a si mesma, De que me serve ver. Servira-lhe 
para saber do horror mais do que pudera imaginar alguma vez, servira-lhe para ter desejado estar cega, nada seno isso. Com um movimento cauteloso sentou-se na cama. 
Na sua frente dormiam a rapariga dos culos escuros e o rapazinho estrbico. Reparou que as duas camas estavam muito prximas, a rapariga tinha empurrado a sua, 
certamente para estar mais perto do rapaz, se ele precisasse de consolo, de que lhe enxugassem as lgrimas pela falta de uma me perdida. Como foi que no me lembrei, 
pensou, podia j ter unido as nossas camas, dormiramos juntos, sem estar eu com a constante preocupao de ele poder cair da cama. Olhou o marido, que dormia pesadamente, 
num sono de pura exausto. No chegara a dizer-lhe que tinha trazido a tesoura, que um dia destes lhe haveria de aparar a barba,  trabalho que at um cego  capaz 
de fazer, desde que no chegue demasiado as laminas  pele. Dera a si mesma uma boa justificao para no lhe falar da tesoura, Depois vinham-me a os homens todos, 
no fazia outra coisa que cortar barbas. Rodou o corpo para fora, assentou os ps no cho, procurou os sapatos. Quando ia cal-los, deteve-se, olhou-os fixamente, 
depois abanou a cabea e, sem rudo, tornou a pous-los. Passou para a coxia entre as camas e comeou a andar lentamente em direco  porta da camarata. Os ps 
descalos sentiram a imundcie pegajosa do cho, mas ela sabia que l fora, nos corredores, seria muito pior. Ia olhando a um lado e a outro, a ver se havia algum 
cego acordado, embora estar um ou mais deles vigilando, ou a camarata toda, no tivesse qualquer importncia, desde que no fizesse rudo, e mesmo que o fizesse, 
sabemos a quanto obrigam as necessidades do corpo, que no escolhem horas, enfim, o que ela no queria era que o marido despertasse e desse pela ausncia a tempo 
ainda de perguntar-lhe Aonde vais, que , provavelmente, a pergunta que os homens mais fazem s suas mulheres, a outra  Onde estiveste. Uma das cegas estava sentada 
na cama, com as costas apoiadas na cabeceira baixa, o olhar vazio lanado para a parede da frente, sem conseguir chegar-lhe. A mulher do mdico parou um momento, 
como se duvidasse em tocar aquele fio invisvel que pairava no ar, como se um simples contacto o pudesse destruir irremediavelmente. A cega levantou um brao, devia 
ter percebido alguma leve vibrao da atmosfera, depois deixou-o cair desinteressada, j lhe bastava no poder dormir por causa do ressonar dos vizinhos. A mulher 
do mdico continuou a andar, cada vez mais depressa,  medida que se aproximava da porta. Antes de seguir em direco ao trio, olhou ao longo do corredor que levava 
s outras camaratas deste lado, l mais para diante, s sentinas, e finalmente,  cozinha e ao refeitrio. Havia cegos deitados junto s paredes, daqueles que  
chegada no foram capazes de conquistar uma cama, ou porque no assalto se deixaram ficar para trs, ou porque lhes faltaram foras para disput-la e vencer na luta. 
A dez metros, um cego estava deitado em cima de uma cega, ele enganchado entre as pernas dela, faziam-no o mais discretamente que podiam, eram dos discretos em pblico, 
mas no seria preciso ter o ouvido muito apurado para saber em que se ocupavam, muito menos quando um e outro j no puderam reprimir os ais e os gemidos, alguma 
palavra inarticulada, que so os sinais de que tudo aquilo est prestes a acabar. A mulher do mdico ficou parada a olh-los, no por inveja, tinha o seu marido 
e a satisfao que ele lhe dava, mas por causa de uma impresso doutra natureza, para a qual no encontrava nome, poderia ser um sentimento de simpatia, como se 
estivesse a pensar em dizer-lhes No liguem a estar eu aqui, tambm sei o que isso , continuem, poderia ser um sentimento de compaixo Ainda que esse instante de 
gozo supremo pudesse durar-vos a vida inteira, nunca os dois que sois podereis chegar a ser um s. O cego e a cega descansavam agora, J separados, um ao lado do 
outro, mas continuavam de mos dadas, eram novos, talvez fossem namorados, tinham ido ao cinema e ali cegaram, ou um acaso milagroso os juntou aqui, e, sendo assim, 
como foi que se reconheceram, ora essa, pelas vozes, claro est, no  s a voz do sangue que no precisa de olhos, o amor, que dizem ser cego, tambm tem a sua 
palavra a dizer. O mais provvel, porm,  que os tivessem apanhado ao mesmo tempo, nesse caso aquelas mos entrelaadas no so de agora, esto assim desde o princpio.
     
     A mulher do mdico suspirou, levou as mos aos olhos, necessitou faz-lo porque estava a ver mal, mas no se assustou, sabia que eram s lgrimas. Depois continuou 
o seu caminho. Chegando ao trio, aproximou-se da porta que dava para a cerca exterior. Olhou para fora. Por detrs do porto havia uma luz, sobre ela a silhueta 
negra de um soldado. Do outro lado da rua, os prdios estavam todos s escuras. Saiu para o patamar. No havia perigo. Mesmo que o soldado se apercebesse do vulto, 
s dispararia se ela, tendo descido a escada, se aproximas se, depois de um aviso, daquela outra linha invisvel que era, para ele, a fronteira da sua segurana. 
Habituada j aos rumores contnuos da camarata, a mulher do mdico estranhou o silncio, um silncio que parecia estar a ocupar o espao de uma ausncia, como se 
a humanidade, toda ela, tivesse desaparecido, deixando apenas uma luz acesa e um soldado a guard-la, a ela e a um resto de homens e de mulheres que a no podiam 
ver. Sentou-se no cho, com as costas apoiadas na ombreira da porta, na mesma posio em que vira a cega da camarata, e olhando em frente como ela. A noite estava 
fria, o vento soprava ao longo da fachada do edifcio, parecia impossvel que ainda houvesse vento no mundo, que fosse negra a noite, no o dizia por si, pensava, 
sim, nos cegos para quem o dia durava sempre. Sobre a luz apareceu uma outra silhueta, devia de ser o render da guarda, Sem novidade, estaria a dizer o soldado que 
ir para a tenda dormir o resto da noite, no imaginavam eles o que se estava a passar por detrs daquela porta, provavelmente o barulho dos tiros nem tinha chegado 
c fora, uma pistola comum no faz muito rudo. Uma tesoura ainda menos, pensou a mulher do mdico. No se perguntou inutilmente de onde lhe viera um tal pensamento, 
apenas se surpreendeu com a lentido dele, como a primeira palavra tinha tardado tanto a aparecer, o vagar das seguintes, e como depois achou que o pensamento j 
l se encontrava antes, onde quer que fosse, e s as palavras lhe faltavam, assim como um corpo que procurasse, na cama, o cncavo que havia sido preparado para 
ele pela simples ideia de deitar-se. O soldado chegou-se ao porto, apesar de estar em contraluz percebe-se que olha para este lado, deve ter dado pelo vulto imvel, 
por enquanto no h luz bastante para ver que  s uma mulher sentada no cho, com os braos envolvendo as pernas e o queixo apoiado nos joelhos, ento o soldado 
aponta o foco de uma lanterna para este lado, j no pode haver dvidas,  uma mulher que est a erguer-se com um movimento to lento como antes havia sido o pensamento, 
mas isto no o pode saber o soldado, o que ele sabe  que tem medo daquela figura que parece no acabar mais de levantar-se, num momento pergunta-se se deve dar 
o alarme, noutro decide que no, afinal  s uma mulher e est longe, em todo o caso, pelo sim pelo no, aponta-lhe preventivamente a arma, mas para o fazer teve 
de largar a lanterna, nesse movimento o foco luminoso deu-lhe em cheio nos olhos, como uma queimadura instantnea ficou-lhe na retina uma impresso de deslumbramento. 
Quando a viso se restabeleceu, a mulher tinha desaparecido, agora esta sentinela no poder dizer a quem a vier render, Sem novidade.
     
     A mulher do mdico j est na ala do lado esquerdo, no corredor que a levar  terceira camarata. Tambm aqui h cegos a dormirem no cho, mais do que na ala 
direita. Caminha sem fazer rudo, lentamente, sente o cho viscoso pegar-se-lhe aos ps. Olha para dentro das duas primeiras camaratas, e v o que esperava ver, 
os vultos deitados sob as mantas, um cego que tambm no consegue adormecer e o diz com voz desesperada, ouve o ressonar entrecortado de quase todos. Quanto ao cheiro 
que tudo isto desprende, no o estranha, no h outro em todo o edifcio,  o cheiro do seu prprio corpo, das roupas que veste. Ao dobrar a esquina para a parte 
do corredor que d acesso  terceira camarata, deteve-se. H um homem  porta, outra sentinela. Tem um cajado na mo, faz com ele movimentos lentos, a um lado e 
a outro, como para interceptar a passagem de algum que pretendesse aproximar-se. Aqui no h cegos a dormirem no cho, o corredor est desimpedido. O cego da porta 
continua no seu vaivm uniforme, parece ele que no se cansa, mas no  assim, passados uns minutos muda o cajado de mo e recomea. A mulher do mdico avanou rente 
 parede do outro lado, tendo o cuidado de no roar por ela. O arco que o cajado descreve no chega sequer ao meio do corredor largo, d vontade de dizer que esta 
sentinela faz guarda com uma arma descarregada. A mulher do mdico est agora exactamente em frente do cego, pode ver a camarata por trs dele. As camas no esto 
todas ocupadas. Quantos sero, pensou. Avanou um pouco mais, quase at ao limite de alcance do cajado, e a parou, o cego tinha virado a cabea para o lado onde 
ela estava, como se tivesse percebido algo anormal, um suspiro, um estremecimento do ar. Era um homem alto, de mos grandes. Primeiro esticou para a frente o brao 
que segurava o cajado, varreu com gestos rpidos o vazio diante de si, deu depois um passo breve, durante um segundo a mulher do mdico temeu que ele estivesse a 
v-la, que s procurasse por onde seria melhor atac-la, Aqueles olhos no esto cegos, pensou, alarmada. Sim, claro que estavam cegos, to cegos como os de quantos 
viviam debaixo destes tectos, entre estas paredes, todos, todos, excepto ela. Em voz baixa, quase num sussurro, o homem perguntou, Quem est a, no gritou como 
as sentinelas de verdade Quem vem l, a resposta boa deveria ser Gente de paz, e ele remataria Passe de largo, no foi assim que as coisas se passaram, s abanou 
a cabea como se respondes se a si mesmo Que disparate, aqui no pode haver ningum, a estas horas est tudo a dormir. Apalpando com a mo livre, recuou para junto 
da porta, e, tranquilizado pelas suas prprias palavras, deixou pender os braos. Tinha sono, h muito tempo que estava  espera de que um dos companheiros o viesse 
render, mas para isso era preciso que o outro,  voz interior do dever, acordasse por si mesmo, que ali no havia despertadores nem meio nenhum de os usar. Cautelosamente, 
a mulher do mdico chegou-se  outra ombreira da porta e olhou para dentro. A camarata no estava cheia.
     Fez uma contagem rpida, pareceu-lhe que deviam ser uns dezanove ou vinte. Ao fundo viu umas quantas caixas de comida empilhadas, outras em cima das camas desocupadas, 
Era de esperar, eles no distribuem a comida toda que vo recebendo, pensou. O cego pareceu ficar outra vez inquieto, mas no fez qualquer movimento para investigar. 
Os minutos passavam. Ouviu-se uma tosse violenta, de fumador, vinda de dentro. O cego virou a cabea ansioso, enfim poderia ir dormir. Nenhum dos que estavam deitados 
se levantou.
     Ento o cego, lentamente, como se tivesse medo de que o viessem surpreender em delito flagrante de abandono de posto ou infringindo de uma vez s todas as regras 
por que esto obrigadas a reger-se as sentinelas, sentou-se na borda da cama que tapava a entrada. Ainda cabeceou durante uns momentos, mas depois deixou-se ir no 
rio do sono, o mais certo foi ter pensado ao afundar-se, No tem importncia, ningum me v. A mulher do mdico tornou a contar os que dormiam l dentro, Com este 
so vinte, ao menos levava dali uma informao certa, no tinha sido intil a excurso nocturna, Mas ter sido apenas para isto que vim c, perguntou a si mesma, 
e no quis procurar a resposta. O cego dormia com a cabea apoiada  ombreira da porta, o cajado escorregara sem rudo para o cho, ali estava um cego desarma do 
e sem colunas para derrubar. Deliberadamente, a mulher do mdico quis pensar que este homem era um ladro de comida, que roubava o que a outros pertencia de justia, 
que tirava  boca de crianas, mas apesar de o pensar no chegou a sentir desprezo, nem sequer uma leve irritao, s uma estranha piedade diante do corpo descado, 
da cabea inclinada para trs, do pescoo alongado de veias grossas. Pela primeira vez desde que sara da camarata teve um arrepio de frio, parecia que as lajes 
do cho lhe estavam a gelar os ps, como se os queimassem, Oxal no seja isto febre, pensou. No seria, seria s uma fadiga infinita, uma vontade de enrolar-se 
sobre si mesma, os olhos, ah, sobretudo os olhos, virados para dentro, mais, mais, mais, at poderem alcanar e observar o interior do prprio crebro, ali onde 
a diferena entre o ver e o no ver  invisvel  simples vista.
     Devagar, ainda mais devagar, arrastando o corpo, voltou para trs, para o lugar aonde pertencia, passou ao lado de cegos que pareciam sonmbulos, sonmbula 
ela tambm para eles, nem tinha de fingir que estava cega. Os cegos enamorados j no estavam de mos dadas, dormiam deitados de lado, encolhi dos para conservarem 
o calor, ela na concha formada pelo corpo dele, afinal, reparando melhor, tinham-se dado as mos, o brao dele por cima do corpo dela, os dedos entre laados. L 
dentro, na camarata, a cega que no conseguia dormir continuava sentada na cama,  espera de que a fadiga do corpo fosse tal que acabasse por render a resistncia 
obstinada da mente. Todos os outros pareciam dormir, alguns com a cabea tapada, como se ainda estivessem  procura de uma escurido impossvel. Sobre a mesa-de-cabeceira 
da rapariga dos culos escuros, via-se o frasquinho de colrio.
     Os olhos j estavam curados, mas ela no o sabia.
     
     Se o cego encarregado de escriturar os ilcitos ganhos da camarata dos malvados tivesse decidido, por efeito de uma iluminao esclarecedora do seu duvidoso 
esprito, passar-se para este lado com os seus tabuleiros de escrever, o seu papel grosso e o seu puno, certamente andaria agora ocupado a redigir a instrutiva 
e lamentvel crnica do mau passadio e outros muitos sofrimentos destes novos e espoliados companheiros. Comearia por dizer que l de onde tinha vindo, no s os 
usurpadores haviam expulsado da camarata os cegos honrados, para ficarem donos e senhores eles de todo o espao, como haviam, ainda por cima, proibido aos ocupantes 
das outras duas camaratas da ala esquerda o acesso e a serventia das respectivas instalaes sanitrias, como se lhes chama. Comentaria que o resultado imediato 
da infame prepotncia fora ter afludo toda aquela aflita gente s sentinas deste lado, com consequncias fceis de imaginar a quem no se tenha esquecido do estado 
em que tudo isto j se encontrava antes. Faria constar que no se pode andar pela cerca interior sem tropear em cegos escoando as suas diarreias ou retorcendo-se 
com a angstia de tenesmos que tinham prometido muito e afinal no resolviam nada, e, sendo um esprito observador, no deixaria, a propsito, de registar a patente 
contradio entre o pouco que se ingeria e o muito que se eliminava, desta maneira ficando por ventura demonstrado que a clebre relao de causa e efeito, tantas 
vezes citada, no , pelo menos de um ponto de vista quantitativo, sempre de fiar. Tambm diria que enquanto a estas horas a camarata dos malvados dever estar j 
atulha da de caixas de comida, aqui os desgraados no tarda que se vejam reduzidos a apanhar migalhas do cho imundo. No se esqueceria o cego contabilista de condenar, 
na sua dupla qualidade de parte no processo e cronista dele, o procedimento criminoso dos cegos opressores, que preferem deixar que se estrague a comida a d-la 
a quem dela to precisado est, pois se  certo que alguns daqueles alimentos podem durar umas semanas sem perder a virtude, outros, em particular os que vm cozinhados, 
se no so comidos logo, em pouco tempo esto azedos ou cobertos de bolores, portanto imprestveis para seres humanos, se estes o so ainda. Mudando de assunto, 
mas no de tema, escreveria o cronista, com grande mgoa de corao, que as doenas daqui no so apenas as do tracto digestivo, ou seja por carncia de ingesto 
suficiente, ou seja por mrbida descomposio do ingerido, para c no vieram apenas pessoas saudveis, ainda que cegas, inclusive algumas destas, que pareciam trazer 
sade para dar e vender, esto agora, como as outras, sem se poderem levantar dos pobres catres, derrubadas por umas gripes fortssimas que entraram no se sabe 
como. E no se encontra em nenhuma parte das cinco camaratas uma aspirina que possa baixar esta febre e aliviar esta dor de cabea, em pouco tempo acabou o que ainda 
havia, rebuscado at ao forro das malinhas de mo das senhoras. Renunciaria o cronista, por circunspeco, a fazer um relato discriminativo de outros males que esto 
afligindo muitas das quase trezentas pessoas postas em to desumana quarentena, mas no poderia deixar de mencionar, pelo menos, dois casos de cancro bastante adiantados, 
que no quiseram as autoridades ter contemplaes humanitrias na hora de caar os cegos e traz-los para aqui, disseram mesmo que a lei quando nasce  igual para 
todos e que a democracia  incompatvel com tratamentos de favor. Mdicos, em tanta gente, assim quis a m sorte, no h mais do que um, ainda por cima oftalmologista, 
aquele que menos falta nos fazia. Chegando a este ponto, o cego contabilista, cansado de descrever tanta misria e dor, deixaria cair sobre a mesa o puno metlico, 
buscaria com a mo trmula o bocado de po duro que havia deixado a um lado enquanto cumpria a sua obrigao de cronista do fim dos tempos, mas no o encontraria, 
porque outro cego, de tanto lhe pde valer o olfacto nesta necessidade, o tinha roubado. Ento, renegando o gesto fraterno, o abnegado impulso que o tinha feito 
acudir a este lado, decidiu o cego contabilista que o melhor, se ainda ia a tempo, seria regressar  terceira camarata lado esquerdo, ao menos, l, por muito que 
se lhe esteja revolvendo o esprito de honesta indignao contra as injustias dos malvados, no passar fome.
     
     Disto realmente se trata. De cada vez que os encarregados de ir buscar a comida tornam s camaratas com o pouco que l lhes foi entregue, rebentam, furiosos, 
os protestos. H sempre algum que prope uma aco colectiva organizada, uma manifestao macia, apresentando como argumento valedor a tantas vezes verificada 
fora expansiva do nmero, sublimada na afirmao dialctica de que as vontades, em geral apenas adicionveis umas s outras, tambm so muito capazes, em certas 
circunstancias, de multiplicar-se entre si, at ao infinito. Porm, no tardava que os nimos acalmassem, bastava que algum, mais prudente, com a simples e objectiva 
inteno de ponderar as vantagens e os riscos da aco proposta, lembrasse aos entusiastas os efeitos mortais que costumam ter as pistolas, Os que forem adiante, 
diziam, sabem o que l tm  espera, e quanto aos de trs, o melhor  nem imaginar o que suceder no caso muito provvel de nos assustarmos ao primeiro disparo, 
seremos mais a morrer esborrachados do que a tiros. Como soluo intermdia, foi decidido numa das camaratas, e dessa deciso passaram palavra s outras, que mandariam 
buscar a comida, no os j escarmentados emissrios do costume, mas um grupo nutrido deles, maneira esta obviamente imprpria, umas dez ou doze pessoas, as quais 
tratariam de expressar, coralmente, o descontentamento de todos. Pediram-se voluntrios, mas, talvez por efeito das conhecidas advertncias dos cautelosos, em nenhuma 
camarata foram tantos os que se apresentaram para a misso. Graas a Deus, esta evidente mostra de fraqueza moral deixou de ter qualquer importncia, e mesmo de 
ser motivo de vergonha, quando, dando razo  prudncia, houve conhecimento do resultado da expedio organizada pela camarata que tivera a ideia. Os oito corajosos 
que se atreveram foram incontinente corridos a cacete, e se  verdade que apenas uma bala foi disparada, no o  menos que esta no levava a pontaria to alta como 
as primeiras, a prova est em que os reclamantes juraram depois t-la ouvido assobiar pertssimo das cabeas. Se j tinha havido aqui inteno assassina, talvez 
o venhamos a saber mais tarde, por ora conceda-se ao atirador o benefcio da dvida, isto , ou aquele tiro no passou realmente de um aviso, ainda que mais a srio, 
ou o chefe dos malvados se equivocou acerca da altura dos manifestantes, por imagin-los mais baixos, ou ento, suposio esta inquietante, o equvoco ter sido 
imagin-los ele mais altos do que o eram de facto, caso em que a inteno de matar passaria a ter de ser inevitavelmente considerada. Deixando agora de parte estas 
midas questes, e atendendo aos interesses gerais, que so os que contam, foi uma autntica providncia, mesmo que tenha sido apenas uma casualidade, terem-se anunciado 
os reclamantes como delegados da camarata nmero tantos. Assim, s ela teve de jejuar por castigo durante trs dias, e com muita sorte, que podiam ter-lhes cortado 
os vveres para sempre, como  justo que suceda a quem ousa morder a mo que lhe d de comer. No tiveram pois outro remdio os da camarata insurrecta, durante esses 
trs dias, do que andar de porta em porta a implorar a esmola de uma cdea de po, pelas alminhas, se possvel adubado com algum conduto, no morreram de fome,  
certo, mas tiveram de ouvir do bom e do bonito, Com ideias dessas bem podem vocs limpar as mos  parede, Se tivssemos ido na vossa conversa, em que situao estaramos 
agora, mas pior do que tudo foi quando lhes disseram, Tenham pacincia, tenham pacincia, no h palavras mais duras de ouvir, antes o insulto. E quando os trs 
dias do castigo acabaram e se acreditou que ia nascer um dia novo, viu-se que a punio da infeliz camarata, aquela onde se albergavam todos os quarenta cegos insurrectos, 
afinal no tinha terminado, pois a comida, que at a mal tinha chegado para vinte, passara a ser to pouca que nem a dez conseguiria matar a fome. Pode-se portanto 
imaginar a revolta, a indignao, e tambm, doa a quem doer, factos so factos, o medo das camaratas restantes, que j se viam assaltadas pelos necessitados, divididas, 
elas, entre os deveres clssicos da humana solidariedade e a observncia do velho e no menos clssico preceito de que a caridade bem entendida por ns prprios 
 que ter de comear.
     
     Estavam as coisas neste ponto quando veio ordem dos malvados para que lhes fossem entregues mais dinheiro e objectos valiosos, porquanto, consideravam eles, 
a comida fornecida j havia ultrapassado o valor do pagamento inicial, alis, segundo eles afirmavam, generosamente calculado por alto. Responderam aflitas as camaratas 
que no lhes tinha ficado nos bolsos nem um nico centavo, que todos os bens recolhidos haviam sido pontualmente entregues, e que, argumento este em verdade vergonhoso, 
no seria de todo equnime qualquer deciso que deliberadamente ignorasse as diferenas de valor das distintas contribuies, isto , em palavras simples, no estava 
bem que fosse o justo a pagar pelo pecador, e que portanto no se deviam cortar os alimentos a quem, provavelmente, ainda teria um saldo a seu favor. Nenhuma das 
camaratas, evidentemente, conhecia o valor do que fora entregue pelas restantes, mas cada uma achava que tinha razes para ainda continuar a comer quando s de mais
j se lhes tivesse acabado o crdito. Felizmente, graas ao que os conflitos latentes morreram  nascena, os malvados foram terminantes, a ordem era para ser
cumprida
por toda a gente, se tinha havido diferenas na avaliao ficavam no segredo da contabilidade do cego escriturrio. Nas camaratas, a discusso foi acesa, spera,
algumas vezes chegou  violncia. Suspeitavam alguns que certos egostas e mal-intencionados haviam escondido parte dos seus valores na altura da recolha, e portanto
tinham andado a comer  custa de quem honestamente se tinha despojado de tudo em benefcio da comunidade. Alegavam outros, recuperando para uso pessoal o que at 
a fora uma argumentao colectiva, que aquilo que haviam entregado, s por si, daria para continuarem a comer ainda por muitos dias, em lugar de terem de estar 
ali a sustentar parasitas. A ameaa que os cegos malvados tinham feito ao princpio, de virem passar revista s camaratas e punir os infractores, acabou por ser 
executada dentro de cada uma, cegos bons contra cegos maus, malvados tambm. No se encontraram riquezas estupendas, mas ainda foram descobertos uns quantos relgios 
e anis, tudo mais de homem que de mulher. Quanto aos castigos da justia interna, no passaram de uns safanes ao acaso, uns dbeis socos mal dirigidos, o que mais 
se ouviu foram insultos, alguma frase pertencente a uma antiga retrica acusatria, por exemplo, At eras capaz de roubar a tua prpria me, imagine-se, como se 
uma ignomnia assim, e outras de ainda maior considerao, para virem a ser cometidas, tivessem de esperar o dia em que toda a gente cegasse e, por ter perdido a 
luz dos olhos, perdesse o farol do respeito. Os cegos malvados receberam o pagamento com ameaas de duras represlias, que por fortuna depois no cumpriram, sups-se 
que por esquecimento, quando o certo  que andavam j com outra ideia na cabea, como no tardar a saber-se. Tivessem eles executado as ameaas, e mais injustias 
viriam agravar a situao, acaso com consequncias dramticas imediatas, porquanto duas das camaratas, para ocultarem o delito de reteno de que eram culpadas,
se apresentaram em nome de outras, carregando as camaratas inocentes com culpas que no eram suas, alguma at to honesta que tudo havia entregado no primeiro dia.
Felizmente, para no estar com mais trabalhos, o cego contabilista resolvera escriturar  parte, em uma s folha de papel, as diferentes novas contribuies, e foi 
o que a todos valeu, tanto inocentes como culpados, porque de certeza a irregularidade fiscal lhe teria saltado aos olhos se as tivesse levado s respectivas contas.
     
     Passada uma semana, os cegos malvados mandaram recado de que queriam mulheres. Assim, simplesmente, Tragam-nos mulheres. Esta inesperada, ainda que no de todo 
inslita, exigncia causou a indignao que  fcil imaginar, os aturdidos emissrios que vieram com a ordem voltaram logo l para comunicar que as camaratas, as 
trs da direita e as duas da esquerda, sem excepo dos cegos e cegas que dormiam no cho, haviam decidido, por unanimidade, no acatar a degradante imposio, objectando 
que no se podia rebaixar a esse ponto a dignidade humana, neste caso feminina, e que se na terceira camarata lado esquerdo no havia mulheres, a responsabilidade, 
se a havia, no lhes poderia ser assacada. A resposta foi curta e seca, Se no nos trouxerem mulheres, no comem. Humilhados, os emissrios regressaram s camaratas 
com a ordem, Ou vo l, ou no nos do de comer. As mulheres sozinhas, as que no tinham parceiro, ou no o tinham fixo, protestaram imediatamente, no estavam dispostas 
a pagar a comida dos homens das outras com o que tinham entre pernas, uma delas teve mesmo o atrevimento de dizer, esquecendo o respeito que devia ao seu sexo, Eu 
sou muito senhora de l ir, mas o que ganhar  para mim, e se me apetecer fico a viver com eles, assim tenho cama e mesa garantida. Por estas inequvocas palavras 
o disse, mas no passou aos actos subsequentes, lembrou-se a tempo do mau bocado que iria ser se tivesse de aguentar sozinha o furor ertico de vinte machos desenfreados 
que, pela urgncia, pareciam estar cegos de cio. Porm, esta declarao, assim levianamente proferida na segunda camarata lado direito, no caiu em cesto roto, um 
dos emissrios, com particular sentido de ocasio, deitou-lhe logo a mo para propor que se apresentassem voluntrias ao servio, tendo em conta que o que se faz 
de moto prprio custa em geral menos do que o que tem de fazer-se por obrigao. S um derradeiro cuidado, uma ltima prudncia o impediram de rematar o apelo citando 
o conhecido provrbio Quem corre por gosto, no cansa. Mesmo assim, os protestos explodiram mal ele acabou de falar, saltaram as frias de todos os lados, sem d 
nem piedade os homens foram mora]mente arrasados, apelidados de chulos, de proxenetas, de chupistas, de vampiros, de exploradores, de alcoviteiros, conforme a cultura, 
o meio social e o estilo pessoal das justamente indignadas mulheres. Algumas delas declararam-se arrependidas de terem cedido, por pura generosidade e compaixo, 
s solicitaes sexuais de companheiros de infortnio que to mal agora lhes agradeciam, querendo empurr-las para a pior das sortes. Os homens procuraram justificar-se, 
que no era bem assim, que no dramatizassem, que diabo, falando  que a gente se entende, foi s porque o costume manda pedir voluntrios em situaes difceis 
e perigosas, como esta sem dvida o , Estamos todos em risco de morrer  fome, vocs e ns. Acalmaram-se algumas das mulheres, deste modo chamadas  razo, mas 
uma das outras, subitamente inspirada, lanou uma nova acha  fogueira quando perguntou, irnica, E o que  que vocs fariam se eles, em vez de pedirem mulheres, 
tivessem pedido homens, o que  que fariam, contem l para a gente ouvir. As mulheres rejubilaram, Contem, contem, gritavam em coro, entusiasmadas por terem encostado 
os homens  parede, apanhados na sua prpria ratoeira lgica de que no poderiam escapar, agora queriam ver at onde ia a to apregoada coerncia masculina, Aqui 
no h maricas, atreveu-se um homem a protestar, Nem putas, retorquiu a mulher que fizera a pergunta provocadora, e ainda que as haja, pode ser que no estejam dispostas 
a s-lo aqui por vocs. Incomodados, os homens encolheram-se, conscientes de que s haveria uma resposta capaz de dar satisfao s vingativas fmeas, Se eles pedissem 
homens, ns iramos, mas nem um deles teve a coragem de pronunciar estas breves, explicitas e desinibidas palavras, e to perturbados ficaram que nem se lembraram 
de que no haveria grande perigo em diz-las, uma vez que aqueles filhos de puta no queriam desafogar-se com homens, mas com mulheres.
     
     Ora, aquilo que nenhum homem pensou, pareceu que o pensaram as mulheres, no devia ter outra explicao o silncio que pouco a pouco se foi instalando na camarata 
onde se deram estes confrontos, como se tivessem compreendido que, para elas, a vitria na peleja verbal no se distinguia da derrota que inevitavelmente viria depois, 
porventura nas restantes camaratas no ter sido diferente o debate, porquanto  sabido que as razes humanas se repetem muito e as sem-razes tambm. Aqui, quem 
proferiu a sentena final foi uma mulher j de cinquenta anos que tinha consigo a me velha e nenhum outro modo de lhe dar de comer, Eu vou, disse, no sabia que 
estas palavras eram o eco das que na primeira camarata lado direito haviam sido ditas pela mulher do mdico, Eu vou, nesta camarata daqui as mulheres so poucas, 
talvez por isso os protestos no foram to numerosos nem to veementes, estava a rapariga dos culos escuros, estava a mulher do primeiro cego, estava a empregada 
do consultrio, estava a criada do hotel, estava uma que no se sabe quem seja, estava a que no podia dormir, mas esta era to infeliz, to desgraada, que o melhor 
seria deix-la em paz, da solidariedade das mulheres no tinham por que beneficiar s os homens. O primeiro cego comeara por declarar que mulher sua no se sujeitaria 
 vergonha de entregar o corpo a desconhecidos em troca do que fosse, que nem ela o quereria nem ele o permitiria, que a dignidade no tem preo, que uma pessoa 
comea por ceder nas pequenas coisas e acaba por perder todo o sentido da vida. O mdico perguntou-lhe ento que sentido da vida via ele na situao em que todos 
ali se encontravam, famintos, cobertos de porcaria at s orelhas, rodos de piolhos, comidos de percevejos, espicaados de pulgas, Tambm eu no quereria que a 
minha mulher l fosse, mas esse meu querer no serve de nada, ela disse que est disposta a ir, foi a sua deciso, sei que o meu orgulho de homem, isto a que chamamos 
orgulho de homem, se  que depois de tanta humilhao ainda conservamos algo que merea tal nome, sei que vai sofrer, j est a sofrer, no o posso evitar, mas  
provavelmente o nico recurso, se queremos viver, Cada qual procede segundo a moral que tem, eu penso assim e no tenciono mudar de ideias, retorquiu agressivo o 
primeiro cego. Ento a rapariga dos culos escuros disse, Os outros no sabem quantas mulheres h aqui, portanto voc poder ficar com a sua para seu exclusivo gasto, 
que ns os alimentaremos, a si e a ela, sempre quero ver como se ir sentir de dignidade depois, como lhe vai saber o po que ns lhe trouxermos, A questo no  
essa, comeou o primeiro cego a responder, a questo , mas ficou com a frase no ar, na verdade no sabia qual era a questo, tudo quanto ele havia dito antes no 
passava de umas quantas opinies avulsas, nada mais que opinies, pertencentes a outro mundo, no a este, o que ele deveria, isso sim, era levantar as mos ao cu
e agradecer a sorte de poderem ficar-lhe, por assim dizer, as vergonhas em casa, em vez de ter de suportar o vexame de saber-se sustentado pelas mulheres dos outros.
Pela mulher do mdico, para ser preciso e exacto, porque, quanto s restantes, exceptuando a rapariga dos culos escuros, solteira e livre, de cuja vida dissipada 
j temos mais do que suficiente informao, se elas tinham maridos, no se encontravam ali. O silncio que se seguiu  frase interrompida pareceu ficar  espera 
de que algum aclarasse definitivamente a situao, por isso no tardou muito que falasse quem tinha de falar, foi ela a mulher do primeiro cego, que disse sem que 
a voz lhe tremes se, Sou tanto como as outras, fao o que elas fizerem, S fazes o que eu mandar, interrompeu o marido, Deixa-te de autoridades, aqui no te servem 
de nada, ests to cego como eu,  uma indecncia, Est na tua mo no seres indecente, a partir de agora no comas, foi esta a cruel resposta, inesperada em pessoa 
que at hoje se mostrara dcil e respeitadora do seu marido. Ouviu-se uma brusca risada, era a criada do hotel, Ai, come, come, que h-de ele fazer, coitado, de 
repente o riso converteu-se em choro, as palavras mudaram, Que havemos ns de fazer, disse, era quase uma pergunta, uma mal resignada pergunta para que no existia 
resposta, como um desalentado abanar de cabea, tanto assim que a empregada do consultrio no fez mais do que repeti-la, Que havemos ns de fazer. A mulher do mdico 
levantou os olhos para a tesoura dependurada na parede, pela expresso deles dir-se-ia que estava a fazer-lhe a mesma pergunta, salvo se o que procuravam era uma 
resposta  pergunta que ela lhe devolvia, Que queres fazer comigo.
     
     Porm, cada coisa chegar no tempo prprio, no  por muitoter madrugado que se h-de morrer mais cedo. Os cegos da terceira camarata lado esquerdo so pessoas 
organizadas, j decidiram que vo comear pelo que tm de mais perto, pelas mulheres das camaratas da sua ala. A aplicao do mtodo rotativo, palavra mais do que 
justa, apresenta todas as vantagens e nenhum inconveniente, em primeiro lugar, porque permitir saber, em qualquer momento, o que foi feito e o que est por fazer, 
 como olhar um relgio e dizer do dia que passa, Vivi desde aqui at aqui, falta-me tanto ou to pouco, em segundo lugar, porque quando a volta das camaratas estiver 
concluda, o regresso ao princpio trar uma indiscutvel aragem de novidade, sobretudo para os de memria sensorial mais curta. Folguem portanto as mulheres das 
camaratas da ala direita, com o mal das minhas vizinhas posso eu bem, palavras que nenhuma disse, mas que todas pensaram, na verdade ainda est por nascer o primeiro 
ser humano desprovido daquela segunda pele a que chamamos egosmo, bem mais dura que a outra, que por qualquer coisa sangra. H que dizer, ainda, que duplamente 
esto estas mulheres folgando, assim so os mistrios da alma humana, pois a ameaa, de todos os modos prxima, da humilhao a que iro ser sujeitas, acordou e 
exacerbou, dentro de cada camarata, apetites sensuais que a continuao da convivncia havia debilitado, era como se os homens estivessem pondo nas mulheres desesperadamente 
a sua marca antes que lhas levassem, era como se as mulheres quisessem encher a memria de sensaes experimentadas voluntariamente para melhor se poderem defender 
da agresso daquelas que, podendo ser. recusariam.  inevitvel perguntar, tomando como exemplo a primeira camarata lado direito, como foi resolvida a questo da
diferena de quantidades de homens e de mulheres, mesmo descontando os incapazes do sexo masculino, que os h, como deve ser o caso do velho da venda preta e de 
outros, desconhecidos, velhos ou novos, que por isto ou por aquilo no disseram nem fizeram nada que interessasse ao relato. J foi dito que so sete as mulheres 
nesta camarata, incluindo a cega das insnias e a que no se sabe quem seja, e que os casais normalmente constitudos no so mais do que dois, o que deixaria de 
fora uma desequilibrada quantidade de homens, o rapazinho estrbico ainda no conta. Acaso noutras camaratas haver mais mulheres do que homens, mas uma regra no 
escrita, que o uso fez aqui nascer e depois tornou lei, manda que todas as questes devam ser resolvidas dentro das camaratas em que tenham sido suscitadas, a exemplo 
do que ensinavam os antigos, cuja sabedoria nunca nos cansaremos de louvar, Fui a casa da vizinha, envergonhei-me, voltei para a minha, remediei-me. Daro portanto 
as mulheres da primeira camarata lado direito remdio s necessidades dos homens que vivem debaixo do seu mesmo tecto, com excepo da mulher do mdico, que, v-se 
l saber porqu, ningum se atreveu a solicitar, por palavras ou mo estendida. J a mulher do primeiro cego, de pois do passo em frente que tinha sido a abrupta 
resposta dada ao marido, fez, embora discretamente, o que fizeram as outras, como ela prpria avisara. H porm resistncias contra as quais no podem nem razo 
nem sentimento, como foi o caso da rapariga dos culos escuros, a quem o ajudante de farmcia, por mais que se tivesse multiplicado em argumentos, por mais que se
desfizesse em splicas, no conseguiu render, pagando assim a falta de respeito que cometera ao princpio. Esta mesma rapariga, entenda as mulheres quem puder, que
 a mais bonita de todas as que aqui se encontram, a de corpo mais bem feito, a mais atraente, a que todos passaram a desejar quando correu a voz do que valia, foi
afinal, numa noite destas, meter-se por sua prpria vontade na cama do velho da venda preta, que a recebeu como chuva de Vero e cumpriu o melhor que podia, bastante
bem para a idade, ficando por esta via demonstrado, mais uma vez, que as aparncias so enganadoras, e que no  pelo aspecto da cara e pela presteza do corpo que
se conhece a fora do corao. Toda a gente na camarata compreendeu que tinha sido por pura caridade que a rapariga dos culos escuros se fora oferecer ao velho
da venda preta, mas houve ali homens, dos sensveis e sonhadores, que, tendo j antes gozado dela, se puseram a devanear, a pensar que no deveria haver melhor prmio 
neste mundo que encontrar-se um homem estendido na sua cama, sozinho, imaginando impossveis, e perceber que uma mulher vem levantar as cobertas muito devagar e 
por debaixo delas se insinua, roando lentamente o corpo ao longo do corpo, at ficar quieta enfim, em silncio,  espera de que o ardor dos sangues apazige o sbito 
tremor da pele sobressaltada. E tudo isto por nada, s porque ela o quis. So fortunas que no andam por a ao desbarato, s vezes  preciso ser-se velho e levar 
uma venda preta a tapar uma rbita definitivamente cega. Ou ento, certas coisas o melhor  deix-las sem explicao, dizer simplesmente o que aconteceu, no interrogar 
o ntimo das pessoas, como foi daquela vez que a mulher do mdico tinha sado da cama para ir aconchegar o rapazinho estrbico que se havia destapado. No se deitou 
logo. Encostada  parede do fundo, no espao estreito entre as duas fileiras de catres, olhava desesperada a porta no outro extremo, aquela por onde tinham entrado 
num dia que j parecia distante e que no levava agora a parte alguma. Assim estava quando viu o marido levantar-se e, de olhos fixos, como um sonmbulo, dirigir-se 
 cama da rapariga dos culos escuros. No fez um gesto para o deter. De p, sem se mexer, viu como ele levantava as cobertas e depois se deitava ao lado dela, como 
a rapariga despertou e o recebeu sem protesto, como as duas bocas se buscaram e encontraram, e depois o que tinha de suceder sucedeu, o prazer de um, o prazer do 
outro, o prazer de ambos, os murmrios abafados, ela disse,  senhor doutor, e estas palavras podiam ter sido ridculas e no o foram, ele disse, Desculpa, no sei 
o que me deu, de facto tnhamos razo, como poderamos ns, que apenas vemos, saber o que nem ele sabe. Deitados no catre estreito, no podiam imaginar que estavam 
a ser observados, o mdico de certo que sim, subitamente inquieto, estaria dormindo a mulher, perguntou-se, andaria a pelos corredores como todas as noites, fez 
um movimento para voltar  sua cama, mas uma voz disse, No te levantes, e uma mo pousou-se no seu peito com a leveza de um pssaro, ele ia falar, talvez repetir 
que no sabia o que lhe tinha dado, mas a voz disse, Se no disseres nada compreenderei melhor. A rapariga dos culos escuros comeou a chorar, Que infelizes ns 
somos, murmurava, e depois, Eu tambm quis, eu tambm quis, o senhor doutor no tem culpa, Cala-te, disse suavemente a mulher do mdico, calemo-nos todos, h ocasies
em que as palavras no servem de nada, quem me dera a mim poder tambm chorar, dizer tudo com lgrimas, no ter de falar para ser entendida. Sentou-se na borda da
cama, estendeu o brao por cima dos dois corpos, como para cingi-los no mesmo amplexo, e, inclinando-se toda para a rapariga dos culos escuros, murmurou-lhe baixinho 
ao ouvido, Eu vejo. A rapariga ficou imvel, serena, apenas perplexa porque no sentia nenhuma surpresa, era como se j o soubesse desde o primeiro dia e s no 
tivesse querido diz-lo em voz alta por ser um segredo que no lhe pertencia. Girou a cabea um pouco e sussurrou por sua vez ao ouvido da mulher do mdico, Eu sabia, 
no sei se tenho a certeza, mas acho que sabia,  um segredo, no o podes dizer a ningum, Esteja descansada, Tenho confiana em ti, Pode t-la, antes queria morrer 
que engan-la, Deves tratar-me por tu, Isso no, no sou capaz. Murmuravam ao ouvido, ora uma, ora outra, tocando com os lbios o cabelo, o lbulo da orelha, era 
um dilogo insignificante, era um dilogo profundo, se podem estar juntos estes contrrios, uma pequena conversa cmplice que parecia no conhecer o homem deitado
entre as duas, mas que o envolvia numa lgica fora do mundo das ideias e realidades comuns. Depois a mulher do mdico disse ao marido, Deixa-te ficar um pouco mais,
se queres, No, vou para a nossa cama, Ento ajudo-te. Ergueu-se para lhe deixar os movimentos livres, contemplou por um instante as duas cabeas cegas, pousadas
lado a lado no travesseiro encardido, as caras sujas, os cabelos emaranhados, s os olhos resplandecendo inutilmente. Ele levantou-se devagar, buscando apoio, depois
ficou parado ao lado da cama, indeciso, como se de sbito tivesse perdido a noo do lugar onde se encontrava, ento ela, como sempre havia feito, agarrou-lhe um 
brao, mas agora o gesto tinha um sentido novo, nunca ele necessitara tanto que o guiassem como neste momento, porm no poderia saber at que ponto, s as duas 
mulheres o souberam verdadeiramente, quando a mulher do mdico tocou com a outra mo a face da rapariga e ela impulsivamente lha tomou para a levar aos lbios. Pareceu 
ao mdico que ouvia chorar, um som quase inaudvel, como s pode ser o de umas lgrimas que vo deslizando lentamente at s comissuras da boca e a se somem para 
recomearem o ciclo eterno das inexplicveis dores e alegrias humanas. A rapariga dos culos escuros ia ficar s, ela era a que devia ser consolada, por isso a mo 
da mulher do mdico tardou tanto a desprender-se.
     
     No dia seguinte,  hora do jantar, se uns mseros pedaos de po duro e carne bafienta mereciam tal nome, apareceram  porta da camarata trs cegos vindos do 
outro lado, Quantas mulheres tm vocs aqui, perguntou um deles, Seis, respondeu a mulher do mdico, com a boa inteno de deixar de fora a cega das insnias, mas 
ela emendou em voz apagada, Somos sete. Os cegos riram,  diabo, disse um, ento vocs vo ter de trabalhar muito esta noite, e outro sugeriu, Talvez fosse melhor 
ir buscar reforo  camarata a seguir, No vale a pena, disse o terceiro cego, que sabia aritmtica, praticamente so trs homens para cada mulher, elas aguentam. 
Riram todos outra vez, e o que tinha perguntado quantas mulheres havia deu a ordem, Quando acabarem vo ter connosco, e acrescentou, Isto  se quiserem comer amanh 
e dar de mamar aos vossos homens. Diziam estas palavras em todas as camaratas, mas continuavam a divertir-se tanto com a chalaa como no dia em que a tinham inventado. 
Torciam-se de riso, davam patadas, batiam com os grossos paus no cho, um deles preveniu subitamente, Eh, se alguma de vocs est com o sangue, no a queremos, ficar 
para a prxima vez, Nenhuma est com o sangue, disse serenamente a mulher do mdico, Ento preparem-se, e no se demorem, estamos  vossa espera. Viraram costas
e desapareceram. A camarata ficou em silncio. Um minuto depois, disse a mulher do primeiro cego, No posso comer mais, era quase nada o que tinha na mo, e no 
o conseguia comer, Nem eu, disse a cega das insnias, Nem eu, disse aquela que no se sabe quem seja, Eu j acabei, disse a criada de hotel, Eu tambm, disse a empregada 
do consultrio, Eu vomitarei na cara do primeiro que se chegar a mim, disse a rapariga dos culos escuros. Estavam todas levantadas, trmulas e firmes. Ento a mulher 
do mdico disse, Eu vou  frente. O primeiro cego tapou a cabea com a manta, como se isso servisse para alguma coisa, cego j ele estava, o mdico atraiu a mulher 
a si e, sem falar, deu-lhe um rpido beijo na testa, que mais podia ele fazer, aos outros homens tanto se lhes devia dar, no tinham nem direitos nem obrigaes 
de marido sobre nenhuma das mulheres que ali iam, por isso ningum poder vir a dizer-lhes, Corno consentidor  duas vezes corno. A rapariga dos culos escuros foi 
pr-se atrs da mulher do mdico, depois, sucessivamente, a criada do hotel, a empregada do consultrio, a mulher do primeiro cego, aquela que no se sabe quem seja, 
e enfim a cega das insnias, uma fila grotesca de fmeas malcheirosas, com as roupas imundas e andrajosas, parece impossvel que a fora animal do sexo seja assim 
to poderosa, ao ponto de cegar o olfacto, que  o mais delicado dos sentidos, no faltam mesmo telogos que afirmam, embora no por estas exactas palavras, que 
a maior dificuldade para chegar a viver razoavelmente no inferno  o cheiro que l h. Devagar, guiadas pela mulher do mdico, cada uma com a mo no ombro da seguinte, 
as mulheres comearam a caminhar. Estavam todas descalas porque no queriam perder os sapatos no meio das aflies e angstias por que iam passar. Quando chegaram 
ao trio de entrada, a mulher do mdico encaminhou-se para a porta, devia querer saber se ainda haveria mundo. Ao sentir a frescura do ar, a criada do hotel lembrou 
assustada, No podemos sair, os soldados esto l fora, e a cega das insnias disse, Mais valia, em menos de um minuto estaramos mortas, era como deveramos estar, 
todas mortas, Ns, perguntou a empregada do consultrio, No, todas, todas as que nos encontramos aqui, ao menos teramos a melhor das razes para estarmos cegas. 
Nunca pronunciara tantas palavras seguidas desde que a trouxeram. A mulher do mdico disse, Vamos, s quem tiver de morrer morrer, a morte escolhe sem avisar. Passaram 
a porta que dava acesso  ala esquerda, enfiaram-se pelos compridos corredores, as mulheres das duas primeiras camaratas poderiam, se quisessem, falar-lhes daquilo 
que as esperava, mas estavam encolhidas nas suas camas como bestas espancadas, os homens no se atreviam a tocar-lhes, nem sequer tentavam aproximar-se, que elas 
punham-se aos gritos.
     
     No ltimo corredor, l ao fundo, a mulher do mdico viu um cego que estava de sentinela, como de costume. Ele devia ter ouvido os passos arrastados, deu um 
aviso, J a vm, j a vm. De dentro saram gritos, relinchos, risadas. Quatro cegos afastaram rapidamente a cama que servia de barreira  entrada, Depressa, meninas, 
entrem, entrem, estamos todos aqui como uns cavalos, vo levar o papo cheio, dizia um deles. Os cegos rodearam-nas, tentavam apalp-las, mas recuaram logo, aos tropees, 
quando o chefe, o que tinha a pistola, gritou, O primeiro a escolher sou eu, j sabem. Os olhos de todos aqueles homens buscavam ansiosamente as mulheres, alguns 
estendiam as mos vidas, se de fugida tocavam em uma delas sabiam enfim para onde olhar. No meio da coxia, entre as camas, as mulheres eram como os soldados em 
parada  espera de que lhes venham passar revista. O chefe dos cegos, de pistola na mo, aproximou-se, to gil e despachado como se com os olhos que tinha pudesse 
ver. Ps a mo livre na cega das insnias, que era a primeira, apalpou-a por diante e por detrs, as ndegas, as mamas, o entrepernas. A cega comeou aos gritos 
e ele empurrou-a, No vales nada, puta. Passou  seguinte, que era aquela que no se sabe quem seja, agora apalpava com as duas mos, tinha metido a pistola no bolso 
das calas, Olhem que esta no  nada m, e logo se foi  mulher do primeiro cego, depois  empregada do consultrio, depois  criada do hotel, exclamou, Rapazes, 
estas gajas so mesmo boas. Os cegos relincharam, deram patadas no cho, Vamos a elas que se faz tarde, berraram alguns. Calma, disse o da pistola, deixem-me ver 
primeiro como so as outras. Apalpou a rapariga dos culos escuros e deu um assobio, Ol, saiu-nos a sorte grande, deste gado ainda c no tinha aparecido. Excitado, 
enquanto comtinuava a apalpar a rapariga, passou  mulher do mdico, assobiou outra vez, Esta  das maduras, mas tem jeito de ser tambm uma rica fmea. Puxou para 
si as duas mulheres, quase se babava quando disse, Fico com estas, depois de as despachar passo-as a vocs. Arrastou-as para o fundo da camarata, onde se amontoavam 
as caixas de comida, os pacotes, as latas, uma despensa que poderia abastecer um regimento. As mulheres, todas elas, j estavam a gritar, ouviam-se golpes, bofetadas, 
ordens, Calem-se, suas putas, estas gajas so todas iguais, sempre tm de pr-se aos berros, D-lhe com fora, que se calar, Deixem-nas chegar  minha vez e j 
vo ver como pedem mais, Despacha-te da, no aguento um minuto. A cega das insnias uivava de desespero debaixo de um cego gordo, as outras quatro estavam rodeadas 
de homens com as calas arriadas que se empurravam uns aos outros como hienas em redor de uma carcaa. A mulher do mdico encontrava-se junto ao catre para onde 
tinha sido levada, estava de p, com as mos convulsas apertando os ferros da cama, viu como o cego da pistola puxou e rasgou a saia da rapariga dos culos escuros, 
como desceu as calas e, guiando-se com os dedos, apontou o sexo ao sexo da rapariga, como empurrou e forou, ouviu os roncos, as obscenidades, a rapariga dos culos 
escuros no dizia nada, s abriu a boca para vomitar, com a cabea de lado, os olhos na direco da outra mulher, ele nem deu pelo que estava a acontecer, o cheiro 
do vmito s se nota quando o ar e o resto no cheiram ao mesmo, enfim o homem sacudiu-se todo, deu trs saces violentos como se cravasse trs espeques, resfolegou 
como um cerdo engasgado, acabara. A rapariga dos culos escuros chorava em silncio. O cego da pistola retirou o sexo que ainda vinha a pingar e disse com voz vacilante, 
enquanto estendia o brao para a mulher do mdico, No tenhas cimes, j vou tratar de ti, e depois subindo o tom, Eh, rapazes, podem vir buscar esta, mas tratem-na 
com carinho, que ainda posso precisar dela. Meia dzia de cegos avanaram de rebolo pela coxia, deitaram mos  rapariga dos culos escuros, levaram-na quase de 
rastos, Primeiro eu, primeiro eu, diziam todos. O cego da pistola tinha-se sentado na cama, o sexo flcido estava pousado na beira do colcho, as calas enroladas 
aos ps. Ajoelha-te aqui, entre as minhas pernas, disse. A mulher do mdico ajoelhou-se. Chupa, disse ele, No, disse ela, Ou chupas, ou bato-te, e no levas comida, 
disse ele, No tens medo de que to arranque  dentada, perguntou ela, Podes experimentar, tenho as mos no teu pescoo, estrangulava-te antes que chegasses a fazer-me 
sangue, respondeu ele. Depois disse, Estou a reconhecer a tua voz, E eu a tua cara, s cega, no me podes ver, No, no te posso ver, Ento por que dizes que reconheces 
a minha cara, Porque essa voz s pode ter essa cara, Chupa, e deixa-te de conversa fina, No, Ou chupas, ou na tua camarata nunca mais entrar uma migalha de po, 
vai l dizer-lhes que se no comerem  porque te recusaste a chupar-me, e depois volta para me contares o que sucedeu. A mulher do mdico inclinou-se para diante, 
com as pontas de dois dedos da mo direita segurou e levantou o sexo pegajoso do homem, a mo esquerda foi apoiar-se no cho, tocou nas calas, tacteou, sentiu a 
dureza metlica e fria da pistola, Posso mat-lo, pensou. No podia. Com as calas assim como estavam, enrodilhadas aos ps, era impossvel chegar ao bolso onde 
a arma se encontrava. No o posso matar agora, pensou. Avanou a cabea, abriu a boca, fechou-a, fechou os olhos para no ver comeou a chupar. 
     Amanhecia quando os cegos malvados deixaram ir as mulheres. A cega das insnias teve de ser levada dali em braos pelas companheiras, que mal se podiam. elas 
prprias, arrastar. Durante horas haviam passado de homem em homem, de humilhao em humilhao, de ofensa em ofensa, tudo quanto  possvel fazer a uma mulher deixando-a 
ainda viva. J sabem? O pagamento  em gneros, digam aos homenzinhos que l tm que venham buscar as sopas, escarnecera  despedida o cego da pistola. E acrescentou, 
chocarreiro, At  vista, meninas, vo-se preparando para a prxima sesso. Os outros cegos repetiram mais ou menos em coro, At  vista, alguns disseram gajas, 
alguns disseram putas, mas notava-se-lhes a fadiga da libido na pouca convico das vozes. Surdas, cegas, caladas, aos tombos, apenas com vontade suficiente para
no largarem a mo da que seguia  frente, a mo, no o ombro, como quando tinham vindo, certamente nenhuma saberia responder se lhe perguntassem, Por que vo vocs
de mos dadas, tinha calhado assim, h gestos para que nem sempre se pode encontrar uma explicao fcil, algumas vezes nem a difcil pde ser encontrada. Quando
atravessaram o trio, a mulher do mdico olhou para fora, l estavam os soldados, havia tambm uma camioneta que devia andar a fazer a distribuio da comida pelas
quarentenas. Nesse preciso momento a cega das insnias foi-se abaixo das pernas, literalmente, como se lhas tivessem decepado de um golpe, foi-se-lhe tambm o corao
abaixo, nem acabou a sstole que tinha comeado, finalmente ficmos a saber por que no podia esta cega dormir, agora dormir, no a acordemos. Est morta, disse
a mulher do mdico, e a sua voz no tinha nenhuma expresso, se era possvel uma voz assim, to morta como a palavra que dissera, ter sado de uma boca viva. Levantou
em braos o corpo subitamente desconjuntado, as pernas ensanguentadas, o ventre espancado, os pobres seios descobertos, marcados com fria, uma mordedura num ombro, 
Este  o retrato do meu corpo, pensou, o retrato do corpo de quantas aqui vamos, entre estes insultos e as nossas dores no h mais do que uma diferena, ns, por 
enquanto, ainda estamos vivas. Para onde a levamos, perguntou a rapariga dos culos escuros, Agora para a camarata, mais tarde a enterraremos, disse a mulher do 
mdico.
     
     Os homens esperavam  porta, s faltava o primeiro cego, que tornara a tapar a cabea com a manta ao perceber que vinham as mulheres, e o rapazinho estrbico, 
que dormia. Sem nenhum hesitao, sem precisar de contar as camas, a mulher do mdico foi deitar a cega das insnias no catre que lhe pertencera. No se importou 
com a possvel estranheza dos outros, afinal toda a gente ali sabia que ela era a cega que melhor conhecia os cantos  casa. Est morta, repetiu, Como foi, perguntou 
o mdico, mas a mulher no lhe respondeu, a pergunta dele poderia ser apenas o que parecia significar, Como foi que ela morreu, mas tambm poderia ser Que vos fizeram 
l, ora, nem para uma nem para outra deveria haver resposta, ela morreu, simplesmente, no importa de qu, perguntar de que morreu algum  estpido, com o tempo 
a causa esquece, s uma palavra fica, Morreu, e ns j no somos as mesmas mulheres que daqui samos, as palavras que elas diriam, j no as podemos dizer ns, e 
quanto s outras, o inominvel existe,  esse o seu nome, nada mais. Vo buscar a comida, disse a mulher do mdico. O acaso, o fado, a sorte, o destino, ou l como 
se chame exactamente o que tantos nomes tem, esto feitos de pura ironia, nem de outro modo se entenderia por que foram precisamente os maridos de duas destas mulheres 
os escolhidos para representarem a camarata e recolherem os alimentos, quando ningum imaginava que o preo pudesse vir a ser o que acabara de ser pago. Podiam ter 
sido outros homens, solteiros, livres, sem uma honra conjugal a defender, mas logo tiveram de ser estes, com certeza no vo querer agora envergonhar-se a estender 
a mo da esmola aos brutos e malvados que lhes violaram as mulheres. Disse-o o primeiro cego, com todas as letras duma firme deciso, V quem quiser, eu no vou, 
Eu irei, disse o mdico, Eu vou consigo, disse o velho da venda preta, A comida no ser muita, mas olhe que pesa, Para transportar o po que como ainda me chegam 
as foras, O que mais pesa sempre  o po dos outros, No terei o direito de me queixar, o peso da parte dos outros  o que pagar o meu alimento. Imaginemos, no 
o dilogo, que esse j a ficou, mas os homens que o sustentaram, esto ali frente a frente como se se pudessem ver, que neste caso nem  impossvel, basta que a 
memria de cada um deles faa emergir da deslumbrante brancura do mundo a boca que est articulando as palavras, e depois, como uma lenta irradiao a partir desse 
centro, o restante das caras ir aparecendo, uma de homem velho, outro no tanto, no se diga que  cego quem ainda assim seja capaz de ver. Quando eles se afastaram 
para irem cobrar o salrio da vergonha, como o primeiro cego protestara com retrica indignao, a mulher do mdico disse s outras mulheres, Fiquem aqui, eu j 
volto. Sabia o que queria, no sabia se o encontraria. Queria um balde ou alguma coisa que lhe fizesse as vezes, queria ench-lo de gua, ainda que ftida, ainda 
que apodrecida, queria lavar a cega das insnias, limp-la do sangue prprio e do ranho alheio, entreg-la purificada  terra, se tem ainda algum sentido falar de 
purezas de corpo neste manicmio em que vivemos, que s da alma, j se sabe, no h quem lhes possa chegar.
     
     Nas compridas mesas do refeitrio havia cegos deitados. De uma torneira mal fechada, por cima de uma pia de despejos, corria um fio de gua. A mulher do mdico 
olhou em redor  procura do balde, do recipiente, mas no viu nada que pudesse servir. Um dos cegos estranhou a presena, perguntou, Quem anda a. Ela no respondeu, 
sabia que no seria bem recebida, ningum lhe diria Queres gua, pois leva-a, e se  para lavar uma falecida, toda a que precisares. Pelo cho, espalhados, havia 
sacos de plstico, dos da comida, grandes alguns. Pensou que deviam estar rotos, depois pensou que usando dois ou trs, metidos uns nos outros, seria pouca a gua 
perdida. Agiu rapidamente, os cegos j desciam das mesas, perguntavam, Quem est a, ainda mais alarmados quando ouviram o rudo da gua a correr, avanaram naquela 
direco, a mulher do mdico foi desviar e empurrar uma mesa para que no pudessem aproximar-se, voltou depois ao saco, a gua corria lentamente, desesperada forou 
o manpulo, ento, como se a tivessem libertado duma priso, a gua jorrou com fora, esparrinhou violentamente e cobriu-a dos ps  cabea. Os cegos assustaram-se 
e recuaram, pensaram que um cano tinha rebentado, e mais razo tiveram para pens-lo quando a gua entornada lhes chegou de inundao aos ps, no podiam saber que 
fora despejada pelo estranho que tinha entrado, foi o caso de ter a mulher compreendido que no iria poder com tanto peso. Torceu e enrolou a boca do saco, lanou-o 
para as costas, e, como pde, correu para fora dali.
     
     Quando o mdico e o velho da venda preta entraram na camarata com a comida, no viram, no podiam ver, sete mulheres nuas, a cega das insnias estendida na 
cama, limpa como nunca estivera em toda a sua vida, enquanto outra mulher lavava, uma por uma, as suas companheiras, e depois a si prpria.
     
     Ao quarto dia. os malvados tornaram a aparecer. Vinham chamar ao pagamento do imposto de servio as mulheres da segunda camarata, mas detiveram-se por um momento 
 porta da primeira a perguntar se as mulheres daqui j estavam restabelecidas dos assaltos erticos da outra noite, Uma noite bem passada, sim senhores, exclamou 
um deles lambendo os beios, e outro confirmou, Estas sete valeram por catorze,  certo que uma no era grande coisa, mas no meio daquela confuso quase nem se notava, 
tm sorte estes gajos, se so bastante homens para elas, Melhor que no sejam, assim elas levaro mais vontade. Do fundo da camarata, a mulher do mdico disse, J 
no somos sete, Fugiu alguma, perguntou a rir um dos grupo, No fugiu, morreu,  diabo, ento vocs tero de trabalhar mais na prxima vez, No se perdeu muito, 
no era grande coisa, disse a mulher do mdico. Desconcertados, os mensageiros no atinaram como responder, o que tinham acabado de ouvir parecia-lhes indecente, 
algum deles ter mesmo chegado a pensar que no fim de contas as mulheres so todas umas cabras, que falta de respeito, falar de uma tipa nestes termos, s porque 
no tinha as mamas no seu lugar e era fraca de ndegas. A mulher do mdico olhava-os, parados  entrada da porta, indecisos, movendo o corpo como bonecos mecnicos.
     Reconhecia-os, tinha sido violada pelos trs. Por fim, um deles bateu com o pau no cho, Vamos embora, disse. As pancadas e os avisos, Afastem-se, afastem-se, 
somos ns, foram diminuindo ao longo do corredor, houve depois um silncio, rumores confusos, as mulheres da segunda camarata estavam a receber a ordem de se apresentarem 
depois do jantar. Soaram novamente as pancadas no cho, Afastem-se, afastem-se, os vultos dos trs cegos passaram no enquadramento da porta, desapareceram.
     
     A mulher do mdico, que antes tinha estado a contar uma histria ao rapazinho estrbico, levantou o brao e, sem rudo, retirou a tesoura do prego. Disse ao 
rapaz, Depois te contarei o resto da aventura. Ningum da camarata lhe havia perguntado por que tinha ela falado da cega das insnias com aquele desdm. Passado 
algum tempo, descalou os sapatos e foi dizer ao marido, No me demoro, volto j. Encaminhou-se para a porta, A parou e ficou  espera. Dez minutos depois apareceram 
no corredor as mulheres da segunda camarata. Eram quinze. Algumas choravam. No vinham em fila, mas aos grupos, ligados uns aos outros por tiras de pano, pelo aspecto 
rasgadas dos cobertores. Quando acabaram de passar, a mulher do mdico seguiu-as. Nenhuma delas se apercebeu de que levavam companhia. Sabiam o que as esperava, 
a notcia dos vexames no era segredo para ningum, nem verdadeiramente havia neles nada de novo, o mais certo  o mundo ter comeado assim. O que as aterrorizava
no era tanto a violao, mas a orgia, a desvergonha, a previso da noite terrvel, quinze mulheres esparramadas nas camas e no cho, os homens a ir de umas para 
outras, resfolegando como porcos, O pior de tudo  se eu vou sentir prazer, isto pensava-o uma das mulheres. Quando entraram no corredor por onde se chegava  camarata 
do destino, o cego de sentinela deu o alerta, J as ouo, j a vm. A cama que servia de cancela foi afastada rapidamente, uma a uma as mulheres entraram, Ena tantas, 
exclamou o cego da contabilidade, e ia contando com entusiasmo, Onze, doze, treze, catorze, quinze, quinze, so quinze. Foi atrs da ltima, metia-lhe as mos sfregas 
por baixo das saias, Esta j c canta, esta j  minha, dizia. Tinham deixado de fazer a revista, a avaliao prvia dos dotes fsicos das fmeas. Realmente, se 
estavam todas condenadas ali a passar pelo mesmo, no valia a pena gastar o tempo e esfriar a concupiscncia com escolhas de alturas e medies de busto e ancas. 
J as levavam para as camas, j as despiam aos repeles, no tardou que se ouvissem os costumados choros, as splicas, as imploraes, mas as respostas, quando as 
havia, no variavam, Se queres comer, abre as pernas. E elas abriam as pernas, a algumas mandava-se-lhes que usassem a boca, como aquela que estava de ccoras entre 
os joelhos do chefe destes malvados, essa no dizia nada. A mulher do mdico entrou na camarata, deslizou devagar entre as camas, mas nem esses cuidados precisava 
ter, ningum a ouviria ainda que tivesse vindo de tamancos, e se, no meio da balbrdia, algum cego lhe tocasse e se apercebesse de que se tratava de uma mulher, 
o pior que lhe poderia suceder seria ter de juntar-se s outras, nem se daria por isso, numa situao como esta no  fcil notar a diferena que h entre quinze 
e dezasseis.
     
     A cama do chefe dos malvados continuava a ser a do fundo da camarata, onde se amontoavam as caixas de comida. Os catres ao lado do seu tinham sido retirados, 
o homem gostava de mexer-se  vontade, no ter de tropear nos vizinhos. Ia ser simples mat-lo. Enquanto lentamente avanava pela estreita coxia, a mulher do mdico 
observava os movimentos daquele que no tardaria a matar, como o gozo o fazia inclinar a cabea para trs, como j parecia estar a oferecer-lhe o pescoo. Devagar, 
a mulher do mdico aproximou-se, rodeou a cama e foi colocar-se por trs dele. A cega continuava no seu trabalho. A mo levantou lentamente a tesoura, as laminas 
um pouco separadas para penetrarem como dois punhais. Nesse momento, o ltimo, o cego pareceu dar por uma presena, mas o orgasmo retirara-o do mundo das sensaes 
comuns, privara-o de reflexos, No chegars a gozar, pensou a mulher do mdico, e fez descer violentamente o brao. A tesoura enterrou-se com toda a fora na garganta 
do cego, girando sobre si mesma lutou contra as cartilagens e os tecidos membranosos, depois furiosamente continuou at ser detida pelas vrtebras cervicais.
     
     O grito mal se ouviu, podia ser o ronco animal de quem estivesse a ejacular, como a outros j estava sucedendo. e talvez o fosse, na verdade, ao mesmo tempo 
que um jacto de sangue lhe regava em cheio a cara, a cega recebia na boca a descarga convulsiva do smen. Foi o grito dela que alarmou os cegos, de gritos tinham 
experincia de sobra, mas este no era como os outros. A cega gritava, no percebia o que tinha acontecido, mas gritava, este sangue viera donde, provavelmente, 
sem saber como, havia feito o que chegara a pensar, arrancar-lhe o pnis  dentada. Os cegos deixavam as mulheres, vinham- se aproximando s apalpadelas, Que  que 
se passa, por que ests a gritar dessa maneira, perguntavam, mas agora a cega tinha uma mo sobre a boca, algum lhe murmurara ao ouvido, Cala-te, e depois sentiu 
que a puxavam suavemente para trs, No digas nada, era uma voz de mulher, e isto acalmou-a, se tanto se pode dizer em tais aflies. O cego das contas vinha  frente, 
foi ele o primeiro a tocar no corpo que cara atravessado na cama, a percorr-lo com as mos, Est morto, exclamou da a um momento. A cabea pendia para o outro 
lado do catre, o sangue ainda saa em borbotes, Mataram-no, disse. Os cegos pararam interditos, no podiam acreditar no que ouviam, Mataram-no como, quem foi que 
o matou, Fizeram-lhe um rasgo enorme na garganta, deve ter sido a puta da mulher que estava com ele, temos de apanh-la. Moveram-se outra vez os cegos, mais devagar 
agora, como se tivessem medo de ir ao encontro da lamina que lhes matara o chefe. No podiam ver que o cego da contabilidade metia precipitada mente as mos nas 
algibeiras do morto, que encontrava a pistola e um pequeno saco de plstico com uma dezena de cartuchos. A ateno de todos foi de sbito distrada pelo alarido 
das mulheres, j postas de p, em pnico, querendo sair dali, mas algumas tinham perdido a noo de onde estava a porta da camarata, foram na direco errada e esbarraram 
com os cegos, e estes julgaram que elas os atacavam, ento a confuso dos corpos atingiu a culminncia de um de brio. Quieta, ao fundo, a mulher do mdico esperava 
a ocasio para escapar-se. Mantinha a cega firmemente agarrada, com a outra mo empunhava a tesoura, pronta a desferir a primeira punhalada se algum homem se aproximasse. 
Por enquanto, o espao livre naquele stio favorecia-a, mas ela sabia que no podia demorar-se ali. Umas quantas mulheres tinham encontrado finalmente a porta, outras 
lutavam para livrar-se de mos que as prendiam, alguma ainda tentava esganar o inimigo e acrescentar um morto ao morto. O cego das contas gritou com autoridade aos 
seus, Calma, tenham calma, vamos j resolver este assunto, e com a inteno de dar mais convencimento  ordem disparou um tiro para o ar. O resultado foi precisamente 
o contrrio do que esperava. Surpreendidos por perceberem que a pistola j estava noutras mos e que portanto iam ter um novo chefe, os cegos deixaram de lutar com 
as cegas, desistiram de tentar domin-las, um deles via-se que desistira mesmo de tudo porque j havia sido estrangulado. Foi nesta altura que a mulher do mdico 
decidiu avanar. Desferindo golpes  esquerda e  direita, foi abrindo caminho. Agora eram os cegos que gritavam, que se atropelavam, que subiam uns por cima dos 
outros, quem tivesse ali olhos para ver perceberia que, comparada com esta, a primeira confuso tinha sido uma brincadeira. A mulher do mdico no queria matar, 
s queria sair o mais depressa possvel, sobretudo no deixar atrs de si nenhuma cega. Provavelmente este no vai sobreviver, pensou quando cravou a tesoura num 
peito. Ouviu-se outro tiro, Vamos, vamos, dizia a mulher do mdico empurrando  sua frente as cegas que encontrava no caminho. Ajudava-as a levantarem-se, repetia, 
Depressa, depressa, e agora era o cego da contabilidade que gritava l do fundo, Agarrem-nas, no as deixem fugir, mas era demasiado tarde, j iam todas no corredor, 
fugiam aos tombos, meio vestidas, segurando os trapos como podiam. Parada  entrada da camarata, a mulher do mdico gritou com fria, Lembrem-se do que eu no outro 
dia disse, que no me esqueceria da cara dele, e daqui em diante pensem no que vos digo agora, que tambm no me esquecerei das vossas, Hs-de pagar-mas, ameaou 
o cego da contabilidade, tu e as tuas amigas, mais os cabres dos homens que l tendes, No sabes quem eu sou nem donde vim, s da primeira camarata do outro lado, 
disse um dos que tinham ido chamar as mulheres, e o cego das contas acrescentou, A voz no engana, basta que pronuncies uma palavra ao p de mim e ests morta, O 
outro tambm tinha dito isso, e a o tens, Mas eu no sou um cego como ele, como vocs, quando vocs cegaram j eu conhecia tudo do mundo, Da minha cegueira no 
sabes nada, Tu no s cega, a mim no me enganas, Talvez eu seja a mais cega de todos, j matei, e tornarei a matar se for preciso, Antes disso morrers de fome, 
a partir de hoje acabou-se a comida, nem que venham c todas oferecer numa bandeja os trs buracos com que nasceram, Por cada dia que estivermos sem comer por vossa 
culpa, morrer um dos que aqui se encontram, basta que ponham um p fora desta porta, No conseguirs, Conseguiremos, sim, a partir de agora seremos ns a recolher 
a comida, vocs comam do que c tm, Filha da puta, As filhas das putas no so homens nem so mulheres, so filhas das putas, j ficaste a saber o que valem as 
filhas das putas. Furioso, o cego da contabilidade disparou um tiro na direco da porta. A bala passou entre as cabeas dos cegos, sem atingir nenhum, e foi cravar-se 
na parede do corredor. No me apanhaste, disse a mulher do mdico, e tem cuidado, se te acabam as munies, h outros a que tambm querem ser chefes.
     
     Afastou-se, deu uns quantos passos ainda firmes, depois avanou ao longo da parede do corredor, quase a desmaiar, de repente os joelhos dobraram-se, e caiu 
redonda. Os olhos nublaram-se-lhe, Vou cegar, pensou, mas logo compreendeu que ainda no ia ser desta vez, eram s lgrimas o que lhe cobria a viso, lgrimas como 
nunca as tinha chorado em toda a sua vida, Matei, disse em voz baixa, quis matar e matei. Virou a cabea na direco da porta da camarata, se os cegos viessem a 
no seria capaz de defender-se. O corredor estava deserto. As mulheres tinham desaparecido, os cegos, ainda assustados pelos disparos e muito mais pelos cadveres 
dos seus, no se atreviam a sair. Pouco a pouco foram regressando as foras. As lgrimas continuavam a correr, mas lentas, serenas, como diante de um irremedivel. 
Levantou-se a custo. Tinha sangue nas mos e na roupa, e subitamente o corpo exausto avisou-a de que estava velha, Velha e assassina, pensou, mas sabia que se fosse 
necessrio tornaria a matar, E quando  que  necessrio matar, perguntou-se a si mesma enquanto ia andando na direco do trio, e a si mesma respondeu, Quando 
j est morto o que ainda  vivo. Abanou a cabea, pensou, E isto que quer dizer, palavras, palavras, nada mais. Continuava sozinha. Aproximou-se da porta que dava 
para a cerca. Por entre as grades do porto distinguiu mal o vulto do soldado que estava de sentinela, Ainda h gente l fora, gente que v. Um rudo de passos atrs 
de si f-la estremecer, So eles, pensou, e virou-se rapidamente com a tesoura pronta. Era o marido. As mulheres da segunda camarata tinham vindo a gritar pelo caminho 
o que acontecera no outro lado, que uma mulher tinha morto  facada o chefe dos malvados, que houvera tiros, o mdico no perguntou quem era a mulher, s poderia 
ser a sua, dissera ao rapazinho estrbico que depois lhe contaria o resto da aventura, e agora como estaria, provavelmente morta tambm, Estou aqui, disse ela, e 
foi para ele, e abraou-o, sem reparar que o manchava de sangue, ou reparando, no tinha importncia, at hoje tm partilhado tudo.
     Que foi que se passou, perguntou o mdico, disseram que foi morto um homem, Sim, matei-o eu, Porqu, Algum teria de o fazer, e no havia mais ningum, E agora, 
Agora estamos livres, eles sabem o que os espera se quiserem outra vez servir-se de ns, Vai haver luta, guerra, Os cegos esto sempre em guerra, sempre estiveram 
em guerra, Tornars a matar, Se tiver de ser. dessa cegueira j no me livrarei, E a comida, Viremos ns busc-la, duvido que eles se atrevam a vir at aqui, pelo 
menos nestes prximos dias tero medo de que lhes suceda o mesmo, que uma tesoura lhes atravesse o pescoo, No soubemos resistir como deveramos quando eles apareceram 
com as primeiras exigncias, Pois no, tivemos ns medo, e o medo nem sempre  bom conselheiro, e agora vamo-nos, ser conveniente, para maior segurana, que barriquemos 
a porta das camaratas pondo camas sobre camas, como eles fazem, se alguns de ns tivermos de dormir no cho. Pacincia, antes isso do que morrer de fome.
     
     Nos dias seguintes perguntaram-se se no seria isso que lhes iria acontecer. Ao princpio no estranharam, desde o princpio que estavam habituados, falhas 
nas entregas da comida sempre as havia, os cegos malvados tinham razo quando diziam que os militares s vezes se atrasavam, mas a essa razo pervertiam-na logo 
quando, em tom jocoso, afirmavam que por isso no tinham tido mais remdio que impor um racionamento, so as penosas obrigaes de quem governa. No terceiro dia. 
quando j no se conseguiria encontrar nas camaratas uma cdea, uma migalha, a mulher do mdico, com alguns companheiros, saiu  cerca e perguntou, Ol, que atraso 
 este, que se passa com a comida, j vo dois dias passados que no comemos. O sargento, outro, no o de antes, veio  grade para declarar que a responsabilidade 
no era do Exrcito, ali no se tirava o po da boca a ningum, que a honra militar nunca o permitiria, se no havia comida  porque no havia comida, e vocs no 
dem um passo, o primeiro que avanar j sabe a sorte que o espera, as ordens no mudaram. Assim intimados, voltaram para dentro, e falaram uns com os outros, E 
agora, que fazemos, se no nos trazem de comer, Pode ser que tragam amanh, Ou depois de amanh, Ou quando j no nos pudermos mexer, Devamos sair, No chegaramos 
nem ao porto, Se tivssemos vista, Se tivssemos vista no nos
     teriam metido neste inferno, Como estar a vida l fora, Talvez que os tipos no se importem de nos dar comida se a l formos pedir, afinal se falta para ns 
tambm h-de vir a faltar para eles, Por isso mesmo no nos dariam a que tm, E antes que ela se lhes acabe teremos ns morrido de fome, Que podemos fazer ento. 
Estavam sentados no cho, sob a luz amarelada da nica lmpada do trio, mais ou menos formando um crculo, o mdico e a mulher do mdico, o velho da venda preta, 
entre outros homens e mulheres dois ou trs de cada camarata, tanto da ala esquerda como da ala direita, e ento, sendo este mundo dos cegos o que , sucedeu o que 
sempre h-de suceder, um dos homens disse, O que eu sei  que no estaramos nesta situao se no fosse terem-lhes matado o chefe, que importncia teria irem l 
as mulheres duas vezes por ms a dar-lhes o que deu para dar-se a natureza, pergunto. Houve quem achasse graa  reminiscncia, houve quem disfarasse o riso, a 
alguma voz de protesto no a deixou falar o estmago, e o mesmo homem insistiu, Quem teria sido o da faanha gostava eu de saber, As mulheres que estavam l nessa 
altura juram que no foi nenhum delas, O que devamos fazer era tomar a justia nas nossas mos e lev-lo ao castigo, Desde que soubssemos quem , Dizamos-lhes 
aqui est o tipo que vocs procuram, agora dem-nos a comida, Desde que soubssemos quem . A mulher do mdico baixou a cabea, pensou, Tm razo, se algum aqui
morrer de fome a culpa ser minha, mas depois, dando voz  clera que sentia subir dentro de si contradizendo esta aceitao da sua responsabilidade, Mas que sejam
estes os primeiros a morrer para que a minha culpa pague a culpa deles. Depois pensou, levantando os olhos, E se agora lhes dissesse que fui eu que matei, entregar-me-iam
sabendo que me entregavam a uma morte certa. Fosse por efeito da fome ou porque o pensamento subitamente a seduziu como um abismo, variou-lhe a cabea uma espcie
de aturdimento, o corpo moveu-se-lhe para diante, a boca abriu-se para falar, mas nesse momento algum lhe agarrou e apertou o brao, olhou, era o velho da venda
preta, que disse, Mataria com as minhas mos quem a si prprio se denunciasse, Porqu, perguntaram da roda, Porque se a vergonha ainda tem algum significado neste 
inferno em que nos puseram a viver e que ns tornmos em inferno do inferno,  graas a essa pessoa que teve a coragem de ir matar a hiena ao covil da hiena, Pois 
sim, mas no ser a vergonha que nos vir encher o prato, Quem quer que sejas, ests certo no que dizes, sempre houve quem enchesse a barriga com a falta de vergonha, 
mas ns, que j nada temos, a no ser esta ltima e no merecida dignidade, ao menos que ainda sejamos capazes de lutar pelo que de direito nos pertence, Que queres 
dizer com isso, Que tendo comeado por mandar as mulheres e comido  custa delas como pequenos chulos de bairro,  agora a altura de mandar os homens, se ainda os 
temos aqui, Explica-te, mas primeiro diz-nos donde s, Da primeira camarata do lado direito, Fala,  muito simples, vamos buscar a comida pelas nossas prprias mos, 
Eles tm armas, Que se saiba s tm uma pistola, e os cartuchos no vo durar-lhes sempre, Com os que tm morrero alguns de ns, Outros j morreram por menos, No 
estou disposto a perder a vida para que os mais fiquem c a gozar, Tambm estars disposto a no comer se algum vier a perder a vida para que tu comas, perguntou 
sarcstico o velho da venda preta, e o outro no respondeu.

 entrada da porta que dava para as camaratas da ala direita apareceu uma mulher que estivera a ouvir escondida. Era a que tinha recebido na cara o jorro de 
sangue, aquela em cuja boca o morto ejaculara, aquela ao ouvido de quem a mulher do mdico tinha dito, Cala-te, e agora est esta mulher pensando, Daqui onde estou, 
sentada no meio destes, no te posso dizer cala-te, no me denuncies, mas sem dvida reconheces a minha voz,  impossvel que a tenhas esquecido, a minha mo esteve 
sobre a tua boca, o teu corpo contra o meu corpo, e eu disse cala-te, agora chegou o momento de saber verdadeiramente a quem salvei, de saber quem s, por isso vou 
falar, por isso vou dizer em voz alta e clara para que possas acusar-me, se  esse o teu destino e o meu destino, j o digo, No iro apenas os homens, iro tambm 
as mulheres, voltaremos ao lugar onde nos humilharam para que da humilhao nada fique, para que possamos libertar-nos dela da mesma maneira que cuspimos o que nos 
lanaram  boca. Disse e ficou  espera, at que a mulher falou, Aonde tu fores, eu irei, foi isto o que disse. O velho da venda preta sorriu, pareceu um sorriso 
feliz. e talvez o fosse, no  a ocasio para lho perguntar, mais interessante  reparar na expresso de estranheza dos outros cegos, como se alguma coisa lhes tivesse 
passado por cima das cabeas, um pssaro, uma nuvem, uma primeira e tmida luz. O mdico segurou a mo da mulher, depois perguntou, Ainda h quem esteja aqui a pensar 
em descobrir quem matou aquele, ou estaremos de acordo em que a mo que o foi degolar era a mo de todos ns, mais exactamente, a mo de cada um de ns. Ningum 
respondeu. A mulher do mdico disse, Dmos-lhes ainda um prazo, esperemos at amanh, se os soldados no trouxerem comida, ento avanamos. Levantaram-se, dividiram-se, 
uns para o lado direito, outros para o lado esquerdo, imprudentemente no tinham pensado que algum cego da camarata dos malvados poderia ter estado  escuta, felizmente 
o diabo nem sempre est atrs da porta, este ditado veio muito a propsito. Fora de todo o propsito veio o altifalante, nos ltimos tempos uns dias falava, outros 
no, mas sempre  mesma hora, como prometera, de certeza havia no transmissor um sistema de relgio que no instante preciso fazia entrar em movimento a fita gravada, 
a razo por que algumas vezes havia falhado no a viremos a conhecer, so assuntos do mundo exterior, em todo o caso bastante srios, porquanto o resultado foi baralhar-se 
o calendrio, a chamada conta dos dias, que alguns cegos, manacos por natureza, ou amantes da ordem, que  uma forma moderada de mania, tinham tentado levar escrupulosamente 
dando nozinhos num cordel, faziam-no aqueles que no se fiavam da memria, como quem fosse escrevendo um dirio. Agora era a hora que vinha fora de tempo, devia 
ter-se avariado o mecanismo, um rel torcido, uma soldadura solta, oxal a gravao no v voltar infinitamente ao princpio, era s o que nos estava a faltar, sobre 
cegos, loucos. Pelos corredores, pelas camaratas, como um derradeiro e intil aviso, ressoava a voz autoritria, O Governo lamenta ter sido forado a exercer energicamente 
o que considera ser seu direito e seu dever, proteger por todos os meios as populaes na crise que estamos a atravessar, quando parece verificar-se algo de semelhante 
a um surto epidmico de cegueira, provisoriamente designado por mal-branco, e desejaria poder contar com o civismo e a colaborao de todos os cidados para estancar 
a propagao do contgio, supondo que de contgio se trata. supondo que no estamos apenas perante uma srie de coincidncias por enquanto inexplicveis. A deciso 
de reunir num mesmo local as pessoas afectadas, e, em local prximo, mas separado, as que com elas tiveram algum tipo de contacto, no foi tomada sem sria ponderao. 
O Governo est perfeitamente consciente das suas responsabilidades e espera que aqueles a quem esta mensagem se dirige assumam, como cumpridores cidados que devem 
de ser. as responsabilidades que lhes competem, pensando tambm que o isolamento em que agora se encontram representar, acima de quaisquer outras consideraes, 
um acto de solidariedade para com o resto da comunidade nacional. Dito isto, pedimos a ateno de todos para as instrues que se seguem, primeiro, as luzes manter-se-o 
sempre acesas, ser intil qualquer tentativa de manipular os interruptores, no funcionam, segundo, abandonar o edifcio sem autorizao significar morte imediata, 
repito, morte imediata, terceiro, em cada camarata existe um telefone que s poder ser utilizado para requisitar ao exterior a reposio de produtos de higiene 
e limpeza, quarto, os internados lavaro manualmente as suas roupas, quinto, recomenda-se a eleio de responsveis de camarata, trata-se de uma recomendao, no 
de uma ordem, os internados organizar-se-o como melhor entenderem, desde que cumpram as regras anteriores e as que seguidamente continuamos a enunciar, sexto, trs 
vezes ao dia sero depositadas caixas de comida na porta da entrada,  direita e  esquerda, destinadas, respectivamente, aos pacientes e aos suspeitos de contgio, 
stimo, todos os restos devero ser queimados, considerando-se restos, para este efeito, alm da comida sobrante, as caixas, os pratos e os talheres, que esto fabricados 
de materiais combustveis, oitavo, a queima dever ser efectuada nos ptios interiores do edifcio ou na cerca, nono, os internados so responsveis por quaisquer 
consequncias negativas dessas queimas, dcimo, em caso de incndio, seja ele fortuito ou intencional, os bombeiros no interviro, dcimo primeiro, igualmente no 
devero os internados contar com qualquer tipo de interveno do exterior na hiptese de virem a verificar-se doenas entre eles, assim como a ocorrncia de desordens 
ou agresses, dcimo segundo, em caso de morte, seja qual for a sua causa, os internados enterraro sem formalidades o cadver na cerca, dcimo terceiro, a comunicao 
entre a ala dos pacientes e a ala dos suspeitos de contgio far-se- pelo corpo central do edifcio, o mesmo por onde entraram, dcimo quarto, os suspeitos de contgio 
que vierem a cegar transitaro imediatamente para a ala dos que j esto cegos, dcimo quinto, esta comunicao ser repetida todos os dias, a esta mesma hora, para
conhecimento dos novos ingressados. O Governo, neste momento as luzes apagaram-se e o altifalante calou-se. Indiferente, um cego deu um n no cordel que tinha nas
mos, depois tentou cont-los, os ns, os dias, mas desistiu, havia ns sobrepostos, cegos, por assim dizer. A mulher do mdico disse ao marido, Apagaram-se as luzes, 
Alguma lmpada que se fundiu, no admira, depois de permanecerem acesas h tantos dias, Apagaram-se todas, o problema foi l fora, Agora tambm tu ficaste cega, 
Esperarei que nasa o sol. Saiu da camarata, atravessou o trio, olhou para fora. Esta parte da cidade encontrava-se s escuras, o projector do exrcito estava apagado, 
deviam t-lo ligado  rede geral, e agora, pelos vistos, acabara-se a energia.
     
     No dia seguinte, uns mais cedo, outros mais tarde, porque o sol no nasce ao mesmo tempo para todos os cegos, muitas vezes depende da finura do ouvido de cada 
um, comearam a juntar-se nos degraus exteriores do edifcio homens e mulheres vindos das diversas camaratas, com excepo, j se sabe, da dos malvados, que a esta 
hora j devero estar a tomar o pequeno-almoo. Esperavam o rudo do porto ao ser aberto, o guincho agudo dos gonzos por untar, os sons que anunciavam a chegada 
da comida, depois as vozes do sargento de servio, No saiam da, que ningum se aproxime, o arrastar dos ps dos soldados, o rumor surdo das caixas ao serem largadas 
no cho. a retirada em acelerado. novamente o ranger do porto, enfim a autorizao. J podem vir. Esperaram at que a manh se fez meio-dia e o meio-dia tarde. 
Ningum. nem sequer a mulher do mdico, quis perguntar pela comida. Enquanto no fizessem a pergunta no ouviriam o temido no. e enquanto ele no fosse dito continuariam 
a ter a esperana de ouvirem palavras como estas. Est a chegar, est a chegar, tenham pacincia, aguentem a fome mais um bocadinho. Alguns, por muito que o quisessem, 
no puderam aguentar, como se de repente tivessem adormecido desmaiaram ali mesmo, valeu-lhes a mulher do mdico, parecia impossvel como esta mulher conseguia dar 
f de tudo quanto se passava, devia ser dotada de um sexto sentido, uma espcie de viso sem olhos. graas a isso  que os pobres infelizes no se ficaram ali a 
cozer ao sol, levaram-nos logo de charola para dentro, e com tempo, gua e palmadinhas na cara todos acabaram por sair do delrio.
     Mas era intil contar com estes para a guerra. no poderiam nem com uma gata pelo rabo, modo de dizer muito antigo que se esqueceu de explicar por que extraordinria 
razo  mais fcil levar pelo rabo uma gata que um gato. Finalmente disse o velho da venda preta, A comida no veio. a comida no vir, vamos pela comida. Levantaram-se 
sabe Deus como e foram reunir-se na camarata mais afastada da fortaleza dos malvados, para imprudncia j bastou a do outro dia. Dali mandaram escutas  outra ala, 
logicamente cegos que viviam l, conheciam melhor os stios, Ao primeiro movimento suspeito, venham avisar. A mulher do mdico foi com eles e trouxe uma informao 
pouco animadora, Barricaram a entrada com quatro camas sobrepostas, Como soubeste que eram quatro, perguntou algum, No foi difcil, apalpei-as, No deram por ti, 
No creio, Que fazemos, Vamos l, tornou a dizer o velho da venda preta, vamos ao que estava decidido, ou  isso, ou ficamos condenados a uma morte lenta, Alguns 
morrero mais depressa se formos, disse o primeiro cego, Quem vai morrer, est j morto e no o sabe, Que temos de morrer. sabemo-lo desde que nascemos. Por isso, 
de uma certa maneira,  como se j tivssemos nascido mortos, Deixem-se de conversas inteis, disse a rapariga dos culos escuros, eu sozinha no posso l ir, mas 
se agora comeamos a dar o dito por no dito, ento deito-me na cama e deixo-me morrer, S morrer quem tenha os dias contados, ningum mais, disse o mdico, e, 
alando a voz, perguntou, Quem est decidido a ir, ponha a mo no ar,  o que acontece a quem no pensa duas vezes antes de abrir a boca para falar, que adiantava 
pedir que se levantassem as mos, se ali no havia ningum para as contar, assim o criam em geral, e depois dizer, Somos treze, caso em que de certeza uma nova discusso 
principiaria para apurar o que,  luz da lgica, seria mais correcto, se pedir que se apresentasse outro voluntrio que quebrasse o enguio por excesso, ou se evit-lo 
por defeito, tirando  sorte aquele que deveria sair. Alguns tinham levantado a mo com pouca convico, num movimento que traa a hesitao e a dvida, quer pela 
conscincia do perigo a que se iam expor, quer porque se tivessem apercebido do absurdo da ordem. O mdico riu, Que disparate, pedir-lhes que ponham a mo no ar, 
vamos proceder de uma maneira diferente, que se retirem os que no possam ou no queiram ir, os restantes ficam para combinarmos a aco. Houve remexidas, passos, 
murmrios, suspiros, pouco a pouco foram saindo os dbeis e os timoratos, a ideia do mdico tivera tanto de excelente como de generosa, assim ser menos fcil saber 
quem tinha estado e deixara de estar. A mulher do mdico contou os que ficaram, eram dezassete, contando com ela e o marido. Da primeira camarata lado direito estavam 
o velho da venda preta, o ajudante de farmcia, a rapariga dos culos escuros, e eram todos homens os voluntrios das outras camaratas, com excepo daquela mulher 
que dissera Aonde tu fores, eu irei, essa tambm est aqui. Alinharam-se ao longo da coxia, o mdico contou-os, Dezassete, somos dezassete, Somos poucos, disse o 
ajudante de farmcia, assim no iremos conseguir, A frente de ataque, se posso usar esta linguagem que mais parece de militar, ter de ser estreita, disse o velho 
da venda preta, o que nos espera  a largura de uma porta. acho que s complicar(amos se fssemos mais, Atirariam ao monte, concordou algum, e todos pareceram ficar 
contentes por afinal serem poucos.
     
     O armamento era o que j conhecemos, os ferros retirados das camas, que tanto teriam serventia de alavanca como de lana, consoante se tratasse de entrarem 
em combate os sapadores ou as tropas de assalto. O velho da venda preta, que pelos vistos algumas lies de tctica devia ter aprendido na sua juventude, lembrou 
a convenincia de se manterem sempre juntos e virados na mesma direco, por ser essa a nica forma de no se agredirem uns aos outros, e que deviam avanar em silncio 
absoluto para que o ataque beneficiasse do efeito da surpresa, Descalcemo-nos, disse, Depois vai ser difcil encontrar cada um os seus sapatos, disse algum, e outro 
comentou, Os sapatos que sobrarem  que iro ser os verdadeiros sapatos de defunto, com a diferena de que neste caso, ao menos, sempre haver quem os aproveite, 
Que histria de sapatos de defunto  essa,  um dito, estar  espera de sapatos de defunto significava estar  espera de coisa nenhuma, Porqu, Porque os sapatos 
com que os mortos eram enterrados eram feitos de carto, tambm  certo que seriam suficientes, as almas no tm ps, que se saiba, Outro ponto ainda, interrompeu 
o velho da venda preta, seis de ns, os seis que se sentirem com mais animo, quando l chegarmos, empurraro com toda a fora as camas para dentro, de modo a podermos 
entrar todos, Sendo assim, teremos de largar os ferros, Acho que no ser preciso, at podem ajudar, se os usarem em posio vertical. Fez uma pausa, depois disse, 
com uma nota sombria na voz, Sobretudo que no nos separemos, se nos separamos somos homens mortos, E mulheres, disse a rapariga dos culos escuros, no te esqueas 
das mulheres, Tu tambm vais, perguntou o velho da venda preta, preferiria que no fosses, E porqu, pode saber-se, s muito nova, Aqui dentro a idade no conta, 
nem o sexo, portanto no te esqueas das mulheres, No, no me esqueo, a voz com que o velho da venda preta disse estas palavras parecia pertencer a outro dilogo, 
as seguintes j estavam no seu lugar, Pelo contrrio, quem dera que alguma de vocs pudesse ver o que ns no vemos, levar-nos pelo caminho certo, guiar a ponta 
dos nossos ferros contra a garganta dos malvados, to certeiramente como o fez a outra, Seria pedir demasiado, uma vez no so vezes, alm disso, quem nos diz que 
no ficou por l morta, pelo menos no houve noticias dela, lembrou a mulher do mdico, As mulheres ressuscitam umas nas outras, as honradas ressuscitam nas putas, 
as putas ressuscitam nas honradas, disse a rapariga dos culos escuros.
     Depois disto houve um grande silncio, para as mulheres ficara tudo dito, os homens teriam de procurar as palavras, e de antemo sabiam que no seriam capazes 
de encontr-las.
     
     Saram em fila, os seis mais fortes  frente, como tinha ficado combinado, entre eles estavam o mdico e o ajudante de farmcia, depois vinham os outros, armado 
cada qual com o seu ferro de cama, uma brigada de lanceiros esqulidos e maltrapilhos, quando atravessavam o trio um deles deixou escapar das mos o ferro, que 
atroou no lajedo como uma rajada de metralha dispersa, se os malvados ouviram o barulho e perceberam ao que vamos, estamos perdidos. Sem dar aviso a ningum, nem 
mesmo ao marido, a mulher do mdico correu  frente, olhou ao longo do corredor, depois, devagarinho, rente  parede, foi-se aproximando da entrada da camarata, 
a ps-se  escuta, as vozes dentro no pareciam alarmadas. Trouxe rapidamente a informao, e o avano recomeou. Apesar da lentido e do silncio com que a hoste 
se movia, os ocupantes das duas camaratas que antecediam o bastio dos malvados, sabedores do que estava para acontecer, chegavam-se s portas para melhor poderem 
ouvir o alarido iminente da batalha, e alguns deles, mais nervosos, excitados pelo cheiro de uma plvora que ainda estava por queimar, decidiram no ltimo momento 
acompanhar o grupo, uns poucos voltaram atrs para se armarem, j no eram dezassete, tinham, pelo menos, duplicado, o reforo no agradaria com certeza ao velho 
da venda preta, mas ele no chegou a saber que comandava dois regimentos em vez de um. Pelas poucas janelas que davam para o ptio interior entrava uma ltima claridade, 
cinzenta, moribunda, que declinava rapidamente, j a resvalar para o poo negro e profundo que ia ser esta noite. Tirando a tristeza irremedivel causada pela cegueira 
de que inexplicavelmente continuavam a padecer, os cegos, valha-lhes isso ao menos, estavam a salvo das deprimentes melancolias produzidas por estas e semelhantes 
alteraes atmosfricas, comprovadamente responsveis de inmeros actos de desespero no tempo remoto em que as pessoas tinham olhos para ver. Quando alcanaram a 
porta da camarata maldita, a obscuridade era j tal que a mulher do mdico no pde ver que no eram quatro, mas oito, as camas que formavam a barreira, entretanto 
duplicada como os atacantes, porm com piores consequncias imediatas para eles, como no tardar a certificar-se. A voz do velho da venda preta soou em grito, Agora, 
foi a ordem, no se lembrou do clssico Ao assalto, ou lembrou-se, mas l lhe teria parecido ridculo tratar com tanta considerao militar uma barreira de catres 
infectos, inados de pulgas e percevejos, com os seus colches apodrecidos de suor e urina, as mantas como esfreges, j no cinzentas, mas de todas as cores de 
que pode vestir-se a repugnncia, isto sabia-o de antes a mulher do mdico, no que o pudesse ver agora, se nem sequer se apercebera do reforo da barricada. Os 
cegos avanaram como arcanjos rodeados do seu prprio resplendor, embateram no obstculo com os ferros ao alto, como haviam sido instrudos, mas as camas no se 
mexeram,  certo que as foras destes fortes em pouco superariam as dos dbeis que vinham atrs e mal j podiam segurar as lanas, como algum que levou uma cruz 
s costas e agora tem de esperar que o subam a ela. O silncio desaparecera, gritavam os de fora, comearam os de dentro a gritar, provavelmente ningum o ter notado 
at hoje, como so absolutamente terrveis os gritos dos cegos, parecem eles que esto a gritar sem saberem porqu, queremos dizer-lhes que se calem e logo acabamos 
ns a gritar tambm, s nos falta sermos cegos, mas o dia l vir. Estavam nisto, uns a gritar porque atacavam, outros a gritar porque se defendiam, quando os do 
lado de fora, desesperados por no terem conseguido arredar as camas, largaram os ferros no cho de qualquer maneira, e, todos  uma, ao menos aqueles que conseguiram 
meter-se no espao do vo da porta, e os que no couberam faziam fora nas costas dos da frente, puseram-se a empurrar, a empurrar, e parecia que iam alcanar a 
vitria, as camas j se tinham mesmo movido um poucochinho, quando de repente, sem prvio aviso ou ameaa, se ouviram trs disparos, era o cego da contabilidade
a fazer pontaria baixa. Dois dos atacantes tombaram feridos, os outros recuaram precipitadamente de atropelo, tropeavam nos ferros e caam, como loucas as paredes
do corredor multiplicavam os gritos, tambm se gritava nas outras camaratas. A obscuridade tornara-se quase completa, no era possvel saber quem tinha sido atingido 
pelas balas, claro que se poderia perguntar c de longe, Vocs quem so, mas no parecia prprio, aos feridos h que trat-los com respeito e considerao, chegar-se 
a eles caridosamente, pr-lhes a mo na testa, salvo se foi a que a bala, por um infeliz acaso, os alcanou, depois perguntar-lhes em voz baixa como se sentem, 
dizer-lhes que no vai ser nada, que j vm a os maqueiros, e enfim dar-lhes gua, mas s se no estiverem feridos no ventre, como expressamente se recomenda no 
manual de primeiros socorros. Que fazemos agora, perguntou a mulher do mdico, esto l dois cados no cho. Ningum lhe perguntou como sabia ela que eram dois, 
afinal os disparos tinham sido trs, sem contar com o efeito dos ricochetes, se chegou a hav-los. Temos de ir busc-los, disse o mdico, O risco  grande, observou 
sucumbido o velho da venda preta, que vira como a sua tctica de assalto tinha resultado em desastre, se eles percebem que h gente tornam a disparar, fez uma pausa 
e acrescentou suspirando, Mas temos de l ir, eu por mim estou pronto, Eu tambm vou, disse a mulher do mdico, o perigo ser menor se nos aproximarmos de rastos, 
o que  preciso  encontr-los depressa, antes que l de dentro tenham tempo de reagir, E eu vou tambm, disse a mulher que havia declarado no outro dia Aonde tu 
fores, eu irei, de tantos que ali estavam ningum se lembrou de dizer que era faclimo averiguar quem eram os feridos, ateno, feridos ou mortos, por enquanto ainda 
no se sabe, bastava que todos fossem dizendo, Eu vou, Eu no vou, os que tivessem ficado calados eram os tais.
     
     Puseram-se pois os quatro voluntrios a rastejar, as duas mulheres ao centro, um homem de cada lado, calhou assim, no o fizeram por cortesia masculina ou por 
um instinto cavalheiresco de proteco das damas, a verdade  que tudo ir depender do angulo de tiro, se o cego da contabilidade disparar outra vez. Enfim, talvez 
no venha a suceder nada, o velho da venda preta havia tido uma ideia antes de se irem, acaso melhor do que as primeiras, que estes companheiros aqui se pusessem 
a falar muito alto, inclusive a gritar, ainda por cima razes no lhes faltam, de maneira a cobrirem o inevitvel rudo de ir e voltar, e tambm o do que pelo meio 
vier a acontecer, sabe Deus qu. Em poucos minutos chegaram os socorristas ao seu destino, souberam-no quando ainda nem tinham tocado nos corpos, o sangue por cima 
do qual se iam arrastando era como um mensageiro que lhes tivesse vindo dizer Eu era a vida, atrs de mim j no h nada, Meu Deus, pensou a mulher do mdico, quanto 
sangue, e era verdade, um charco, as mos e a roupa pegavam-se ao cho como se as tbuas e o lajedo estivessem cobertos de visco. A mulher do mdico soergueu-se 
sobre os cotovelos e continuou a avanar, os outros tinham feito o mesmo. Estendendo os braos alcanaram enfim os corpos. Os companheiros continuavam a fazer l 
atrs todo o barulho que podiam, agora eram como carpideiras em transe. As mos da mulher do mdico e do velho da venda preta aferraram-se aos tornozelos de um dos 
cados, por sua vez o mdico e a outra mulher tinham agarrado um brao e uma perna do segundo, agora tratava-se de pux-los, de sarem rapidamente da linha de fogo. 
No era fcil, para isso precisariam erguer-se um pouco, pr-se de gatas, era a nica forma de conseguir usar eficazmente as poucas foras que ainda lhes restavam. 
A bala partiu, mas desta vez no atingiu ningum. O medo fulminante no os fez fugir, pelo contrrio, deu-lhes a poro de energia que fazia falta. Um instante depois 
j estavam a salvo, tinham-se chegado o mais que podiam  parede do lado da porta da camarata, s um tiro muito enviesado teria possibilidade de alcan-los, mas 
era duvidoso que o cego da contabilidade fosse perito em balsticas, mesmo destas elementares. Tentaram levantar os corpos, mas desistiram. No podiam fazer mais 
do que arrast-los, com eles vinha, j meio seco, como trazido por uma rasoira, o sangue derramado, e outro, ainda fresco, que continuava a manar dos ferimentos. 
Quem so, perguntaram os que estavam  espera, Como  que se pode saber, se no vemos, disse o velho da venda preta, No podemos continuar aqui, disse algum, se 
eles se decidem a fazer uma surtida vamos ter muito mais que dois feridos, disse algum, Ou mortos, disse o mdico, pelo menos no estou a sentir-lhes o pulso. Carregaram 
com os corpos ao longo do corredor como um exrcito em retirada, chegados ao trio fizeram alto, e a se diria que tinham resolvido acampar, mas a verdade dos factos 
 outra, o que aconteceu foi esvarem-se-lhes de todo as foras, aqui me fico, no posso mais.  tempo de reconhecer que h-de parecer surpreendente que os cegos 
malvados, antes to prepotentes e agressivos, to facilmente e com tanto gosto brutais, agora no faam mais do que defender-se, levantando barricadas e disparando 
l de dentro  mo salva, como se tivessem medo de ir  luta em campo aberto, cara a cara, olhos nos olhos. Como todas as coisas na vida, tambm esta tem a sua explicao, 
e vem a ser que depois da trgica morte do primeiro chefe se havia relaxado na camarata o esprito da disciplina e o sentido da obedincia, o grande erro do cego 
da contabilidade foi ter pensado que bastava apoderar-se da pistola para ter com ela o poder no bolso, ora o resultado foi precisamente ao contrrio, cada vez que 
faz fogo sai-lhe o tiro pela culatra, por outras palavras, cada bala disparada  uma fraco de autoridade que vai perdendo, estamos para ver o que acontecer quando 
as munies se lhe acabarem de todo. Assim como o hbito no faz o monge, tambm o ceptro no faz o rei, esta  uma verdade que convm no esquecer. E se  certo 
que o ceptro real o anda a empunhar agora o cego da contabilidade, apetece dizer que o rei, apesar de morto, apesar de enterrado na prpria camarata, e mal, apenas 
em trs palmos de cho, continua a ser lembrado, pelo menos nota-se-lhe pelo cheiro a fortssima presena. Entretanto nasceu a lua. Pela porta do trio que d para 
a cerca exterior entra uma difusa claridade que cresce pouco a pouco, os corpos que esto no cho, mortos dois deles, os outros vivos ainda, vo lentamente ganhando 
volume, desenho, traos, feies, todo o peso de um horror sem nome, ento a mulher do mdico compreendeu que no tinha qualquer sentido, se o havia tido alguma 
vez, continuar com o fingimento de ser cega, est visto que aqui j ningum se pode salvar, a cegueira tambm  isto, viver num mundo onde se tenha acabado a esperana. 
Podia portanto dizer quem eram os mortos, este  o ajudante de farmcia, este  aquele que disse que os cegos atirariam ao monte, ambos tiveram razo de certo modo, 
e escusam de perguntar-me como sei quem eles so, a resposta  simples, Vejo. Alguns dos que ali estavam j o sabiam e tinham-se calado, outros andavam desde h 
tempos com suspeitas e agora viam-nas confirmadas, inesperado foi o alheamento dos restantes, e contudo, pensando melhor, talvez o no devamos estranhar, noutra 
altura a revelao teria sido causa de um enorme alvoroo, de uma comoo sem freio, que sorte a tua, como foi que conseguiste escapar ao universal desastre, que 
nome tm as gotas que pes nos olhos, d-me a direco do teu mdico, ajuda-me a sair desta priso, neste momento j tanto fazia, na morte a cegueira  igual para 
todos. O que no podiam era continuar ali, sem defesas de nenhuma espcie, at os ferros das camas l tinham ficado, os punhos no serviriam de nada. Orientados 
pela mulher do mdico, arras taram os cadveres para o patamar exterior e ali os deixaram ficar  lua, sob a alvura leitosa do astro, brancos por fora, negros enfim 
por dentro. Voltemos para as camaratas, disse o velho da venda preta, veremos mais tarde o que se poder organizar. Disse, e foram palavras loucas de que ningum 
fez caso. No se dividiram por grupos de origem, foram-se encontrando e reconhecendo pelo caminho, uns para a ala esquerda, outros para a ala direita, vieram juntas 
at aqui a mulher do mdico e aquela que tinha dito Aonde tu fores, eu irei, no era esta a ideia que levava agora na cabea, bem pelo contrrio, mas no quis falar 
dela, as juras nem sempre se cumprem, umas vezes foi por fraqueza, outras vezes por causa duma fora superior com que no tnhamos contado.

     Passou uma hora, subiu a lua, a fome e o temor afastam o sono, ningum dorme nas camaratas. Mas esses no so os nicos motivos. Ou seja por causa da excitao
da recente batalha, ainda que to desastrosamente perdida, ou por algo indefinvel que percorra o ar, os cegos esto inquietos. Ningum se atreve a sair para os
corredores, mas o interior de cada camarata  como uma colmeia s povoada de zangos, bichos zumbidores, como se sabe, pouco dados  ordem e ao mtodo, no h registo 
de alguma vez terem feito pela vida ou de se preocuparem, um mnimo que fosse, com o futuro, ainda que no caso dos cegos, infeliz gente, seria injusto acus-los 
de aproveitadores ou de chupistas, aproveitadores de que migalha, chupistas de que refresco, h que ter cuidado com as comparaes, no vo elas sair levianas. Porm, 
no h regra que no tenha a sua excepo, e esta no faltou aqui, na pessoa de uma mulher que, mal entrou na camarata, a segunda do lado direito, se ps a remexer 
nos seus trapos at encontrar um pequeno objecto que apertou na palma da mo, como se o quisesse esconder da vista dos outros, os velhos hbitos custam a esquecer, 
mesmo quando chega um momento em que j os julgvamos de todo perdidos. Aqui, onde deveria ter sido um por todos e todos por um, pudemos ver como cruelmente tiraram 
os fortes o po da boca aos dbeis, e agora esta mulher, tendo-se lembrado de que trouxera um isqueiro na malinha de mo, se em tanto desconcerto o no perdera, 
foi ansiosamente por ele e ciosamente o est a esconder, como se fosse condio da sua prpria sobrevivncia, no pensa que talvez um destes seus companheiros de 
infortnio tenha por a um ltimo cigarro, que no pode fumar por lhe faltar o pequeno lume necessrio. Nem j iria a tempo de pedi-lo. A mulher saiu sem dizer palavra, 
nem adeus, nem at logo, segue pelo corredor deserto, passa rente  porta da primeira camarata, ningum de dentro deu por ela ter passado, atravessa o trio, a lua 
descendo traou e pintou um tanque de leite nas lajes do cho, agora a mulher est na outra ala. outra vez um corredor, o seu destino  ao fundo, em linha recta, 
no tem nada que enganar. Alm disso, percebe umas vozes a cham-la, maneira s figurada de dizer, o que lhe chega aos ouvidos  a algazarra dos malvados da ltima 
camarata, esto a festejar o vencimento da batalha comendo do bom e bebendo do fino, passe o exagero intencional, no esqueamos que tudo na vida  relativo, comem 
e bebem simplesmente do que h, e viva o velho, bem gostariam os outros de meter-lhe o dente, mas no podem, entre eles e o prato h uma barricada de oito camas 
e uma pistola carregada. A mulher est de joelhos  entrada da camarata, mesmo junto s camas, puxa devagar os cobertores para fora, depois levanta-se, faz o mesmo 
na que est por cima, ainda na terceira,  quarta no lhe alcana o brao, no importa, os rastilhos esto preparados, agora  s chegar-lhes o fogo. Ainda se recorda 
de como dever regular o isqueiro para produzir uma chama comprida, j a a tem, um pequeno punhal de lume, vibrante como a ponta duma tesoura. Comea pela cama 
de cima, a labareda lambe trabalhosamente a sujidade dos tecidos, enfim pega, agora a cama do meio, agora a cama de baixo, a mulher sentiu o cheiro dos seus prprios 
cabelos chamuscados, deve ter cuidado, ela  a que deita fogo  pira, no a que nela deve morrer, ouve os gritos dos malvados l dentro, foi nesse momento que pensou, 
E se eles tm gua, se vo conseguir apagar, desesperada meteu-se debaixo da primeira cama, passeou o isqueiro ao comprido do colcho, aqui, alm, ento de repente 
as chamas multiplicaram-se, transformaram-se numa nica cortina ardente, um jorro de gua ainda passou atravs delas, foi cair sobre a mulher, porm inutilmente, 
j era o seu prprio corpo o que estava a alimentar a fogueira. Como vai aquilo l por dentro, ningum pode arriscar-se a entrar, mas a imaginao para alguma coisa 
nos h-de servir, o fogo anda a saltar velozmente de cama em cama, quer deitar-se em todas ao mesmo tempo, e consegue-o, os malvados gastaram sem critrio nem proveito 
a pouca gua que ainda tinham, tentam agora alcanar as janelas, mal equilibrados sobem s cabeceiras das camas a que o fogo ainda no chegou, mas de repente o fogo 
j l est, eles resvalam, caem, e o fogo j l est, com a ardncia do calor as vidraas comeam a estalar, a estilhaar-se, o ar fresco entra silvando e atia 
o incndio, ah, sim, no esto esquecidos, os gritos de raiva e medo, os uivos de dor e agonia, a fica feita a meno, note-se, em todo o caso, que iro sendo cada 
vez menos, a mulher do isqueiro, por exemplo, est calada h muito tempo.
     
     A estas alturas j os outros cegos esto a fugir espavoridos para os corredores cheios de fumo, H fogo, h fogo, gritam, e aqui se pode observar ao vivo como 
tm sido mal pensados e organizados estes ajuntamentos humanos de asilo, hospital e manicmio, repare-se em como cada um dos catres, s por si, com a sua armao 
de ferros bicudos, pode tornar-se em uma mortal armadilha, vejam-se as consequncias terrveis de haver uma s porta em camaratas que levam quarenta pessoas, fora 
as que dormem no cho, se o fogo chega l primeiro e lhes tapa a sada, no escapa ningum. Felizmente, como a histria humana tem mostrado, no  raro que uma coisa 
m traga consigo uma coisa boa, fala-se menos das coisas ms trazidas pelas coisas boas, assim andam as contradies do nosso mundo, merecem umas mais considerao 
do que outras, neste caso a boa coisa foi precisamente terem as camaratas uma nica porta, graas a isto  que o fogo que queimou os malvados se demorou por l tanto 
tempo, se a confuso no se tornar maior, talvez no tenhamos que lamentar a perda doutras vidas. Evidentemente. muitos destes cegos esto a ser pisados, empurrados, 
esmurrados.  o efeito do pnico, um efeito natural, pode-se dizer, a natureza animal  mesmo assim, tambm a vegetal se comportaria de igual maneira se no tivesse 
todas aquelas razes a prend-la ao cho, e que bonito seria poder ver as rvores do bosque a fugir ao incndio. O refgio da parte interior da cerca foi bem aproveitado 
por cegos que tiveram a ideia de abrir as janelas existentes nos corredores e que davam para ela. Saltaram, tropearam, caram, choram e gritam, mas por ora esto 
a salvo, tenhamos esperana de que o fogo, quando fizer desmoronar-se o telhado e atirar por ares e ventos um vulco de labaredas e ties a arder, no se lembre 
de propagar-se s copas das rvores. Na outra ala o medo anda pelo mesmo, a um cego basta cheirar-lhe a fumo e logo imagina que o lume est mesmo ao lado dele, o 
que no ser sendo verdade, em pouco tempo o corredor ficou entupido de gente, se no houver quem ponha alguma ordem nisto, vamos ter tragdia. Num momento algum 
se recorda de que a mulher do mdico ainda tem uns olhos que vem, onde est ela, pergunta-se, ela que nos diga o que se passa, por onde deveremos ir, onde est, 
estou aqui, s agora  que consegui sair da camarata, a culpa foi do rapazinho estrbico que ningum conseguia saber onde se tinha metido, agora j est aqui, agarro-o 
com fora pela mo, teriam de arrancar-me o brao para que eu o largasse, com a outra mo seguro a mo do meu marido, e depois vem a rapariga dos culos escuros, 
e depois o velho da venda preta, onde est um est outro, e depois o primeiro cego, e depois a mulher dele, todos juntos, apertados como uma pinha, que. Espero bem, 
nem este calor h-de abrir. Entretanto uns quantos cegos daqui tinham seguido o exemplo dos da outra ala, saltaram para a cerca interior, no podem ver que a maior 
parte do edifcio do outro lado  j uma fogueira, mas sentem na
     cara e nas mos o bafo ardente que vem de l, por enquanto o telhado ainda se aguenta, as folhas das rvores vo-se encarquilhando devagar. Ento algum gritou, 
Que  que estamos aqui a fazer, por que  que no salmos, a resposta, vinda do meio deste mar de cabeas, s precisou de quatro palavras, Esto l os soldados, mas 
o velho da venda preta disse, Antes morrer de um tiro que queimados, parecia a voz da experincia, por isso talvez no tenha sido propriamente ele a falar, talvez 
pela boca dele tenha falado a mulher do isqueiro, que no teve a sorte de ser apanhada por uma ltima bala disparada pelo cego da contabilidade. Disse ento a mulher 
do mdico, Deixem-me passar, vou falar aos soldados, eles no podem deixar-nos morrer assim, os soldados tambm tm sentimentos. Graas  esperana de que os soldados 
tivessem de facto sentimentos, pde abrir-se no aperto um estreito canal, por onde a mulher do mdico avanou com dificuldade levando atrs de si os seus. O fumo 
tapava-lhe a viso, em pouco tempo estaria to cega como os outros. No trio mal se podia romper.
     As portas que davam para a cerca tinham sido rebentadas, os cegos que ali se haviam refugiado aperceberam-se rapidamente de que o stio no era seguro, queriam 
sair, empurravam, mas os do outro lado resistiam, faziam finca-p conforme podiam, por enquanto neles ainda era mais forte o medo de aparecerem  vista dos soldados, 
mas quando as foras cedessem, quando o fogo se aproximasse, o velho da venda preta tinha razo, mais valeria morrer de um tiro. No foi preciso esperar tanto, a 
mulher do mdico conseguira enfim sair para o patamar, praticamente vinha meio despida, por ter ambas as mos ocupadas no se pudera defender dos que queriam juntar-se 
ao pequeno grupo que avanava, apanhar, por assim dizer, o comboio em andamento, os soldados iam ficar de olho arregalado quando ela lhes aparecesse pela frente
com os seios meio descobertos. J no era o luar que iluminava o espao amplo e vazio que ia at ao porto, mas o claro violento do incndio. A mulher do mdico
gritou, Por favor, pela vossa felicidade, deixem-nos sair, no disparem. Ningum respondeu de l. O holofote continuava apagado, nenhum vulto se movia. Ainda a medo,
a mulher do mdico desceu dois degraus, Que se passa, perguntou o marido, mas ela no respondeu, no podia acreditar. Desceu os restantes degraus, caminhou em direco 
ao porto, puxando sempre atrs de si o rapazinho estrbico, o marido e companhia' j no havia dvidas, os soldados tinham-se ido embora, ou levaram-nos, cegos 
tambm eles, cegos todos por fim.
     
     Ento, para simplificar, aconteceu tudo ao mesmo tempo, a mulher do mdico anunciou em altas vozes que estavam livres, o telhado da ala esquerda velo-se abaixo 
com medonho estrondo, esparrinhando labaredas por todos os lados, os cegos precipitaram-se para a cerca gritando, alguns no conseguiram, ficaram l dentro, esmagados 
contra as paredes, outros foram pisados at se transformarem numa massa informe e sanguinolenta, o fogo que de repente alastrou far de tudo isto cinzas. O porto 
est aberto de par em par, os loucos saem.
     
     Diz-se a um cego, Ests livre, abre-se-lhe a porta que o separava do mundo, Vai, ests livre, tornamos a dizer-lhe, e ele no vai, ficou ali parado no meio 
da rua, ele e os outros, esto assustados, no sabem para onde ir,  que no h comparao entre viver num labirinto racional, como , por definio, um manicmio, 
e aventurar-se, sem mo de guia nem trela de co, no labirinto dementado da cidade, onde a memria para nada servir, pois apenas ser capaz de mostrar a imagem 
dos lugares e no os caminhos para l chegar. Postados diante do edifcio que j arde de uma ponta  outra, os cegos sentem na cara as ondas vivas do calor do incndio, 
recebem-nas como algo que de certo modo os resguarda, tal como as paredes tinham sido antes, ao mesmo tempo, priso e segurana. Mantm-se juntos, apertados uns 
contra os outros, como um rebanho, nenhum deles quer ser a ovelha perdida porque de antemo sabem que nenhum pastor os ir procurar. O fogo vai decrescendo aos poucos, 
a lua j ilumina outra vez, os cegos comeam a desassossegar-se, no podem continuar ali, Eternamente, disse um deles. Algum perguntou se era dia ou era noite, 
a razo da incongruente curiosidade soube-se logo, Quem s abe se no nos viro trazer a comida, pode ter havido uma confuso, um atraso, outras vezes aconteceu, 
Mas os soldados no esto c, Isso no quer dizer nada, podem ter-se ido embora por deixarem de ser precisos, No percebo, Por exemplo, porque deixou de haver contgio, 
Ou porque se descobriu o remdio para a nossa doena, Era bom, era, Que fazemos, Eu fico aqui at ser dia. E como sabers tu que  dia. Pelo sol? Pelo calor do sol, 
Se o cu no estiver encoberto, Tantas horas ho-de passar que alguma vez h-de ser dia. Exaustos, muitos dos cegos tinham-se sentado no cho, outros. ainda mais 
debilitados, deixaram-se simplesmente cair, uns quantos haviam desmaiado,  provvel que o fresco da noite os faa voltar a si, mas podemos ter por certo que na 
hora de levantar-se o acampamento no se levantaro alguns destes mseros, aguentaram at aqui, so como aquele corredor de maratona que se foi abaixo trs metros 
antes da meta, no fim das contas o que est claro  que todas as vidas se acabam antes de tempo. Sentaram-se tambm, ou deitaram-se, os cegos que ainda esperam que 
os soldados, ou outros por eles, a cruz vermelha  uma hiptese, lhe tragam a comida e os outros confortos necessrios  vida, o desengano, para estes, chegar um 
pouco mais tarde,  a nica diferena. E se algum aqui acreditou que foi descoberta a cura da nossa cegueira, nem por isso parece mais contente.
     
     Por outras razes pensou a mulher do mdico, e disse-o aos seus, que seria melhor esperar que a noite acabasse, O mais urgente, agora,  encontrar comida, e 
s escuras no iria ser fcil, Tens alguma ideia de onde estamos, perguntou o marido, Mais ou menos, Longe de casa, Bastante. Os outros quiseram saber tambm a que 
distancia estariam as suas casas, disseram as moradas, e a mulher do mdico foi aproximadamente explicando, o rapazinho estrbico  que no conseguiu lembrar-se, 
no admira, h j tempo que deixou de pedir a me. Se forem de casa em casa, da que est mais perto  que est mais distante, a primeira ser a da rapariga dos culos 
escuros, a segunda a do velho da venda preta, depois a da mulher do mdico, e finalmente a do primeiro cego. Iro sem dvida seguir este itinerrio porque a rapariga 
dos culos escuros j pediu que a levem, quando for possvel, a sua casa, No sei como estaro os meus pais, disse, esta sincera preocupao mostra como so afinal 
infundados os preconceitos dos que negam a possibilidade da existncia de sentimentos fortes, incluindo o sentimento filial, nos casos, infelizmente abundantes, 
de comportamentos irregulares, mormente no plano da moralidade pblica. A noite refrescou, ao incndio j no lhe resta grande coisa para queimar, o calor que ainda 
se desprende do braseiro no chega para aquecer os cegos transidos que se encontram mais longe da entrada, como  o caso da mulher do mdico e do seu grupo. Esto 
sentados juntinhos, as trs mulheres e o rapaz no meio, os trs homens em redor, quem os visse diria que j nasceram assim,  verdade que parecem um corpo s, com 
uma s respirao e uma nica fome. Um aps outro, foram adormecendo, um sono leve de que tiveram de acordar algumas vezes porque havia cegos que, saindo do seu 
prprio torpor, se levantavam e vinham tropear sonambulamente neste acidente humano, um deles houve que se deixou ficar, tanto fazia dormir ali como noutro stio.
     Quando o dia nasceu, s umas tnues colunas de fumo subiam dos escombros, mas nem essas duraram muito, porque da a pouco comeou a chover, uma chuvinha mida, 
uma simples poalha,  certo, mas desta vez persistente, ao principio nem conseguia chegar ao cho esbraseado, transformava-se logo em vapor, porm, com a continuao, 
j se sabe, gua mole em brasa viva tanto d at que apaga, a rima que a ponha outro. Alguns destes cegos no o so apenas dos olhos, tambm o so do entendimento, 
nem de outro modo se explicaria o raciocnio tortuoso que os levou a concluir que a desejada comida, estando a chover, no viria. No houve maneira de convenc-los 
de que a premissa estava errada e que, portanto, errada tinha de estar tambm a concluso, no serviu de nada dizer-lhes que ainda no eram horas do pequeno-almoo, 
desesperados atiraram-se para o cho a chorar, No vem, est a chover, no vem, repetiam, tivesse ainda aquela lastimvel ruma umas condies de habitabilidade mnimas, 
que voltaria a ser o manicmio que foi antes.
     
     O cego que de noite se deixara ficar depois de ter tropeado no pde levantar-se. Enroscado sobre si mesmo, como se tivesse querido proteger o derradeiro calor 
do ventre, no se moveu apesar da chuva que comeara a cair mais grossa. Est morto, disse a mulher do mdico, e ns  melhor irmo-nos daqui enquanto ainda temos 
alguma fora. Levantaram-se a custo, cambaleando, com vertigens, agarrando-se uns aos outros, depois dispuseram-se em fila,  frente a dos olhos que vem, logo os 
que tendo olhos no vem, a rapariga dos culos escuros, o velho da venda preta, o rapazinho estrbico, a mulher do primeiro cego, o marido dela, o mdico vai no 
fim. O caminho que tomaram leva ao centro da cidade, mas no  essa a inteno da mulher do mdico, o que ela quer  encontrar rapidamente um stio onde possa deixar 
abrigados os que vm atrs de si e ir sozinha  procura de comida. As ruas esto desertas, por ser ainda cedo, ou por causa da chuva, que cai cada vez mais forte. 
H lixo por toda a parte, algumas lojas tm as portas abertas, mas a maioria delas esto fechadas, no parece que haja gente dentro, nem luz. A mulher do mdico 
pensou que seria uma boa ideia deixar os companheiros numa destas lojas, tomando muita ateno ao nome da rua, ao nmero da porta, no fosse perd-los ao voltar. 
Parou, disse  rapariga dos culos escuros, Esperem-me aqui, no se mexam, foi espreitar a porta envidraada de uma farmcia, pareceu-lhe ver l dentro uns vultos 
deitados, bateu no vidro, uma das sombras mexeu-se, tornou a bater, outros vultos se moveram lentamente, houve uma pessoa que se levantou virando a cara para donde 
vinha o rudo, Esto todos cegos, pensou a mulher do mdico, mas no compreendeu por que se encontravam estes aqui, talvez fossem a famlia do farmacutico, mas, 
se assim era, por que no estavam eles em sua prpria casa, com mais conforto que o cho duro, salvo se guardavam o estabelecimento, contra quem, e menos sendo estas 
mercadorias o que so, que tanto podem salvar como matar. Afastou-se dali, um pouco adiante olhou para o interior doutra loja, viu mais pessoas deitadas, mulheres, 
homens, crianas, algumas pareciam estar a preparar-se para sair, uma delas veio at  porta, estendeu o brao para fora e disse, Est a chover, Muito, foi a pergunta 
de dentro, Sim, temos de esperar a ver se abranda, o homem, era um homem, estava a dois passos da mulher do mdico, no tinha dado pela presena dela, por isso sobressaltou-se 
quando ouviu dizer, Bons dias, perdera-se o costume de dar os bons dias, no s porque dias de cegos, propriamente falando, nunca seriam bons, mas tambm porque 
ningum poderia estar inteiramente certo de que os dias no fossem tardes ou noites, e se agora, numa aparente contradio com o que acaba de ser explicado, estas 
pessoas esto a acordar mais ou menos ao mesmo tempo que a manh,  porque algumas cegaram s h poucos dias e ainda no perderam de todo o sentido da sucesso dos 
dias e das noites, do sono e da viglia. O homem disse, Est a chover, e depois, Quem  voc, No sou daqui, Anda  procura de comida, Sim, h quatro dias que no 
comemos, E como sabe que so quatro dias,  um clculo, Est sozinha, Estou com o meu marido e uns companheiros, Quantos so, Ao todo, sete, Se esto a pensar em 
ficar connosco, tirem dai o sentido, j somos muitos, S estamos de passagem, Donde vm, Estivemos internados desde que a cegueira comeou, Ah, sim, a quarentena, 
no serviu de nada, Por que diz isso, Deixaram-nos sair, Houve um incndio e nesse momento percebemos que os soldados que nos vigiavam tinham desaparecido, E saram, 
Sim, Os vossos soldados devem ter sido dos ltimos a cegar, toda a gente est cega, Toda a gente, a cidade toda, o pais, Se algum ainda v, no o diz, cala-se, 
Por que  que no vive na sua casa, Porque no sei onde ela est, No sabe, E voc, sabe onde est a sua, Eu, a mulher do mdico ia responder que precisamente se 
dirigia para l com o marido e os companheiros, era s o tempo de comerem alguma coisa para recuperar foras, mas no mesmo instante viu com toda a clareza a situao, 
agora, algum que estando cego tivesse sado de casa, s por milagre a conseguiria reencontrar, no era o mesmo que dantes, quando os cegos daquele tempo podiam 
sempre contar com a ajuda de um passante, fosse para atravessar uma rua, fosse para retomar o caminho certo no caso de se terem desviado inadvertidamente da rota 
habitual, S sei que est longe daqui, disse, Mas no  capaz de l chegar, No, Ora a tem, o mesmo me sucede a mim, o mesmo sucede a todos, vocs os que estiveram 
na quarentena tm muito que aprender, no sabem como  fcil ficar sem casa, No compreendo, Os que andam em grupo, como ns, como quase toda a gente, quando temos 
de procurar comida somos obrigados a ir juntos,  a nica maneira de no nos perdermos uns dos outros, e como vamos todos, como ningum ficou a guardar a casa, o 
mais certo, supondo que tnhamos conseguido dar com ela,  estar j ocupada por outro grupo que tambm no tinha podido encontrar a sua casa, somos uma espcie de 
nora s voltas, ao princpio houve algumas lutas, mas no tardmos a perceber que ns, os cegos, por assim dizer, no temos praticamente nada a que possamos chamar 
nosso, a no ser o que levarmos no corpo, A soluo esta ria em viver dentro duma loja de comidas, ao menos enquanto elas durassem no seria preciso sair, Quem o 
fizesse, o mnimo que lhe poderia acontecer era nunca mais ter um minuto de sossego, digo o mnimo porque ouvi falar do caso de uns que o tentaram, fecharam-se, 
trancaram as portas, mas o que no puderam foi fazer desaparecer o cheiro da comida, juntaram-se fora os que queriam comer, e como os de dentro no abriram, pegou-se 
fogo  loja, foi remdio santo, eu no vi, contaram-me, de toda a maneira foi remdio santo, que eu saiba ningum mais se atreveu, E no se vive nas casas, nos andares, 
Sim, vive-se, mas tanto faz, pela minha casa j deve ter passado uma quantidade de gente, no sei se algum dia conseguirei dar com ela, alm disso, nesta situao, 
 muito mais prtico dormir nas lojas trreas, nos armazns, escusamos de andar a subir e a descer escadas, J no chove, disse a mulher do mdico, J no chove, 
repetiu o homem para dentro. A estas palavras levantaram-se os que ainda estavam deitados, recolheram os pertences, mochilas, pequenas malas, sacos de pano e de 
plstico, como se partissem em expedio, e era verdade, iam caar comida, um a um foram saindo da loja, a mulher do mdico reparou que estavam bem abrigados,  
certo que as cores das roupas no Jogavam umas com as outras, que as calas ou eram to curtas que deixavam as canelas  mostra, ou to compridas que tinham de levar 
cobras em baixo, mas o frio no entraria com estes, alguns dos homens usavam gabardina ou sobretudo, duas das mulheres levavam casacos compridos de peles, guarda-chuvas 
 que no se viam, provavelmente pelo incmodo que do, sempre as varetas a ameaar os olhos. O grupo, umas quinze pessoas, afastou-se. Ao longo da rua outros grupos 
apareciam, pessoas isoladas tambm, encostados s paredes havia homens a aliviar a urgncia matinal da bexiga, as mulheres preferiam o resguardo dos automveis abandonados. 
Amolecidos pela chuva, os excrementos, aqui e alm, alastravam na calada.
     
     A mulher do mdico voltou pare junto dos seus, recolhidos por instinto debaixo do toldo duma pastelaria donde saa um cheiro de natas azedas e outras podrides, 
Vamos, disse, encontrei um abrigo, e conduziu-os  loja donde os outros tinham sado. O recheio do estabelecimento estava intacto, a mercadoria no era das de comer 
ou de vestir, havia frigorficos, mquinas de lavar, tanto as de roupa como as de loua, foges comuns e de micro-ondas, batedoras, espremedores, aspiradores, varinhas 
mgicas, as mil e uma invenes electrodomsticas destinadas a tornar mais fcil a vida. A atmosfera estava carregada de maus cheiros, tornando absurda a brancura 
invarivel dos objectos. Descansem aqui, disse a mulher do mdico, eu vou  procure de comida, no sei onde a encontrarei, perto, longe, no sei, esperem com pacincia, 
h grupos l fora, se algum quiser entrar digam que o stio est ocupado, ser o bastante para que se vo embora,  o costume, Vou contigo, disse o marido, No, 
 melhor que v sozinha, temos de saber como se est a viver agora, pelo que ouvi dizer toda a gente deve ter cegado, Ento, disse o velho da venda preta,  como 
se continussemos no manicmio, No h comparao, podemos mover-nos  vontade, e a comida h-de resolver-se, no iremos morrer de fome, tambm tenho de arranjar 
roupas, estamos reduzidos a farrapos, a mais necessitada era ela, pouco menos do que nua da cintura para cima. Beijou o marido, sentiu nesse momento como uma dor 
no corao, Por favor, acontea o que acontecer, mesmo que algum queira entrar no deixem este stio, e se forem postos fora, apesar de que no creio que tal acontea, 
mas  s para prevenir todas as hipteses, deixem-se ficar perto da porta, juntos, at que eu chegue. Olhou-os com os olhos rasos de lgrimas, ali estavam, dependiam 
dela como as crianas pequenas dependem da me, Se eu lhes falto, pensou, no lhe ocorreu que l fora todos estavam cegos, e viviam, teria ela prpria de cegar tambm 
para compreender que uma pessoa se habitua a tudo, sobretudo se j deixou de ser pessoa, e mesmo se no chegou a tanto, ali est aquele rapazinho estrbico, por 
exemplo, que j nem pela me pergunta. Saiu para a rua, olhou e fixou o nmero da porta, o nome da loja, agora tinha de ver como se chamava a rua, naquela esquina, 
no sabia at onde a iria levar a busca da comida e que comida, podia ser j trs portas  frente ou trezentas, no podia perder-se, no haver ningum a quem perguntar 
o caminho, os que antes viam estavam cegos, e ela, que podia ver, no saberia onde estava. O sol tinha rompido, brilhava nas poas de gua formadas entre o lixo. 
via-se melhor a erva que crescia entre as pedras da calada. Havia mais gente fora. Como se orientaro eles, perguntou- se a mulher do mdico. No se orientavam, 
caminhavam rente aos prdios com os braos estendidos para a frente, continuamente esbarravam uns nos outros como as formigas que vo no carreiro, mas quando tal 
sucedia no se ouviam protestos, nem precisavam falar, uma das famlias despegava-se da parede, avanava ao comprido da que vinha em direco contrria, e assim 
seguiam e continuavam at ao prximo encontro. De vez em quando paravam, farejavam  entrada das lojas, a sentir se vinha cheiro de comida, qualquer que fosse, depois 
prosseguiam o seu caminho, viravam uma esquina, desapareciam da vista, da a pouco surgia dali outro grupo, no traziam ar de haver encontrado o que buscavam. A 
mulher do mdico podia mover-se mais rapidamente, no perdia tempo a entrar nas lojas para saber se eram de comestveis, mas depressa se lhe tornou claro que no 
iria ser fcil abastecer-se em quantidade, as poucas mercearias que encontrou pareciam ter sido devoradas por dentro, eram como cascas vazias.
     
     J se tinha afastado muito de onde havia deixado o marido e os companheiros, cruzando e recruzando ruas, avenidas, praas, quando se encontrou diante de um 
supermercado. L dentro o aspecto no era diferente, prateleiras vazias, escaparates derrubados, pelo meio vagueavam os cegos, a maior parte deles de gatas, varrendo 
com as mo o cho imundo, esperando encontrar ainda algo que se pudesse aproveitar, uma lata de conserva que tivesse resistido s pancadas com que tentaram abri-la, 
um pacote qualquer, do que fosse, uma batata, mesmo pisada, um naco de po, mesmo feito pedra. A mulher do mdico pensou, Apesar de tudo, algo haver, isto  enorme. 
Um cego levantou-se do cho a queixar-se, um caco de garrafa tinha-se-lhe espetado num joelho, o sangue corria-lhe j pela perna. Os cegos do grupo rodearam-no, 
Que foi, que foi, e ele disse, Um vidro, no joelho, Qual, O esquerdo, uma das cegas agachou-se, Cuidado, no seja que haja por aqui mais vidros, tenteou, apalpou 
para distinguir uma perna da outra, C est, disse, ainda o tens espetado, um dos cegos ps-se a rir, Pois se est espetado aproveita, e os outros riram tambm, 
sem diferena de mulheres e homens. Fazendo pina com o polegador e o indicador,  um gesto natural que no precisa aprendizagem, a cega extraiu o vidro, depois 
atou o joelho com um trapo que rebuscou no saco que trazia ao ombro, enfim contribuiu com o seu prprio gracejo para o bom humor geral, Nada a fazer, passou-lhe 
depressa o espeto, todos riram, e o ferido retorquiu, Quando estiveres com preciso, podemos experimentar a ver o que mais espeta, de certeza que no h neste grupo 
esposos e esposas, uma vez que ningum se mostrou escandalizado, ser tudo gente de costumes abertos e unies livres, salvo se estes justamente so esposa e esposo, 
da a confiana, mas em verdade no o parecem, em pblico no falariam nestes termos. A mulher do mdico olhou em redor, o que ainda houvesse de aproveitvel estava 
a ser disputado no meio de socos que quase sempre se perdiam no ar e empurres que no escolhiam entre amigos e adversrios. sucedendo s vezes que o objecto da 
peleja se lhes escapava das mos e jazia no cho  espera de que algum viesse tropear nele' Aqui no me safo, pensou, usando uma palavra que no fazia parte do 
seu vocabulrio corrente. Uma vez mais se demonstrando que a fora e a natureza das circunstncias influem muito no lxico. haja vista aquele militar que disse merda 
quando o intimaram a render-se. por este modo absolvendo do delito de m educao futuros desabafos em situaes menos perigosas. Aqui no me safo, tornou a pensar, 
e j se dispunha a sair quando outro pensamento Ihe acudiu como uma providncia, Num estabelecimento destes deve haver um armazm, no digo um armazm grande, que 
esse estar noutro local, longe provavelmente, mas uma reserva de certos produtos de mais consumo. Excitada pela ideia ps-se  procura de uma porta fechada que 
a pudesse levar  caverna dos tesouros, mas todas estavam abertas, e l dentro a mesma devastao, os mesmos cegos rebuscando o mesmo lixo. Finalmente. num corredor 
obscuro, onde a luz do dia mal penetrava. viu o que lhe pareceu ser um monta-cargas. As portas metlicas estavam fechadas, e ao lado havia uma outra porta, lisa, 
das que deslizam em calhas, A cave, pensou, os cegos que chegaram at aqui deram com o caminho tapado, deviam ter percebido que se tratava de um elevador, mas ningum 
se lembrou de que o normal era que houvesse tambm uma escada, para quando faltasse a energia elctrica, por exemplo, como era o caso agora. Empurrou a porta corredia 
e recebeu quase simultaneamente duas poderosas impresses, primeira, a da escurido profunda por onde teria de descer para chegar  cave, e logo, o cheiro inconfundvel 
das coisas que so para comer, mesmo quando estiverem fechadas em recipientes a que chamamos hermticos,  que a fome sempre teve um olfacto finssimo, daqueles 
que atravessam todas as barreiras, como os ces. Voltou rapidamente atrs para apanhar do lixo os sacos de plstico de que precisaria para transportar a comida, 
ao mesmo tempo que a si mesma ia perguntando, Sem luz, como vou eu saber o que devo levar, encolheu os ombros, a preocupao era estpida, a dvida, agora, tendo 
em conta o estado de debilidade em que se encontrava, deveria ser se iria ter foras para carregar com os sacos cheios, repetir o caminho todo por onde viera, neste 
momento entrou-lhe no esprito um medo horrvel, o de no conseguir regressar aonde o marido estava  sua espera, sabia o nome da rua, disso no se tinha esquecido, 
mas haviam sido tantas as voltas que dera, o desespero paralisou-a, depois, lentamente, como se o crebro imvel se tivesse posto enfim em movimento, viu-se a si 
mesma inclinada sobre um mapa da cidade, buscando com a ponta do dedo o itinerrio mais curto, como se tivesse duas vezes olhos, uns que a olhavam vendo o mapa, 
outros que viam o mapa e o caminho. O corredor continuava deserto, era uma sorte, por causado nervosismo, da descoberta que fizera, tinha-se esquecido de fechar 
a porta. Fechou-a agora cuidadosamente atrs de si, para achar-se mergulhada numa escurido total, to cega como os cegos que estavam l fora, a diferena era s 
na cor, se efectivamente so cores o branco e o negro. Roando-se pela parede, comeou a descer a escada, se este lugar no fosse o segredo que , e algum viesse 
a subir do fundo, teriam de proceder como tinha visto na rua, despegar-se um deles da segurana do encosto, avanar roando-se pela imprecisa substancia do outro, 
talvez por um instante temer absurdamente que a parede no continuasse do lado de l, Estou a perder o juzo, pensou, a tinha razes para isso, a descer como ia 
por um buraco tenebroso, sem luz nem esperana de a ver, at onde, estes armazns subterrneos em geral no so altos, primeiro lano da escada, Agora sei o que 
 ser-se cego, segundo lano da escada, Vou gritar, vou gritar, terceiro lano da escada, as trevas so como uma pasta grossa que se lhe colou  cara, os olhos transformaram-se 
em bolas de breu, Que  que est diante de mim, e logo a seguir outro pensamento, ainda mais assustador, E como encontrarei depois a escada, um desequilbrio sbito 
obrigou-a a baixar-se para no cair desamparada. quase a perder a conscincia balbuciou, Est limpo, referia-se ao cho, parecia-lhe admirvel, um cho limpo. Pouco 
a pouco comeou a voltar a si, sentia umas dores surdas no estmago, no que fossem elas novidade, mas neste momento era como se no existisse no seu corpo nenhum 
outro rgo vivo, l estariam, mas no queriam dar sinal de si, o corao, sim, o corao ressoava como um tambor imenso, sempre a trabalhar s cegas na escurido, 
desde a primeira de todas as trevas, o ventre onde o formaram, at  ltima, essa onde parar. Tinha ainda na mo os sacos de plstico, no os largara, agora s 
ter de ench-los, tranquilamente, um armazm no  lugar para fantasmas e drages, aqui no h mais que escurido, e a escurido no morde nem ofende, quanto  
escada hei-de encontr-la, nem que tenha de dar a volta inteira a este buraco. Decidida, ia levantar-se, mas lembrou-se de que estava to cega como os cegos, melhor 
seria fazer como eles, avanar de gatas at encontrar algo pela frente, prateleiras carregadas de comida, seja o que for, desde que se possa comer tal qual est, 
sem cozeduras nem preparaes de cozinha, que o tempo no vai para fantasias.
     
     O medo voltou, sub-reptcio, mal ela avanou alguns metros, talvez estivesse enganada, talvez ali mesmo  sua frente, invisvel, um drago a esperasse de boca 
aberta. Ou um fantasma de mo estendida, para a levar ao mundo terrvel dos mortos que nunca acabam de morrer porque sempre vem algum ressuscit-los. Depois, prosaicamente, 
com uma infinita, resignada tristeza, pensou que o stio onde estava no era um depsito de comidas, mas uma garagem, pareceu-lhe mesmo sentir o cheiro da gasolina, 
a este ponto pode iludir-se o espirito quando se rende aos monstros que ele prprio criou. Ento, a sua mo tocou em algo, no os dedos viscosos do fantasma, no 
a lngua ardente e a goela do drago, o que ela sentiu foi o contacto de um metal frio, uma superfcie vertical lisa, adivinhou, sem saber que era esse o nome, que 
se tratava do montante de uma armao de prateleiras. Calculou que devia haver outras armaes iguais a esta, paralelas, como era o costume, tratava-se agora de 
saber onde estavam os produtos alimentcios, no aqui, que este cheiro no engana,  de detergentes. Sem pensar mais nas dificuldades que iria ter para encontrar 
a escada, comeou a percorrer as prateleiras, apalpando, cheirando, agitando. Havia embalagens de carto, garrafas de vidro e de plstico, frascos pequenos, mdios 
e grandes, latas que se riam de conservas, recipientes vrios, tubos, bolsas, bisnagas.
     Ao acaso encheu um dos sacos, Ser tudo de comer, perguntava-se, inquieta. Passou a outras prateleiras, e na segunda delas o inesperado aconteceu, a mo cega, 
que no podia ver aonde ia, tocou e fez cair umas pequenas caixas. O rudo que fizeram, ao chocarem contra o solo, quase fez parar o corao da mulher do mdico, 
So fsforos, pensou. Trmula de excitao, baixou-se, passeou as mos sobre o cho, encontrou, este  um cheiro que no se confunde com nenhum outro, e o rudo 
dos pauzinhos quando agitamos a caixa, o deslizar da tampa, a aspereza da lixa exterior, que  onde o fsforo est, o raspar da cabea do palito, enfim a deflagrao 
da pequena chama, o espao ao redor, uma difusa esfera luminosa como um astro atravs da nvoa, meu Deus, a luz existe e eu tenho olhos para a ver, louvada seja 
a luz. A partir de agora a colheita seria fcil. Comeou pelas caixas de fsforos, e foi um saco quase cheio, No  preciso lev-las todas, dizia-lhe a voz do bom 
senso, mas ela no deu ateno ao bom senso, depois as trmulas chamas dos fsforos foram mostrando as prateleiras, para c, para l, em pouco tempo os sacos ficaram 
cheios, o primeiro teve de ser despejado porque no continha nada que prestasse, os outros levavam j riqueza suficiente para comprar a cidade, nem h que estranhar 
a diferena dos valores, basta que nos lembremos de que houve um dia um rei que quis trocar o seu reino por um cavalo, que no daria ele se estivesse a morrer de 
fome e lhe acenassem com estes sacos de plstico.
     A escada est ali, o caminho  a direito. Antes, porm, a mulher do mdico senta-se no cho, abre uma embalagem de chourio, uma outra de fatias de po negro, 
uma garrafa de gua, e, sem remorso, come. Se no comesse agora no teria foras para levar a carga aonde faz falta, ela  a provedora. Quando acabou, enfiou os 
sacos nos braos, trs de cada lado. e com as mos levantadas  frente foi acendendo fsforos at alcanar a escada, depois penosamente a subiu, a comida ainda no 
passou do estmago, precisa de tempo para chegar aos msculos e aos nervos, neste caso, o que melhor se tem aguentado ainda  a cabea. A porta corredia deslizou 
sem rudo, E se est algum no corredor, tinha pensado a mulher do mdico, que fao. No havia ningum, mas ela tornou a perguntar-se, Que fao. Poderia, quando 
chegasse  sada, voltar-se para dentro e gritar, H comida ao fundo do corredor, uma escada que leva ao armazm da cave, aproveitem, deixei a porta aberta. Poderia 
faz-lo, mas no o fez. Ajudando-se com o ombro, fechou a porta, dizia a si mesma que o melhor era calar, imagine-se o que aconteceria, os cegos a correrem para 
l como loucos, seria como no manicmio quando se declarou o incndio, rolariam pelas escadas abaixo, pisados e esmagados pelos que viessem atrs, que cairiam tambm, 
no  a mesma coisa pr o p num degrau firme ou num corpo resvaladio. E quando a comida se acabar poderei voltar por mais, pensou. Passou os sacos para as mos, 
respirou fundo e avanou pelo corredor. No a veriam, mas o cheiro do que comera. O chourio, que estpida fui, seria como um rasto vivo. Cerrou os dentes, apertou 
com toda a fora as asas dos sacos, Tenho de correr, disse. Lembrou-se do cego ferido no joelho por um caco, Se me sucede o mesmo a mim, se no reparo e ponho o 
p num vidro, talvez nos tenhamos esquecido de que esta mulher est sem sapatos, no teve ainda tempo de ir s sapatarias, como fazem os cegos da cidade, que apesar 
de infelizes invisuais, podem escolher o calado pelo tacto. Tinha de correr, e correu. Ao princpio tentara esgueirar-se entre os grupos de cegos, procurando no 
lhes tocar. mas isso obrigava-a a ir devagar, a parar algumas vezes para escolher o caminho, o bastante para ir desprendendo de si uma aura de cheiro, porque no 
s as auras perfumadas e etreas so auras, dai a nada estava um cego a gritar, Quem  que est aqui a comer chourio, palavras no eram ditas a mulher do mdico 
atirou os cuidados para trs das costas e lanou-se numa correria desarvorada, atropelando, empurrando, derrubando, num salve-se quem puder merecedor de severa crtica, 
pois no  assim que se tratam pessoas cegas, para infelicidade j lhes basta.
     
     Estava a chover torrencialmente quando alcanou a rua, Melhor assim, pensou, ofegando, com as pernas a tremer, vai sentir-se menos o cheiro. Algum tinha deitado 
a mo ao ltimo farrapo que mal a tapava da cintura para cima, agora ia de peitos descobertos, por eles, lustralmente, palavra fina, lhe escorria a gua do cu, 
no era a liberdade guiando o povo, os sacos, felizmente cheios, pesam demasiado para os levar levantados como uma bandeira. Tem isto seu inconveniente, j que as 
excitantes fragrncias vo viajando  altura do nariz dos ces, como podiam eles faltar, agora sem donos que os cuidem e alimentem,  quase uma matilha que segue 
a mulher do mdico, oxal um destes bichos no se lembre de adiantar o dente para experimentar a resistncia do plstico. Com uma chuva destas, que pouco lhe falta 
para dilvio, seria de esperar que as pessoas estivessem recolhidas,  espera de que o tempo estiasse. No  assim, porm, por toda a parte h cegos de boca aberta 
para as alturas, matando a sede, armazenando gua em todos os recantos do corpo, e outros cegos, mais previdentes, e sobretudo mais sensatos, sustentam nas mos 
baldes, tachos e panelas, e levantam-nos ao cu generoso,  bem certo que Deus d a nuvem conforme a sede. No tinha ocorrido  mulher do mdico a probabilidade 
de que das torneiras das casas poderia no estar a sair sequer uma gota do precioso lquido,  o defeito da civilizao, habituamo-nos  comodidade da gua encanada, 
posta ao domiclio, e esquecemo-nos de que para que tal suceda tem de haver pessoas que abram e fechem vlvulas de distribuio, estaes de elevao que necessitam 
de energia elctrica, computadores para regular os dbitos e administrar as reservas, e para tudo faltam os olhos.
     
     Tambm os faltam para ver este quadro, uma mulher carregada com sacos de plstico, andando por uma rua alagada, entre lixo apodrecido e excrementos humanos 
e de animais, automveis e camies largados de qualquer maneira e atravancando a via pblica, alguns com as rodas j cercadas de erva, e os cegos, os cegos, de boca 
aberta, abrindo tambm os olhos para o cu branco, parece impossvel como pode chover de um cu assim. A mulher do mdico vai lendo os letreiros das ruas, lembra-se 
de uns, de outros no, e chega um momento em que compreende que se desorientou e perdeu. No h dvida, est perdida. Deu uma volta, deu outra, j no reconhece 
nem as ruas nem os nomes delas, ento, desesperada, deixou-se cair no cho sujssimo, empapado de lama negra, e, vazia de foras, de todas as foras, desatou a chorar. 
Os ces rodearam-na, farejam os sacos, mas sem convico, como se j lhes tivesse passado a hora de comer, um deles lambe-lhe a cara, talvez desde pequeno tenha 
sido habituado a enxugar prantos. A mulher toca-lhe na cabea, passa-lhe a mo pelo lombo encharcado, e o resto das lgrimas chora-as abraada a ele. Quando enfim 
levantou os olhos, mil vezes louvado seja o deus das encruzilhadas, viu que tinha diante de si um grande mapa, desses que os departamentos municipais de turismo 
espalham no centro das cidades, sobretudo para uso e tranquilidade dos visitantes, que tanto querem poder dizer aonde foram como precisam saber onde esto. Agora, 
estando toda a gente cega, parece fcil dar por mal empregado o dinheiro que se gastou, afinal h  que ter pacincia, dar tempo ao tempo, j devamos ter aprendido, 
e de uma vez para sempre, que o destino tem de fazer muitos rodeios para chegar a qualquer parte, s ele sabe o que lhe ter custado trazer aqui este mapa para dizer 
a esta mulher onde est. No estava to longe quanto cria, apenas se tinha desviado noutra direco, s ters de seguir por esta rua at uma praa, a contas duas 
ruas para a esquerda, de pois viras na primeira  direita,  essa a que procuras, do nmero no te esqueceste. Os ces foram ficando para trs, alguma coisa os distraiu 
pelo caminho, ou esto muito habituados ao bairro e no querem deix-lo, s o co que tinha bebido as lgrimas acompanhou quem as chorara, provavelmente este encontro 
da mulher e do mapa, to bem preparado pelo destino, inclua tambm um co. O certo  que entraram juntos na loja, o co das lgrimas no estranhou ver pessoas estendidas 
no cho, to imveis que pareciam mortas, estava habituado, s vezes deixavam-no dormir no meio delas, e quando era hora de se levantarem, quase sempre estavam vivas.
     Acordem, se esto a dormir, trago comida, disse a mulher do mdico, mas primeiro tinha fechado a porta, no fosse ouvi-la algum que passasse na rua. O rapazinho 
estrbico foi o primeiro a levantar a cabea, no pde fazer mais do que isso, a fraqueza no deixava, os outros tardaram um pouco mais, estavam a sonhar que eram 
pedras, e ningum ignora quanto  profundo o sono delas, um simples passeio ao campo o demonstra, ali esto dormindo, meio enterradas,  espera no se sabe de que 
despertar. Tem, porm, a palavra comida poderes mgicos, mormente quando o apetite aperta, at o co das lgrimas, que no conhece linguagem, se ps a abanar o rabo, 
o instintivo movimento f-lo recordar-se que ainda no tinha feito aquilo a que esto obrigados os ces molhados, sacudirem-se com violncia, respingando quanto 
estiver ao redor, neles  fcil, trazem a pele como se fosse um casaco.
gua benta da mais eficaz, descida directamente do cu, os salpicos ajudaram as pedras a transformarem-se em pessoas, enquanto a mulher do mdico participava 
na operao de metamorfose abrindo um aps outro os sacos de plstico. Nem tudo cheirava ao que continha, mas o perfume de uma bucha de po duro j seria, falando 
elevadamente, a prpria essncia da vida. Esto todos enfim despertos, tm as mos trmulas, as caras ansiosas,  ento que o mdico, tal como sucedera antes ao 
co das lgrimas, se lembra de quem , Cuidado, no convm comer muito, pode fazer-nos mal, O que nos faz mal  a fome, disse o primeiro cego, Atende ao que diz 
o senhor doutor, repreendeu a mulher, e o marido calou-se, pensando com uma sombra de rancor, Ele nem de olhos entende, quanto mais, injustas palavras estas, se 
tivermos em conta que o mdico no est menos cego que os outros, a prova  que nem deu por que a mulher vinha nua da cintura para cima, foi ela quem lhe pediu o 
casaco para se tapar, os outros cegos olharam na sua direco, mas era tarde de mais, tivessem olhado antes.
     
     Enquanto comiam, a mulher narrou as suas aventuras, de tudo quanto lhe acontecera e fizera s no disse que tinha deixado a porta do armazm fechada, no estava 
muito segura das razes humanitrias que a si prpria tinha dado, em compensao contou o episdio do cego que havia espetado o vidro no joelho, todos riram com 
gosto, todos no, o velho da venda preta no fez mais do que um sorriso cansado, e o rapazinho estrbico s tinha ouvidos para o rudo que fazia mastigando. O co 
das lgrimas recebeu a sua parte, que pronto pagou ladrando furiosamente quando algum de fora veio sacudir a porta com violncia. Quem quer que fosse, no insistiu, 
falava-se de andarem ces raivosos por ali para raiva j me basta esta de no ver onde ponho os ps. A tranquilidade voltou, e foi ento, quando j tinha sossegado 
em todos a primeira fome, que a mulher do mdico contou a conversa que havia tido com o homem que sara desta mesma loja para ver se estava a chover. Depois concluiu, 
Se o que ele me disse  verdade, no podemos ter a certeza de encontrar as nossas casas como as deixmos, no sabemos sequer se conseguiremos entrar nelas, falo 
daqueles que se esqueceram de levar as chaves quando saram, ou que as perderam, ns, por exemplo, no as temos, ficaram no incndio, seria impossvel encontr-las 
agora no meio dos escombros, pronunciou a palavra e foi como se estivesse a ver as chamas a envolverem a tesoura, queimando primeiro o sangue seco que ainda houvesse 
nela, depois mordendo-lhe o fio, as pontas agudas, embotando-os, e aos poucos tornando-os rombos, brandos, moles, informes, no se acredita que isto pudesse ter 
perfurado a garganta de algum, quando o fogo acabar o seu trabalho ser impossvel, na massa nica do metal fundido, distinguir onde est a tesoura e onde esto 
as chaves, As chaves, disse o mdico, tenho-as eu, e introduzindo dificilmente trs dedos num bolsinho das esfarrapadas calas, rente ao cs, extraiu de dentro uma 
pequena argola com trs chaves, Como  que as tens tu, se eu as tinha posto na minha mala de mo, que l ficou, Tirei-as, tive medo de que pudessem perder-se, achei 
que estavam mais seguras andando sempre comigo, e era tambm uma maneira de acreditar que um dia havamos de voltar para casa,  bom termos as chaves, mas pode ser 
que nos encontremos com a porta arrombada, Podem nem o ter o tentado, sequer Por momentos
     haviam-se esquecido dos outros, mas agora era preciso saber, de todos eles, o que se tinha passado com as suas chaves, a primeira a falar foi a rapariga dos 
culos escuros, Os meus pais ficaram em casa quando a ambulncia me foi buscar, no sei o que lhes ter sucedido depois, a seguir falou o velho da venda preta, Eu 
estava em casa quando ceguei, bateram  porta, a dona da casa foi dizer-me que estavam ali uns enfermeiros  minha procura, no era altura para pensar em chaves, 
s faltava a mulher do primeiro cego, mas esta disse, No sei, no me lembro, sabia, lembrava-se, no queria era confessar que quando de repente se viu cega, expresso 
absurda, mas enraizada, que no temos conseguido evitar, sara de casa aos gritos, chamando pelas vizinhas, as que ainda estavam no prdio guardaram-se bem de acudir-lhe, 
e ela, que to firme e capaz se tinha mostrado quando a infelicidade caiu sobre o marido, comportava-se agora desvairadamente, abandonando a casa com a porta escancarada, 
nem ao menos teve a ideia de pedir que a deixassem voltar atrs, s um minuto, o tempo de fechar a porta e volto j. Ao rapazinho estrbico ningum lhe perguntou 
pela chave da casa, se o pobre menino nem conseguiu ainda lembrar-se de onde mora. Ento a mulher do mdico tocou levemente na mo da rapariga dos culos escuros, 
Comeamos pela tua casa, que  a que est mais perto, mas antes precisamos encontrar roupas e sapatos, no podemos andar por a nesta figura, sujos e rotos. Fez 
um movimento para se levantar, porm reparou que o rapazinho estrbico, j reconfortado, repleto, voltara a adormecer. Disse, descansemos ento, durmamos um pouco, 
logo mais tarde iremos ver o que nos espera. Despiu a saia molhada, depois, para aquecer-se, chegou-se para o marido, o mesmo fizeram o primeiro cego e a mulher, 
s tu, perguntara ele, ela lembrava-se da casa e sofria, no disse Consola-me, mas foi como se o tivesse pensado, o que no se sabe  que sentimento ter levado 
a rapariga dos culos escuros a pr um brao sobre o ombro do velho da venda preta, mas o certo  que o fez, e assim ficaram, ela dormindo, mas ele no. O co foi 
deitar-se  porta, atravessando-se na passagem.  um animal spero e intratvel quando no tem de enxugar lgrimas.
     
     Vestiram-se e calaram-se, o que ainda no acharam foi maneira de lavar-se, mas j fazem uma grande diferena dos outros cegos, as cores das roupas, no obstante 
a relativa escassez da oferta, porque, como se costuma dizer, a fruta est muito escolhida, combinam bem umas com as outras,  a vantagem de ter connosco algum 
que nos aconselha, Veste tu isto, que vai melhor com essas calas, as riscas no jogam com as pintas, pormenores assim, aos homens, provavelmente, tanto se lhes 
daria tambor como caixa de rufo, mas quer a rapariga dos culos escuros, quer a mulher do primeiro cego, fizeram questo de saber que cores e que padres levavam 
postos, desta maneira, com a ajuda da imaginao, podero ver-se a si mesmas. Quanto ao calado, todos concordaram que a comodidade deveria passar  frente da beleza, 
nada de tirinhas e taces altos, nada de calfes e polimentos, com o estado em que as ruas esto seria um disparate, o que vai bem so umas botas de borracha, totalmente 
impermeveis, de cano pelo meio da perna, fceis de enfiar e desenfiar, no h melhor para andar nos lamaais. Infelizmente no se encontraram botas deste modelo 
para todos, o rapazinho estrbico, por exemplo, no havia tamanho que lhe servisse, ficavam-lhe os ps a nadar l dentro, por isso teve de contentar-se com uns sapatos 
de desporto sem finalidade definida, Que coincidncia, diria a me dele, l onde esteja, a algum que lhe tivesse ido contar o sucedido,  exactamente o que o meu 
filho teria escolhido se pudesse ver. O velho da venda preta, que tinha os ps mais para o grande do que para o pequeno. resolveu o problema pondo-se uns sapatos 
de basquetebol, dos especiais, para jogadores de dois metros e extremidades na proporo.  verdade que vai agora um tanto ridculo parece que leva umas pantufas 
brancas. mas estes ridculos so dos que duram pouco. em menos de dez minutos os sapatos j estaro sujssimos.  como tudo na vida, dem tempo ao tempo, e ele se 
encarrega de resolver.
     
     Deixou de chover. no h cegos de boca aberta. Andam por a no sabem o que ho-de fazer, vagueiam pelas ruas, mas nunca por muito tempo, andar ou estar parado 
vem a dar no mesmo para eles, tirando procurar comida no tm outros objectivos, a msica acabou, nunca houve tanto silncio no mundo, os cinemas e os teatros s 
servem a quem ficou sem casa e j desistiu de a procurar, algumas salas de espectculos, as maiores, tinham sido usadas para as quarentenas quando o governo, ou 
o que dele ia sucessivamente ficando, ainda cria que o mal-branco poderia ser atalhado com instrumentos e truques que de to pouco tinham servido no passado contra 
a febre-amarela e outros pestferos contgios, porm isso acabou-se, aqui nem foi preciso um incndio. Quanto aos museus,  uma autntica dor de alma, de cortar 
o corao, toda aquela gente, gente, digo bem, todas aquelas pinturas, todas aquelas esculturas sem terem diante de si uma pessoa a quem olhar. Do que esto os cegos 
da cidade  espera, no se sabe, estariam  espera da cura se ainda acreditassem nela, mas essa esperana perderam-na quando se tornou pblico que a cegueira no 
tinha poupado ningum, que no ficara uma nica vista s para olhar pela lente de um microscpio, que tinham sido abandonados os laboratrios, onde no restava s 
bactrias outra soluo, se queriam sobreviver, que devorarem-se umas s outras. Ao princpio, muitos dos cegos, acompanhados por parentes por enquanto com vista 
e esprito de famlia, ainda acorreram aos hospitais, mas l s encontraram mdicos cegos tomando o pulso a doentes que no viam, auscultando-os por trs e pela 
frente, que era tudo quanto podiam fazer, para isso ainda tinham os ouvidos. Depois, apertados pela fome, os doentes, os que ainda podiam andar, comearam a fugir 
dos hospitais, vinham morrer na rua, ao abandono, as famlias, se ainda as tinham, por onde andariam, e depois, para que os enterrassem. No bastava que algum fosse 
tropear neles por acaso, tinham de comear a cheirar mal, e, mesmo assim, s se tivessem morrido em stio de passagem. No admira que os ces sejam tantos, alguns 
j se parecem com hienas, as malhas do plo so como as da podrido, correm por a com os quartos traseiros encolhidos, como se tivessem medo de que os mortos e 
devorados recobrassem vida para lhes fazerem pagar a vergonha de morderem em quem no se podia defender. Como est o mundo, tinha perguntado o velho da venda preta, 
e a mulher do mdico respondeu, No h diferena entre o fora e o dentro, entre o c e o l, entre os poucos e os muitos, entre o que vivemos e o que teremos de 
viver, E as pessoas, como vo, perguntou a rapariga dos culos escuros, Vo como fantasmas, ser fantasma deve ser isto, ter a certeza de que a vida existe, porque 
quatro sentidos o dizem, e no a poder ver, H muitos carros por a, perguntou o primeiro cego, que no pode esquecer que lhe roubaram o seu,  um cemitrio. Nem 
o mdico nem a mulher do primeiro cego fizeram perguntas, para qu, se as respostas seriam a condizer com estas. Ao rapazinho estrbico basta-lhe a satisfao de 
levar calados os sapatos com que sempre sonhou, nem chega para o entristecer o facto de no poder v-los. Por esta razo, provavelmente  que no vai como um fantasma. 
E to-pouco mereceria que lhe chamassem hiena o co das lgrimas que segue a mulher do mdico, no anda ao cheiro de carne morta, acompanha uns olhos que ele bem 
sabe estarem vivos.
     
     A casa da rapariga dos culos escuros no est longe, mas a estes esfomeados de uma semana s agora  que as foras comeam a voltar-lhes, por isso caminham 
to devagar, para descansar no tm outro remdio que sentarem-se no cho, no valeu a pena ter tido tantos cuidados com a escolha das cores e do desenho, se em 
to pouco tempo as roupas j esto a ficar imundas. A rua onde mora a rapariga dos culos escuros, alm de curta,  estreita, o que explica que no se encontrem 
aqui automveis, passar podia- se, em direco nica, mas no ficava espao para estacionar, estava proibido. Que tambm no houvesse pessoas, no era de estranhar, 
em ruas assim no so raros os momentos do dia em que no se v vivalma, Que nmero tem o teu prdio, perguntou a mulher do mdico, o sete, moro no segundo esquerdo. 
Uma das janelas estava aberta, noutro tempo seria sinal quase certo de haver pessoas em casa, agora tudo era duvidoso. Disse a mulher do mdico, No vamos todos, 
subimos s ns duas, vocs esperem em baixo. Percebia-se que a porta da rua tinha sido forada, via-se distintamente que o encaixe do trinco estava torcido, uma 
comprida lasca de madeira separara-se quase por completo do batente. A mulher do mdico no falou disto. Deixou seguir  frente a rapariga, ela conhecia o caminho, 
tanto lhe fazia a penumbra em que a escada estava imersa. Com o nervosismo da pressa, a rapariga dos culos escuros tropeou duas vezes, mas achou que o melhor era 
rir-se de si mesma, Imagina tu, uma escada que eu dantes era capaz de subir e descer de olhos fechados, as frases feitas so assim, no tm sensibilidade para as 
mil subtilezas do sentido, esta, por exemplo, ignora a diferena entre fechar os olhos e ser cego. No patamar do segundo andar, a porta buscada estava fechada. A
rapariga dos culos escuros deslizou a mo pelo alizar at que encontrou o boto da campainha, No h luz, lembrou-lhe a mulher do mdico, e estas trs palavras,
que no faziam mais do que repetir o que toda a gente sabia, ouviu-as a rapariga como o anncio de uma m
notcia. Bateu  porta, uma vez, duas vezes, trs vezes,
a terceira com violncia, aos murros, chamava, Mezinha, paizinho, e ningum vinha abrir, os diminutivos carinhosos no abalavam a realidade, ningum lhe veio dizer, 
Minha querida filha, at que enfim chegaste, j pensvamos que nunca mais te veramos, entra, entra, e esta senhora  tua amiga, que entre, que entre tambm, a casa 
est um bocadinho desarrumada, no repare, a porta continuava fechada, No est ningum, disse a rapariga dos culos escuros, e desatou-se a chorar encostada  porta, 
a cabea sobre os antebraos cruzados, como se com todo o corpo estivesse a implorar uma desesperada piedade, no tivssemos ns aprendido o suficiente do complicado 
que  o esprito humano, e estranhamos que queira tanto a seus pais, ao ponto destas demonstraes de dor, uma rapariga de costumes to livres, embora no esteja 
longe quem j afirmou que no existe nem existiu nunca qualquer contradio entre isto e aquilo. A mulher do mdico quis consol-la, mas tinha pouco para dizer, 
sabe-se que permanecerem as pessoas por muito tempo nas suas casas se tornou praticamente impossvel, Podemos perguntar aos vizinhos, sugeriu, se h alguns, Sim, 
vamos perguntar, disse a rapariga dos culos escuros, mas no havia nenhuma esperana na sua voz. Comearam por bater  porta da casa do outro lado do patamar, donde 
tambm ningum respondeu. No andar de cima as duas portas estavam abertas. As casas tinham sido saqueadas, os armrios da roupa estavam vazios, nos lugares de guardar 
comida no ficara nem sombra dela. Havia sinais de ter passado por ali gente h pouco tempo, certamente um grupo errante, como mais ou menos o eram agora todos, 
sempre indo de casa em casa, de ausncia em ausncia.
     
     Desceram ao primeiro andar, a mulher do mdico bateu com os ns dos dedos na porta mais prxima, houve um silncio expectante, depois uma voz rouca perguntou, 
desconfiada, Quem est a, a rapariga dos culos escuros adiantou-se, Sou eu, a vizinha do segundo andar, estou  procura dos meus pais, sabe onde eles esto, que 
foi que lhes aconteceu, perguntou. Ouviram-se passos arrastados, a porta abriu-se e apareceu uma velha magrssima, s a pele sobre os ossos, esqulida, de enormes 
cabelos brancos desgrenhados. Uma mistura nauseante de cheiros bafientos e de uma indefinvel podrido fez recuar as duas mulheres. A velha arregalava os olhos, 
tinha-os quase brancos, No sei nada dos teus pais, vieram busc-los no dia a seguir a terem-te levado a ti, nessa altura eu ainda via, H mais algum no prdio, 
De vez em quando ouo subir e descer a escada, mas  gente de fora, desses que s dormem, E os meus pais, J te disse que no sei nada deles. E o seu marido, e o 
seu filho, e a sua nora, Tambm os levaram. E a si no, porqu, Porque me tinha escondido, Onde, Imagina, na tua casa, Como  que conseguiu entrar, Pelas traseiras, 
pela escada de salvao, parti um vidro e abri a porta por dentro, a chave estava na fechadura, E como  que tem podido, desde ento, viver sozinha na sua casa, 
perguntou a mulher do mdico, Quem  que h mais aqui, sobressaltou-se a velha virando a cabea, E uma amiga minha, anda no meu grupo, disse a rapariga dos culos 
escuros, E no  s a questo de estar sozinha, a comida, como foi que se arranjou para conseguir comida durante todo este tempo, insistiu a mulher do mdico,  
que eu no sou parva, c me vou governando, Se no quiser, no diga, era s uma curiosidade, Digo, digo, o primeiro que fiz foi ir a todas as casas do prdio recolher 
a comida que houvesse, a que era de estragar comi-a logo, a outra guardei-a, Ainda tem alguma, perguntou a rapariga dos culos escuros, No, essa j se acabou, respondeu 
a velha com uma sbita expresso de desconfiana nos olhos cegos, modo de dizer que nestas situaes sempre ocorre empregar, mas que em verdade nada tem de rigoroso, 
porque os olhos, os olhos propriamente ditos, no tm qualquer expresso, nem mesmo quando foram arrancados, so dois berlindes que esto para ali inertes, as plpebras, 
as pestanas, e as sobrancelhas tambm,  que tm de encarregar-se das diversas eloquncias e retricas visuais, porm a fama tm-na os olhos, Ento de que est a 
viver agora, perguntou a mulher do mdico, A morte anda a pelas ruas, mas nos quintais a vida no acabou, disse a velha misteriosamente, Que quer dizer, Os quintais 
tm couves, tm coelhos, tm galinhas, tambm h flores, mas essas no se podem comer, E como faz,  conforme, umas vezes apanho umas couves, outras vezes mato um 
coelho ou uma galinha, Crus, Ao princpio acendia uma fogueira, depois habituei-me  carne crua, e os talos das couves so doces, fiquem descansadas que de fome 
no morrer a filha da minha me. Recuou dois passos, quase se sumiu na escurido da casa, s os olhos brancos brilhavam, e disse de l, Se quiseres ir  tua casa, 
entra, dou-te passagem. A rapariga dos culos escuros ia dizer que no, muito obrigada, no vale a pena, para qu, se os meus pais no esto l, mas subitamente 
sentiu o desejo de ver o seu quarto, ver o meu quarto, que estupidez, se estou cega, ao menos passar as mos pelas paredes, pela colcha da cama, pela almofada onde 
descansava a minha louca cabea, pelos mveis, talvez na cmoda ainda esteja a jarra de flores de que se lembrava, se a velha no a atirou ao cho, de raiva de no 
se poderem comer. Disse, Ento, se me d licena, aproveito o oferecimento,  muita bondade da sua parte. Entra, entra, mas j sabes que comida no vais l encontrar, 
e a que eu tenho  pouca para mim, alm disso a ti no te serve, no deves gostar de carne crua, No se preocupe, ns temos comida, Ah, tm comida, nesse caso, em 
paga do favor, deixem-me ficar alguma, Deixaremos, fique descansada, disse a mulher do mdico. Tinham passado j o corredor, o fedor tornara-se insuportvel. Na 
cozinha, mal iluminada pela escassa luz de fora, havia peles de coelho pelo cho, penas de galinha, ossos, e, sobre a mesa, num prato sujo de sangue ressequido, 
pedaos de carne irreconhecveis, como se tivessem sido mastigados muitas vezes, E os coelhos, e as galinhas, o que  que comem, perguntou a mulher do mdico, Couves, 
ervas, restos, disse a velha, Restos, de qu, De tudo, at de carne, No nos diga que as galinhas e os coelhos comem carne, Os coelhos ainda no, mas as galinhas 
ficam doidas de satisfao, os animais so como as pessoas, acabam por habituar-se a tudo. A velha movia-se com segurana, sem tropear, afastou uma cadeira do caminho 
como se a estivesse a ver, depois apontou a porta que dava para a escada de salvao, Por ali, tenham cuidado. No escorreguem, o corrimo no est muito firme, 
E a porta, perguntou a rapariga dos culos escuros, A porta  s empurrar, a chave tenho-a eu, est por a,  minha, ia dizer a rapariga, mas no mesmo instante pensou 
que esta chave no lhe serviria para nada se os pais, ou algum por eles, tivessem levado consigo as outra,. as da frente, no podia estar a pedir a esta vizinha 
que a deixasse passar de todas as vezes que quisesse entrar e sair. Sentiu um leve aperto no corao, seria porque ia entrar em sua casa, seria por saber que os 
pais no estariam l, seria porqu.
     
     A cozinha estava limpa e arrumada, o p sobre os mveis no era excessivo, outra vantagem do tempo chuvoso, alm de ter feito crescer as couves e as ervas, 
de facto, os quintais, vistos de cima, tinham parecido  mulher do mdico selvas em miniatura, Andaro  solta os coelhos, perguntou-se, de certeza que no, continuariam 
a viver nas coelheiras,  espera da mo cega que lhes traria as folhas de couve e que depois os h-de filar pelas orelhas e tirar de l a espernear, enquanto a outra 
mo prepara o golpe cego que lhes deslocar as vrtebras junto ao crnio. A memria da rapariga dos culos escuros tinha-a levado pelo interior da casa, como a velha
do andar de baixo tambm no tropeou nem duvidou, a cama dos pais estava por fazer, deviam t-los vindo buscar de madrugada, sentou-se ali a chorar, a mulher do 
mdico veio sentar-se ao lado dela, disse-lhe, No chores, que outras palavras se podem dizer, as lgrimas que sentido tm quando o mundo perdeu todo o sentido. 
No quarto da rapariga, sobre a cmoda, havia uma jarra de vidro com flores j secas, a gua evaporara-se, foi para l que as mos cegas se dirigiram, os dedos roaram 
as ptalas mortas, como a vida  frgil, se a abandonam. A mulher do mdico abriu a janela, olhou para a rua, l estavam todos, sentados no cho, pacientemente esperando, 
o co das lgrimas foi o nico que levantou a cabea, deu-lhe aviso o subtil ouvido. O cu, outra vez coberto, comeava a escurecer, a noite vinha chegando. Pensou 
que hoje no precisariam de andar  procura de um abrigo para dormirem, ficariam aqui, A velha no vai gostar que lhe passemos todos pela casa, murmurou. Neste momento, 
a rapariga dos culos escuros tocava-lhe no ombro, dizia, As chaves estavam postas na fechadura, no as levaram. A dificuldade, se o era, estava portanto resolvida, 
no teriam de suportar o mau humor da velha do primeiro andar, Vou descer a cham-los, a noite no tarda, que bom, ao menos hoje podemos dormir numa casa, debaixo 
do tecto duma casa, disse a mulher do mdico, Vocs ficam na cama dos meus pais, Veremos depois isso' Aqui quem manda sou eu, estou na minha casa, Tens razo, ser 
como queres, a mulher do mdico abraou a rapariga, depois desceu a buscar a companhia. Pela escada acima, falando animados, de vez em quando tropeando nos degraus 
apesar de o guia ter dito, So dez em cada lano, parecia que vinham de visita. O co das lgrimas seguia-os tranquilamente, como se fosse coisa de toda a vida. 
No patamar, a rapariga dos culos escuros olhava para baixo,  o costume quando sobe algum, seja para saber de quem se trata, se no  pessoa conhecida, seja para 
festejar com palavras de acolhimento, se so amigos, neste caso nem era preciso ter olhos para saber quem chegava, Entrem, entrem, ponham-se  vontade. A velha do 
primeiro andar tinha aparecido a espreitar  porta, julgou que o tropel fosse de um desses bandos que aparecem para dormir, nisto no errava, perguntou, Quem vem 
l, e a rapariga dos culos escuros respondeu de cima,  o meu grupo, a velha ficou confusa, como  que ela tinha podido chegar ao patamar, compreendeu logo a seguir 
e irritou-se consigo mesma por no se ter lembrado de procurar e recolher as chaves das portas da frente, era como se estivesse a perder os direitos de propriedade 
de um prdio de que, desde h meses, era nica habitante. No encontrou melhor maneira de compensar a sbita frustrao que dizer, abrindo a porta, Olhem que tm 
de me dar a comida, no se faam esquecidos. E como nem a mulher do mdico nem a rapariga dos culos escuros, uma ocupada em guiar os que chegavam, outra em receb-los, 
lhe responderam, gritou destemperada, Ouviram, muito mal fez, porque o co das lgrimas, que nesse momento exacto passava diante dela, saltou a ladrar-lhe furioso, 
a escada atroava toda com o alarido, foi mo de santo, a velha deu um berro de susto e meteu-se atropeladamente em casa, atirando com a porta, Quem  esta bruxa, 
perguntou o velho da venda preta, so coisas que se dizem quando no sabemos ter olhos para ns prprios. vivesse ele como ela tem vivido, e queramos ver quanto 
lhe durariam os modos civilizados.
     
     No havia comida seno a que traziam nos sacos, a gua tinham de poup-la at  ltima gota, e a respeito de iluminao foi muita sorte terem encontrado duas 
velas no armrio da cozinha, ali guardadas para acudir a ocasionais faltas de energia e que a mulher do mdico acendeu em seu prprio benefcio, os outros no precisavam, 
j tinham uma luz dentro das cabeas, to forte que os cegara. No dispunham os companheiros de mais do que este pouco, e contudo veio a ser uma festa de famlia, 
daquelas, raras, onde o que  de cada um,  de todos. Antes de se sentarem  mesa, a rapariga dos culos escuros e a mulher do mdico desceram ao andar de baixo, 
foram cumprir a promessa, se no seria mais exacto dizer que foram satisfazer a exigncia, de pagar com comida a passagem por aquela alfndega A velha recebeu-as 
queixosa, resmungona, o maldito do co que s por um milagre a no tinha devorado, Muita comida devem vocs ter para poderem sustentar uma fera assim, insinuou, 
como se esperasse, por meio deste recriminatrio reparo, suscitar nas duas emissrias o que chamamos remorsos de conscincia, realmente, diriam uma  outra, no 
seria humano deixar morrer  fome uma pobre velha enquanto um bruto animal se alimenta  tripa-forra. No voltaram atrs as duas mulheres para irem buscar mais comida, 
a que lhe levaram j era uma generosa poro, se tivermos em conta as difceis circunstancias da vida actual, e assim inesperadamente o entendeu a velha do andar 
de baixo, no fim das contas menos malvada do que parecia, que foi dentro buscar-lhes a chave das traseiras da casa, dizendo depois para a rapariga dos culos escuros, 
Toma,  a tua chave, e, como se isto fosse pouco, ainda murmurou, ao fechar a porta, Muito obrigada. 
     Maravilhadas subiram as duas mulheres, afinal a bruxa tinha sentimentos, No era m pessoa, ter ficado sozinha  que deve ter-lhe dado cabo do juzo, comentou 
a rapariga dos culos escuros sem parecer pensar no que dizia. A mulher do mdico no respondeu, decidiu guardar a conversa para mais tarde, e foi quando todos os 
outros j estavam deitados, e alguns dormindo, sentadas as duas na cozinha como me e filha a ganharem foras para o resto dos arranjos da casa, que a mulher do 
mdico perguntou, E tu, que vais fazer agora, Nada, fico aqui,  espera de que os meus pais voltem, Sozinha e cega,  cegueira j me habituei, E  solido, Terei 
de habituar-me, a vizinha de baixo tambm vive s, Queres converter-te naquilo que ela , alimentar-te de couves e de carne crua, enquanto durarem, nestes prdios 
por aqui parece no viver mais ningum, sero duas a odiar-se com medo de que a comida se acabe, cada talo que apanharem estaro a roub-lo  boca da outra, tu no 
viste essa pobre mulher, da casa s sentiste o cheiro, digo-te que nem l onde vivemos era to repugnante, Mais tarde ou mais cedo todos vamos ser como ela, e de 
pois acabamos, no haver mais vida, Por enquanto ainda vivemos, Escuta, tu sabes muito mais do que eu, ao p de ti no passo duma ignorante, mas o que penso  que 
j estamos mortos, estamos cegos porque estamos mortos, ou ento, se preferes que diga isto doutra maneira, estamos mortos por que estamos cegos, d no mesmo, Eu 
continuo a ver, Feliz mente para ti, felizmente para o teu marido, para mim, para os outros, mas no sabes se continuars a ver, no caso de vires a cegar tornar-te-s 
igual a ns, acabaremos todos como a vizinha de baixo, Hoje  hoje, amanh ser amanh,  hoje que tenho a responsabilidade, no amanh, se estiver cega, Responsabilidade 
de qu, A responsabilidade de ter olhos quando os outros os perderam, No podes guiar nem dar de comer a todos os cegos do mundo, Deveria, Mas no podes, Ajudarei 
no que estiver ao meu alcance, Bem sei que o fars, se no fosses tu talvez j no estivesse viva, E agora no quero que morras, Devo ficar,  a minha obrigao, 
esta  a minha casa, quero que os meus pais me encontrem se voltarem, Se voltarem, tu mesma o disseste, e falta saber se ento eles ainda sero os teus pais, No 
compreendo, Disseste que a vizinha de baixo tinha sido boa pessoa, Coitada, Coitados dos teus pais, coitada de ti, quando se encontrarem, cegos de olhos e cegos 
de sentimentos, porque os sentimentos com que temos vivido e que nos fizeram viver como ramos, foi de termos olhos que nasceram, sem olhos os sentimentos vo tornar-se 
diferentes, no sabemos como, no sabemos quais, tu dizes que estamos mortos porque estamos cegos, a est, Amas o teu marido, Sim, como a mim mesma, mas se eu cegar, 
se depois de cegar deixar de ser quem tinha sido, quem serei ento para poder continuar a am-lo, e com que amor, Dantes, quando vamos, tambm havia cegos, Poucos 
em comparao, os sentimentos em uso eram os de quem via, portanto os cegos sentiam com os sentimentos alheios, no como cegos que eram, agora, sim, o que est a 
nascer so os autnticos sentimentos dos cegos, e ainda vamos no principio, por enquanto ainda vivemos da memria do que sentamos, no precisas ter olhos para saberes 
como a vida j  hoje, se a mim me dissessem que um dia mataria tom-lo-ia como ofensa, e contudo matei, Que queres ento que eu faa, Vem comigo, vem para nossa 
casa, E eles, O que vale para ti, vale para eles, mas  sobretudo a ti que eu quero, Porqu, Eu prpria me pergunto porqu, talvez porque te tenhas tornado como 
minha irm, talvez porque o meu marido se deitou contigo, Perdoa-me, No  crime para necessitar perdo, Sugar-te-emos o sangue, seremos como parasitas, J no faltavam 
quando vamos, e quanto ao sangue, para alguma coisa h-de ele servir, alm de sustentar o corpo que o transporta, e agora vamos dormir, que amanh  outra vida.
     
     Outra vida, ou a mesma. O rapazito estrbico, quando acordou, quis ir  retrete, estava com diarreia, alguma coisa que lhe caiu mal na fraqueza, mas logo se 
viu que no era possvel l entrar, pelos vistos a velha do andar de baixo tinha andado a servir-se de todas as retretes do prdio at no as poder usar mais, s 
por um extraordinrio acaso nenhum dos sete, ontem, antes de irem deitar-se, precisou de dar satisfao a urgncias do baixo-ventre, seno j o saberiam. Agora todos 
as sentiam, e acima de todos o pobre do rapaz que j no podia segurar-se mais, de facto, por muito que nos custe reconhec-lo, estas realidades sujas da vida tambm 
tm de ser consideradas em qualquer relato, com a tripa em sossego qualquer um tem ideias, discutir, por exemplo, se existe uma relao directa entre os olhos e 
os sentimentos, ou se o sentido de responsabilidade  a consequncia natural de uma boa viso, mas quando a aflio aperta, quando o corpo se nos desmanda de dor 
e angstia, ento  que se v o animalzinho que somos. O quintal, exclamou a mulher do mdico, e tinha razo, se no fosse to cedo j l iramos encontrar a vizinha 
do andar de baixo,  tempo de deixarmos de chamar-lhe velha, como pejorativamente temos feito, j l estaria, dizamos, agachada, rodeada de galinhas, porqu, quem 
fez a pergunta com certeza no sabe o que so galinhas. Agarrado  barriga, amparado pela mulher do mdico, o rapazito estrbico desceu as escadas em nsias, muito 
conseguiu ele aguentar at aqui, coitado, no se lhe pea mais, nos ltimos degraus j o esfncter tinha desistido de resistir  presso interna, imaginem-se as 
consequncias. Entretanto, os outros cinco vinham descendo conforme podiam a escada de salvao, nome a propsito, se algum pudor ainda lhes ficara do tempo que 
tinham vivido em quarentena, era hora de perd-lo. Espalhados pelo quintal, gemendo de esforo, sofrendo de um resto de intil vergonha, fizeram o que tinha de ser 
feito, tambm a mulher do mdico, mas essa chorava olhando-os, chorava por todos eles, que nem parece que isso podem j, o seu prprio marido, o primeiro cego e 
a mulher, a rapariga dos culos escuros, o velho da venda preta, este garoto, via-os acocorados sobre as ervas, entre os caules nodosos das couves, com as galinhas 
 espreita, o co das lgrimas tambm descera, era mais um. Limparam-se como puderam, pouco e mal, a uns punhados de ervas, a uns cacos de tijolo, aonde o brao 
conseguiu alcanar, em algum caso foi pior a emenda. Tornaram a subir a escada de salvao, calados, a vizinha do primeiro andar no lhes apareceu a perguntar quem 
eram, donde vinham, para onde iam, estaria ainda a dormir da boa digesto da ceia, e, quando entraram em casa, primeiro no souberam de que falar, depois a rapariga 
dos culos escuros disse que no podiam ficar naquele estado,  verdade que no havia gua para se lavarem, pena que no estivesse a chover torrencialmente, como 
ontem tinha chovido, sairiam outra vez ao quintal, mas agora nus e sem vergonha, receberiam na cabea e nos ombros a gua generosa do cu, senti-la-iam escorrer 
pelo dorso e pelo peito, pelas pernas, poderiam recolh-la nas mos enfim limpas e por essa taa d-la a beber a um sedento, quem fosse no importava, acaso os lbios 
tocariam levemente a pele antes de encontrarem a gua, e, sendo a sede muita, sofregamente iriam recolher no cncavo as ltimas gotas, acordando assim, quem sabe, 
uma outra secura.  rapariga dos culos escuros, como outras vezes se tem observado, o que a perde  a imaginao, do que havia ela de lembrar-se numa situao como 
esta, trgica, grotesca, desesperada. Apesar de tudo, no lhe falta um certo sentido prtico, a prova foi ter ido abrir o armrio do seu quarto, depois o dos pais, 
trouxe de l uns quantos lenis e toalhas, Limpemo-nos a isto, disse,  melhor do que nada, e no h dvida de que foi uma boa ideia, quando se sentaram para comer 
sentiam-se outros.
     
     Foi  mesa que a mulher do mdico exps o seu pensamento, Chegou a altura de decidirmos o que devemos fazer, estou convencida de que toda a gente est cega, 
pelo menos comportavam-se como tal as pessoas que vi at agora, no h gua, no h electricidade, no h abastecimentos de nenhuma espcie, encontramo-nos no caos, 
o caos autntico deve de ser isto, Haver um governo, disse o primeiro cego, No creio, mas, no caso de o haver, ser um governo de cegos a quererem governar cegos, 
isto , o nada a pretender organizar o nada, Ento no h futuro, disse o velho da venda preta, No sei se haver futuro, do que agora se trata  de saber como poderemos 
viver neste presente, Sem futuro, o presente no serve para nada,  como se no existisse, Pode ser que a humanidade venha a conseguir viver sem olhos, mas ento 
deixar de ser humanidade, o resultado est  vista, qual de ns se considerar ainda to humano como antes cria ser. eu, por exemplo, matei um homem, Mataste um 
homem, espantou-se o primeiro cego, Sim, o que mandava do outro lado, espetei-lhe uma tesoura na garganta, Mataste para vingar-nos, para vingar as mulheres tinha 
de ser uma mulher, disse a rapariga dos culos escuros, e a vingana, sendo justa,  coisa humana, se a vtima no tiver um direito sobre o carrasco, ento no haver 
justia, Nem humanidade, acrescentou a mulher do primeiro cego, Voltemos  questo, disse a mulher do mdico, se continuarmos juntos talvez consigamos sobreviver, 
se nos separarmos seremos engolidos pela massa e destroados, Disseste que h grupos organizados de cegos, observou o mdico, isso significa que esto a ser inventadas 
maneiras novas de viver, no  foroso que acabemos destroados, como prevs, No sei at que ponto estaro realmente organizados, s os vejo andarem por a  procura 
de comida e de sitio para dormir, nada mais, Regressmos  horda primitiva, disse o velho da venda preta, com a diferena de que no somos uns quantos milhares de 
homens e mulheres numa natureza imensa e intacta, mas milhares de milhes num mundo descamado e exaurido, E cego, acrescentou a mulher do mdico, quando comear 
a tornar-se difcil encontrar gua e comida, o mais certo  que estes grupos se desagreguem, cada pessoa pensar que sozinha poder sobreviver melhor, no ter de 
repartir com outros, o que puder apanhar  seu, de ningum mais, Os grupos que por ai existem devem ter chefes, algum que mande e organize, lembrou o primeiro cego, 
Talvez, mas neste caso to cegos esto os que mandem como os que forem mandados, Tu no ests cega, disse a rapariga dos culos escuros, por isso tens sido a que 
manda e organiza, No mando, organizo o que posso, sou, unicamente, os olhos que vocs deixaram de ter, Uma espcie de chefe natural, um rei com olhos numa terra 
de cegos, disse o velho da venda preta, Se assim , ento deixem-se guiar pelos meus olhos enquanto eles durarem, por isso o que proponho  que, em lugar de nos 
dispersarmos, ela nesta casa, vocs na vossa, tu na tua, continuemos a viver juntos, Podemos ficar aqui, disse a rapariga dos culos escuros, A nossa casa  maior, 
Supondo que no esteja ocupada, recordou a mulher do primeiro cego, Quando l chegarmos o saberemos, se assim for voltaremos para aqui, ou remos ver a vossa, ou 
a tua, acrescentou dirigindo-se ao velho da venda preta, e ele respondeu, No tenho casa minha, vivia sozinho num quarto, No tens famlia, perguntou a rapariga 
dos culos escuros, Nenhuma, Nem mulher, nem filhos, nem irmos, Ningum, Se os meus pais no aparecerem, ficarei to sozinha como tu, Eu fao contigo, disse o rapazinho 
estrbico, mas no acrescentou Se a minha me no aparecer, no ps essa condio, estranho comportamento, ou no ser to estranho assim, a gente nova conforma-se 
rapidamente, tm a vida toda por diante. Que decidem, perguntou a mulher do mdico, Vou com vocs, disse a rapariga dos culos escuros, s te peo que ao me nos 
uma vez por semana me acompanhes at aqui, para o caso de os meus pais terem voltado, Deixas as chaves com a vizinha de baixo, No tenho outro remdio, ela no pode 
levar mais do que j levou, Destruir, Depois de eu ter estado aqui, talvez no, Ns tambm vamos com vocs, disse o primeiro cego, s gostaramos, o mais cedo que 
seja possvel, de passar pela nossa casa, para saber o que aconteceu, Passaremos, claro est, Pela minha no vale a pena, j vos disse o que ela era, Mas virs connosco, 
Sim, com uma condio,  primeira vista h-de parecer escandaloso que algum anteponha condies a um favor que lhe querem fazer, mas certos velhos so assim, sobra-lhes 
em orgulho o que lhes vai faltando em tempo, Que condio  essa, perguntou o mdico, Quando estiver a converter-me numa carga insuportvel, peo que mo digam, e 
se, por amizade ou compaixo, decidirem calar-se, espero eu ter ainda suficiente juzo na cabea para fazer o que devo, E isso que ser, pode saber-se, perguntou 
a rapariga dos culos escuros, Retirar-me, afastar-me, desaparecer, como os elefantes faziam dantes, ouvi dizer que nos ltimos tempos no era assim, nenhum conseguia 
chegar a velho, Tu no s precisamente um elefante, Tambm j no sou precisamente um homem, Sobretudo se comeares a dar respostas de criana, retorquiu a rapariga 
dos culos escuros, e esta conversa ficou por aqui.
     
     Os sacos de plstico vo muito mais leves do que tinham vindo, nem admira, a vizinha do primeiro andar tambm comeu deles, duas vezes comeu, primeiro ontem 
 noite, e hoje lhe deixaram mais alguns alimentos quando lhe pediram que ficasse com as chaves e as guardasse at que aparecessem os legtimos donos delas, questo 
de adoar-lhe a boca, que do carcter dela j temos suficiente notcia, e isto sem falar do que o co das lgrimas tambm tem vindo a comer, s um corao de pedra 
teria sido capaz de fingir indiferena diante daqueles olhos suplicantes, e a propsito, onde se meteu o co, no est na casa, pela porta no saiu, s pode estar 
no quintal, foi a mulher do mdico certificar-se, e assim era de facto, o co das lgrimas estava a devorar uma galinha, to rpido tinha sido o ataque que nem um 
sinal de alarme teve tempo de dar, mas se a velha do primeiro andar tivesse olhos e andasse com as galinhas contadas, no se sabe, de raiva, que destino seria o 
das chaves. Entre a conscincia de haver cometido um delito e a percepo de que a criatura humana a quem protegia se ia embora, o co das lgrimas s duvidou um 
instante, imediatamente se ps a escarvar no cho mole, e antes que a velha do primeiro andar assomasse ao patamar da escada de salvao a farejar a fonte dos rudos 
que lhe estavam entrando em casa, ficava enterrada a carcaa da galinha, disfarado o crime, reservado para outra ocasio o remorso. O co das lgrimas esgueirou-se 
pela escada acima, roou como um sopro as saias da velha, que nem se apercebeu do perigo que acabara de passar por ela, e foi pr-se ao lado da mulher do mdico, 
donde anunciou aos ares a proeza cometida. A velha do primeiro andar, ouvindo ladrar com tamanha ferocidade, temeu, mas sabemos quo demasiado tarde, pela segurana 
da sua despensa, e gritou esticando o pescoo para cima, Esse co tem de estar preso, no v matar-me a alguma galinha, Fique descansada, respondeu a mulher do 
mdico, o co no tem fome, j comeu, e ns vamo-nos embora agora mesmo, Agora, repetiu a velha, e houve na sua voz um quebramento como de pena, era como se estivesse 
a querer ser entendida de um modo muito diferente, por exemplo Vo-me deixar aqui sozinha, porm no pronunciou uma palavra mais, s aquele Agora que nem pedia resposta, 
os duros de corao tambm tm os seus desgostos, o desta mulher foi tal que depois no quis abrir a porta para despedir-se dos desagradecidos a quem tinha dado 
passagem franca pela sua casa. Ouviu-os descer a escada, falavam uns com os outros, diziam, Cuidado, no tropeces, Pe a mo no meu ombro, Segura-te ao corrimo, 
so palavras de sempre, mas agora mais comuns neste mundo de cegos, o que lhe pareceu estranho foi ouvir uma das mulheres dizer, Aqui est to escuro que no consigo 
ver, que a cegueira desta mulher no fosse branca j era, s por si, surpreendente, mas que ela no pudesse ver por estar escuro, que poderia isto significar. Quis 
pensar, fez fora, mas a cabea esvada no ajudou, da a pouco estava a dizer consigo mesma, Ouvi mal, foi o que foi. Na rua, a mulher do mdico lembrou-se do que 
tinha dito, devia dar mais ateno ao seu falar, mover-se como quem tem olhos, podia, Mas as palavras tm de ser de cego, pensou.
     
     Reunidos no passeio, disps os companheiros em duas filas de trs, na primeira colocou o marido e a rapariga dos culos escuros, com o rapazinho estrbico ao 
meio, na segunda fila o velho da venda preta e o primeiro cego, um de cada lado da outra mulher. Queria t-los a todos perto de si, no na frgil fila indiana do 
costume, que essa a todo o momento podia romper-se, bastava que se cruzassem no caminho com um grupo mais numeroso ou mais brutal, e seria como no mar um paquete 
a cortar em duas uma falua que se lhe tivesse metido  frente, conhece m- se as consequncias de tais acidentes, naufrgio, destroos, gente afogada, inteis gritos 
de socorro na vastido, o paquete j l vai adiante, nem se apercebeu do abalroamento, assim aconteceria com estes, um cego aqui, outro alm, perdidos nas desordenadas 
correntes dos outros cegos, como as ondas do mar que no se detm e no sabem aonde vo, e a mulher do mdico sem saber, tambm ela, a quem dever acudir primeiro, 
deitando a mo ao marido, talvez ao rapazinho estrbico, mas perdendo a rapariga dos culos escuros, os outros dois, o velho da venda preta, muito longe, a caminho 
do cemitrio dos elefantes. O que est a fazer agora  a passar  volta de todos e de si prpria uma corda de tiras de pano entranadas, feita enquanto os outros 
dormiam, No se agarrem a ela, disse, agarrem-na, sim, com toda a fora que tiverem, no a larguem em caso algum, seja o que for que acontea. No deviam caminhar 
demasiado juntos para no tropearem uns nos outros, mas teriam de sentir a proximidade dos seus vizinhos, o contacto se fosse possvel, s um deles no precisava 
preocupar-se com estas novas questes de tctica de progresso no terreno, esse era o rapazinho estrbico, que ia no meio, protegido por todos os lados. Nenhum dos 
nossos cegos se lembrou de perguntar como  que vo navegando os outros grupos, se tambm andam assim atados, por este ou outros processos, mas a resposta seria 
fcil, pelo que se tem podido observar, os grupos, em geral, salvo o caso de algum mais coeso por razes que lhe so prprias e que no conhecemos, vo perdendo 
e ganhando aderentes ao longo do dia. h sempre um cego que se tresmalha e se perde, outro que foi apanhado pela fora da gravidade e vai de arrasto, pode ser que 
o aceitem, pode ser que o expulsem, depende do que traga consigo. A velha do primeiro andar abriu devagar a janela, no quer que se saiba que tem esta fraqueza sentimental, 
mas da rua no sobe nenhum rudo, j se foram, deixaram este stio por onde quase ningum passa, a velha deveria de estar contente, desta maneira no ter de dividir 
com os outros as suas galinhas e os seus coelhos, deveria de estar e no est, dos olhos cegos saem-lhe duas lgrimas, pela primeira vez perguntou se tinha alguma
razo para continuar a viver. No achou resposta, as respostas no vm sempre que so precisas, e mesmo sucede muitas vezes que ter de ficar simplesmente  espera
delas  a nica resposta possvel.
     
     Pelo caminho que levavam passariam a dois quarteires da casa onde o velho da venda preta tinha o seu quarto de homem s, mas j tinham decidido que seguiriam 
adiante, comida no h l, de roupas no necessita, os livros no pode l-los. As ruas esto cheias de cegos que andam  cata de comida. Entram e saem das lojas, 
de mos vazias entram, de mos vazias saem quase sempre, depois discutem entre eles a necessidade ou a vantagem de deixarem este bairro e irem ao rabisco noutras 
partes da cidade, o grande problema  que, tal como esto as coisas, sem gua corrente, sem energia elctrica, com as garrafas de gs vazias, e mais o perigo de 
fazer fogueiras dentro das casas, no se pode cozinhar, isto supondo que saberamos aonde ir buscar o sal, o azeite, os temperos, na hiptese de querer preparar 
uns pratos com alguns vestgios dos sabores  antiga, que se houvesse hortalias s com uma fervura nos daramos por satisfeitos, o mesmo quanto  carne, alm dos 
coelhos e galinhas de sempre, serviriam os ces e os gatos que se deixassem apanhar, mas, como a experincia  realmente a mestra da vida, at estes animais, antes 
domsticos, aprenderam a desconfiar dos afagos, agora caam em grupo e em grupo se defendem de ser caados, e como graas a Deus continuam a ter olhos, sabem melhor 
como esquivar-se, e atacar, se  preciso. Todas estas circunstancias e razes tm levado a concluir que os melhores alimentos para os humanos so os de conserva, 
no s porque em muitos casos j vm cozinhados, prontos para serem consumidos, mas tambm pela facilidade do transporte e comodidade da utilizao.  certo que 
em todas as latas, frascos e embalagens vrias que contm este tipo de alimentos se menciona a data a partir da qual o seu consumo se torna inconveniente, e at, 
em certos casos, perigoso, mas a sabedoria popular no tardou em pr em circulao um dito de alguma mane ira irrespondvel, simtrico de outro que j deixou de 
se usar, olhos que no vem, corao que no sente, dizia-se, agora os olhos que no vem gozam de um estmago insensvel, por isso se comem tantas porcarias por 
a.  frente do seu grupo, a mulher do mdico d mentalmente balano  comida que ainda tm, chegar, se tanto, para uma refeio, sem contar com o co, mas ele 
que se governe pelos seus prprios meios, aqueles que to bem lhe serviram para filar a galinha pelo pescoo e cortar-lhe a voz e a vida. Tem em casa, se bem se 
recorda, e se ningum l entrou, uma quantidade razovel de conservas, o adequado para um casal, mas aqui so sete pessoas a comer, a reserva pouco ir durar, mesmo 
que lhe seja aplicado um severo racionamento bsico. Amanh, por estes dias, ter de voltar ao armazm subterrneo do supermercado, ter de resolver se ir sozinha 
ou pedir ao marido que a acompanhe, ou ao primeiro cego, que  mais novo e mais gil, a escolha  entre a possibilidade de recolha de uma maior quantidade de comida 
e a rapidez da aco, incluindo, no esquecer, as condies da retirada. O lixo nas ruas, que parece ter-se duplicado desde ontem, os excrementos humanos, meio liquefeitos 
pela chuva violenta os de antes, pastosos ou diarreicos os que esto a ser eliminados agora mesmo por estes homens e estas mulheres enquanto vamos passando, saturam 
de fedor a atmosfera, como uma nvoa densa atravs da qual s com grande esforo  possvel avanar. Numa praa rodeada de rvores, com uma esttua ao centro, uma 
matilha de ces devora um homem. Devia ter morrido h pouco tempo, os membros no esto rgidos, nota-se quando os ces os sacodem para arrancar ao osso a carne 
filada pelos dentes. Um corvo saltita  procura de uma aberta para chegar-se tambm  pitana. A mulher do mdico desviou os olhos, mas era tarde de mais, o vmito 
subiu-lhe irresistvel das entranhas, duas vezes, trs vezes, como se o seu prprio corpo, ainda vivo, estivesse a ser sacudido por outros ces, a matilha da desesperao 
absoluta, aqui cheguei, quero morrer aqui. O marido perguntou, Que tens, os outros, unidos pela corda, acercaram-se mais, de sbito assustados, Que aconteceu, Caiu-te 
mal a comida, Alguma coisa que estava estragada, Eu no sinto nada, Nem eu. Ainda bem para eles, s podiam ouvir a agitao dos bichos, um repentino e inslito crocito 
de corvo, na confuso um dos ces mordera-o numa asa, de passagem, sem m inteno, ento a mulher do mdico disse, No pude evitar, desculpem-me,  que esto aqui 
uns ces a comer outro co, Esto a comer o nosso co, perguntou o rapazinho estrbico, No, o nosso, como tu dizes, est vivo, anda de volta deles, mas no se aproxima, 
Depois da galinha que comeu, no dever ter muita fome, disse o primeiro cego, J ests melhor, perguntou o mdico, J, vamo-nos embora, E o nosso co, tornou o 
rapazinho estrbico a perguntar, O co no  nosso, s tem andado connosco, provavelmente vai ficar com estes agora, teria andado com eles antes, tornou a encontrar 
os amigos, Quero fazer caca, Aqui, estou muito aflito, di-me a barriga, queixou-se o rapaz.
     Aliviou-se ali mesmo, como lhe foi possvel, a mulher do mdico ainda vomitou uma vez, mas as suas razes eram outras. Atravessaram depois a larga praa e, 
quando chegaram  sombra das rvores, a mulher do mdico olhou para trs. Tinham aparecido mais ces, havia j disputa sobre o que restava do corpo. O co das lgrimas 
vinha a, com o focinho rente ao cho como se estivesse a seguir um rasto, questo de costume, porque desta vez o simples olhar bastava para encontrar aquela a quem 
procura.
     
     A caminhada continuou, a casa do velho da venda preta j ficou para trs, agora seguem por uma extensa avenida, com altos e luxuosos edifcios de um lado e 
do outro. Os automveis, aqui, so de preo, amplos e cmodos, por isso se vem tanto cegos a dormir dentro deles, e a julgar pela aparncia, uma enorme limusina 
foi mesmo transformada em residncia permanente, provavelmente por ser mais fcil regressar a um carro do que a uma casa, os ocupantes deste devem de fazer como 
se fazia l na quarentena para encontrar a cama, ir apalpando e contando os automveis a partir da esquina, vinte e sete, lado direito, j estou em casa. O edifcio 
 porta do qual a limusina se encontra  um banco.
     
     O carro trouxe o presidente do conselho de administrao  reunio plenria semanal, a primeira que se realizava desde que se tinha declarado a epidemia de 
mal-branco, e no houve tempo depois para lev-lo  garagem subterrnea, onde esperaria o fim dos debates. O condutor cegou quando o presidente ia a entrar no edifcio, 
pela porta principal, como gostava, ainda deu um grito, estamos a falar do condutor, mas ele, estamos a falar do presidente, j no o ouviu. Alis, a reunio no 
seria to plenria quanto a sua designao presumia, nos ltimos dias tinham cegado alguns dos membros do conselho. O presidente no chegou a abrir a sesso, cuja
ordem de trabalhos previa precisamente a discusso e tomada de medidas para o caso de virem a cegar todos os membros do conselho de administrao efectivos e suplentes, 
e nem sequer pde entrar na sala de reunies porque quando o ascensor o levava ao dcimo quinto andar, exactamente entre o nono e o dcimo, faltou a corrente elctrica, 
para nunca mais. E como uma desgraa nunca vem s, no mesmo instante cegaram os electricistas que se ocupavam da manuteno da rede interna de energia e consequentemente 
tambm do gerador, modelo antigo, no automtico, que andava h tempos para ser substitudo, o resultado, como antes se disse, foi ter ficado o ascensor parado entre 
o nono e o dcimo andares. O presidente viu cegar o ascensorista que o acompanhava, ele prprio perdeu a vista uma hora depois, e como a energia no voltou e os 
casos de cegueira dentro do banco se multiplicaram nesse dia. o mais certo  que os dois ainda l estejam, mortos, escusado ser diz-lo, fechados num tmulo de 
ao, e por isso felizmente a salvo de ces devoradores.
     
     No havendo testemunhas, e se as houve no consta que tenham sido chamadas a estes autos para nos relatarem o que se passou,  compreensvel que algum pergunte 
como foi possvel saber que estas coisas sucederam assim e no doutra maneira, a resposta a dar  a de que todos os relatos so como os da criao do universo, ningum 
l esteve, ningum assistiu, mas toda a gente sabe o que aconteceu. A mulher do mdico tinha perguntado, Que se ter passado com os bancos, no era que lhe importasse 
muito, apesar de ter confiado as suas economias a um deles, fez a pergunta por simples curiosidade, apenas porque o pensou, nada mais, nem esperava que lhe respondessem, 
por exemplo, assim, No princpio, Deus criou os cus e a terra, a terra era informe e vazia, as trevas cobriam o abismo, e o Esprito de Deus movia-se sobre a superfcie 
das guas, em vez disto o que sucedeu foi o velho da venda preta dizer enquanto seguiam avenida abaixo, Pelo que pude saber quando ainda tinha um olho para ver no 
princpio foi o diabo, as pessoas. com o medo de ficarem cegas e desmunidas, correram aos bancos para retirarem os seus dinheiros, achavam que deviam acautelar o 
futuro, e isto h que compreend-lo, se algum sabe que no vai poder trabalhar mais, o nico remdio, pelo tempo que elas durarem,  recorrer s economias feitas 
no tempo da prosperidade e das previses de largo alcance, supondo que a pessoa tivera de facto a prudncia de ir acumulando as poupanas gro a gro, o resultado 
da fulminante corrida foi terem falido em vinte e quatro horas alguns dos principais bancos, o governo interveio a pedir que se acalmassem os nimos e a apelar para 
a conscincia cvica dos cidados, terminando a proclamao com a declarao solene de que assumiria todas as responsabilidades e deveres decorrentes da situao 
de calamidade pblica que se vivia, mas o parche no conseguiu aliviar a crise, no s porque as pessoas continuavam a cegar, mas tambm porque as que ainda viam 
s pensavam em salvar o seu rico dinheiro, por fim, era inevitvel, os bancos, falidos ou no, fecharam as portas e pediram proteco policial, no lhes serviu de 
nada, entre a multido que se juntava aos gritos diante dos bancos havia tambm polcias  paisana que reclamavam o que tanto lhes tinha custado a ganhar, alguns, 
para poderem manifestar-se  vontade, haviam at avisado o comando de que estavam cegos, deram portanto baixa, e os outros, os ainda fardados e activos, de armas 
apontadas s massas insatisfeitas, de repente deixavam de ver o ponto de mira, estes, se tinham dinheiro no banco, perdiam todas as esperanas e ainda por cima eram 
acusados de terem pactuado com o poder estabelecido, mas o pior veio depois, quando os bancos se viram assaltados por hordas furiosas de cegos e no cegos, porm 
desesperados todos, aqui j no se tratava de apresentar pacificamente no balco um cheque  cobrana, dizer ao empregado, Quero retirar o meu saldo, mas de deitar 
a mo ao que se pudesse, ao dinheiro do dia. o que tivesse sido deixado nas gavetas, em algum cofre descuidadamente aberto, num saquinho de trocos  antiga, como 
os usavam as avs da gerao mais velha, no se pode imaginar o que aquilo foi, os grandes e sumptuosos trios das sedes, as pequenas dependncias de bairro, assistiram 
a cenas em verdade aterradoras, e no h que esquecer o pormenor das caixas automticas, arrombadas e saqueadas at  ltima nota, no mostrador de algumas, enigmaticamente, 
apareceu uma mensagem de agradecimento por ter sido escolhido este banco, as mquinas so de facto estpidas, se no seria mais exacto dizer que estas traram os 
seus senhores, enfim, todo o sistema bancrio se veio abaixo num sopro, como um castelo de cartas, e no porque a posse do dinheiro tivesse deixado de ser apreciada, 
a prova est em que quem o tem no o quer largar da mo, alegam esses que no se pode prever o que ser o dia de amanh, tambm a pensar nisso estaro certamente 
os cegos que se instalaram nos subterrneos dos bancos, onde se encontram os cofres-fortes,  espera de um milagre que lhes abra de par em par as pesadas portas 
de ao-nquel que os separam da riqueza, s saem de l para procurarem comida e gua ou para satisfazerem as outras necessidades do corpo, e logo regressam ao seu 
posto, tm palavras de passe e sinais de dedos para que nenhum estranho possa introduzir-se no reduto, claro que vivem na escurido mais absoluta, mas tanto faz, 
para esta cegueira tudo  branco. O velho da venda preta veio narrando estes tremendos acontecimentos de banca e finana enquanto atravessavam vagarosamente a cidade, 
com algumas paragens para que o rapazinho estrbico pudesse apaziguar os tumultos insofrveis do intestino, e apesar do tom verdico que soube imprimir  apaixonante 
descrio,  lcito suspeitar da existncia de certos exageros no seu relato, a histria dos cegos que vivem nos subterrneos, por exemplo, como a teria sabido ele 
se no conhece a palavra de passe nem o truque do polegar, em todo o caso deu para ficarmos com uma ideia.
     
     Declinava o dia quando chegaram enfim  rua onde moram o mdico e a mulher. No se distingue das outras, h imundcies por toda a parte, bandos de cegos que 
vagam  deriva, e, pela primeira vez, mas foi por mera casualidade que no as encontraram antes, enormes ratazanas, duas, com que no ousam atrever-se os gatos que 
por aqui andam vadiando, porque so quase do tamanho deles e com certeza muito mais ferozes. O co das lgrimas olhou uns e outros com a indiferena de quem vive 
noutra esfera de emoes, isto se diria se no fosse ele o co que continua a ser, mas um animal dos humanos.  vista dos stios conhecidos, a mulher do mdico no 
fez a melanclica reflexo do costume, a que consiste em dizer, Como o tempo passa, ainda no outro dia fomos felizes aqui, a ela o que a chocou foi a decepo, inconscientemente 
acreditara que, por ser a sua, encontraria a rua limpa, varrida, asseada, que os seus vizinhos estariam cegos dos olhos, mas no do entendimento, Que estupidez a 
minha, disse em voz alta, Porqu, que se passa, perguntou o marido, Nada, fantasias, Como o tempo passa, a casa como estar, disse ele, J falta pouco para o sabermos. 
As foras eram escassas, por isso subiram a escada muito devagar, parando em cada patamar,  no quinto, dissera a mulher do mdico. Iam como podiam, cada um por 
si, o co das lgrimas ora adiante ora atrs, como se tivesse nascido para co de rebanho, com ordem de no perder nenhuma ovelha. Havia portas abertas, vozes no 
interior, o nauseabundo cheiro de sempre saindo em baforadas, por duas vezes apareceram cegos no limiar olhando com olhos vagos, Quem vem a, perguntaram, a mulher 
do mdico reconheceu um deles, o outro no era do prdio, Vivamos aqui, limitou-se a responder. Na cara do vizinho perpassou uma expresso tambm de reconhecimento, 
mas no perguntou,  a esposa do senhor doutor, talvez diga l dentro quando se recolher, Os do quinto andar voltaram. Ao vencer o ltimo lano da escada, antes 
mesmo de pousar o p no patamar, j a mulher do mdico anunciava, Est fechada. Havia indcios de tentativas de arrombamento, mas a porta resistira. O mdico meteu 
a mo num bolso interior do seu casaco novo e tirou as chaves. Ficou com elas no ar,  espera, mas a mulher guiou-lhe suavemente a mo em direco  fechadura.
     
     Tirante o p domstico, que se aproveita das ausncias das famlias pare docemente se pr a embaciar a superfcie dos mveis, diga-se a propsito que so essas 
as nicas ocasies que ele tem parar e descansar, sem agitaes de espanador ou de aspirador, se m correrias de crianas que desencadeiam turbilhes atmosfricos 
 passagem, a case estava limpa, e desarrumao era s a esperada quando se teve de sair precipitadamente. Ainda assim, enquanto naquele dia esperavam as chamadas 
do ministrio e do hospital, a mulher do mdico, com um esprito de previdncia semelhante ao que leva as pessoas sensatas a resolverem em vida os seus assuntos, 
para que no venha a dar-se, depois da morte, a aborrecida necessidade de recorrer a arrumaes violentas, lavou a loua, fez a cama, ordenou a case de banho, no 
ficou o que se chama uma perfeio, mas na verdade teria sido crueldade exigir-lhe mais, com aquelas mos a tremer e os olhos afogados de lgrimas. Foi portanto 
a uma espcie de paraso que chegaram os sete peregrinos, e to forte foi esta impresso, a que, sem demasiada ofensa do rigor do termo, poderamos chamar transcendental, 
que se detiveram  entrada, como tolhidos pelo inesperado cheiro da case, e era simplesmente o cheiro duma case fechada, noutro tempo teramos corrido a abrir sodas 
as janelas, Para arejar, diramos, hoje o bom seria t-las calafetadas pare que a podrido de fora no pudesse entrar. A mulher do primeiro cego disse, Vamos sujar-te 
tudo, e tinha razo, se entrassem com aqueles sapatos cobertos de lama e de merda, em um instante se tornaria o paraso inferno, segundo lugar este, consoante afirmam 
autoridades, em que o cheiro ptrido, ftido, nauseabundo, pestilento,  o que mais custa a suportar s almas condenadas, no as tenazes ardentes, os caldeires 
de pez a ferver e outros artefactos de forja e cozinha. Desde pocas imemoriais que o costume das donas de casa tinha sido dizer, Entrem, entrem, ora essa, no tem 
importncia, o que se suja limpa-se, mas esta, tanto quanto os seus convidados, sabe donde vem, sabe que no mundo em que vive o que est sujo sujar-se- ainda mais, 
por isso lhes pede e agradece que se descalcem no patamar,  certo que os ps tambm no esto limpos, mas no h comparao, as toalhas e os lenis da rapariga 
dos culos escuros para algo serviram, levaram a maior. Entraram pois descalos, a mulher do mdico procurou e encontrou um saco grande de plstico onde meteu todos 
os sapatos, com vista a uma lavagem, no sabia quando nem como, depois levou-o para a varanda, o ar de fora no piorar por isso. O cu comeava a escurecer, havia 
nuvens carregadas, Quem dera que chovesse, pensou. Com uma ideia clara do que era preciso fazer, voltou aos companheiros.
     Estavam na sala, quietos, de p, apesar de to cansados no se tinham atrevido a procurar um assento, s o mdico percorria vagamente os mveis com as mos, 
deixava-lhes sinais na superfcie, era a primeira limpeza que comeava, alguma desta poeira j l vai agarrada s pontas dos dedos. 
     A mulher do mdico disse, Dispam-se todos, no podemos ficar como estamos, as nossas roupas esto quase to sujas como os sapatos, Despir-nos, perguntou o primeiro 
cego, aqui, uns diante dos outros, no acho bem, Se quiserem, posso pr cada um de vocs numa parte da casa, respondeu ironicamente a mulher do mdico, assim no 
haver vergonhas, Eu dispo-me aqui mesmo, disse a mulher do primeiro cego, s tu  que me podes ver, e ainda que assim no fosse, no me esqueo de que j me viste 
pior do que nua, o meu marido  que tem a memria fraca, No sei que interesse possa haver em lembrar assuntos desagradveis que j l vo, resmungou o primeiro 
cego, Se fosses mulher e tivesses estado onde ns estivemos, pensarias doutra maneira, disse a rapariga dos culos escuros comeando a despir o rapazinho estrbico. 
O mdico e o velho da venda preta j estavam nus da cintura para cima, agora desapertavam as calas, o velho da venda preta disse ao mdico, que estava ao seu lado, 
Deixa-me apoiar em ti para desenfiar as pernas. Eram to ridculos, os pobres, aos pulinhos, que quase davam vontade de chorar. O mdico desequilibrou-se, arrastou 
consigo na queda o velho da venda preta, felizmente ambos tomaram o caso a rir, e agora dava ternura v-los ali, com os corpos manchados de todas as sujidades possveis, 
os sexos como empastados, plos brancos, plos negros, nisto veio acabar a respeitabilidade de uma idade avanada e de uma profisso to meritria. A mulher do mdico 
foi ajud-los a levantarem-se, daqui a pouco j tudo estar escuro, ningum ter motivo para se sentir envergonhado, Haver velas em casa, perguntou-se, a resposta 
foi lembrar-se de que tinha em casa duas relquias da iluminao, uma antiga candeia de azeite, com trs bicos, e um velho candeeiro de petrleo, dos de chamin 
de vidro, por hoje a candeia servir, azeite tenho, a torcida improvisa-se, amanh irei  procura de petrleo por essas lojas de drogaria, ser muito mais fcil 
encontr-lo do que uma lata de conserva, Sobretudo se no a procurar nas drogarias, pensou, surpreendendo-se consigo mesma por, nesta situao, ser ainda capaz de 
gracejar. A rapariga dos culos estava a despir-se lentamente, de um modo que dava a ideia de que sempre lhe havia de restar, por mais que se destapas se, uma ltima 
pea de roupa encobridora, no se percebe a que vm agora estes recatos, porm, se a mulher do mdico estivesse mais perto veria como  rapariga se lhe est ruborizando 
o rosto, apesar de o ter to sujo, entenda as mulheres quem puder, a uma chegaram-lhe de repente os pudores depois de ter andado a deitar-se por a com homens que 
mal conhecia, a outra sabemos que seria muito capaz de dizer-lhe ao ouvido, com toda a tranquilidade do mundo, No tenhas vergonha, ele no te pode ver, referir-se-ia 
ao seu prprio marido, claro est, que no nos esquecemos de como a descarada o foi tentar  cama, isto, no fundo, mulheres, quem no as conhecer que as compre. 
Talvez, no entanto, a razo seja outra, h aqui mais dois homens nus, e um deles recebeu-a na sua cama.
     
     A mulher do mdico recolheu as roupas deixadas no cho, calas, camisas, um casaco, camisolas, bluses, alguma roupa interior, pegajosa de imundcie, a esta 
nem uma barrela de um ms lhe restituiria a limpeza, fez de tudo um braado, Fiquem aqui, disse, eu j volto. Levou a roupa para a varanda, como tinha feito com 
os sapatos, ali por sua vez se despiu, olhando a cidade negra sob o cu pesado. Nem uma plida luz nas janelas, nem um reflexo desmaiado nas fachadas, o que ali 
estava no era uma cidade, era uma extensa massa de alcatro que ao arrefecer se moldara a si mesma em formas de prdios, telhados, chamins, morto tudo, apagado 
tudo. O co das lgrimas apareceu na varanda, desassossegado, mas agora no havia choros para enxugar, o desespero era todo dentro, os olhos estavam secos. A mulher 
do mdico sentiu frio, lembrou-se dos outros, ali no meio da sala, nus,  espera no saberiam de qu. Entrou. Tinham-se tornado em simples contornos sem sexo, manchas 
imprecisas, sombras a perderem-se na sombra, Mas para eles, no, pensou, eles diluem-se na luz que os rodeia,  a luz que no os deixa ver. Vou acender uma luz, 
disse, neste momento estou quase to cega como vocs, J h electricidade, perguntou o rapazinho estrbico, No, vou acender uma candeia de azeite, Que  uma candeia, 
tornou a perguntar o rapaz, Depois te mostro. Buscou num dos sacos de plstico uma caixa de fsforos, foi  cozinha, sabia onde tinha guardado o azeite, no precisava 
de muito, rasgou de um pano de secar a loua uma tira para fazer de torcida, depois voltou  sala, onde a candeia estava, ia ser til pela primeira vez desde que 
a fabricaram, ao princpio no parecia ir ser este o seu destino, mas nenhum de ns, candeias, ces ou humanos, sabe, ao princpio, tudo para que tinha vindo ao 
mundo. Uma aps outra, sobre os bicos da candeia, atearam-se, trmulas, trs pequenas amndoas luminosas que de vez em quando se estiravam at parecer que a parte 
superior das chamas iria perder-se no ar, depois recolhiam-se a si mesmas, como que se tornavam densas, slidas, umas pequenas pedras de luz. A mulher do mdico 
disse, Agora j vejo, vou buscar-vos roupa limpa, Mas ns estamos sujos, lembrou a rapariga dos culos escuros. Tanto ela como a mulher do primeiro cego tapavam 
com as mos o peito e o pbis, No  por mim, pensou a mulher do mdico,  porque a luz da candeia est a olhar para elas. Depois disse, Melhor ser ter roupa limpa 
no corpo sujo do que levar roupa suja no corpo limpo. Pegou na candeia e foi rebuscar nas gavetas das cmodas, nos roupeiros, da a poucos minutos voltou, trazia 
pijamas, batas, saias, blusas, vestidos, calas, camisolas, o necessrio para cobrir com decncia sete pessoas,  verdade que no eram todas da mesma estatura, mas 
na magreza pareciam gmeas. A mulher do mdico ajudou-os a vestirem-se, o rapazinho estrbico ficou com uns cales do mdico, desses de levar  praia e ao campo 
e que nos tornam a todos crianas. Agora j podemos sentar-nos, suspirou a mulher do primeiro cego, guia-nos por favor, no sabemos onde pr-nos.
     
     A sala  igual a toda as salas, tem uma pequena mesa ao centro, ao redor h sofs que chegam para todos, neste, aqui, sentam-se o mdico e a mulher, mais o 
velho da venda preta, naquele a rapariga dos culos escuros e o rapazinho estrbico, no outro a mulher do primeiro cego e o primeiro cego. Esto exaustos. O rapazinho 
adormeceu logo, com a cabea no colo da rapariga dos culos escuros, no se lembrou mais da candeia.
     Passou-se assim uma hora, aquilo era como uma felicidade, sob a luz suavssima os prprios rostos encardidos pareciam lavados, brilhavam os olhos dos que no 
dormiam, o primeiro cego procurou a mo da mulher e apertou-a, por este gesto se observa quanto o descanso do corpo pode contribuir para a harmonia dos espritos. 
Disse ento a mulher do mdico, Daqui a pouco comeremos alguma coisa, mas antes conviria que nos pusssemos de acordo sobre a maneira como iremos aqui viver, sosseguem, 
no vou repetir o discurso do altifalante, para dormir h espaos suficientes, temos dois quartos que ficam para os casais, nesta sala podem dormir os outros, cada 
um em seu sof, amanh terei de sair  procura de comida, est-se a acabar a que temos, seria til que um de vocs fosse comigo, para me ajudar a trazer, mas tambm 
para comearem a aprender os caminhos para casa, a reconhecer as esquinas, um destes dias posso eu adoecer, ou cegar, estou sempre  espera de que acontea, nesse 
caso terei de aprender de vocs, outro assunto, para as necessidades estar um balde na varanda, bem sei que no  agradvel ir l fora, com a chuva que tem cado 
e o frio que faz, em todo o caso  melhor assim do que termos a casa a cheirar mal, no nos esqueamos do que foi a nossa vida durante o tempo que estivemos internados, 
descemos todos os degraus da indignidade, todos, at atingirmos a abjeco, embora de maneira diferente pode suceder aqui o mesmo, l ainda tnhamos a desculpa da 
abjeco dos de fora, agora no, agora somos todos iguais perante o mal e o bem, por favor, no me perguntem o que  o bem e o que  o mal, sabamo-lo de cada vez 
que tivemos de agir no tempo em que a cegueira era uma excepo, o certo e o errado so apenas modos diferentes de entender a nossa relao com os outros, no a 
que temos com ns prprios, nessa no h que fiar, perdoem-me a preleco moralstica,  que vocs no sabem, no o podem saber, o que  ter olhos num mundo de cegos, 
no sou rainha, no, sou simplesmente a que nasceu para ver o horror, vocs sentem-no, eu sinto-o e vejo-o, e agora ponto final na dissertao, vamos comer. Ningum 
fez perguntas, o mdico s disse, Se eu voltar a ter olhos, olharei verdadeiramente os olhos dos outros, como se estivesse a ver-lhes a alma, A alma, perguntou o 
velho da venda preta, Ou o esprito, o nome pouco importa, foi ento que, surpreendentemente, se tivermos em conta que se trata de pessoa que no passou por estudos 
adiantados, a rapariga dos culos escuros disse, Dentro de ns h uma coisa que no tem nome, essa coisa  o que somos.
     
     A mulher do mdico tinha j posto na mesa alguma da pouca comida que restava, depois ajudou-os a sentarem-se, disse, Mastiguem devagar, ajuda a enganar o estmago. 
O co das lgrimas no veio pedir comida, estava habituado a jejuar, alm disso deve ter pensado que no tinha o direito, depois do banquete da manh, de tirar um 
pouco que fosse  boca da mulher que tinha chorado, os outros parecem no ter para ele muita importncia. No meio da mesa, a candeia de trs bicos esperava que a 
mulher do mdico desse a explicao que havia prometido, aconteceu no fim de comerem, D-me c as tuas mos, disse ela ao rapazinho estrbico, depois guiou-lhas 
devagar, ao mesmo tempo que ia dizendo, Isto  a base, redonda, como vs, e isto a coluna que sustenta a parte superior, o depsito do azeite, aqui, cuidado no 
te queimes, esto os bicos, um, dois, trs, deles saem as torcidas, umas tirinhas de pano que chupam o azeite de dentro, chega-se-lhes um fsforo e elas ficam a 
arder at o azeite se acabar, so umas luzes fraquinhas, mas d para vermos, Eu no vejo, Um dia hs-de ver, nesse dia dou-te a candeia de presente. De que cor , 
Nunca viste nenhum objecto de lato, No sei, no me lembro, que  o lato, O lato  amarelo, Ah. O rapazinho estrbico reflectiu um pouco, Agora vai perguntar 
pela me, pensou a mulher do mdico, mas enganou-se, o rapaz s disse que queria gua, tinha muita sede, Ters de esperar at amanh, no temos gua em casa, nesse 
mesmo instante lembrou-se de que sim havia gua, uns cinco litros ou mais de preciosa gua, o contedo intacto do depsito do autoclismo, no podia ser pior do que 
a que tinham bebido durante a quarentena. Cega na escurido, foi  casa de banho, s apalpadelas levantou a tampa do autoclismo, no podia ver se realmente haveria 
gua, havia, disseram-lho os dedos, buscou um copo, mergulhou-o, com todo o cuidado o encheu, a civilizao tinha regressado s primitivas fontes de chafurdo. Quando 
entrou na sala, todos continuavam sentados nos seus lugares.
     A candeia iluminava os rostos que para ela se voltavam, era como se estivesse a dizer-lhes, Estou aqui, vejam-me, aproveitem, olhem que esta luz no vai durar 
sempre. A mulher do mdico aproximou o copo dos lbios do rapazinho estrbico, disse, Aqui tens a gua, bebe devagar, devagar, saboreia, um copo de gua  uma maravilha, 
no falava para ele, no falava para ningum, simplesmente comunicava ao mundo a maravilha que  um copo de gua. Onde a encontraste,  gua da chuva, perguntou 
o marido, No,  do autoclismo, E no tnhamos ainda um garrafo de gua quando nos fomos daqui, perguntou ele de novo, a mulher exclamou, Sim, como foi que no 
me lembrei, um garrafo que estava em meio e outro que nem encetado estava, ch que alegria, no bebas, no bebas mais, isto dizia-o ao rapaz, vamos todos beber 
gua pura, ponho os nossos melhores copos na mesa e vamos beber gua pura. Agarrou desta vez na candeia e foi  cozinha, voltou com o garrafo, a luz entrava por 
ele, fazia cintilar a jia que tinha dentro. Colocou-o sobre a mesa, foi buscar os copos, os melhores que tinham, de cristal finssimo, depois, lentamente, como 
se estivesse a oficiar um rito, encheu-os. No fim, disse, Bebamos. As mos cegas procuraram e encontraram os copos, levantaram-nos tremendo. Bebamos, repetiu a mulher 
do mdico. No centro da mesa, a candeia era como um sol rodeado de astros brilhantes. Quando os copos foram pousados, a rapariga dos culos escuros e o velho da 
venda preta estavam a chorar.
     
     Numa noite inquieta, vagos no princpio, Imprecisos, os sonhos iam de dormente em dormente, colhiam daqui, colhiam dali, levavam consigo novas memrias, novos 
segredos, novos desejos, por isso  que os adormecidos suspiravam e murmuravam, Este sonho no  meu, diziam, mas o sonho respondia, Ainda no conheces os teus sonhos, 
foi desta maneira que a rapariga dos culos escuros ficou a saber quem era o velho da venda preta que dormia ali a dois passos, desta maneira julgou ele saber quem 
ela era, apenas julgou, porque no chega serem recprocos os sonhos para que sejam iguais.
     Comeou a chover quando a madrugada clareava. O vento atirou contra as janelas uma btega que soou como o estalido de mil chicotes. A mulher do mdico acordou, 
abriu os olhos e murmurou, Como chove, depois tornou a fech-los, no quarto continuava a ser noite cerrada, podia dormir. No chegou a estar assim um minuto, despertou 
abruptamente com a ideia de que tinha algo para fazer, mas sem compreender ainda o que fosse, a chuva estava a dizer-lhe Levanta-te, que quereria a chuva. Devagar, 
para no acordar o marido, saiu do quarto, atravessou a sala de estar, parou um instante a olhar os que dormiam nos sofs, depois seguiu pelo corredor at  cozinha, 
sobre esta parte do prdio  que a chuva caa com mais fora, empurrada pelo vento. Com a manga da bata que trazia posta limpou a vidraa embaciada da porta e olhou 
para fora. O cu era, todo ele, uma nica nuvem, a chuva desabava em torrentes. No cho da varanda, amontoadas, estavam as roupas sujas que haviam despido, estava 
o saco de plstico com os sapatos que era preciso lavar. Lavar. O ltimo vu do sono abriu-se subitamente, era isso o que tinha de fazer. Abriu a porta, deu um passo, 
acto contnuo a chuva encharcou-a da cabea aos ps, como se estivesse debaixo duma cascata. Tenho de aproveitar esta gua, pensou. Tornou a entrar na cozinha e, 
evitando o mais que podia os rudos, comeou a juntar alguidares, tachos, panelas, tudo o que pudesse recolher um pouco desta chuva que descia do cu em cordas, 
em cortinas que o vento fazia oscilar, que o vento ia empurrando por cima dos telhados da cidade como uma imensa e rumorosa vassoura. Transportou-os para fora, disp-los 
ao longo da varanda, junto  grade, agora teria gua para lavar as roupas imundas, os sapatos nojentos, Que no pare, que esta chuva no pare, murmurava enquanto 
buscava na cozinha os sabes, os detergentes, os esfreges, tudo o que pudesse servir para limpar um pouco, ao menos um pouco, esta sujidade insuportvel da alma. 
Do corpo, disse, como para corrigir o metafsico pensamento, depois acrescentou,  o mesmo. Ento, como se s essa tivesse de ser a concluso inevitvel, a conciliao 
harmnica entre o que tinha dito e o que tinha pensado, despiu de golpe a bata molhada, e, nua, recebendo no corpo, umas vezes a carcia, outras vezes a vergastada 
da chuva, ps-se a lavar as roupas, ao mesmo tempo que a si prpria. O rumorejar de guas que a rodeava impediu-a de perceber logo que deixara de estar sozinha. 
Na porta da varanda tinham aparecido a rapariga dos culos escuros e a mulher do primeiro cego, que pressentimentos, que intuies, que vozes interiores as teriam 
despertado no se sabe, to-pouco se sabe como conseguiram elas encontrar o caminho para aqui. no vale a pena procurar agora explicaes, as conjecturas so livres. 
Ajudem-me, disse a mulher do mdico quando as viu, Como, se no vemos, perguntou a mulher do primeiro cego, Tirem a roupa que tm vestida, quanta menos tivermos 
de secar depois, melhor, Mas ns no vemos, repetiu a mulher do primeiro cego, Tanto faz, disse a rapariga dos culos escuros, faremos o que pudermos, ~ eu acabarei 
depois, disse a mulher do mdico, limparei o que ainda tiver ficado sujo, e agora ao trabalho, vamos, somos a nica mulher com dois olhos e seis mos que h no mundo. 
Talvez no prdio em frente, por detrs daquelas janelas fechadas, alguns cegos, homens, mulheres, acordados pela violncia das btegas constantes, com a testa apoiada 
nas frias vidraas, recobrindo com o bafo da respirao o embaciamento da noite, recordem o tempo em que, assim, tal como esto agora, viam cair a chuva do cu. 
No podem imaginar que esto alm trs mulheres nuas, nuas como vieram ao mundo, parecem loucas, devem de estar loucas, pessoas em seu perfeito juzo no se vo 
pr a lavar numa varanda exposta aos reparos da vizinhana, menos ainda naquela figura, que importa que todos estejamos cegos, so coisas que no se devem fazer, 
meu Deus, como vai escorrendo a chuva por elas abaixo, como desce entre os seios, como se demora e perde na escurido do pbis, como enfim alaga e rodeia as coxas, 
talvez tenhamos pensado mal delas injustamente, talvez no sejamos  capazes de ver o que de mais belo e glorioso aconteceu alguma vez na histria da cidade, cai 
do cho da varanda uma toalha de espuma, quem me dera ir com ela, caindo interminavelmente, limpo, purificado, nu. S Deus nos v, disse a mulher do primeiro cego, 
que, apesar dos desenganos e das contrariedades, mantm firme a crena de que Deus no  cego, ao que a mulher do mdico respondeu, Nem mesmo ele. o cu est tapado, 
s eu posso ver-vos, Estou feia. perguntou a rapariga dos culos escuros, Ests magra e suja, feia nunca o sers, E eu, perguntou a mulher do primeiro cego, Suja 
e magra como ela, no to bonita, mas mais do que eu, Tu s bonita, disse a rapariga dos culos escuros, Como podes sab-lo, se nunca me viste, Sonhei duas vezes 
contigo, Quando, A segunda foi esta noite, Estavas a sonhar com a casa porque te sentias segura e tranquila,  natural, depois de tudo por que passmos, no teu sonho 
eu era a casa, e como, para ver-me, precisavas de pr-me uma cara, inventaste-a, Eu tambm te vejo bonita, e nunca sonhei contigo, disse a mulher do primeiro cego, 
O que s vem demonstrar que a cegueira  a providncia dos feios, Tu no s feia, No, de facto no o sou, mas a idade, Quantos anos tens, perguntou a rapariga dos 
culos escuros, Vou-me chegando aos cinquenta, Como a minha me, E ela, Ela, qu, Continua a ser bonita, J foi mais,  o que acontece a todos ns, sempre fomos 
mais alguma vez, Tu nunca foste tanto, disse a mulher do primeiro cego. As palavras so assim, disfaram muito, vo-se juntando umas com as outras, parece que no 
sabem aonde querem ir, e de repente, por causa de duas ou trs, ou quatro que de repente saem, simples em si mesmas, um pronome pessoal, um advrbio, um verbo, um 
adjectivo, e a temos a comoo a subir irresistvel  superfcie da pele e dos olhos, a estalar a compostura dos sentimentos, s vezes so os nervos que no podem 
aguentar mais, suportaram muito, suportaram tudo, era como se levassem uma armadura, diz-se A mulher do mdico tem nervos de ao, e afinal a mulher do mdico est 
desfeita em lgrimas por obra de um pronome pessoal, de um advrbio, de um verbo, de um adjectivo, meras categorias gramaticais, meros designativos, como o so igualmente 
as duas mulheres mais, as outras, pronomes indefinidos, tambm eles chorosos, que se abraam  da orao completa, trs graas nuas sob a chuva que cai. So momentos 
que no podem durar eternamente, h mais de uma hora que estas mulheres aqui esto,  tempo de sentirem frio, Tenho frio, disse j a rapariga dos culos escuros. 
Pela roupa no  possvel fazer mais, os sapatos esto limpos da maior, agora  a altura de se lavarem estas mulheres, ensaboam o cabelo e as costas umas s outras, 
e riem como s riam as meninas que brincavam  cabra-cega no jardim, no tempo em que ainda no eram cegas. O dia amanheceu de todo, o primeiro sol ainda espreitou 
por cima do ombro do mundo antes de se esconder outra vez por trs das nuvens. Continua a chover, mas com menos fora. As lavadeiras entraram na cozinha, secaram-se 
e esfregaram-se com os toalhes que a mulher do mdico foi buscar ao armrio da casa de banho, a pele delas cheira a detergente que tresanda, mas assim  a vida, 
quem no tem co caa com gato, o sabonete desfez-se num abrir e fechar de olhos, ainda assim nesta casa parece haver de tudo, ou ser porque sabem dar bom uso ao 
que tm, enfim cobriram-se, o paraso era l fora, na varanda, a bata da mulher do mdico est feita uma sopa, mas ela ps um vestido de ramagens e flores, deixado 
de parte h anos, que a tornou na mais bonita das trs.
     
     Quando entraram na sala de estar, a mulher do mdico viu que o velho da venda preta estava sentado no sof onde havia dormido. Tinha a cabea entre as mos, 
os dedos enfiados no matagal de cabelos brancos que ainda lhe povoam as fontes e a nuca, e estava imvel, tenso, como se quisesse reter os pensamentos ou, pelo contrrio, 
impedi-los de continuarem a pensar. Ouviu-as entrar, sabia de onde vinham, o que tinham estado a fazer, como haviam estado nuas, e se sabia tanto no era porque 
de repente lhe tivesse voltado a viso e ido, p ante p, como os outros velhos, espreitar no uma susana no banho, mas trs, cego estivera, cego continuava, apenas 
assomara  porta da cozinha e de l ouvira o que elas diziam na varanda, os risos, o rudo da chuva e das chapadas de gua, respirara o cheiro do sabo, depois voltara 
para o seu sof, a pensar que ainda existia vida no mundo, a perguntar se ainda haveria alguma parte dela para si. A mulher do mdico disse, As mulheres j esto 
lavadas, agora  a vez dos homens, e o velho da venda preta perguntou, Ainda chove, Sim, chove, e h gua nos alguidares que esto na varanda, Ento prefiro lavar-me 
na casa de banho, dentro da tina, pronunciava a palavra como se estivesse a apresentar a sua certido de idade, como se explicasse Sou do tempo em que no se dizia 
banheira, mas tina, e acrescentou, Se no te importas, claro, no quero sujar-te a casa, prometo que no entornarei gua para o cho, enfim, farei todo o possvel, 
Nesse caso vou levar-te os alguidares para a casa de banho, Eu ajudo, Posso lev-los sozinha, Tenho de servir para alguma coisa, no estou invlido, Vem, ento. 
Na varanda, a mulher do mdico puxou para dentro um alguidar quase cheio de gua, Agarra da, disse ao velho da venda preta guiando-lhe as mos, Agora, levantaram 
o alguidar em peso, Ainda bem que vieste ajudar-me, afinal, eu sozinha no poderia, Conheces o ditado, Qual ditado, O trabalho do velho  pouco, mas quem o despreza 
 louco, Esse ditado no  assim, Bem sei, onde eu disse velho,  menino, onde eu disse despreza,  desdenha, mas os ditados, se quiserem ir dizendo o mesmo por 
ser preciso continuar a diz-lo, tm de adaptar-se aos tempos, Es um filsofo, Que ideia, s sou um velho. Despejaram o alguidar para a banheira, depois a mulher 
do mdico abriu uma gaveta, lembrava-se de que tinha ainda um sabonete por usar. P-lo na mo do velho da venda preta, Vais ficar a cheirar bem, melhor do que ns, 
gasta  vontade, no te preocupes, faltar comida, mas sabonetes, por esses supermercados, no devem faltar, Obrigado, Tem cuidado, no escorregues, se quiseres 
chamo o meu marido para que te venha ajudar, No, prefiro lavar-me sozinho, Como queiras, e tens aqui, repara, d-me a tua mo, uma mquina de barbear, um pincel, 
se quiseres rapar essas barbas, Obrigado. A mulher do mdico saiu. O velho da venda preta despiu o pijama que lhe tinha calhado em sorte na distribuio das roupas, 
depois, com muito cuidado, entrou na banheira. A gua estava fria e era pouca, no chegava a ter um palmo de profundidade, que diferena entre receb-la a jorros 
do cu, rindo, como as trs mulheres, e este chapinhar triste.
     Ajoelhou-se no fundo da banheira, inspirou fundo, com as mos em concha atirou contra o peito a primeira chapada de gua, que quase lhe cortou a respirao. 
Molhou-se todo rapidamente para no ter tempo de arrepiar-se, depois, por ordem, com mtodo, comeou a ensaboar-se, a esfregar-se energicamente partindo dos ombros, 
braos, peito e abdmen. O pbis, o sexo, o entrepernas, Estou pior que um animal, pensou, depois as coxas magras, at  casca de sujidade que lhe calava os ps. 
Deixou ficar a espuma para que a aco de limpeza fosse mais prolongada, disse, Tenho de lavar a cabea, e levou as mos atrs para desatar a venda, Tambm precisas 
de um banho, desprendeu-a e deixou-a cair na gua, agora sentia o corpo quente, molhou e ensaboou o cabelo, era um homem de espuma, branco no meio de uma imensa 
cegueira branca onde ningum o poderia encontrar, se o pensou enganava-se, nesse momento sentiu que umas mos lhe tocavam as costas, que iam recolher-lhe a espuma 
dos braos, do peito tambm, e depois lha espalhavam pelo dorso, devagar, como se, no podendo ver o que faziam, mais ateno tivessem de dar ao trabalho. Quis perguntar, 
Quem s, mas a lngua travou-se-lhe, no foi capaz, agora o corpo arrepiava-se, no de frio, as mos continuavam a lav-lo suavemente, a mulher no disse Sou a do 
mdico, sou a do primeiro cego, sou a rapariga dos culos escuros, as mos acabaram a sua obra, retiraram-se, ouviu-se no silncio o leve rudo da porta da casa 
de banho a fechar-se, o velho da venda preta ficou s, ajoelhado na banheira como se estivesse a implorar uma misericrdia qualquer, a tremer, a tremer, Quem teria 
sido, perguntava-se, a razo dizia-lhe que s poderia ter sido a mulher do mdico, ela  a que v, ela  a que nos tem protegido, cuidado e alimentado, no seria 
de estranhar que tivesse tambm esta discreta ateno, era o que a razo lhe dizia, mas ele no acreditava na razo. Continuava a tremer, no sabia se da comoo 
ou do frio. Procurou a venda no fundo da banheira, esfregou-a com fora, espremeu-a, p-la  volta da cabea, com ela sentia-se menos nu.
     Quando entrou na sala de estar, enxuto, cheiroso, a mulher do mdico disse, J temos um homem limpo e barbeado, e depois, no tom de quem acaba de lembrar-se 
de algo que deveria ter sido feito e no o foi, Ficaste com as costas por lavar, que pena. O velho da venda preta no respondeu, s pensou que tivera razo em no 
acreditar na razo.
     
     O pouco que havia para comer deram-no ao rapazinho estrbico, os outros teriam de esperar pelo reabastecimento. Havia na despensa umas compotas, uns frutos 
secos, acar, algum resto de bolachas, umas quantas tostadas secas, mas a estas reservas, e outras que se lhes fossem juntando, s recorreriam em caso de necessidade 
extrema, que a comida do dia-a-dia, dia a dia teria de ser ganha, se por pouca sorte a expedio regressasse de mos vazias, ento sim, duas bolachas a cada um, 
com uma colherinha de compota, H de morango e de pssego, qual preferem, trs meias nozes, um copo de gua, o luxo enquanto durar. A mulher do primeiro cego disse 
que tambm gostaria de ir ao rebusco da comida, trs no eram de mais, mesmo sendo cegos dois deles serviriam para carregar, e alm disso, se fosse possvel, tendo 
em conta que no se encontravam to longe assim, gostaria de ir ver como estaria a sua casa, se tinha sido ocupada, se fora gente conhecida, por exemplo, vizinhos 
do prdio a quem se lhes tivesse aumentado a famlia por terem vindo da provncia uns quantos parentes com a ideia de se salvarem da epidemia de cegueira que atacara 
a aldeia,  sabido que na cidade h sempre outros recursos.
     Saram portanto os trs, entrouxados no que em casa sobejara de roupas de vestir, que as outras, as que foram lavadas, vo ter de esperar o bom tempo. O cu 
continuava coberto, mas no ameaava chuva. Arrastado pela gua, sobretudo nas ruas mais inclinadas, o lixo fora-se juntando em pequenos montes, deixando limpos 
amplos troos de pavimento. Oxal a chuva continue, o sol, nesta situao, seria o pior que poderia suceder-nos, disse a mulher do mdico, podrido e maus cheiros 
j c temos de sobra, Sentimo-los mais porque estamos lavados, disse a mulher do primeiro cego, e o marido concordou, embora suspeitasse de que tinha apanhado um 
resfriamento com o banho de gua fria. Havia multides de cegos nas ruas, aproveitavam a aberta para procurar alimento e satisfazer por a as necessidades excretrias 
a que o pouco comer e o pouco beber ainda obrigavam. Os ces farejavam por toda a parte, escarvavam no lixo, algum levava na boca uma ratazana afogada, caso este 
rarssimo que s poder ter explicao na abundncia extraordinria das ltimas chuvas, apanhou-a a inundao em mau stio, de nada lhe serviu ser to boa nadadora. 
O co das lgrimas no se misturou com os antigos companheiros de matilha e caa, a sua escolha est feita, mas no  animal para ficar  espera de que o alimentem, 
j vem a mastigar no se sabe qu, estas montanhas de lixo encerram tesouros inimaginveis, tudo est em buscar, revolver e achar. Que revolver e buscar na memria 
vo ter tambm, quando a ocasio se apresentar, o primeiro cego e a mulher, agora que j aprenderam os quatro cantos, no da casa onde vivem, que tem muitos mais, 
mas da rua onde moram, as quatro esquinas que passaro a servir-lhes de pontos cardeais, aos cegos no lhes interessa saber onde est o oriente ou o ocidente, o 
norte ou o sul, o que eles querem  que as suas tonteantes mos lhes digam se vo no bom caminho, antigamente, quando ainda eram poucos, costumavam usar bengalas
brancas, o som dos contnuos golpes no cho e nas paredes era como uma espcie de cifra que ia identificando e reconhecendo a rota, mas, nos dias de hoje, sendo
cegos todos, uma bengala dessas, no meio do retintim geral, seria pouco menos do que intil, sem falar que, imerso na sua prpria brancura, o cego poderia chegar
a duvidar se levaria alguma coisa na mo. Os ces tm, como se sabe, alm do que chamamos instinto, outros meios de orientao,  certo que, por serem mopes, no
se fiam muito da vista, porm, como levam o nariz bem  frente dos olhos, chegam sempre aonde querem, neste caso, pelo sim pelo no, o co das lgrimas alou a perna 
nos quatro ventos principais, a aragem se encarregar de o guiar at casa se algum dia se perder. Enquanto iam andando, a mulher do mdico olhava a um lado e a outro 
as ruas,  cata de comrcios de vveres onde pudesse reabastecer a desfalcada despensa. A razia s no era completa porque em mercearias das antigas ainda se podia 
encontrar algum feijo ou algum gro-de-bico nas tulhas, so leguminosas que levam muito tempo a cozer, ele  a gua, ele  o combustvel, por isso o crdito que 
agora tm  to escasso. No era a mulher do mdico particularmente dada  mania predicativa dos provrbios, em todo o caso, algo dessas cincias antigas lhe devia 
ter ficado na lembrana, a prova foi ter enchido de feijes e gravanos dois dos sacos de plstico que levavam, Guarda o que no presta, encontrars o que  preciso, 
dissera-lhe uma av, no fim das contas a gua em que os pusesse de molho tambm serviria para coz-los, e a que restasse da cozedura teria deixado de ser gua para 
tornar-se caldo. No  s na natureza que algumas vezes nem tudo se perde e algo se aproveita.
     
     Por que carregavam eles os sacos dos feijes e dos gros, mais o que iam podendo colher, quando ainda tinham tanto que andar antes de chegarem  rua onde moravam 
o primeiro cego e sua mulher, que aqui vo,  pergunta que s poderia sair da boca de quem na vida nunca soube o que so faltas. Para casa, nem que seja uma pedra, 
dissera aquela mesma av da mulher do mdico, s no pensou em acrescentar, Mesmo que seja preciso dar a volta ao mundo, essa era a proeza que eles estavam cometendo 
agora, iam para casa pelo caminho mais longo. Onde estamos, perguntou o primeiro cego, disse-lho a mulher do mdico, para isso tinha olhos, e ele, Foi aqui que ceguei, 
na esquina onde est o semforo,  mesmo nessa esquina que nos encontramos, Aqui, Exactamente aqui. No quero nem lembrar-me do que passei, fechado no carro sem 
poder ver, as pessoas a berrarem c fora, e eu desesperado, a gritar que estava cego, at que veio aquele e me levou a casa, Pobre homem, disse a mulher do primeiro 
cego, nunca mais roubar carros, Tanto nos custa a ideia de que temos de morrer, disse a mulher do mdico, que sempre procuramos arranjar desculpas para os mortos, 
 como se antecipadamente estivssemos a pedir que nos desculpem quando a nossa vez chegar, Tudo isto me continua a parecer um sonho, disse a mulher do primeiro 
cego,  como se sonhasse que estou cega, Quando eu estava em casa,  tua espera, tambm o pensei, disse o marido. Tinham deixado a praa onde o caso sucedera, agora 
subiam por umas ruas estreitas labirnticas, a mulher do mdico conhece mal estes stios, mas o primeiro cego no se perde, vai orientando, ela anuncia os nomes 
das ruas e ele diz, Viramos  esquerda, viramos  direita, finalmente disse,  esta a nossa rua, o prdio est  do lado esquerdo, mais ou menos ao meio, Que nmero 
tem, perguntou a mulher do mdico, ele no se lembrava, Ora esta, ento no  que no me lembro, varreu-se-me da cabea, disse, era um pssimo agoiro, se j nem 
sequer sabemos onde moramos, o sonho a tomar o lugar da memria, aonde iremos parar por este caminho. V l que desta vez o caso no  grave, felizmente que a mulher 
do primeiro cego teve a ideia de vir na excurso, a a temos j a dizer o nmero do prdio, evitou-se ter de recorrer ao que o primeiro cego estava a gabar-se de 
ser capaz de conseguir, reconhecer a porta pela magia do tacto, como se levasse a varinha de condo da bengalinha, um toque, metal, outro toque, madeira, com mais 
trs ou quatro chegaria ao desenho completo, no tenho dvidas,  esta. Entraram, a mulher do mdico  frente, Qual  o andar, perguntou, Terceiro, respondeu o primeiro 
cego, no andava com a memria to afracada quanto havia parecido, umas coisas esquecem,  a vida, outras lembram, por exemplo, recordar-se de quando, j cego, por 
esta porta tinha entrado, Em que andar mora, perguntou-lhe o homem que ainda no tinha roubado o automvel, Terceiro, respondeu, a diferena  no estarem agora 
a subir no elevador, vo pisando os degraus invisveis duma escada que  ao mesmo tempo escura e luminosa, a falta que faz a electricidade a quem no  cego, ou 
a luz do sol, ou um coto de vela, agora os olhos da mulher do mdico j tiveram tempo de adaptar-se  penumbra, a meio caminho os que sobem esbarraram com duas mulheres 
que desciam, cegas dos andares superiores, talvez do terceiro, ningum fez perguntas, de facto os vizinhos j no so o que dantes eram.
     
     A porta estava fechada. Como vamos fazer - perguntou a mulher do mdico. Eu falo, disse o primeiro cego. Bateram uma vez, duas, trs vezes, no h ningum, 
disse um destes no preciso momento em que a porta se abria, a demora no era de estranhar. um cego que esteja l  no fundo da casa no pode vir correndo atender
a quem? chamou, Quem , deseja alguma coisa, perguntou o homem que apareceu, tinha um ar srio, educado, devia ser pessoa tratvel. Disse o primeiro cego, Eu morava
nesta casa, Ah, foi a resposta do outro, depois perguntou, Est mais algum consigo, A minha mulher, e tambm uma amiga nossa, Como posso saber que esta casa era
sua,  fcil, disse a mulher do primeiro cego, digo-lhe tudo quanto h a dentro.
     O outro ficou calado uns segundos, depois disse, Entrem. A mulher do mdico deixou-se ir atrs, ningum aqui precisava de um guia. O cego disse, Estou sozinho,
os meus foram  procura de comida, provavelmente deveria dizer as minhas, mas no creio que seja prprio, fez uma pausa e acrescentou, Embora pense que tinha obrigao
de o saber, Que quer dizer, perguntou a mulher do mdico, As minhas de que falava so a minha mulher e as minhas duas filhas, E por que deveria saber se  ou no
prprio usar o possessivo no feminino, Sou escritor, supe-se que devemos saber estas coisas. O primeiro cego sentiu-se lisonjeado, imaginem, um escritor instalado
na minha casa, ento entrou-lhe uma dvida, se seria de boa educao perguntar ao outro como se chamava, provavelmente at o conhecia de nome, podia ser. at, que
o tivesse lido, ainda estava neste balano entre a curiosidade e a discrio quando a mulher fez a pergunta directa, Como se chama, Os cegos no precisam de nome,
eu sou esta voz que tenho, o resto no  importante, Mas escreveu livros, e esses livros levam o seu nome, disse a mulher do mdico, Agora ningum os pode ler, portanto 
 como se no existissem. O primeiro cego achou que o rumo da conversa se estava a afastar demasiado da questo que mais lhe interessava, E como foi que veio ter 
 minha casa, perguntou, Como muitos outros que j no vivem onde viviam, encontrei a minha casa ocupada por pessoas que no quiseram saber de razes, pode-se dizer 
que fomos atirados pela escada abaixo, E longe a sua casa, No, Fez mais alguma tentativa para recuper-la, l perguntou a mulher do mdico,  frequente agora as 
pessoas irem de uma casa para outra, Tentei ainda duas vezes, E continuavam l, Sim. E que pensa fazer depois de saber que esta casa  nossa, quis saber o primeiro 
cego, vai expulsar-nos como os outros lhe fizeram a si, No tenho idade nem foras para tal, e, ainda que as tivesse, no creio que fosse capaz de recorrer a processos 
to expeditivos como esse, um escritor acaba por ter na vida a pacincia de que precisou para escrever, Ir, portanto, deixar-nos a casa, Sim, se no encontrarmos
outra soluo, No vejo que outra soluo possa ser encontrada. A mulher do mdico j adivinhara qual ia ser a resposta do escritor, Voc e a sua mulher, como a
amiga que vos acompanha, vivem numa casa, suponho, Sim, exactamente em casa dela, Est longe, No se pode dizer que esteja longe, Ento, se mo permitem, tenho uma
proposta a fazer-lhes, Diga, Que continuemos como estamos, neste momento ambos temos uma casa onde podemos viver, eu continuarei atento ao que se for passando com
a minha, se um dia a encontrar desocupada mudo-me imediatamente para l, o senhor far o mesmo, vir  aqui com regularidade, e quando a encontrar vazia, muda-se,
No tenho a certeza de que a ideia me agrade, No esperava que lhe agradasse, mas duvido de que possa ser-lhe mais agradvel a nica alternativa que resta, Qual
 ela, Recuperarem neste mesmo instante a casa que vos pertence, Mas, sendo assim, Exacto, sendo as sim iremos ns viver por a, No, isso nem pensar, interveio
a mulher do primeiro cego, deixemos as coisas como esto, a seu tempo se ver, Ocorreu-me agora que ainda h uma outra soluo, disse o escritor, E essa, perguntou 
o primeiro cego, Vivermos ns aqui como vossos hspedes, a casa da ria para todos, No, disse a mulher do primeiro cego, continuaremos como at agora, a morar com 
esta nossa amiga, no preciso perguntar-te se ests de acordo, acrescentou para a mulher do mdico, Nem eu responder-te, Fico obrigado a todos, disse o escritor,
na verdade tinha estado todo este tempo  espera de que nos viessem reclamar a casa, Contentar-se com o que se vai tendo  o mais natural quando se est cego, disse
a mulher do mdico, Como foi que viveram desde que principiou a epidemia, Samos do internamento h trs dias, Ah, so dos que foram postos de quarentena, Sim, Foi
duro, Seria dizer pouco, Horrvel, O senhor  escritor, tem, como disse h pouco, obrigao de conhecer as palavras, portanto sabe que os adjectivos no nos servem
de nada, se uma pessoa mata outra, por exemplo, seria melhor enunci-lo assim, simplesmente, e confiar que o horror do acto, s por si, fosse to chocante que nos
dispensasse de dizer que foi horrvel, Quer dizer que temos palavras a mais, Quero dizer que temos sentimentos a menos, Ou temo-los, mas deixemos de usar as palavras
que os expressam, E portanto perdemo-los, Gostaria que me falassem de como viveram na quarentena, Porqu, Sou escritor, Era preciso ter l estado, Um escritor 
como outra pessoa qualquer, no pode saber tudo nem pode viver tudo, tem de perguntar e imaginar, Um dia talvez lhe conte como foi aquilo, poder  depois escrever
um livro, Estou a escrev-lo, Como, se est cego, Os cegos tambm podem escrever, Quer dizer que teve tempo de aprender o alfabeto braille, No conheo o alfabeto
braille, Como pode escrever, ento, perguntou o primeiro cego, Vou mostrar-lhes. Levantou-se da cadeira, saiu, passado um minuto regressou, trazia na mo uma folha
de papel e uma esferogrfica,  a ltima pgina completa que tenho escrita, No a podemos ver, disse a mulher do primeiro cego, Eu tambm no, disse o escritor,
Ento como  que pode escrever, perguntou a mulher do mdico, olhando a folha de papel, onde, na meia luz da sala, se distinguiam as linhas muito apertadas, sobrepostas
em um e outro pontos, Pelo tacto, respondeu sorrindo o escritor, no  difcil, coloca-se a folha de papel sobre uma superfcie um pouco branda, como podem ser.
por exemplo, outras folhas de papel, depois  s escrever, Mas, se no v, disse o primeiro cego, A esferogrfica  um bom instrumento de trabalho para escritores
cegos, no serve para lhe dar a ler o que tenha escrito. Mas serve para saber onde escreveu. basta que v seguindo com o dedo a depresso da ltima linha escrita,
ir assim andando at  aresta da folha, calcular a distancia para a nova linha e continuar,  muito fcil. Noto que as linhas s vezes se sobrepem, disse a mulher
do mdico. tomando-lhe delicadamente da mo a folha de papel, Como sabe, Eu vejo, V, recuperou a vista, como, quando, perguntou o escritor nervosamente, Suponho
que sou a nica pessoa que nunca a perdeu, E porqu, que explicao tem para isso, No tenho nenhuma explicao, provavelmente nem a h, Isso significa que viu tudo
o que se tem passado, Vi o que vi, no tive outro remdio, Quantas pessoas estiveram nessa quarentena, Cerca de trezentas, Desde quando, Desde o principio, s samos
h trs dias, como lhe disse, Creio que fui eu o primeiro a cegar, disse o primeiro cego, Deve ter sido horrvel, Outra vez essa palavra, disse a mulher do mdico,
Desculpe-me, de repente parece-me ridculo tudo o que tenho andado a escrever desde que ns cegmos, a minha famlia e eu, Sobre que , Sobre o que sofremos, sobre
a nossa vida, Cada um deve falar do que sabe, e aquilo que no souber, pergunta, Eu pergunto-lhe a si, E eu lhe responderei, no sei quando, um dia. A mulher do
mdico tocou com a folha de papel na mo do escritor, No se importa de me mostrar onde trabalha, o que est a escrever, Pelo contrrio, venha comigo, Ns tambm
podemos ir, perguntou a mulher do primeiro cego, A casa  vossa, disse o escritor, eu aqui s estou de passagem No quarto de dormir havia uma pequena mesa, sobre
ela um candeeiro apagado. A luz baa que entrava pela janela deixava ver,  esquerda, umas folhas em branco, outras,  mo direita, escritas, ao centro uma que estava
em meio. Havia duas esferogrficas novas ao lado do candeeiro. Aqui tm, disse o escritor. A mulher do mdico perguntou, Posso, sem esperar a resposta pegou nas
folhas escritas, umas vinte seriam, passou os olhos pela caligrafia mida, pelas linhas que subiam e desciam, pelas palavras inscritas na brancura do papel, gravadas
na cegueira, Estou de passagem, dissera o escritor, e estes eram os sinais que ia deixando ao passar. A mulher do mdico ps-lhe a mo no ombro, e ele com as suas
duas mos foi l busc-la, levou-a devagar aos lbios, No se perca, no se deixe perder, disse, e eram palavras inesperadas, enigmticas, no parecia que viessem
a propsito.

     Quando regressaram a casa, carregando alimentos bastantes para trs dias, a mulher do mdico, entremeando com as excitadas ajudas do primeiro cego e da mulher,
contou o que se tinha passado. E  noite, como tinha de ser. leu para todos umas quantas pginas de um livro que havia ido buscar  biblioteca. O assunto no interessou
ao rapazinho estrbico, que em pouco tempo adormeceu com a cabea no colo da rapariga dos culos escuros e os ps sobre as pernas do velho da venda preta.

     Passados dois dias o mdico disse, Gostava de saber o que se ter  passado com o consultrio, nesta altura no servimos para nada, nem ele, nem eu, mas talvez
as pessoas voltem um dia a ter o uso dos olhos, os aparelhos ainda devem l estar,  espera, Vamos quando quiseres, disse a mulher, agora mesmo, E podamos aproveitar 
a sada para passarmos pela minha casa, se no se importarem, disse a rapariga dos culos escuros, no 
     que eu pense que os meus pais tenham voltado,  s por um descargo de conscincia, Tambm iremos  tua casa, disse a mulher do mdico. Ningum mais se quis 
juntar  expedio de reconhecimento dos domiclios, o primeiro cego e a mulher porque j sabiam com o que podiam contar, o velho da venda preta sabia-o igualmente, 
embora no pelas mesmas razes, e o rapazinho estrbico porque continuava a no se lembrar do nome da rua onde morara. O tempo estava claro, parecia que as chuvas 
tinham acabado, e o sol, ainda que plido, j comeava a sentir-se na pele, No sei como poderemos continuar a viver se o calor apertar, disse o mdico, todo este 
lixo a apodrecer por a, os animais mortos, talvez mesmo pessoas, deve haver pessoas mortas dentro das casas, o mal  no estarmos organizados, devia haver uma organizao 
em cada prdio, em cada rua, em cada bairro, Um governo, disse a mulher, Uma organizao, o corpo tambm  um sistema organizado, est vivo enquanto se mantm organizado, 
e a morte no  mais do que o efeito de uma desorganizao, E como poder  uma sociedade de cegos organizar-se para que viva, Organizando-se. organizar-se j , de 
uma certa maneira. Comear a ter olhos. Ter s razo, talvez, mas a experincia desta cegueira s nos trouxe morte e misria, os meus olhos, tal como o teu consultrio. 
no serviram para nada, Graas aos teus olhos  que estamos vivos. disse a rapariga dos culos escuros, Tambm o estaramos se eu fosse cega, o mundo est cheio 
de cegos vivos, Eu acho que vamos morrer todos,  uma questo de tempo, Morrer sempre foi uma questo de tempo, disse o mdico, Mas morrer s porque se est cego, 
no deve haver pior maneira de morrer, Morremos de doenas, de acidentes, de acasos, E agora morreremos tambm porque estamos cegos, quero dizer, morreremos de cegueira 
e de cancro, de cegueira e de tuberculose, de cegueira e de sida, de cegueira e de enfarte, as doenas podero ser diferentes de pessoa para pessoa, mas o que verdadeiramente 
agora nos est a matar  a cegueira, No somos imortais, no podemos escapar  morte, mas ao menos devamos no ser cegos, disse a mulher do mdico, Como, se esta 
cegueira  concreta e real. disse o mdico, No tenho a certeza, disse a mulher, Nem eu. disse a rapariga dos culos escuros.
     
     No tiveram de forar a porta, abriram-na normalmente, a chave encontrava-se no chaveiro pessoal do mdico, que tinha ficado na casa quando foram levados para 
a quarentena. Aqui  a sala de espera, disse a mulher do mdico, A sala onde eu estive, disse a rapariga dos culos escuros, o sonho continua, mas no sei que sonho 
, se o sonho de sonhar que estive naquele dia a sonhar que estou aqui cega, ou o sonho de ter estado sempre cega e vir sonhando ao consultrio para me curar de 
uma inflamao dos olhos em que no havia nenhum perigo de cegueira, A quarentena no foi um sonho, disse a mulher do mdico, Isso no foi, no, como no o foi termos 
sido violadas, Nem eu ter apunhalado um homem, Leva-me ao gabinete, eu posso l chegar sozinho, mas leva-me tu, disse o mdico. A porta estava aberta. A mulher do 
mdico disse, Est tudo revolvido, papis pelo cho, as gavetas do ficheiro foram levadas, Devem ter sido os do ministrio, para no perderem tempo a procurar, Provavelmente. 
E os aparelhos,  vista parecem-me estar em ordem, Valha-nos isso, ao menos, disse o mdico. Avanou sozinho, com os braos estendidos, tocou a caixa das lentes, 
o oftalmoscpio, a secretria, depois disse, dirigindo-se  rapariga dos culos escuros, Compreendo o que queres dizer quando falas de estares a viver um sonho. 
Sentou-se  secretria', pousou as mos no tampo de vidro coberto de p, depois disse, com um sorriso triste e irnico, como se se dirigisse a algum que estivesse 
na sua frente, Pois no, senhor doutor, tenho muita pena, mas o seu caso no tem remdio, se quer que lhe d um ltimo conselho acolha-se ao dito antigo, tinham 
razo os que diziam que a pacincia  boa para a vista, No nos faas sofrer, disse a mulher, Desculpa-me, desculpa-me tu tambm, estamos no lugar onde dantes se 
faziam os milagres, agora nem sequer tenho as provas dos meus poderes mgicos, levaram-nas todas, O nico milagre que podemos fazer ser  o de continuar a viver, 
disse a mulher, amparar a fragilidade da vida um dia aps outro dia. como se fosse ela a cega, a que no sabe para onde ir, e talvez assim seja, talvez ela realmente 
no o saiba, entregou-se s nossas mos depois de nos ter tornado inteligentes, e a isto a trouxemos, Falas como se tambm tu estivesses cega, disse a rapariga dos 
culos escuros, De uma certa maneira,  verdade, estou cega da vossa cegueira, talvez pudesse comear a ver melhor se fssemos mais os que vem, Temo que sejas como 
a testemunha que anda  procura do tribunal aonde a convocou no sabe quem e onde ter  de declarar no sabe qu, disse o mdico, O tempo est-se a acabar, a podrido 
alastra as doenas encontram as portas abertas, a gua esgota-se. A comida tornou-se veneno, seria esta a minha primeira declarao, disse a mulher do mdico, E 
a segunda, perguntou a rapariga dos culos escuros, Abramos os olhos, No podemos, estamos cegos, disse o mdico,  uma grande verdade a que diz que o pior cego 
foi aquele que no quis ver, Mas eu quero ver, disse a rapariga dos culos escuros, No ser  por isso que vers, a nica diferena era que deixarias de ser a pior 
cega, e agora vamo-nos, no h mais que ver aqui, disse o mdico.
     
     No caminho para a casa da rapariga dos culos escuros atravessaram uma grande praa onde havia grupos de cegos que escutavam os discursos doutros cegos,  primeira 
vista nem uns nem outros pareciam cegos, os que falavam viravam inflamadamente a cara para os que ouviam, os que ouviam viravam atentamente a cara para os que falavam. 
Proclamava-se ali o fim do mundo, a salvao penitencial, a viso do stimo dia. o advento do anjo, a coliso csmica, a extino do sol, o esprito da tribo, a 
seiva da mandrgora, o unguento do tigre, a virtude do signo, a discipline do vento, o perfume da lua, a reivindicao da treva, o poder do esconjuro, a marca do 
calcanhar, a crucificao da rosa, a pureza da linfa, o sangue do gato preto, a dormncia da sombra, a revolta das mars, a lgica da antropofagia, a castrao sem 
dor, a tatuagem divina, a cegueira voluntria, o pensamento convexo, o cncavo, o piano, o vertical, o inclinado, o concentrado, o disperso, o fugido, a ablao 
das cordas vocais, a morte da palavra, Aqui no h ningum a falar de organizao, disse a mulher do mdico ao marido, Talvez a organizao seja noutra praa, respondeu 
ele. Continuaram a andar. Um pouco adiante a mulher do mdico disse, H mais mortos no caminho do que  costume,  a nossa resistncia que est a chegar ao fim, 
o tempo acaba-se, a gua esgota-se, as doenas crescem, a comida torna-se veneno, tu o disseste antes, lembrou o mdico, Quem sabe se entre estes mortos no estaro 
os meus pais, disse a rapariga dos culos escuros, e eu aqui passando ao lado deles, e no os vejo,  um velho costume da humanidade, esse de passar ao lado dos 
mortos e no os ver, disse a mulher do mdico.
     
     A rua onde morara a rapariga dos culos escuros parecia ainda mais abandonada.  porta do prdio estava o corpo de uma mulher. Morta, meio comida pelos animais 
vadios, felizmente que o co das lgrimas hoje no quis vir, seria preciso dissuadi-lo de meter o seu prprio dense nesta carcaa.  a vizinha do primeiro andar, 
disse a mulher do mdico, Quem, onde, perguntou o marido, Aqui mesmo, a vizinha do primeiro andar, o cheiro sente-se, Pobre criatura, disse a rapariga dos culos 
escuros, por que ter ela vindo para a rua, se nunca saa, Talvez se tenha apercebido de que a morte estava a chegar, talvez no tenha podido suportar a ideia de 
ficar sozinha em casa, a apodrecer, disse o mdico, E agora no vamos poder entrar, no tenho as chaves, Pode ser que os teus pais tenham voltado, que estejam em 
casa  tua espera, disse o mdico, No acredito, Tens razo em no acreditares, disse a mulher do mdico, as chaves esto aqui.
     No cncavo da mo morta, meio aberta, pousada no cho,  apareciam, brilhantes, luminosas, umas chaves. Talvez sejam as dela, disse a rapariga dos culos escuros, 
No creio, no tinha nenhum motivo para trazer as suas chaves a onde pensava ir morrer, Mas eu, estando cega, no as poderia ver, se foi essa a ideia dela, devolver-mas, 
para que eu pudesse encontrar em casa, No sabemos que pensamentos foram os seus quando decidiu trazer as chaves consigo, talvez tenha imaginado que tu virias a 
recuperar a vista, talvez tenha desconfiado de que houve algo de pouco natural, de demasiado fcil, na maneira como nos movemos quando c estivemos, talvez me tenha 
ouvido dizer que a escada estava escura, que  mal se podia ver, que eu mal a podia ver, ou ento nada disto, delrio, demncia, foi como se, com a razo perdida, 
lhe tivesse entrado a ideia fixa de te entregar as chaves, a nica coisa que sabemos  que a vida se lhe acabou ao pr o p fora da porta. A mulher do mdico recolheu 
as chaves, entregou-as  rapariga dos culos escuros, depois perguntou, E agora que fazemos, vamos deix-la aqui, No podemos enterr-la na rua, no temos com que 
levantar as pedras, disse o mdico, h o quintal, Ser  preciso subi-la at ao segundo andar e depois desc-la pela escada de salvao,  a nica forma, Teremos foras 
para tanto, perguntou a rapariga dos culos escuros, A questo no  se teremos ou no teremos foras, a questo  se iremos permitir-nos a ns prprios deixar aqui 
esta mulher, Isso no, disse o mdico, Ento as foras ho-de arranjar-se. De facto, arranjaram-se, mas foi o cabo dos trabalhos transportar o cadver degraus acima, 
e no pelo que pesasse, j pouco de natureza, e agora ainda menos, depois do que dele se tinham beneficiado o ces e os gatos, mas porque o corpo estava rgido, 
inteiriado, custava a dar-lhe a volta nas curvas da estreita escada, para uma ascenso to curta tiveram de descansar quatro vezes. Nem o rudo, nem as vozes, nem 
o cheiro de decomposio fizeram aparecer nos patamares outros habitantes do prdio, Era o que eu pensava, os meus pais no esto c, disse a rapariga dos culos 
escuros. Quando enfim chegaram  porta, estavam exaustos, e ainda lhes faltava atravessar a casa para o lado de trs, descer a escada de salvao, mas a, com a 
ajuda dos santos, que sendo para baixo acodem todos, j melhor se levou o carregamento, as voltas eram boas de dar por ser a escada a cu aberto, s houve que ter 
cuidado em no deixar escapar das mos o corpo da pobre criatura, o trambolho deix-la-ia sem conserto, sem falar das dores, que depois da morte so piores.
     
     O quintal estava como uma selva jamais explorada, as ltimas chuvas tinham feito crescer abundantemente a erva e as plantas bravas trazidas pelo vento, no 
faltaria comida fresca aos coelhos que andavam por ali aos saltos, as galinhas governam-se mesmo em regime seco. Estavam sentados no cho, ofegantes, o esforo deixara-os 
arrasados, ali ao lado o cadver descansava como eles, protegido pela mulher do mdico, que ia enxotando as galinhas e os coelhos, eles s curiosos, de nariz a tremer, 
elas j de bico em baioneta, dispostas a tudo. Disse a mulher do mdico, Antes de ter sado para a rua, lembrou-se de abrir a porta da coelheira, no quis que os 
coelhos morressem de fome,  bem certo que o difcil no  viver com as pessoas, o difcil  compreend-las, disse o mdico. A rapariga dos culos escuros limpava 
as mos sujas a um punhado de ervas que arrancara, a culpa era sua, tinha agarrado o cadver por onde no deveria,  o que faz andar sem olhos. Disse o mdico, Do 
que precisamos  de uma enxada, ou de uma p, aqui se pode observar como o autntico eterno retorno  o das palavras, agora regressaram estas, ditas pelas mesmas 
razes, primeiro foi o homem que roubou o automvel, agora vai ser a velha que restituiu as chaves, depois de enterrados no se notaro as diferenas, salvo se as 
tiver guardado alguma memria. A mulher do mdico subira a casa da rapariga dos culos escuros para ir buscar um lenol limpo, teve de escolher entre os que se encontravam 
menos sujos, quando desceu era a festa das galinhas, os coelhos s remoam a erva fresca. Coberto e envolvido o cadver, a mulher foi  procura da p ou enxada. 
Encontrou ambas num casinhoto onde havia outras ferramentas. Eu trato disto, disse, a terra est hmida, cava-se bem, vocs descansem. Escolheu um stio onde no 
houvesse razes, daquelas que  preciso cortar com golpes sucessivos da enxada, e no se julgue que se trata de uma tarefa fcil, as razes tm manha, sabem aproveitar-se 
da moleza da terra para se esquivarem  pancada e amortecerem o efeito mortfero da guilhotina. Nem a mulher do mdico, nem o marido, nem a rapariga dos culos escuros, 
ela por estar entregue ao seu trabalho, eles por no lhes servirem de nada os olhos, deram pelo aparecimento dos cegos nas varandas circundantes, no muitos, no 
em todas, devia t-los atrado o rudo da enxada, mesmo estando a terra mole  inevitvel, sem esquecer que h sempre uma pequena pedra escondida que responde sonoramente 
ao golpe. Eram homens e mulheres que pareciam fluidos como espectros, podiam ser fantasmas assistindo por curiosidade a um enterro, apenas para recordarem como tinha 
sido no seu caso. A mulher do mdico viu-os, enfim, quando, terminada a cova, aprumou os rins doloridos e levou o antebrao  fronte para enxugar o suor.
     Ento, levada por um impulso irresistvel, sem o ter pensado antes, gritou para aqueles cegos e para todos os cegos do mundo, Ressurgir, note-se que no disse 
Ressuscitar, o caso no era para tanto, embora o dicionrio esteja a para afirmar, prometer ou ensinar que se trata de perfeitos e exactos sinnimos. Os cegos 
assustaram-se e meteram-se para dentro das casas, no percebiam por que fora dita uma tal palavra, alm disso no deviam estar preparados para uma revelao destas, 
via-se que no eram frequentadores da praa dos anunciamentos mgicos, a cuja relao, para ficar completa, s tinha faltado acrescentar a cabea do louva-a-deus 
e o suicdio do lacrau. O mdico perguntou, Por que disseste ressurgir, para quem falavas, Para uns cegos que apareceram a nas varandas, assustei-me e devo t-los 
assustado, E porqu essa palavra, No sei, apareceu-me na cabea e disse-a, S te falta ires pregar  praa por onde passmos, Sim, um sermo sobre o dente do co 
velho e o bico da galinha, vem ajudar-me agora, por aqui, isso mesmo, pega-lhe pelos ps, eu levanto-a deste lado, cuidado, no me resvales tu para dentro da cova, 
isso, assim, baixa-a devagarinho, mais, mais, fiz a cova um pouco funda por causa das galinhas, quando se pem a esgaravatar nunca se sabe aonde podem chegar, j 
est. Serviu-se da p para encher a cova, calcou bem a terra, comps o montculo que sempre sobra da terra que voltou  terra, como se nunca tivesse feito outra 
coisa na vida. Finalmente, arrancou uma rama da roseira que crescia num canto do quintal e foi plant-la na base do momento, do lado da cabea. Ressurgir, perguntou 
a rapariga dos culos escuros, Ela, no, respondeu a mulher do mdico, mais necessidade teriam os que esto vivos de ressurgir de si mesmos, e no o fazem, J estamos 
meio mortos, disse o mdico, Ainda estamos meio vivos, respondeu a mulher. Foi guardar no casinhoto a p e a enxada, passou uma vista de olhos pelo quintal para 
certificar-se de que tudo ficava em ordem, Que ordem, perguntou a si mesma, e a si mesma deu a resposta, A ordem que quer os mortos no seu lugar de mortos e os vivos 
no seu lugar de vivos, enquanto as galinhas e os coelhos alimentam uns e se alimentam de outros, Gostaria de deixar um sinal qualquer aos meus pais, disse a rapariga 
dos culos, s para saberem que estou viva, No quero tirar-te as iluses, disse o mdico, mas primeiro teriam eles de encontrar a casa, e isso  pouco provvel, 
pensa que nunca conseguiramos aqui chegar se no tivssemos quem nos guiasse, Tem razo, e eu nem sequer sei se eles ainda esto vivos, mas, se no lhes deixo um 
sinal, qualquer coisa, sentir-me-ei como se os tivesse abandonado, Que h-de ser. ento, perguntou a mulher do mdico, Algo que eles possam reconhecer pelo tacto, 
disse a rapariga dos culos escuros, o mau  que j no levo nada dos outros tempos no corpo. A mulher do mdico olhava-a, ela estava sentada no primeiro degrau 
da escada de salvao, com as mos abandonadas sobre os joelhos, angustiado o formoso rosto, os cabelos espalhados pelos ombros, J sei que sinal lhes vais deixar, 
disse. Subiu rapidamente a escada, tornou a entrar na casa e voltou com uma tesoura e um pedao de cordel, Que ideia  a tua, perguntou a rapariga dos culos escuros, 
inquieta, ao sentir o rangido da tesoura a cortar-lhe o cabelo, Se os teus pais voltarem, encontraro dependurada no puxador da porta uma madeixa, de quem poderia 
ela ser seno da filha, perguntou a mulher do mdico, Ds-me vontade de chorar, disse a rapariga dos culos escuros, e to depressa o disse como o fez, com a cabea 
descada sobre os braos cruzados nos joelhos desafogou as suas mgoas, a saudade, a comoo pela lembrana que tivera a mulher do mdico, depois percebeu, sem saber 
por que caminhos do sentimento l tinha chegado, que tambm estava a chorar pela velha do primeiro andar, a comedora de carne crua, a bruxa horrvel, a que com a 
sua mo morta lhe havia restitudo as chaves da sua casa. E ento a mulher do mdico disse, Que tempos estes, j vemos invertida a ordem das coisas, um smbolo que 
quase sempre foi de morte a tornar-se em sinal de vida, H mos capazes desses e de outros maiores prodgios, disse o mdico, Necessidade pode muito, meu querido, 
disse a mulher, e agora chega de filosofias e taumaturgias, dmo-nos as mos e vamos  vida. Foi a prpria rapariga dos culos escuros quem pendurou no puxador a 
madeixa de cabelo, Crs que os meus pais daro por ela, perguntou, O puxador da porta  a mo estendida de uma casa, respondeu a mulher do mdico, e com esta frase 
de efeito, assim se diria, deram a visita por terminada.
     
     Nessa noite houve novamente leitura e audio, no tinham outra mane ira de se distrarem, lstima que o mdico no fosse, por exemplo. violinista amador que 
doces serenatas poderiam ento ouvir-se neste quinto andar, os vizinhos invejosos diriam, Aqueles, ou lhes corre bem a vida, ou so uns inconscientes e julgam poder 
fugir  desgraa rindo-se da desgraa dos mais. Agora no h outra msica seno a das palavras, e essas, sobretudo as que esto nos livros, so discretas, ainda 
que a curiosidade trouxesse a escutar  por ta algum do prdio, no ouviria mais do que um murmrio solitrio, este longo fio de som que poder infinitamente prolongar-se, 
porque os livros do mundo, todos juntos, so como dizem que  o universo, infinitos. Quando a leitura terminou, noite dentro, o velho da venda preta disse, A isto 
estamos reduzidos, a ouvir ler, Eu no me queixo, poderia ficar assim para sempre, disse a rapariga dos culos escuros, Nem eu me estou a queixar, s digo que apenas 
servimos para isto, para ouvir ler a histria de uma humanidade que antes de ns existiu, aproveitamos o acaso de haver aqui ainda uns olhos lcidos, os ltimos 
que restam, se um dia eles se apagarem, no quero nem pensar, ento o fio que nos une a essa humanidade partir-se-, ser como se estivssemos a afastar-nos uns 
dos outros no espao, para sempre, e to cegos eles como ns, Enquanto puder, disse a rapariga dos culos escuros, manterei a esperana, a esperana de vir a encontrar 
os meus pais, a esperana de que a me deste rapaz aparea, Esqueceste-te de falar da esperana de todos, Qual, A de recuperar a vista, H esperanas que  loucura 
ter, Pois eu digo-te que se no fossem essas j eu teria desistido da vida, D-me um exemplo, Voltar a ver, Esse j conhecemos, d-me outro, No dou, Porqu, No 
te interessa, E como sabes que no me interessa, que julgas tu conhecer de mim para decidires, por tua conta, o que me interessa e o que no me interessa, No te 
zangues, no tive inteno de magoar-te, Os homens so todos iguais, pensam que basta ter nascido de uma barriga de mulher para saber tudo de mulheres, Eu de mulheres 
sei pouco, de ti nada, e quanto a homem, para mim, ao tempo que isso vai, agora sou um velho, e zarolho, alm de cego, No tens mais nada para dizeres contra ti, 
Muito mais, nem tu imaginas quanto a lista negra das auto-recriminaes vai crescendo  medida que os anos passam, Nova sou eu, e j estou bem servida, Ainda no 
fizeste nada de verdadeiramente mau, Como podes sab-lo, se nunca viveste comigo, Sim, nunca vivi contigo, Por que repetiste nesse tom as minhas palavras, Que tom, 
Esse, S disse que nunca vivi contigo, O tom, o tom, no finjas que no compreendes, No insistas, peo-te, Insisto, preciso saber, Voltamos s esperanas, Pois 
voltemos, O outro exemplo de esperana que me recusei a dar era esse, Esse, qual, A ltima auto-recriminao da minha lista, Explica-te, por favor, no entendo de 
charadas, O monstruoso desejo de que no venhamos a recuperar a vista, Porqu, Para continuarmos a viver assim, Queres dizer, todos juntos, ou tu comigo, No me 
obrigues a responder, Se fosses s um homem poderias fugir  resposta, como todos fazem, mas tu mesmo disseste que s um velho, e um velho, se ter vivido tanto tem 
algum sentido, no dever virar a cara  verdade, responde, Eu contigo, E por que queres tu viver comigo, Esperas que o diga diante de todos eles, Fizemos uns diante 
dos outros as coisas mais sujas, mais feias, mais repugnantes, com certeza no  pior o que tens para dizer-me, J que o queres, ento seja, porque o homem que eu 
ainda sou gosta da mulher que tu s, Custou assim tanto a fazer a declarao de amor, Na minha idade, o ridculo mete medo, No foste ridculo, Esqueamos isto, 
peo-te, No tenciono esquecer nem deixar que esqueas,  um disparate, obrigaste-me a falar, e agora, E agora  a minha vez, No digas nada de que te possas arrepender, 
lembra-te da lista negra, Se eu estiver a ser sincera hoje, que importa que tenha de arrepender-me amanh, Cala-te, Tu queres viver comigo e eu quero viver contigo, 
Ests doida, Passaremos a viver juntos aqui, como um casal, e juntos continuaremos a viver se tivermos de nos separar dos nossos amigos, dois cegos devem poder ver 
mais do que um,  uma loucura, tu no gostas de mim, Que  isso de gostar, eu nunca gostei de ningum, s me deitei com homens, Ests a dar-me razo, No estou, 
Falaste de sinceridade, responde-me ento se  mesmo verdade gostares de mim, Gosto o suficiente para querer estar contigo, e isto  a primeira vez que o digo a 
algum, Tambm no mo dirias a mim se me tivesses encontrado antes por a, um homem de idade, meio calvo, de cabelos brancos, com uma pala num olho e uma catarata 
no outro, A mulher que eu ento era no o diria, reconheo, quem o disse foi a mulher que sou hoje, Veremos ento o que ter para dizer a mulher que sers amanh, 
Pes-me  prova, Que ideia, quem seria eu para pr-te  prova, a vida  que decide essas coisas, Uma j ela decidiu.
     
     Tiveram esta conversa frente a frente, os olhos cegos de um fitos nos olhos cegos do outro, os rostos escondidos e veementes, e quando, por t-lo dito um deles 
e por o quererem os dois, concordaram que a vida tinha decidido que passassem a viver juntos, a rapariga dos culos escuros estendeu as mos, simplesmente para as 
dar, no para saber por onde ia, tocou as mos do velho da venda preta, que a atraiu suavemente para si, e assim ficaram sentados os dois, juntos, no era a primeira 
vez, claro est, mas agora tinham sido ditas as palavras de recebimento. Nenhum dos outros fez comentrios, nenhum deu parabns, nenhum exprimiu votos de felicidade 
eterna, em verdade o tempo no est para festejos e iluses, e quando as decises so to graves como esta parece ter sido, no surpreenderia at que algum tivesse 
pensado que  preciso ser-se cego para comportar-se desta maneira, o silncio ainda  o melhor aplauso. O que a mulher do mdico fez foi estender no corredor uns 
quantos coxins dos sofs, suficientes para improvisar comodamente uma cama, depois levou para l o rapazinho estrbico e disse-lhe, A partir de hoje passas a dormir 
aqui. Quanto ao que aconteceu na sala, tudo indica que nesta primeira noite ter ficado finalmente esclarecido o caso da mo misteriosa que lavou as costas do velho 
da venda preta naquela manh em que correram tantas guas, todas elas lustrais.
     
     No dia seguinte, ainda deitados, a mulher do mdico disse ao marido, Temos pouca comida em casa, vai ser preciso dar uma volta, lembrei-me de ir hoje ao armazm 
subterrneo do supermercado, aquele onde estive no primeiro dia. se at agora ningum deu com ele poderemos abastecer-nos para uma ou duas semanas, Vou contigo, 
e dizemos a um ou dois deles que venham tambm, Prefiro que sejamos s ns,  mais fcil, e no haver  perigo de nos perdermos, At quando conseguir s aguentar a 
carga de seis pessoas que no se podem valer, Aguentarei enquanto puder, mas  verdade que as foras j me esto a faltar, s vezes dou por mim a querer ser cega 
para tornar-me igual aos outros, para no ter mais obrigaes do que eles, Habitumo-nos a depender de ti, se nos faltasses seria o mesmo que se nos tivesse atingido 
uma segunda cegueira, graas aos olhos que tens conseguimos ser um pouco menos cegos, Irei at onde for capaz, no posso prometer mais, Um dia. Quando compreendermos 
que nada de bom e til podemos j fazer pelo mundo, deveramos ter a coragem de sair simplesmente da vida, como ele disse, Ele, quem, O afortunado de ontem, Tenho 
a certeza de que hoje no o diria, no h nada melhor para fazer mudar de opinio do que uma slida esperana, J l a tem, oxal lhe dure, H na tua voz um tom 
que parece de contrariedade, Contrariedade, porqu, Como se tivessem levado algo que te pertencesse, Referes-te ao que aconteceu com a rapariga quando estivemos 
naquele lugar horrvel, Sim, Lembra-te de que foi ela quem veio ter comigo, A memria engana-te, tu  que foste ter com ela, Tens a certeza, No estava cega, Pois 
eu estaria disposto a jurar que, Jurarias falso,  estranho como a memria pode enganar-nos assim, Neste caso  fcil de perceber, mais nos pertence o que veio oferecer-se 
a ns do que aquilo que tivemos de conquistar, Nem ela me procurou depois, nem eu a procurei mais, Querendo, encontram-se na memria, para isso serve, Tens cimes, 
No, no tenho cimes, nem mesmo os tive naquele dia. o que senti foi pena dela e de ti, e tambm de mim porque no vos podia valer, Como estamos de gua, Mal. Depois 
da menos que frugal refeio da manh, amenizada enfim por algumas aluses discretas e sorridentes aos acontecimentos da noite passada, convenientemente vigiadas 
as palavras pelo recato devido  presena de um menor, vo cuidado este, se nos lembrarmos das escandalosas cenas de que foi testemunha presencial na quarentena, 
saram a mulher do mdico e o marido para o trabalho, acompanhados desta vez pelo co das lgrimas, que no quis ficar em casa.
     
     O aspecto das ruas piorava a cada hora que ia passando. O lixo parecia multiplicar- se durante as horas nocturnas, era como se do exterior, de algum pas desconhecido 
onde ainda houvesse uma vida normal, viessem pela calada despejar aqui os contentores, no fosse estarmos em terra de cegos veramos avanar pelo meio desta branca 
escurido as carroas e os camies fantasmas carregados de detritos, sobras, destroos, depsitos qumicos, cinzas, leos queimados, ossos, garrafas, vsceras, pilhas 
cansadas, plsticos, montanhas de papel, s no nos trazem restos de comida, nem sequer umas cascas de frutos com que pudssemos ir enganando a fome,  espera daqueles 
dias melhores que sempre esto para chegar. A manh vai ainda no princpio, mas o calor j se sente. O mau cheiro desprende-se da imensa lixeira como uma nuvem de 
gs txico, No tarda que apaream por a umas quantas epidemias, voltou a dizer o mdico, no escapar  ningum, estamos completamente indefesos, De um lado nos 
chove, do outro nos faz vento, disse a mulher, Nem sequer isso, a chuva ainda serviria para nos matar a sede. E o vento aliviar-nos-ia de uma parte deste fedor. 
O co das lgrimas anda a farejar inquieto, demorou-se a pesquisar um certo monte de lixo, provavelmente havia escondido debaixo dele uma supina iguaria que agora 
no consegue encontrar, se estivesse sozinho no arredaria p, mas a mulher que chorou j l vai adiante,  seu dever ir atrs dela, nunca se sabe se no ter  que 
enxugar outras lgrimas.  difcil caminhar. Em algumas ruas, sobretudo as mais inclinadas, o caudal das guas da chuva, transformadas em torrente, atirou automveis 
contra automveis, ou contra os prdios, arrombando portas, esvaziando montras, o cho est coberto de estilhaos de vidro grosso. Entalado entre dois carros, o 
corpo de um homem apodrece. A mulher do mdico desvia os olhos. O co das lgrimas aproxima-se, mas a morte intimida-o, ainda d dois passos, de sbito o plo encrespou-se-lhe, 
um uivo lacerante saiu-lhe da garganta, o mal deste co foi ter-se chegado tanto aos humanos, vai acabar por sofrer como eles. Atravessaram uma praa onde havia 
grupos de cegos que se entretinham a escutar os discursos doutros cegos,  primeira vista no pareciam cegos nem uns nem outros, os que falavam viravam inflamadamente 
a cara para os que ouviam, os que ouviam viravam atentamente a cara para os que falavam. Proclamavam-se ali os princpios fundamentais dos grandes sistemas organizados, 
a propriedade privada, o livre cambio, o mercado, a bolsa, a taxao fiscal, o juro, a apropriao, a desapropriao, a produo, a distribuio, o consumo, o abastecimento 
e o desabastecimento, a riqueza e a pobreza, a comunicao, a represso e a delinquncia, as lotarias, os edifcios prisionais, o cdigo penal, o cdigo civil, o 
cdigo de estradas, o dicionrio, a lista de telefones, as redes de prostituio, as fbricas de material de guerra, as foras armadas, os cemitrios, a polcia, 
o contrabando, as drogas, os trficos ilcitos permitidos, a investigao farmacutica, o jogo, o preo das curas e dos funerais, a justia, o emprstimo, os partidos 
polticos, as eleies, os parlamentos, os governos, o pensamento convexo, o cncavo, o plano, o vertical, o inclinado, o concentrado, o disperso, o fugido, a ablao 
das cordas vocais, a morte da palavra. Aqui fala-se de organizao, disse a mulher do mdico ao marido, J reparei, respondeu ele, e calou-se. Continuaram a andar, 
a mulher do mdico foi consultar uma planta da cidade que havia numa esquina, como uma antiga cruz de caminhos. Estavam muito perto do supermercado, em algum destes 
stios se deixou ela cair, a chorar, naquele dia em que se viu perdida, grotescamente ajoujada ao peso de sacos de plstico por fortuna cheios, valeu-lhe um co 
para a consolar do desnorte e da angstia, este mesmo que aqui vai rosnando s matilhas que se chegam demasiado, como se estivesse a avis-las, A mim no me enganam 
vocs, afastem-se para l. Uma rua  esquerda, outra  direita, e a porta do supermercado aparece. S a porta, isto , est a porta, est o edifcio todo, mas o 
que no se v so pessoas a entrar e a sair, aquele formigueiro de gente que a todas as horas encontramos nestes estabelecimentos, que vivem do concurso das grandes 
multides. A mulher do mdico temeu o pior, e disse-o ao marido, Viemos demasiado tarde, j no deve haver l dentro nem um quarto de bolacha, Por que dizes isso, 
No vejo entrar nem sair ningum, Pode ser que no tenham ainda descoberto a cave, Essa  a minha esperana. Tinham parado no passeio em frente do supermercado enquanto 
trocavam estas frases. Ao lado deles, como se estivessem  espera de que se acendesse num sem foro a luz verde, havia trs cegos. A mulher do mdico no reparou 
na cara que eles fizeram, de surpresa inquieta, de uma espcie de confuso temor, no viu que a boca de um deles se abriu para falar e logo se fechou, no notou o 
rpido encolher de ombros, Saber s por ti, supe-se que  o que ter  pensado este cego. J no meio da rua, atravessando-a, a mulher do mdico e o marido no puderam 
ouvir a observao do segundo cego, Por que ter  ela dito que no via, que no via entrar e sair ningum, e a resposta do terceiro cego, So maneiras de falar, ainda 
h bocado, quando tropecei, tu me perguntaste se eu no via onde punha os ps,  o mesmo, ainda no perdemos o costume de ver, Meu Deus. quantas vezes isto j foi 
dito, exclamou o primeiro cego.
     
     A claridade do dia iluminava at ao fundo o amplo espao do supermercado. Quase todos os escaparates estavam tombados, no havia mais do que lixo, vidros partidos, 
embalagens vazias, E singular, disse a mulher do mdico, mesmo no se encontrando aqui nada de comida, no percebo por que no h pessoas a viver. O mdico disse, 
De facto, no parece normal. O co das lgrimas ganiu baixinho. Tinha outra vez o plo eriado. Disse a mulher do mdico, H aqui um cheiro, Sempre cheira mal, disse 
o marido, No  isso,  o outro cheiro, o da putrefaco, Algum cadver que estar  por a, No vejo nenhum, Ento ser  impresso tua. O co tornou a gemer. Que tem 
o co, perguntou o mdico, Est nervoso, Que fazemos, Vamos ver, se houver algum cadver passamos de largo, a estas alturas os mortos j no nos metem medo, Para 
mim  mais fcil, no os vejo. Atravessaram o supermercado at  porta que dava acesso ao corredor por onde se chegaria ao armazm da cave. O co das lgrimas seguiu-os, 
mas de vez em quando parava, gania a cham-los, depois o dever obrigava-o a continuar. Quando a mulher do mdico abriu a porta, o cheiro tornou-se mais intenso, 
Cheira mesmo mal, disse o marido, Deixa-te ficar aqui, que eu j volto. Avanou pelo corredor, cada vez mais escuro, e o co das lgrimas seguiu-a como se o levassem 
de rastos. Saturado do fedor da putrefaco, o ar parecia pastoso. A meio caminho, a mulher do mdico vomitou, Que se ter  passado aqui, pensava entre dois arrancos, 
e murmurou depois, uma e outra vez, estas palavras enquanto se ia aproximando da porta metlica que dava para a cave. Confundida pela nusea, no notara antes que 
havia ao fundo uma claridade difusa, muito leve. Agora sabia o que era aquilo. Pequenas chamas palpitavam nos interstcios das duas portas, a da escada e a do monta-cargas. 
Um novo vmito retorceu-lhe o estmago, to violento que a atirou ao cho. O co das lgrimas uivou longamente, lanou um grito que parecia no acabar mais, um lamento 
que ressoou no corredor como a ltima voz dos mortos que se encontravam na cave. O mdico ouviu os vmitos, os arrancos, a tosse, correu conforme pde, tropeou 
e caiu, levantou-se e caiu, enfim apertou a mulher nos braos, Que aconteceu, perguntou, trmulo, ela s dizia, Leva-me daqui, leva-me daqui por favor, pela primeira 
vez desde que a cegueira chegara era ele quem guiava a mulher, guiava-a sem saber para onde, para qualquer parte longe destas portas, das chamas que no podia ver. 
Quando saram do corredor, os nervos dela foram-se abaixo de golpe, o choro tornou-se convulso, no h nenhuma maneira de enxugar lgrimas como estas, s o tempo 
e o cansao as podero reduzir, por isso o co no se acercou, apenas buscava uma mo para lamber. Que aconteceu, tornou o mdico a perguntar, que foi que viste, 
Esto mortos, conseguiu ela dizer entre soluos, Quem  que est morto, Eles, e no pde continuar, Acalma-te, falar s quando puderes. Passados alguns minutos, ela 
disse, Esto mortos, Viste alguma coisa, abriste a porta, perguntou o marido, No, s vi que havia fogos-ftuos agarrados s frinchas, estavam ali agarrados e danavam, 
no se soltavam, Hidrognio fosforado resultante da decomposio, Imagino que sim, Que ter  sucedido, Devem ter dado com a cave, precipitaram-se pela escada abaixo 
 procura de comida, lembro-me de como era fcil escorregar e cair naqueles degraus, e se caiu um caram todos, provavelmente nem conseguiram chegar aonde queriam, 
ou conseguiram-no e com a escada obstruda no puderam voltar, Mas tu disseste que a porta estava fechada, Fecharam-na com certeza os outros cegos, transformaram 
a cave num enorme sepulcro, e eu sou a culpada do que aconteceu, quando sa daqui a correr com os sacos suspeitaram de que se tratasse de comida e foram  procura, 
De uma certa maneira, tudo quanto comemos  roubado  boca de outros, e se lhes roubamos de mais acabamos por causar-lhes a morte, no fundo somos todos mais ou menos 
assassinos, Fraca consolao, O que no quero  que comeces a carregar-te a ti mesma de culpas imaginrias quando. j mal vais conseguindo suportar a responsabilidade 
de sustentar seis bocas concretas e inteis, Sem a tua boca intil, como viveria eu, Continuarias a viver para sustentares as outras cinco que l esto, A pergunta 
 por quanto tempo. No ser  muito mais, quando se acabar tudo teremos de ir por esses campos  procura de comida, arrancaremos todos os frutos das rvores, mataremos 
todos os animais a que pudermos deitar a mo, se entretanto no comearem a devorar-nos aqui os ces e os gatos. O co das lgrimas no se manifestou, o assunto 
no lhe dizia respeito, de alguma coisa lhe servia ter-se transformado nos ltimos tempos em co de lgrimas.
     
     A mulher do mdico mal podia arrastar os ps. O abalo tinha-a deixado sem foras. Quando saram do supermercado, ela, desfalecida, ele, cego, ningum saberia 
dizer qual dos dois ia a amparar o outro. Talvez por causa da intensidade da luz deu-lhe uma vertigem, pensou que ia perder a vista, mas no se assustou, era s 
um desmaio. No chegou a cair, nem a perder completamente os sentidos. Precisava deitar-se, fechar os olhos, respirar pausadamente, se pudesse estar uns minutos 
tranquila, quieta, tinha a certeza de que as foras voltariam, e era necessrio que voltassem, os sacos de plstico continuavam vazios. No queria deitar-se sobre 
a imundcie do passeio, voltar ao supermercado nem morta. Olhou em redor. No outro lado da rua, um pouco adiante, estava uma igreja. Haveria gente l dentro, como 
em toda a parte, mas devia ser um bom stio para descansar, pelo menos antigamente tinha sido assim. Disse ao marido, Preciso recuperar foras, leva-me para alm, 
Alm, onde, Desculpa, vai-me amparando, eu digo-te, Que , Uma igreja, se me pudesse deitar um pouco ficaria como nova, Vamos l. Entrava-se no templo por seis degraus, 
seis degraus, nota bem, que a mulher do mdico venceu com grande custo, tanto mais que tambm tinha de guiar o marido. As portas estavam abertas de par em par, foi 
o que lhes valeu, um guarda-vento, mesmo que fosse dos mais singelos, teria sido, nesta ocasio, um obstculo difcil de transpor. O co das lgrimas parou indeciso 
no limiar.  que, apesar da liberdade de movimentos de que tm gozado os ces nos ltimos meses. mantinha- se geneticamente incorporado no crebro de todos eles 
a proibio que um dia. em remotos tempos, caiu sobre a espcie. A proibio de entrarem nas igrejas, provavelmente a culpa teve-a aquele outro cdigo gentico que 
lhes ordena marcar o terreno aonde quer que cheguem. No serviram de nada os bons e leais servios prestados pelos antepassados deste co das lgrimas, quando lambiam 
asquerosas chagas de santos antes que como tal eles tivessem sido aprovados e declarados, misericrdia, portanto, das mais desinteressadas, porque bem sabemos que 
no  qualquer mendigo que consegue ascender  santidade, por muitas chagas que possa ter no corpo, e tambm na alma, aonde a lngua dos ces no chega. Atreveu-se 
agora este a penetrar no sagrado recinto, a porta estava aberta, porteiro no havia, e, razo sobre todas forte, a mulher das lgrimas j entrou, nem sei como poder 
ela arrastar-se, vai murmurando ao marido uma s palavra, Segura-me, a igreja est cheia, quase que no se encontra um palmo de cho livre, em verdade se poderia 
dizer que no h aqui uma pedra onde descansar a cabea, valeu uma vez mais o co das lgrimas, com dois rosnidos e duas investidas, tudo sem maldade, abriu um es 
pao onde se foi deixar cair a mulher do mdico, rendendo o corpo ao desmaio, fechados enfim por completo os olhos. O marido tomou-lhe o pulso, est firme e regular, 
s um pouco longnquo, depois fez um esforo para levant-la, no  boa esta posio,  preciso fazer voltar rapidamente o sangue ao crebro, aumentar a irrigao 
cerebral, o melhor de tudo seria sent-la, pr-lhe a cabea entre os joelhos, e confiar na natureza e na fora da gravidade. Por fim, depois de alguns esforos falhados, 
conseguiu levant-la. Passados minutos, a mulher do mdico suspirou profundamente, moveu-se um quase nada, comeava a voltar a si. No te levantes ainda, disse-lhe 
o marido, deixa-te estar mais um pouco de cabea baixa, mas ela sentia-se bem, no havia sinal de vertigem, os olhos j podiam entrever as lajes do cho, que o co 
das lgrimas, graas s trs enrgicas raspaduras que dera para deitar-se ele prprio, deixara aceitavelmente limpas.
     
     Levantou a cabea para as colunas esguias, para as altas abbadas, a comprovar a segurana e a estabilidade da circulao sangunea, depois disse, J me sinto 
bem, mas naquele mesmo instante pensou que tinha enlouquecido, ou que desaparecida a vertigem ficara a sofrer de alucinaes, no podia ser verdade o que os olhos 
lhe mostravam, aquele homem pregado na cruz com uma venda branca a tapar-lhe os olhos, e ao lado uma mulher com o corao trespassado por sete espadas e os olhos 
tambm tapados por uma venda branca, e no eram s este homem e esta mulher que assim estavam, todas as imagens da igreja tinham os olhos vendados, as esculturas 
com um pano branco atado ao redor da cabea, as pinturas com uma grossa pincelada de tinta branca, e estava alm uma mulher a ensinar a filha a ler, e as duas tinham 
os olhos tapados, e um homem com um livro aberto onde se sentava um menino pequeno, e os dois tinham os olhos tapados, e um velho de barbas compridas, com trs chaves 
na mo, e tinha os olhos tapados, e outro homem com o corpo cravejado de flechas, e tinha os olhos tapados, e uma mulher com uma lanterna acesa, e tinha os olhos 
tapados, e um homem com feridas nas mos e nos ps e no peito, e tinha os olhos tapados, e outro homem com um leo, e os dois tinham os olhos tapados, e outro homem 
com um cordeiro, e os dois tinham os olhos tapados, e outro homem com uma  guia, e os dois tinham os olhos tapados, e outro homem com uma lana dominando um homem 
cado, chavelhudo e com ps de bode, e os dois tinham os olhos tapados, e outro homem com uma balana, e tinha os olhos tapados, e um velho calvo segurando um fio 
branco, e tinha os olhos tapados, e outro velho apoiado a uma espada desembainhada, e tinha os olhos tapados, e uma mulher com uma pomba, e as duas tinham os olhos 
tapados, e um homem com dois corvos, e os trs tinham os olhos tapados, s havia uma mulher que no tinha os olhos tapados porque j os levava arrancados numa bandeja 
de prata. A mulher do mdico disse para o marido, No me acreditar s se eu te disser o que tenho diante de mim, todas as imagens da igreja esto l com os olhos 
vendados, Que estranho, por que ser, Como hei-de eu saber, pode ter sido obra de algum desesperado da f quando compreendeu que teria de cegar como os outros, pode 
ter sido o prprio sacerdote daqui, talvez tenha pensado justa mente que uma vez que os cegos no poderiam ver as imagens, tambm as imagens deveriam deixar de ver 
os cegos, As imagens no vem, Engano teu, as imagens vem com os olhos que as vem, s agora a cegueira  para todos, Tu continuas a ver, Cada vez irei vendo menos, 
mesmo que no perca a vista tornar-me-ei mais e mais cega cada dia porque no terei quem me veja, Se foi o padre quem tapou os olhos das imagens,  s uma ideia 
minha, E a nica hiptese que tem um verdadeiro sentido,  a nica que pode dar alguma grandeza a esta nossa misria, imagino esse homem a entrar aqui vindo do mundo 
dos cegos, aonde depois teria de regressar para cegar tambm, imagino as portas fechadas, a igreja deserta, o silncio, imagino as esttuas, as pinturas, vejo-o 
ir de uma para outra, a subir aos altares e a atar os panos, com dois ns, para que no deslacem e caiam, a as sentar duas mos de tinta nas pinturas para tornar 
mais espessa a noite branca em que entraram, esse padre deve ter sido o maior sacrlego de todos os tempos e de todas as religies, o mais justo, o mais radicalmente 
humano, o que veio aqui para declarar finalmente que Deus no merece ver.
     A mulher do mdico no chegou a responder, algum ao lado falou antes dela, Que conversa  essa, quem so vocs, Cegos como tu, disse ela, Mas eu ouvi-te dizer 
que vias, So maneiras de falar que custam a perder, quantas vezes ainda vai ser preciso diz-lo, E que  isso de estarem as imagens com os olhos tapados,  verdade, 
E tu como o sabes, se ests cega, Tambm tu o ficar s a saber se fizeres como eu fiz, vai l e toca-lhes com as mos, as mos so os olhos dos cegos, E por que foi 
que o fizeste, Pensei que para termos chegado ao que chegmos algum mais teria de estar cego, E essa histria de ter sido o padre da igreja quem tapou os olhos 
das imagens, conheci-o muito bem, seria incapaz de fazer tal coisa, Nunca se pode saber de antemo de que so capazes as pessoas,  preciso esperar, dar tempo ao 
tempo, o tempo  que manda, o tempo  o parceiro que est a jogar do outro lado da mesa, e tem na mo todas as cartas do baralho, a ns compete-nos inventar os encartes 
com a vida, a nossa, Falar de jogo numa igreja  pecado, Levanta-te, usa as tuas mos, se duvidas do que digo, Juras-me que  verdade que as imagens tm os olhos 
tapados, Que jura  suficiente para ti, Jura pelos teus olhos, Juro duas vezes pelos olhos, pelos meus e pelos teu,  verdade,  verdade. A conversa estava a ser 
ouvida pelos cegos que se encontravam mais perto, e escusado seria dizer que no foi preciso esperar pela confirmao do juramento para que a notcia comeasse a 
girar, a passar de boca em boca, num murmrio que aos poucos foi mudando de tom, primeiro incrdulo, depois inquieto, outra vez incrdulo, o mau foi haver no ajuntamento 
umas quantas pessoas supersticiosas e imaginativas, a ideia de que as sagradas imagens estavam cegas, de que os seus misericordiosos ou sofredores olhares no contemplavam 
mais que a sua prpria cegueira, tornou-se subitamente insuportvel, foi o mesmo que terem vindo dizer-lhes que estavam rodeados de mortos-vivos, bastou ter-se ouvido 
um grito, e depois outro, e outro, logo o medo fez levantar toda a gente, o pnico empurrou-os para a porta, repetiu-se aqui o que j se sabe, como o pnico  muito 
mais rpido que as pernas que o tm de levar, os ps do fugitivo acabam por enrolar-se na corrida, muito mais se  cego, e ei-lo de repente no cho, o pnico diz-lhe 
Levanta-te, corre, que te vm matar, bem o quisera ele, mas j outros correram e caram tambm,  preciso ser-se dotado de muito bom corao para no desatar a rir 
diante deste grotesco emaranhado de corpos  procura de braos para libertar-se e de ps para escapar. Aqueles seis degraus l fora vo ser como um precipcio, mas, 
enfim, a queda no ser  grande, o costume de cair endurece o corpo, ter chegado ao cho, s por si, j  um alvio, Daqui no passarei,  o primeiro pensamento, 
e s vezes o ltimo nos casos fatais. O que tambm no muda  aproveitarem-se uns do mal dos outros, como muito bem o sabem, desde o principio do mundo, os herdeiros 
e os herdeiros dos herdeiros. A fuga desesperada desta gente f-la deixar para trs os seus pertences, e quando a necessidade tiver vencido o medo e por eles voltarem. 
alm do difcil problema que vai ser aclarar de modo satisfatrio o que era meu e o que era teu, veremos que se sumiu parte da pouca comida que tnhamos, se calhar 
tudo isto foi uma cnica artimanha da mulher que disse que as imagens tinham os olhos tapados, a maldade de certas pessoas no tem limites, inventarem tais patranhas 
s para poderem roubar  pobre gente uns restos de comidas indecifrveis. Ora, a culpa teve-a o co das lgrimas, ao ver livre a praa foi farejar por ali, pagou-se 
do seu trabalho, como era justo e natural, mas mostrou, por assim dizer, a entrada da mina, do que resultou terem sado da igreja a mulher do mdico e o marido sem 
remorsos do furto, levando os sacos meio cheios. Se vierem a aproveitar metade do que apanharam podero dar-se por satisfeitos, diante da outra metade diro, No 
sei como as pessoas podiam comer isto, mesmo quando a desgraa  comum a todos, sempre h uns que passam pior do que outros.
     
     O relato destes acontecimentos, cada um no seu gnero, deixou consternados e assombrados os companheiros, sendo de notar, contudo, que a mulher do mdico, talvez 
por se lhe recusarem as palavras, no logrou comunicar-lhes o sentimento de horror absoluto que experimentara diante da porta do subterrneo, aquele rectngulo de 
plidos e vacilantes lumes que dava para a escada por onde se chegaria ao outro mundo. J as imagens de olhos vendados impressionaram fortemente, ainda que de diverso 
modo, a imaginao de todos, no primeiro cego e na mulher, por exemplo, notou-se um certo mal-estar, para eles tratava-se, principalmente, de uma indesculpvel falta 
de respeito. Que todos eles, os humanos, se encontrassem cegos, era uma fatalidade de que no tinham a culpa, so desgraas de que ningum est livre, mas ir, s 
por isso, tapar os olhos s santas imagens, parecia-lhes um atentado sem perdo possvel, e se o cometeu o padre da igreja, pior ainda. O comentrio do velho da 
venda preta foi assaz diferente, Percebo o choque que te ter causado, estou aqui a pensar numa galeria de museu, as esculturas todas com os olhos tapados, no porque 
o escultor no tivesse que rido desbastar a pedra at chegar aonde estavam os olhos, mas tapados assim como dizes, com esses panos atados, como se uma cegueira s 
no bastasse,  curioso que uma venda como a minha no causa a mesma impresso, s vezes chega mesmo a dar um ar romntico  pessoa, e riu-se do que tinha dito e 
de si prprio. Quanto  rapariga dos culos escuros, essa contentou-se com dizer que esperava no ter de ver em sonhos essa maldita galeria, de pesadelos j estava 
servida. Comeram do mau que havia, era o melhor que tinham, a mulher do mdico disse que estava a tornar-se cada vez mais difcil encontrar comida, que talvez devessem 
sair da cidade e ir viver no campo, ali, pelo menos, os alimentos que apanhassem seriam mais sos, e deve haver cabras e vacas  solta, podemos ordenh-las, teremos 
leite, e h a gua dos poos, podemos cozer o que quisermos, a questo est em encontrar um bom stio, cada um deu depois a sua opinio, umas mais entusiastas do 
que outras, mas para todos era claro que a oportunidade apertava e obrigava, quem exprimiu um contentamento sem reticncias foi o rapazinho estrbico, possivelmente 
por serem boas as suas recordaes de frias. Depois de terem comido deitaram-se a dormir, faziam-no sempre, j no tempo da quarentena, quando a experincia lhes 
ensinou que corpo deitado aguenta realmente muita fome.  noite no comeram, s o rapazinho estrbico recebeu algo para entretenimento dos queixos e engano do apetite, 
os outros sentaram-se a ouvir ler o livro, ao menos o esprito no poder protestar contra a falta de nutrimento, o mau  que a debilidade do corpo levava algumas 
vezes a distrair-se a ateno da mente, e no era por falta de interesse intelectual, no, o que acontecia era deslizar o crebro para uma meia modorra, como um 
animal que se disps a hibernar, adeus mundo, por isso no era raro cerrarem estes ouvintes mansamente as plpebras, punham-se a seguir com os olhos da alma as peripcias 
do enredo, at que um lance mais enrgico os sacudia do torpor, quando no era simplesmente o rudo do livro encadernado ao fechar-se de estalo, a mulher do mdico 
tinha destas delicadezas, no queria dar a entender que sabia que o devaneador estava a dormir.
     
     Neste suave embalo parecia ter entrado o primeiro cego, e contudo no era assim.  verdade que tinha os olhos fechados e que dava  leitura uma ateno mais 
do que vaga, mas a ideia de irem todos viver para o campo impedia-o de adormecer, parecia-lhe um grave erro afastar-se tanto da sua casa, por muito simptico que 
fosse o tal escritor convinha mant-lo sob vigilncia, aparecer por l de vez em quando. Encontrava-se portanto bem desperto o primeiro cego, e se alguma outra prova 
fosse necessria, a estaria a brancura ofuscante dos seus olhos, que provavelmente s o sono escurecia, mas nem disto se podia ter a certeza, uma vez que ningum 
podia estar ao mesmo tempo dormindo e velando. Julgou o primeiro cego ter finalmente esclarecido esta dvida quando de repente o interior das plpebras se lhe tornou 
escuro, Adormeci, pensou, mas no, no tinha adormecido, continuava a ouvir a voz da mulher do mdico, o rapazinho estrbico tossiu, ento entrou-lhe na alma um 
grande medo, acreditou que tinha passado de uma cegueira a outra, que tendo vivido na cegueira da luz iria viver agora na cegueira da treva, o pavor f-lo gemer, 
Que tens, perguntou-lhe a mulher, e ele respondeu estupidamente, sem abrir os olhos, Estou cego, como se essa fosse a ltima novidade do mundo, ela abraou-o com 
carinho, Deixa l, cegos estamos ns todos, que lhe havemos de fazer, Vi tudo escuro, julguei que tinha adormecido, e afinal no, estou acordado,  o que deverias 
fazer, dormir, no pensar nisso. O conselho aborreceu-o, ali estava um homem angustiado como s ele sabia, e a sua mulher no tinha mais nada para lhe dizer seno 
que fosse dormir. Irritado, j com a resposta azeda a sair-lhe da boca, abriu os olhos e viu. Viu e gritou, Vejo. O primeiro grito ainda foi o da incredulidade, 
mas com o segundo, e o terceiro, e quantos mais, foi crescendo a evidncia, Vejo, vejo, abraou-se  mulher como louco, depois correu para a mulher do mdico e abraou-a 
tambm, era a primeira vez que a via, mas sabia quem ela era, e o mdico, e a rapariga dos culos escuros, e o velho da venda preta, com este no poderia haver confuso, 
e o rapazinho estrbico, a mulher ia atrs dele, no o queria largar, e ele interrompia os abraos para abra-la a ela, agora voltara ao mdico, Vejo, vejo, senhor 
doutor, no o tratou por tu como se tinha tornado quase regra nesta comunidade, explique, quem puder, a razo da sbita diferena, e o mdico perguntava, V mesmo 
bem, como via antes, no h vestgio de branco, Nada de nada, at me parece que vejo ainda melhor do que via, e olhe que no  dizer pouco, nunca usei culos. Ento 
o mdico disse o que todos estavam a pensar, mas que no ousavam pronunciar em voz alta,  possvel que esta cegueira tenha chegado ao fim,  possvel que comecemos 
todos a recuperar a vista, a estas palavras a mulher do mdico comeou a chorar, deveria estar contente e chorava, que singulares reaces tm as pessoas, claro 
que estava contente, meu Deus, se  to fcil de compreender, chorava porque se lhe tinha esgotado de golpe toda a resistncia mental, era como uma criancinha que 
tivesse acabado de nascer e este choro fosse o seu primeiro e ainda inconsciente vagido. O co das lgrimas veio para ela, este sabe sempre quando o necessitam, 
por isso a mulher do mdico se agarrou a ele, no  que no continuasse a amar o seu marido, no  que no quisesse bem a todos quantos se encontravam ali, mas naquele 
momento foi to intensa a sua impresso de solido, to insuportvel, que lhe pareceu que s poderia ser mitigada na estranha sede com que o co lhe bebia as lgrimas.
     
     A alegria geral fora substituda pelo nervosismo, E agora, que vamos fazer, perguntara a rapariga dos culos escuros, eu no conseguirei dormir depois do que 
sucedeu, Ningum conseguir, acho que deveramos continuar aqui, disse o velho da venda preta, interrompeu-se como se ainda duvidasse, depois rematou,  espera. Esperaram. 
As trs luzes da candeia iluminavam o crculo de rostos. Ao princpio ainda tinham conversado com animao, queriam saber exactamente como acontecera. se a mudana 
se dera s nos olhos ou se tambm sentira alguma coisa no crebro. depois pouco a pouco, as palavras foram esmorecendo. em certa altura o primeiro cego teve a lembrana 
de dizer  mulher que no dia seguinte iriam a casa, Mas eu ainda estou cega. respondeu ela. No faz mal. eu guio-te. s quem ali se encontrava, e portanto ouviu 
com os seus prprios ouvidos, foi capaz de perceber como em to simples palavras puderam caber sentimentos to distintos como so os da proteco, do orgulho e da 
autoridade. O segundo a recuperar a vista, ia adiantada a noite, e j a candeia, no fim do azeite, bruxuleava, foi a rapariga dos culos escuros. Tinha estado com 
os olhos abertos sempre, como se por eles  que a viso tivesse de entrar, e no renascer de dentro, de repente disse, Parece-me que estou a ver, era melhor ser 
prudente, nem todos os casos so iguais, costuma-se at dizer que no h cegueiras, mas cegos, quando a experincia dos tempos no tem feito outra coisas que dizer-nos 
que no h cegos, mas cegueiras. Aqui j so trs os que vem, um mais far maioria, mas ainda que a felicidade de voltar a ver no viesse a contemplar os restantes, 
a vida para estes passaria a ser muito mais fcil, no a agonia que foi at hoje, veja-se o estado a que aquela mulher chegou, est como uma corda que se partiu, 
como uma mola que no aguentou mais o esforo a que esteve continuamente sujeita. Talvez por isso foi a ela que a rapariga dos culos escuros abraou em primeiro 
lugar, ento no soube o co das lgrimas a qual delas acudir, porque tanto chorava uma como a outra. O segundo abrao foi para o velho da venda preta, agora iremos 
saber o que verdadeiramente valem palavras, comoveu-nos tanto no outro dia aquele dilogo de que saiu o formoso compromisso de viverem juntos estes dois, mas a situao 
mudou, a rapariga dos culos escuros tem diante de si um homem velho que ela j pode ver, acabaram-se as idealizaes emocionais, as falsas harmonias na ilha deserta, 
rugas so rugas, calvas so calvas, no h diferena entre uma pala preta e um olho cego,  o que ele lhe est a dizer por outros termos. Olha-me bem, sou eu a pessoa 
com quem disseste que irias viver, e ela respondeu, Conheo-te, s a pessoa com quem estou a viver, afinal h palavras que ainda valem mais do que tinham querido 
parecer, e este abrao tanto como elas. O terceiro a recuperar a vista, quando a manh comeava a clarear, foi o mdico, agora j no podia haver dvidas, recuperarem-na 
os outros era s uma questo de tempo. Passadas as naturais e previsveis expanses, que, por delas ter ficado, com anterioridade, registo suficiente, no se v 
agora necessidade de repetir, mesmo tratando-se de figuras principais deste vero relato, o mdico fez a pergunta que tardava, Que se estar  a passar l fora, a resposta 
veio do prprio prdio onde estavam, no andar de baixo algum saiu para o patamar aos gritos, Vejo, vejo, por este andar o sol vai nascer sobre uma cidade em festa.
     
     De festa foi o banquete da manh. O que estava sobre a mesa, alm de ser pouco, repugnaria a qualquer apetite normal, a fora dos sentimentos, como em momentos 
de exaltao sucede sempre, tinha ocupado o lugar da fome, mas a alegria servia-lhes de manjar, ningum se queixou, mesmo os que ainda estavam cegos riam como se 
os olhos que j  viam fossem os seus. Quando acabaram, a rapariga dos culos escuros teve uma ideia, E se eu fosse pr na porta da minha casa um papel a dizer que 
estou aqui, se os meus pais aparecerem podero vir procurar-me, Leva-me contigo, quero saber o que esta acontecer l  fora, disse o velho da venda preta, E ns tambm 
samos, disse para a mulher o que tinha sido primeiro cego, pode ser que o escritor j  veja, que esteja a pensar em voltar para a casa dele, de caminho tratarei 
de descobrir algo que se coma, Eu farei o mesmo, disse a rapariga dos culos escuros. Minutos depois, j  sozinhos, o mdico foi sentar-se ao lado da mulher, o rapazinho 
estrbico dormitava num canto do sof, o co das lgrimas, deitado, com o focinho sobre as patas dianteiras, abria e fechava os olhos de vez em quando para mostrar 
que continuava vigilante, pela janela aberta, apesar da altura a que estava o andar, entrava o rumor das vozes alteradas, as ruas deviam estar cheias de gente, a 
multido a gritar uma s palavra. Vejo, diziam-na os que j tinham recuperado a vista, diziam-na os que de repente a recuperavam, Vejo, vejo, em verdade comea a 
parecer uma histria doutro mundo aquela em que se disse, Estou cego. O rapazinho estrbico murmurava, devia de estar metido num sonho, talvez estivesse a ver a 
me, a perguntar-lhe, Vs-me, j me vs. A mulher do mdico perguntou, E eles, e o mdico disse, Este, provavelmente, estar  curado quando acordar, com os outros 
no ser diferente, o mais certo  que estejam agora mesmo a recuperar a vista, quem vai apanhar um susto, coitado,  o nosso homem da venda preta, Porqu, Por causa 
da catarata, depois de todo o tempo que passou desde que o examinei, deve estar como uma nuvem opaca, Vai ficar cego, No, logo que a vida estiver normalizada, que 
tudo comece a funcionar, opero-o, ser  uma questo de semanas, Por que foi que cegmos, No sei, talvez um dia se chegue a conhecer a razo, Queres que te diga o 
que penso, Diz, Penso que no cegmos, penso que estamos cegos, Cegos que vem, Cegos que, vendo, no vem.
     
     A mulher do mdico levantou-se e foi  janela. Olhou para baixo, para a rua coberta de lixo, para as pessoas que gritavam e cantavam. Depois levantou a cabea 
para o cu e viu-o todo branco, Chegou a minha vez, pensou. O medo sbito f-la baixar os olhos. A cidade ainda ali estava.

